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Irmãos

por Teresa Power, em 30.04.14

Outro dia encontrei o David a chorar, num canto do quarto. Quis saber porquê.

- O Frankie não me ensina nenhum truque de magia! Nem um! Ele sabe tantos e quer todos para ele!

E o David chorava sem parar. Indiferente, o Francisco continuava a praticar a sua magia, com um baralho de cartas na mão.

- Não achas que podias ensinar um truque ao teu irmão? - Perguntei.

- Ele ainda é muito novo e as suas mãos são demasiado pequenas para manipular cartas - Foi a resposta.

Procurei distrair o David e convenci-o a ir jogar à bola lá para fora. À noite, conversei com o Niall. E finalmente, o Niall conversou com o Francisco. A sua conversa foi bastante curta:

- Sabes, Frankie, ainda hoje tenho raiva do meu irmão mais velho, o Donal - Disse o Niall.

- E porquê? - Quis saber o Francisco.

- Porque ele tocava guitarra maravilhosamente bem, e nunca, nunca teve tempo para me ensinar. Ainda me custa perdoar-lhe esta maldade da nossa infância! Eu pedi-lhe tantas vezes que me ensinasse, e ele nem parecia ouvir...

 

No dia seguinte, quando chegaram da escola, o Francisco e o David ficaram fechados no quarto. Meia hora mais tarde, o David apareceu radiante:

- Mamã, queres que te faça um truque de magia?

- Quero - Como devem calcular, eu assisto a espectáculos de magia diariamente, a gosto e a contragosto... - Quem te ensinou?

- Foi o Frankie. Olha só o que eu consigo fazer!

 

Quando ontem regressámos da escola, apanhei os dois assim:


 

E meia hora depois, encontrei o Francisco no pátio a ensinar o António a andar de bicicleta:

 

 

 

 

Ter irmãos é uma forma fantástica de combater o nosso egoísmo natural, obrigando-nos a deixar de pensar em nós várias vezes durante o dia. Os irmãos podem ser "chatos", mas fazem de nós pessoas mais generosas!

 

Há ainda outra coisa nesta história toda: fica confirmado que a melhor maneira de ensinar alguma coisa a alguém é através do testemunho! Mil palavras em forma de conselho que eu tivesse dito ao Francisco não teriam valido um décimo do testemunho de vida do Niall.

Se o cristianismo chegou até nós, não foi por causa de todas as coisas bonitas que se escreveram sobre Jesus ao longo da História, mas pelo testemunho de vida dos santos e pelo sangue derramado dos mártires. Na educação, como no cristianismo, vale o que S. João escreveu no Prólogo da sua primeira carta:

 

 "O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida - de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós - o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" (1Jo 1-3)

 

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publicado às 08:53

Retiro para famílias a 24 de maio

por Teresa Power, em 29.04.14

No sábado, 24 de maio, faremos novo retiro para famílias, "estilo" Famílias de Caná, idêntico aos três anteriores. Portanto, novo retiro para famílias que ainda não tiveram oportunidade de vir e experimentar esta forma de rezar, viver, brincar e ser feliz em família, entre famílias. Se consultarem o menu "Famílias de Caná" descobrirão do que estamos a falar e poderão ler os comentários de várias famílias que já fizeram o retiro. Para nós, seria fantástico poder conhecer os leitores deste blogue, com quem vamos trocando comentários e mails de vez em quando!

Fizémos o primeiro retiro a 14 de setembro de 2013, e desde então, este movimento simples e belo ainda não parou de crescer. As "cinco pedrinhas" das Famílias de Caná têm mudado a vida de muitas famílias e vão certamente continuar a fazer maravilhas entre nós!

Tragam a família, desafiem famílias amigas e venham estar connosco! Venham, mesmo se ainda não estão casados ou se ainda não têm filhos; venham com os filhos, sejam eles um ou dez; venham com recém-nascidos, pois estamos no espaço de um infantário com creche, com as melhores condições do mundo; venham se forem uma família tradicional e venham se forem uma família reconstruída; venham! Teremos momentos de silêncio e reflexão, momentos de convívio e descontracção, teremos a magia do Francisco, guitarras e música, teremos oração, louvor, eucaristia... Haverá momentos para estar só, para estar em casal, para estar em família; momentos para Deus e momentos uns para os outros. Venham, que não se vão arrepender!

 

Para quem já fez a experiência, e já vive como Família de Caná, fica a promessa de um re-encontro para breve. Já ouvi dizer que há por aí quem queira preparar uns workshops sobre a Bíblia, tão a propósito do nosso compromisso de Famílias de Caná...

E para quem vive no interior centro, dou já a novidade: em junho teremos um retiro "igual" a este no seminário de Proença-a-Nova! Vão marcando na agenda!

 

O retiro é gratuito, bastando que cada família traga um farnel para partilhar com todos. Ficaremos à vossa espera!

 

 

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Em verdes prados me faz descansar

por Teresa Power, em 28.04.14

"O Senhor é meu pastor: nada me falta.

Em verdes prados me faz descansar

e conduz-me às águas refrescantes..." (Sl 23/22)

 

O Domingo existe para que possamos realmente experimentar o amor do Senhor como água refrescante, como prado verdejante, como brisa suave, como repouso, alimento e conforto!

E para isso, precisamos de tempo. Tempo de eucaristia, tempo de oração, tempo de alegria, tempo de família! Deus quer que encontremos verdadeiro prazer na sua companhia, e na companhia uns dos outros, especialmente, os pais e os filhos. Passamos a semana a correr... Precisamos de respirar fundo e descansar no amor da família cristã e no amor da nossa família particular, um dia por semana. Um dia longe do mundo, e perto de Deus!

 

Ao domingo, gostamos de fazer piqueniques no jardim...

... e piqueniques no parque!

 

Às vezes fazemos obras de arte...

 

...outras, fazemos explorações!


 

Uns andam de bicicleta sozinhos...

 

... outros, acompanhados!

 

E ainda há quem pense que já é crescido e pode fazer tudo o que os manos fazem...

 

("O Francisco ensinou-me a fazer parkour. Enquanto ele salta os muros do parque, eu vou subindo esta montanha!")

 

Quando estamos juntos, sem pressa, fazemos descobertas inesperadas, como esta toca de um pequeno animal:

 

E quando aprendemos a contemplar a obra do Senhor, em família, somos recompensados com pequenos presentes. Olhem só quem se atravessou à nossa frente num passeio pelo parque:

 

E lá vai ele aos saltos!

 

Precisamos de alguma disciplina para encontrar tempo de família. É preciso roubar este tempo a muita coisa! Precisamos de o roubar ao mundo e a tudo o que é mundano, ao trabalho, à lida da casa e à televisão. Mas sem este tempo, nunca iremos experimentar o verdadeiro prazer de estarmos juntos. E a verdade é que Deus gosta de Se revelar em família. Começou por o fazer com a família de Abraão, um dia revelou-Se na família de José e Maria, e hoje quer revelar-Se na nossa!

 

Os judeus têm um ditado que diz:

"Não é Israel que guarda o Sábado, mas o Sábado que guarda Israel".

Eu gosto de dizer:

"Não é a minha família que guarda o Domingo, mas o Domingo que guarda a minha família"...

 

 

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publicado às 08:44

Céu aberto

por Teresa Power, em 27.04.14

É mesmo isso: hoje o Céu está aberto sobre a Terra, e a graça de Deus chove a cântaros sobre nós! Na verdade, como se não bastasse estarmos ainda na Páscoa, que é, por excelência, o tempo da salvação, celebramos hoje o Domingo da Divina Misericórdia, esta belíssima festa do amor salvador de Jesus, que João Paulo II incluiu no calendário litúrgico para que se estendesse a todas as nações; e como se ainda não bastasse isso, temos hoje também a canonização de dois grandes papas, João XXIII e João Paulo II. Ena, que domingo tão grande e tão belo!

 

Fizémos a novena da Divina Misericórdia em família, rezando todos os dias o terço da Misericórdia, tal como Jesus pediu à irmã Faustina e como expliquei aqui. O António e a Lúcia perceberam do que se tratava. Ontem escutei esta conversa entre os dois, diante do Canto de Oração:

- Aqueles panos são o vermelho e o branco - dizia o António.

- Não são nada! São o sangue e a água - explicava a Lúcia.

- Ah, pois é, já me esquecia! O sangue de Jesus, e o vaso é o seu Coração!

- E olha que temos de rezar para essa água nos lavar!

- Sim, logo à noite rezamos.

- Podemos rezar agora! Anda, António, põe-te de joelhos que eu ajudo-te. Diz assim: "Jesus, eu amo-Te!"

 

 João XXIII, que era um papa brincalhão, costumava dizer:

"Toda a gente pode ser papa. A prova é que eu o sou!"

Lá do céu, onde a festa é certamente bem maior que na Terra, ele sorri-nos com o seu sorriso bom e, piscando-nos o olho, diz-nos:

"Toda a gente pode ser santa. A prova é que eu o sou!"

Quero que seja esta a mensagem a passar cá em casa: estes dois papas são santos, não porque foram papas, mas porque viveram a vida como Jesus quer que a vivamos, em cada dia, em cada instante. A santidade é feita de pequenos nadas, de pequenas vitórias, de pequenas renúncias, de pequenas entregas. E a santidade é mesmo para todos! Diz o Senhor, no Levítico:

 

"Sede santos, como Eu, o Senhor, sou santo!" (Lev 19, 2)

 

Um destes dias, quando fui dar um beijo de boa noite ao David, que já se enfiara na cama, recebi esta confidência:

- Mãe, acho que vou ser santo.

- Ai sim? E porquê?

- Porque hoje me fartei de fazer coisas boas!

 

Aproveitemos estas canonizações para falar aos nossos filhos de santidade. A santidade está na moda! Ser santo é ser radical! Ser santo é ser profundamente feliz!

Hoje o céu está aberto sobre nós. Quero ter a certeza de que vou fechar o meu guarda-chuva, baixar as defesas e deixar que a chuva divina me inunde até à medula dos ossos. Diz o Livro do Apocalipse:

 

"O que tem sede que se aproxime; e o que deseja, beba gratuitamente da água da vida!" (Ap 22, 17)

 

E os meus desertos florirão...

 

 

 

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Baloiço

por Teresa Power, em 26.04.14

No jardim, a gritaria aumentava de volume. Às vezes pergunto-me o que é que as pessoas pensarão ao passar na rua e ouvir os gritos que somos capazes de dar aqui, várias vezes por dia... Por enquanto, ainda ninguém decidiu chamar a Protecção de Menores!

- Francisco, vai ver o que se passa com os teus irmãos que eu estou ocupada - gritei eu também, procurando fazer-me ouvir através dos auscultadores que o Francisco tinha na cabeça. Ele correu lá para fora e regressou para me chamar:

- Vem depressa, não consigo separá-los!

Quando espreitei pela porta da cozinha, decidi pegar na máquina fotográfica para guardar este momento e poder partilhá-lo convosco. Olhem só o que eu vi:

 

Já me perguntaram por que razão não comprei dois baloiços em vez de um. A resposta está aqui: para que os meus filhos bulhem entre si pelo baloiço! E depois de gritarem, de se baterem e de darem pontapés, descubram outra forma de resolver o problema. Quero que eles experimentem várias formas de resolução de conflitos e cheguem à conclusão que há espaço e tempo para todos, se todos forem generosos.

E quero que eles aprendam tudo isto em família, onde amam e são amados; e que aprendam tudo isto com um, dois, três, quatro e cinco anos, enquanto ainda não deixaram passar nenhuma oportunidade de fazer amigos. Esta é, na verdade, uma das maiores vantagens em se ter irmãos!

Também se aprende a resolver conflitos no infantário, mas no infantário falta o amor incondicional e "resistente a altas temperaturas" que só a família estruturada possui; também se aprende a resolver conflitos passados os anos da primeira infância, mas para muitos, já é tarde demais e já se perderam oportunidades preciosas para se ser feliz. Uma família mais ou menos numerosa é a melhor escola de socialização que conheço! É possível educar bem um filho único? Claro que sim - conheço filhos únicos fantásticos; mas é preciso que os seus pais se esforcem mais! Os pais de uma família numerosa não precisam de ser tão bons, pois a tarefa da educação passa também pelos irmãos...

 

Logo no início da Bíblia, no Livro do Génesis, encontramos um dos primeiros conflitos em família. Aconteceu com Abraão e Lot, tio e sobrinho:

 

"A terra não era bastante grande para nela se estabelecerem os dois, porque os bens de ambos eram avultados. Houve questões entre os pastores dos rebanhos de Abraão e os pastores dos rebanhos de Lot. Abraão disse a Lot: "Peço-te que entre nós e os nossos pastores não haja conflitos, pois somos irmãos. Aí tens essa região toda diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda." (Gen 13, 6-9)

 

Quanta magnanimidade, a de Abraão! Cheio de amor, com a generosidade que o caracterizava, Abraão deu a Lot a escolha total dos pastos. E Lot escolheu os mais férteis! Mas foi Abraão o abençoado e o pai de muitas gerações.

Aprender a resolver conflitos na primeira infância é uma verdadeira fonte de bênçãos e uma lição que acompanhará os nossos filhos a vida inteira.

 

A Lúcia e o António resolveram o seu conflito e decidiram andar no baloiço à vez. Foi então que a Sara apareceu e também quis andar. A Lúcia e o António perceberam que tinham pela frente uma batalha perdida. Largando o baloiço, foram jogar à bola; e a Sara, a raínha, lá ficou a baloiçar...

 

 

 

 

 

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publicado às 08:29

Pequenas plantas

por Teresa Power, em 25.04.14

Esta primavera tem sido uma aflição para os agricultores e os jardineiros. E como nós temos um bocadinho dos dois cá em casa, no rectângulo de terra a que chamamos horta, esta primavera tem sido uma aflição para nós. É que, assim que acabamos de plantar, vem uma chuvada forte, e lá se vai tudo literalmente por água abaixo! A cada sábado é necessário recomeçar quase do zero. E se a esta tarefa juntarmos a ajuda que a Lúcia, o António, o David e até a Sara querem dar, dá para imaginar o trabalho...

 

 

 

 

Os mais velhos decidiram fazer um espantalho, para assustar a passarada que insiste em comer o pouco que consegue nascer:

 

Fico a pensar nas plantinhas que crescem em nossas casas e nas nossas escolas: os nossos filhos, os nossos alunos. Quantas chuvadas apanham! Como é difícil crescer nos dias de hoje! Ainda mal despontam da terra, e já os ventos do mundo lhes enchem os olhos e os ouvidos de maldade. Na televisão, nos jogos de computador, nos livros, na moda, em muitos programas de Educação Sexual nas escolas, enfim, na mundanidade que nos cerca, quantos vendavais atacam as suas raízes ainda frágeis! Precisamos de estar muito atentos, construindo cercas, escolhendo o adubo, arrancando as ervas daninhas.

Mas a boa notícia é que os bons ventos e as boas chuvas abundam também hoje em dia como nunca antes! A Água da Vida jorra em movimentos de Igreja, catequeses, grupos de jovens, sites e programas televisivos com conteúdo educativo e religioso.

Diz o Livro de Ben Sira:

 

"Vai ao encontro da sabedoria como quem lavra e semeia, e espera pacientemente os seus bons frutos; porque terás um pouco de fadiga em seu cultivo, mas em breve comerás dos seus produtos." (Sir 6, 19)

 

Como jardineiros caseiros, precisamos de arregaçar as mangas, atirar para longe a fadiga e debruçarmo-nos sobre cada uma das nossas pequenas plantas, protegendo-as do que as pode matar, oferecendo-lhes o que as fará viver. Não temos tempo a perder - a primavera passa depressa e em breve será tempo de colheita...

 

 

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publicado às 08:19

Felicidade

por Teresa Power, em 24.04.14

Nos primeiros dias depois das férias escolares, passo quase todo o tempo "livre" que tenho a arrumar a desarrumação que eles causaram cá em casa. A esta tarefa já por si bastante aborrecida, junta-se a necessidade de trocar a roupa de inverno pela roupa de verão, se bem que este ano ainda não seja uma tarefa tão urgente quanto desejável. Foi no meio desta minha azáfama que o Niall e eu nos cruzámos no corredor, eu com os braços cheios de roupa, ele com os braços cheios de brinquedos, e ficámos alguns minutos a conversar. Ter seis filhos tem-nos ensinado muita coisa, e uma das mais importantes é a aproveitar qualquer meio minuto para conversar. É que a soma de todos estes meios minutos traduz-se numa intimidade cada vez mais profunda entre nós, e naturalmente, na maioria dos tópicos destes posts. Sim, embora seja eu a "escritora", a reflexão é sempre conjunta e feita aos bocadinhos soltos durante o dia!

Voltemos então à nossa conversa:

- Devias ter visto a fotografia do interior de uma casa que encontrei num blog! Tudo tão arrumado, tudo tão moderno! E eu aqui, com os bolsos cheios de lixo...

O Niall riu-se:

- Ai sim? E tu devias ter ouvido um grupo de pessoas que encontrei, a falar das noites fabulosas que passaram a dançar durante as férias!

Rimo-nos juntos. À noite, depois de todos se deitarem, continuámos a conversar:

- Sabes, um dos problemas da nossa sociedade é a crença de que, para sermos modernos e felizes, temos de ser pais e mães bem vestidos, com casas de capa de revista, com vida social digna dos VIP, e com uma profissão de sucesso. Quanta frustração as revistas e os programas de televisão criam nas pessoas!

- Uma das grandes maravilhas de se ser cristão é aprendermos a valorizar o que realmente importa - continuei. - No limiar da vida, seremos julgados pelo amor.

- Claro! Deus não vai perguntar: "De que tamanho era a tua casa?" Mas sim: "Quantos acolheste lá dentro?"

- Nem vai perguntar: "Realizaste-te? Tiveste sucesso? Tornaste-te famoso?" Mas antes: "Aprendeste a esquecer os teus projectos pessoais para valorizar os da tua mulher, do teu marido, dos teus filhos?"

- Deus não perguntará: "Compraste roupas bonitas e caras? Andaste sempre bem vestido? Perdeste tempo com o supérfluo, a televisão, a moda, as compras, o mundo?" Mas antes: "Ofereceste-Me o teu tempo servindo os outros?"

- Deus não perguntará: "Descansaste muito nas férias?" Mas perguntará de certeza: "Encontraste tempo para Mim nas férias?"

- Tudo aquilo que o mundo valoriza, não tem valor nenhum para Deus... Tudo aquilo que para nós parece importante - títulos académicos, lugares sociais, bens e aparências - não valem absolutamente nada na eternidade! Diz o Senhor:

 

"Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos - oráculo do Senhor! Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos, e os meus pensamentos, mais altos que os vossos pensamentos." (Is 55, 6.8-9)

 

- Sim, mas o mais giro é que, com a prática, começamos a encontrar verdadeiro prazer nos caminhos de Deus, e deixamos de achar graça áquilo que antes valorizávamos tanto!

- Deus quer que amemos a vida de verdade e tenhamos gosto nela. Por isso, quando O procuramos a sério, Ele ajuda-nos a desejar o que nos quer dar.

- E faz-nos perder o interesse no que não serve para a nossa santificação... É por isso que os santos são sempre tão felizes!

- Lembras-te de como tu gostavas de ver telenovelas?

- Lembro. E hoje, seria incapaz de as ver! Ninguém mo proíbe, mas deixei de sentir prazer nisso. E descobri que me dá imenso prazer estar simplesmente aqui, agora, a conversar contigo; ou lá fora a empurrar a Sara no baloiço, por muito monótono que isso seja! Acho que é isto a felicidade.

- Pois é. Já reparaste que somos mais felizes quanto menos procuramos a nossa própria felicidade? Quando procuramos simplesmente o amor? Afinal, a grande mensagem da Páscoa é esta:

 

"Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de Mim, há-de salvá-la." (Mt 10, 39)

 

Ficámos em silêncio um bom bocado, já deitados. No silêncio, saboreámos este dom gratuito do amor de Deus, a felicidade que Ele dá de graça a quem Lhe entrega a vida...

 

 (... e na nossa macieira, as flores continuam a brotar...)

    

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A esperança

por Teresa Power, em 23.04.14

- Não quero ir à escola - Dizia-me ontem o António, ao acordar - Quero que sejam férias para sempre!

- Bem sabes que tens de ir, António. As férias já acabaram!

- Mas eu quero ficar em casa. Ou então quero ir à missa. Ou férias, ou domingo. Escola não!

- Pois é mesmo escola hoje, António. Vá lá, mostra que és grande!

 Por fim, o António tomou consciência de que tinha mesmo de ser: as férias estavam terminadas! Com algum esforço para conter as lágrimas, lá ficou, muito direito, muito homenzinho. Antes de me vir embora, dei-lhe mais um beijinho e mais um abraço. Saltando-me para o pescoço, o António disse:

- Não faz mal que te vás embora. Eu sei que depois do lanche tu vens logo logo!

- Pois é, António. Venho sempre depois do lanche.

- Eu sei - disse ele - Depois do lanche olho um bocadinho para a porta, e de repente tu estás lá! E nunca, nunca faltas, pois não?

- Não, nunca falto.

- O dia é rápido, não é? Tu estás lá à minha espera depois do lanche!

Assegurei-o outra vez do meu rápido regresso. Ele sorriu, disse-me adeus com a mão rechonchuda e lá foi a correr, brincar com os amigos.

 

A conversa entre Jesus Ressuscitado e os discípulos foi mais ou menos assim também!

"Não me detenhas" (Jo 20, 17), disse Jesus a Madalena, que a seus pés, insistia para que ficasse ali com ela. "Não me detenhas", tento eu dizer ao António. Jesus tinha de partir para que os discípulos crescessem (é mesmo, António...). Mas logo logo, Ele volta, e quando olharmos para a porta da eternidade, ali do outro lado da morte, Ele estará lá à nossa espera, como estará à espera da humanidade no fim dos tempos, "depois do lanche" que não sabemos bem quando será...

 

O António brincou o dia inteiro na escola, muito feliz. Quando o fui buscar, estava transpirado e corado, com um sorriso aberto, rodeado de amigos. Pendurando-se ao meu pescoço, gritou:

- Eu sabia que tu vinhas!

E foi essa certeza absoluta, essa confiança total no meu amor e no meu regresso, que permitiu ao António aprender, brincar, trabalhar, descansar e ser feliz durante todo o dia.

Como se distingue um cristão de um ateu? Pela maneira de "brincar"? Não: por esta atitude de confiança total e absoluta no amor de Deus, por esta certeza de que Ele está à nossa espera e não tardará em nos tomar nos braços e envolver de carinho. É a isto que chamamos de esperança cristã! E é esta esperança que nos enche de felicidade e nos faz sorrir no meio de todas as dificuldades que possamos encontrar pelo caminho.

Antes de morrer, Jesus deixou aos discípulos estas palavras ternas, tão semelhantes às que eu disse ontem de manhã ao António, ao deixá-lo no infantário:

 

"Também vós vos sentis agora tristes, mas Eu hei-de ver-vos de novo! Então o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria." (Jo 16, 22)

 

Sim, um cristão é, por natureza, um ser humano muito alegre!

 

 

 

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publicado às 09:38

Brincando às lojas

por Teresa Power, em 22.04.14

- Quando fores à loja trazes-me uma coisa, papá?

- O quê, António?

- Sei lá, o que tu quiseres! Uma coisa!

- Pode ser pasta de dentes? Eu vou à loja porque se acabou a pasta de dentes.

- Não! Uma coisa para brincar!

- Mas na loja só há coisas para comer ou pasta de dentes. Queres pão então?

- Não! Já te disse que quero uma coisa para brincar!

- Não é o teu dia de anos, não é Natal... Não entendo!

- Por favor, papá! Por favor! Uma coisa para brincar!!!!!!!

 

Esta conversa acontece várias vezes cá em casa, e geralmente termina com muitas lágrimas. É que "coisas para brincar" só se compram nos aniversários, no Natal, ou então quando o pai viaja, o que é cada vez mais frequente. Quando o pai foi à Índia, trazia para cada um um brinquedo muito pequeno, que se partiu naquele mesmo dia, o que causou muitas lágrimas. O Niall explicou-nos que na Índia não encontrou sequer lojas dignas desse nome! Lá viu crianças a dormir na rua, bebés a chorar ao colo de mães a pedir esmola, vacas e cães a passear na autoestrada, mas não encontrou lojas. Os meninos entenderam e durante uns tempos o António comentava:

- Coitados dos meninos na Índia! Não têm lojas!

Um mês depois, o pai foi à Dinamarca, onde encontrou o problema oposto: na Dinamarca há muitas lojas, só que nós não temos dinheiro para comprar o que por lá se vende! E de novo, o pai regressou de mãos (quase) vazias. O António suspirou durante uma semana:

- Coitados dos meninos da Dinamarca! Há lá muitas lojas, mas não se podem comprar coisas, porque custam muitas moedas!

Agora o pai vai voltar a viajar. O António quer saber se, lá para onde ele vai, há ou não há lojas, e se nós somos ou não somos ricos o suficiente para entrar nelas.

 

Confesso que fico contente quando vejo os meus filhos desapontados com as "coisas" que se compram nas lojas; porque se partem, porque não têm a cor certa, porque se perdem, porque não fazem o que deviam fazer, porque a pilha se gasta depressa demais, porque... porque as "coisas" não podem preencher a nossa sede de Absoluto e de Eternidade! E quanto mais cedo nós percebermos isto, melhor! Como disse noutro post, citando S. Paulo:

 

"Por causa de Cristo, tudo considero como esterco" (Fl 3, 8).

 

Na verdade, quantos mais presentes oferecemos ao António - ou a qualquer outra criança - mais presentes ele exige; e nunca está satisfeito, nem pode estar: é que, como diz Santo Agostinho:

 

"Criaste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós!"

 

O jejum quaresmal foi um bom treino de libertação do domínio das "coisas" na nossa vida. Agora é preciso continuar vigilantes, para que a abundância de presentes e doces na Páscoa não mate em nós a sede de Deus...

 

Já que não podem ir à loja comprar coisas, o António e a Lúcia decidiram montar uma loja cá em casa. Ontem "fui às compras" no meu escritório:

 

 

 

 

 

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Chegaram!

por Teresa Power, em 21.04.14

Chegaram! Foi a Lúcia a primeira a reparar. Depois foram os irmãos, e finalmente vieram-me contar: chegaram! pusemo-nos todos a olhar... Olhem também connosco: não notam nada de especial?

 

 

Claro que não, pois eles são muito, muito discretos! Só saem quando estamos distraídos e em silêncio, e fazem-no com uma rapidez tal, que não os consigo capturar com a máquina fotográfica. Resta-me filmar o buraquinho onde vivem, e onde ano após ano vêm construir o seu ninho. Estou a falar de um casal de chapins azuis!

Por enquanto, entretêm-se a construir o ninho; em breve estarão ocupadíssimos a alimentar as suas pequeninas crias, entrando e saindo do buraquinho a cada minuto, à vez, com a rapidez de um relâmpago. E finalmente, a família inteira deixará a sua casinha construída com tanto amor para se aventurar em voos ousados pelos campos em redor. 

Uma das mais belas passagens do evangelho, que merece ser memorizada para que dela nunca nos esqueçamos, diz assim:

 

"Olhai as aves do céu: não semeiam nem colhem, e no entanto, o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós muito mais do que elas, homens de pouca fé?" (Mt 7, 26)

 

Quando contemplo a alegria destes passaritos e a confiança ilimitada que eles demonstram ter no Senhor, fico a pensar na minha falta de fé. Se de facto acreditássemos no amor infinito de Deus, este amor que Deus provou na Cruz e que venceu todas as mortes da humanidade, nada nos perturbaria! E, como os passarinhos da minha oliveira, atravessaríamos esta vida esvoaçando alegremente pelos nossos dias...

 

 

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publicado às 10:28

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