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Uma caixa cheia

por Teresa Power, em 31.08.15

- Mãe, mãe, vem ver o que eu encontrei em Náturia! Vem depressa! Vem depressa!

Corro para o jardim.

- O que foi, Lúcia?

- Amoras! Tantas, tantas! Olha, posso levar uma caixa para trazer para todos?

- Claro. Leva esta.

Dez minutos mais tarde, nova algazarra:

- Mãe, mãe, olha só! Tantas! Tantas!

Espreito para dentro da caixa. Escondo um sorriso para não ofender a Lúcia. Querem espreitar também?

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 A verdade é que, alertados pelos gritos de entusiasmo, o David, a Sara e o António correram para o jardim; e contagiados pela alegria da Lúcia, também concordaram que a caixa estava cheia de amoras escuras e doces. Com jeitinho, cada um deles tirou uma amora da caixa, que saboreou delicadamente, e - surpresa! - ainda sobraram amoras! Deu para outra ronda e deu para a mãe também provar...

A enorme crise de migração que estamos a viver nestes dias na Europa revela-nos a dificuldade, também enorme, que temos em partilhar. Cada um dos países deste velho continente tem muito mais do que uma caixa cheia de amoras para dar... No entanto, continuamos a achar que, se dermos tudo, ficaremos sem nada.

Ah, dois mil anos de cristianismo não chegaram para nos revelar o rosto de Deus! O nosso Deus é o Senhor da multiplicação, o Deus da abundância, e para fazer milagres só precisa que lhe ofereçamos o pouco que temos, com amor. A Jesus, bastaram cinco pães e dois peixes oferecidos por um rapazinho generoso. Sabem o que aconteceu então?

 

"Então Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelo que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.» Recolheram, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer." (Jo 6, 11-13)

 

Felizmente, há cada vez mais gente disposta a aceitar o desafio da multiplicação e a experimentar o poder imenso do amor...

Senhor, transforma o nosso coração de pedra num coração de carne, generoso e disponível, capaz de partilhar, de acolher e de amar como Tu sempre fazes! Senhor, dá-nos a audácia para sermos verdadeiramente cristãos, e experimentaremos na nossa vida os teus milagres de amor. Ámen!

 

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As rãs, as teorias da conspiração e a oração familiar

por Teresa Power, em 28.08.15

Na quarta-feira fomos passar a tarde ao pequeno refúgio da serra do Caramulo, onde gostamos de fazer piqueniques e de nadar. Pela primeira vez desde que conhecemos este lugar paradisíaco, há três anos, partilhámos o "nosso" lago com desconhecidos: duas crianças, talvez da idade do David, brincavam alegremente na água. A sua conversa em francês permitiu-nos concluir que se tratavam de filhos de emigrantes, de férias na sua aldeia natal.

Surpreendidos com estes companheiros inesperados de brincadeira, o David, a Lúcia e o António tentaram uma aproximação. As crianças eram simpáticas e bem dispostas, mas estavam a fazer algo que horrorizou os nossos filhos: pegavam em pequenas rãs e apertavam-nas entre os dedos.

- Deixa-a em paz! - Gritava o David, muito aflito. - Não vês que vais matar a rã?

- Mas ela é venenosa! - Respondia o rapazinho, num português trapalhão. - Sabes que as rãs são venenosas?

Os nossos filhos abriam os olhos de espanto:

- Venenosas? As rãs?

- Sim! Elas têm uns furinhos na cabeça por onde ejetam um veneno que te pode cegar para sempre! Para sempre! São muito, muito más!

E com um gesto propositado, o rapazinho estendia o punho cerrado com a rã lá dentro diante do narizito da Sara, tentando assustá-la. A Sara, claro, ficava impávida e serena.

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Observando a interação entre as crianças, passaram-me muitas perguntas pela mente.

Como terão aquelas crianças chegado à conclusão de que as rãs são animais perigosos e merecedores da morte? E da mesma forma - como terão os meus filhos descoberto a beleza das rãs, a sua fragilidade e a sua riqueza? (Bem, esta é fácil...)

De que forma olhamos nós para o mundo que nos rodeia, em particular os nossos vizinhos, as nossas escolas, os nossos locais de trabalho? Vemos veneno em toda a parte, ou procuramos encontrar em tudo a beleza escondida de Deus? Há tantas "teorias da conspiração" a sugar-nos a alegria de viver!

Deverei eu afastar os meus filhos dos locais onde convivem meninos "maldosos"? Serão eles más companhias? De novo, prefiro a perspetiva oposta: os meus filhos é que são boas companhias para essas crianças... Serão as escolas locais seguros? A esmagadora maioria dos professores são pessoas bem intencionadas, procurando educar as crianças nos valores humanos universais.

Quem poderá destruir os nossos filhos e roubar-lhes a inocência? Bem, muita gente, mas apenas - e esta é a grande questão - se nós, pais, deixarmos brechas abertas por onde os ladrões assaltem. Pais que abandonam os seus filhos em frente do televisor ou do computador, ou por horas sem fim no ATL ou na escola; pais que não têm tempo para escutar e observar, conversar e ensinar, são pais que deixam assaltar o seu castelo.

Há um caminho seguro para educarmos uma criança. Tem sido percorrido pelos crentes desde o tempo de Moisés:

 

"Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas." (Dt 6, 6-9)

 

Na sua catequese nesta mesma quarta-feira, 26 de agosto, o Papa atualizou esta Palavra: 

"Na vida da família, além das horas de trabalho e dos momentos de festa, há também o tempo da oração. Sabemos como o tempo é sempre pouco; nunca chega para tudo. É frequente ouvir este lamento: «Devia rezar mais…, mas não tenho tempo». Quem tem uma família, aprende a resolver uma equação que nem os grandes matemáticos conseguem: dentro das vinte e quatro horas do dia, fazem entrar o dobro. Há pais e mães que merecem o Prémio Nobel por isso! O segredo está no afecto que provam pelos seus.

É belo ver as mães ensinando aos filhos pequeninos a mandar um beijo a Jesus ou à sua Mãe bendita. Está aqui o espírito da oração, que nos leva a arranjar tempo para Deus, fazendo-nos sair da obsessão duma vida onde sempre falta tempo, para encontrar a paz das coisas necessárias. E a coisa verdadeiramente essencial, a «parte melhor» do tempo é aquela em que se escuta o Senhor, como fez Maria de Betânia. O Evangelho, lido e meditado em família, é como um pãozinho bom que nutre o coração de todos."

Sejamos então capazes de resolver a grande equação que nos propõe o Papa e, nas vinte e quatro horas de cada dia, dar à catequese e oração familiares o primeiro lugar! A Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada compensará qualquer outra influência que os nossos filhos possam ter recebido durante o seu dia e moldará os seus corações e as suas vidas.  Olhemos para Santa Mónica e Santo Agostinho, que a Igreja celebra nos dias 27 e 28 de agosto: a oração da mãe obteve do céu a santidade do filho...

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Caravana ao pôr do sol

por Teresa Power, em 27.08.15

Uma das atividades que mais gostamos de fazer depois do jantar é passear de bicicleta, trotineta ou skate pelas ruas da nossa terra. Não pensem que é tarefa fácil! Os poucos carros que passam nas ruas que escolhemos travam a fundo perante a cena... Imaginem as fotos seguintes com o som estridente de gritos de animação e gargalhadas, e um vaivém contínuo rua acima, rua abaixo, na constante iminência de choques frontais entre crianças que, não sei explicar por que razão, nunca chegam a acontecer!

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Pelo caminho, comemos amoras:

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Durante cerca de meia hora, rua acima, rua abaixo, algumas paragens e muita algazarra, regressamos a casa. O Niall e eu respiramos fundo, transpirados e cansados... Somos os únicos que vamos a pé, mas corremos bastante para acompanhar as acrobacias dos mais novos!

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 Por fim, junto ao Canto de Oração, cantamos, dançamos e contamos histórias da Bíblia. Às vezes, a Sara adormece ao colo...

 

Há algo de profundamente calmante neste passeio familiar. É uma tranquilidade permeada de aflições, claro, mas não deixa de ser tranquilidade: a calma que nasce do afeto, do carinho, da companhia uns dos outros, do facto de que estamos todos juntos na mesma atividade familiar, apesar da filha mais nova ainda não ter três anos e do mais velho ter quase dezassete. Durante meia hora, acompanhando o sol poente, todos partilhamos a alegria de sermos intensamente família.

Lembra-me o patriarca Jacob, lá longe, no Livro do Génesis, caminhando em caravana com as suas mulheres, filhos, parentes, servos, e animais de todo o tipo:

 

"Eu caminharei devagar, ao passo da caravana que me precede e ao passo dos meninos, até juntar-me ao meu senhor, em Seir."

(Gn 33, 14)

 

As férias são o momento ideal para acertarmos o nosso passo com o da nossa pequena caravana, partilhando momentos intensos em família, descobrindo alegria intensa em família, sem receio uns dos outros, sem fugir uns dos outros, sem desculpas de falta de tempo, sem entregar demasiado a outros o cuidado dos nossos, dos que Deus nos confiou nesta caminhada vagarosa...

 

 

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Cabelo bem lavado

por Teresa Power, em 26.08.15

- Hoje é praia ou missa, mamã?

- Hoje é missa, Sara. Tu gostas da missa?

- Gosto. Mas olha, diz ao senhor padre que eu não quero que ele me lave o cabelo!

- ?????

 

Levei alguns segundos a compreender o problema da Sara: durante todos os domingos de agosto, no Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, a missa paroquial inclui a celebração de um ou mais batismos. E o batismo significa, - como é que eu nunca pensara nisto? - lavar a cabeça aos mais novos, claro! A Sara, que detesta lavar o cabelo, deve ter sofrido um pouco nas últimas missas, à espera que o tormento diário da água a escorrer sobre a sua cabeça pudesse também acontecer na igreja, onde julgava estar em segurança. Ai como é difícil ter-se quase três anos!

 

- Sara - continuei eu - Não tenhas medo, porque o senhor padre já lavou o teu cabelo uma vez, e não vai lavar mais nenhuma!

- Ai já?

- Já. Queres ver? - Fui buscar um album de fotografias - Olha, vês? O senhor padre lavou-te o cabelo com esta conchinha da praia, que os manos encontraram enquanto tu estavas na minha barriga e guardaram especialmente para a ocasião!

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- Sabes, Sara, o senhor padre não lava o cabelo com shampô... Não! Não entra nada nos olhos. O senhor padre não está a tentar tirar a terra do jardim ou a areia da praia ou os restos de comida ou os bocados de cola do teu cabelo... Está a lavar o teu coração!

- O coração?

- Sim, o coração...

Enquanto eu explicava à Sara, com palavras muito simples, o sacramento do batismo, fiquei a pensar... Será que os pais que, aproveitando este mês de férias e encontro familiar, levam os seus filhos a ser batizados, experimentam dentro de si a urgência do sacramento? Ou será que simplesmente aproveitam a ocasião do batismo para festejar com a família e os amigos o nascimento do seu filho?

Apercebo-me de que, mesmo entre os católicos mais empenhados, existe uma vaga ideia de que o batismo é um símbolo, um gesto belo, mas incapaz de causar uma alteração profunda na natureza do ser humano. "Todos somos filhos de Deus", ouve-se dizer. Para quê a pressa então? Por que não esperar por uma reunião familiar, por uma situação financeira mais estável ou por umas férias para batizar os nossos filhos?

É verdade que todos os seres humanos são amados por Deus com amor infinito, antes ainda de serem concebidos; e que Deus tem milhares de formas diferentes de oferecer a sua salvação, a cristãos, a budistas, a ateus, pois como diz o Catecismo da Igreja Católica, "Deus não está prisioneiro dos seus sacramentos" (CIC nº1257). Mas também é verdade que o Evangelho diz:

 

"Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus." (Jo 3, 5)

 

Se o batismo não nos traz nada de novo; se não altera em nada a nossa própria natureza humana; se não tem poder para nos abrir o Céu, então não vale a pena perdermos tempo.

Mas se o batismo opera em nós um milagre - um milagre imenso, infinito e impossível de abarcar com a nossa pobre inteligência; se o batismo faz de nós participantes da vida do próprio Deus, realmente filhos no único Filho; se o batismo apaga em nós, definitivamente, a marca herdada do pecado; se o batismo faz jorrar para dentro de nós uma abundância de graça nunca antes vista, completamente absurda e totalmente gratuita - então eu vou ter imensa pressa em batizar os meus filhos. Diz o Catecismo da Igreja Católica: "A Igreja e os pais privariam a criança da graça inestimável de se tornar filho de Deus, se não lhe conferissem o batismo pouco depois do seu nascimento." (CIC nº 1250)

Cá em casa, batizei todos os meus filhos com um, dois ou três meses de vida. Se hoje tivesse outro bebé, batiza-lo-ia na semana seguinte a sair da maternidade...

 

- O senhor padre não vai lavar-me o cabelo!

 

"« Senhor, Tu não vais lavar-me os pés!» Disse-lhe Jesus: «Se não te lavar os pés, não terás parte comigo.» Disse-Lhe então Simão Pedro: «Nesse caso, Senhor, não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!»" (Jo 13, 6-10)

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Amoras

por Teresa Power, em 25.08.15

Uma das coisas que gostamos de fazer nas tardes longas de verão é apanhar amoras. Fazemo-lo por detrás da nossa casa, em Náturia (para quem ainda não sabe o que é Náturia, por favor cliquem aqui), e fazemo-lo nas caminhadas que vamos dando.

Outro dia, numa pequena aldeia da serra do Caramulo, onde fizemos um belo piquenique na companhia de amigos, fomos surpreendidos com uma abundância inusitada de amoras ladeando as ruas e preenchendo as ruinas de granito. Que maravilha! Bastava esticar o braço, para logo se poderem saborear as mais deliciosas amoras, escuras e doces.

Bem, esticar só o braço não chegava... Era preciso também afastar os espinhos que envolviam os arbustos! Por cada amora saboreada, aguentávamos várias picadas nos dedos e nas pernas...

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- Abre a mão, Sara! Toma uma amora docinha!

- Cavalitas! Cavalitas!

- Sim, Sara, eu sei, às cavalitas é mais fácil!

 

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Enquanto me saciava de amoras e as partilhava com a minha família, lembrei-me do salmo 33/34, que nos três últimos domingos temos cantado na missa:

 

"Saboreai e vede como o Senhor é bom!"

 

Caminhando pelas majestosas ruinas de uma aldeia passada, eu saboreava amoras - e saboreava a bondade do Senhor, de Quem recebo todos os bens: a vida, a família, a casa, o trabalho, os amigos, o amor, o Pão Vivo, a fé, o alimento, a saúde... Tanto a agradecer!

Mas quantas vezes deixo de receber algum bem que Deus me quer oferecer, simplesmente porque tenho medo de me picar nos arbustos que o envolvem?... Ah, o que o medo pode fazer!

Senhor, não deixes que o medo do sofrimento me impeça de saborear o teu amor! Senhor, não deixes que a dor me faça encolher os dedos e fechar a mão diante dos bens que me queres dar... Ámen.

 

 

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As ruinas

por Teresa Power, em 24.08.15

O nosso piquenique na semana passada teve a agradável companhia de amigos. O tempo estava encoberto, a água estava fria, mas os meninos não pareciam cansar-se de mergulhar e apanhar rãs! Por fim, decidimos que eram horas de todos se vestirem e de fazermos uns passeios pela aldeia. E foi assim que os nossos seis filhos e o seu pequeno amigo tiveram a alegria de explorar uma aldeia de granito, com casas lindíssimas, ruas estreitas e íngremes, e muitas, muitas ruinas. Haverá alguma coisa mais interessante para se fazer aos cinco, aos seis, aos nove anos do que explorar casas em ruinas e imaginar aventuras fantásticas no seu interior?

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Ou aos aos catorze, ou aos dezasseis anos, claro!

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Espreitando por entre os pilares de um espigueiro abandonado, vislumbrei a torre da igreja paroquial, envolvida em nuvens...

 

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Enquanto os meninos exploravam as ruinas com alegres gargalhadas, a minha imaginação fértil pôs-se a recriar esta mesma aldeia há muitos anos atrás, quando as famílias tinham dez, doze filhos, e as crianças brincavam em bando, rua acima, rua abaixo... Ao domingo, o sino da igreja congregava as famílias para a festa da eucaristia, e aos serões, rezava-se o rosário...

Talvez não fosse tudo assim tão cor-de-rosa como no meu sonho, ou talvez o meu sonho ainda esteja por realizar. Recordo-me das palavras poderosíssimas do Papa Francisco na homilia sobre as Bodas de Caná, que fez no dia 6 de julho de 2015:

"O melhor dos vinhos aguardamo-lo com esperança, ainda não veio para cada pessoa que aposta no amor. O melhor vinho ainda não chegou para aqueles que hoje vêem desmoronar-se tudo. Murmurai isto até acreditá-lo: o melhor vinho ainda não veio. Murmurai-o cada um no seu coração: o melhor vinho ainda não veio. Deus sempre Se aproxima das periferias de quantos ficaram sem vinho, daqueles que só têm desânimos para beber; Jesus sente-Se inclinado a desperdiçar o melhor dos vinhos com aqueles que, por uma razão ou outra, sentem que já se lhes romperam todas as talhas."

 

Afinal, o nosso Deus é um Deus acostumado a restaurar ruinas. Ao longo da História de Israel, não fez Ele outra coisa! Com grande entusiasmo, os profetas ensinam-nos a exultar de alegria, mesmo quando a nossa vida não passa de um monte de ruinas:

 

"Ruinas de Jerusalém, irrompei em cânticos de alegria, porque o Senhor consola o seu povo, com a libertação de Jerusalém!"

(Is 52, 9)

"As velhas ruinas serão restauradas, levantarão os antigos escombros, restaurarão as cidades destruídas e os escombros de muitas gerações!" (Is 61, 4)

 

E Jesus não hesita em transformar a nossa água em vinho, se Lhe oferecermos as nossas bilhas, as nossas talhas, os pequenos tanques da nossa vida...

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Talhas rotas, escombros de muitas gerações, casas abandonadas, ruinas de vidas inteiras... Ah, se tivermos a coragem de tudo oferecer ao Senhor, e nos abrirmos à sua ação libertadora, irromperemos em cânticos de alegria!

Um dia, a nossa vida ressurgirá dos escombros e seremos plenamente felizes!

Um dia - e não é só um sonho lindo - as antigas aldeias ressurgirão renovadas, brilhantes como pérolas preciosas, transbordando de crianças e de vizinhos que se entreajudam. Não estarão já entre nós, como Aldeias de Caná?...

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Laudato Si

por Teresa Power, em 22.08.15

No domingo passado, fomos fazer um piquenique a um dos nossos "paraísos" preferidos: uma pequena aldeia na serra do Caramulo, onde podemos nadar, passear e contemplar a Criação sem pressas e sem ruídos, para além do cantar dos grilos, do coaxar das rãs ou do balir das ovelhas.

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- Mãe, já viste aquela ovelhinha tão pequenina?

- Sim, Lúcia, olha, ela vai mamar!

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Nalguns dos nossos piqueniques neste refúgio natural, o coaxar das rãs é tão intenso, que abafa o som da nossa própria conversa. Os meninos adoram procurar rãs e sapos no charco junto ao lago.

- Olha, papá, vês aquela rã?

- E a outra ali? Se olharem com atenção, verão dezenas... talvez centenas de rãs, que se confundem com o verde do charco!

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 Com as suas redes, apanham rãs que logo depois voltam a libertar na água fresca.

- Cuidado, António, não magoes essa rã!

- Liberta-a, David, que essa já foi apanhada duas vezes. Agora vamos para outro lado!

- Mamã, olha só que linda rã!

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 O Francisco, armado com a máquina fotográfica, dá alguns passeios pelos trilhos da montanha, captando imagens como esta:

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 Apesar de sermos oito, as únicas marcas da nossa passagem neste local de sonho são as migalhas do nosso piquenique. Ah, e provavelmente algum incómodo causado à população animal pelo nosso nível de ruído natural... Ou pelo tocar da guitarra, pois geralmente é em sítios como este que eu escrevo os meus cânticos!

No último domingo, enquanto os meninos brincavam na água e descobriam rãs, eu pensava na Laudato Si, a encíclica do nosso querido Papa Francisco. O papa relembra-nos o belíssimo texto o Génesis:

 

"O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Eden, para o cultivar e, também, para o guardar." (Gn 2, 15)

 

Depois, o papa aprofunda a sua meditação:

"Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras." (LS 67)

Ao ver o cuidado com que os meus filhos protegem a mais pequenina rã e observam, sem lhe tocar, na mais breve borboleta, recordo os ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica, também citados pelo Santo Padre:

"Cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus." (CIC nº339)

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Senhor, ensina-me a cuidar de cada criatura como Tu queres que eu cuide! Ensina-me a encontrar o teu amor refletido como num espelho em toda a tua Criação...

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Louvado sejas!

 

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publicado às 06:15

A Casa de Deus

por Teresa Power, em 21.08.15

Quando regressámos do Gerês, demos início aos trabalhos de manutenção da nossa casa, que já estavam projetados desde o verão passado. Uma casa onde vivem oito pessoas, algumas bastante turbulentas, tem sempre muito onde nos entretermos!

Primeiro foram os longos dias de pintura da nossa casa. Se até este mês achavam que ela era cor-de-rosa, o que dirão a partir de agora? Ah, parece nova! 

No início, todos quiseram ajudar:

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 Depois, o pai pediu-me encarecidamente que continuasse a levar a família à praia e o deixasse trabalhar... E assim foi: partíamos de manhã, e pela hora de almoço já estava mais uma parede inteira pronta! Durante a tarde, com um pouco de sorte, o Niall tinha a ajuda do Francisco e da Clarinha:

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Graças ao Francisco, temos agora a chaminé mais cor-de-rosa de Mogofores e arredores :)

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Entretanto, também no interior da nossa casa se trabalhou arduamente. Ninguém ultrapassou a Sara em vontade de trabalhar!

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O David teve direito a duas estantes novas, que o Francisco montou:

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 Digam lá se não está bonito o seu "espaço privativo" dentro de um quarto para três?

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 Uma das maiores bênçãos de sermos família é podermos trabalhar em conjunto na edificação da nossa vida comum. Bem mais importante do que ter uma casa pintada ou uma sala aspirada é podermos fazê-lo juntos, ajudando-nos uns aos outros.  É importante que as crianças aprendam desde muito cedo que a casa é de todos, e que todos precisam de trabalhar para a manter de pé. É importante que os mais velhos descubram a alegria de ajudar os mais novos, prestando-lhes pequenos serviços, e que os mais novos aprendam imitando os mais velhos. Nada nos aproxima mais do que a partilha das dificuldades e das tarefas quotidianas!

A Casa de Deus não é muito diferente... Também a Igreja precisa de ser edificada por todos, partilhando tarefas e dificuldades, aprendendo uns com os outros, servindo-nos uns aos outros. Escreveu S. Paulo:

 

"Já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito." (Ef 2, 19-22)

 

Ainda não nos sentimos parte da família? Um novo ano pastoral está à porta... Arregacemos as mangas e ofereçamo-nos para o trabalho na paróquia e nos diferentes apostolados que nos cativam.  Integremo-nos na construção do templo santo do Senhor, sem medo de "estragar a pintura", porque ninguém é demasiado novo ou demasiado velho para a tarefa. E experimentaremos a alegria imensa que é sermos família de Deus...

 

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publicado às 06:13

A Mãe de família

por Teresa Power, em 20.08.15

O dia 15 de agosto é sempre um dia de grande festa para nós - ou não fosse ele o dia da glória da nossa Mãe! E só os filhos que não se sentem amados não festejam as glórias das suas mães. Quando se discutia a diminuição do número de feriados nacionais, o nosso saudoso D. José Policarpo foi muito claro: "Nos dias santos marianos não vamos tocar!" Mãe é mãe.

Por isso, faz-me sempre muita confusão quando, vestidos de festa, cheios de expetativa e de alegria, entramos na igreja em dia 15 de agosto e a encontramos praticamente vazia. Claro, muitas pessoas estão de férias... Mas estarão as igrejas nos locais de férias particularmente cheias? Onde está a alegria da festa mariana?

Ser católico é, acima de tudo, ter a graça de nos sabermos família - família que tem no céu um Pai e uma Mãe. E as famílias gostam de se reunir, para celebrar datas especiais, na casa de família, na casa paterna. É aí que, nas grandes datas, os filhos casados se encontram com os irmãos, os cunhados, os primos, os sobrinhos, os tios, e os pais se alegram com os frutos do seu amor. Assim, não há melhor forma de celebrar os dias santos de Maria do que reunirmo-nos na Casa de Família, a Igreja, em clima de festa e gratidão!

Na véspera do dia 15, fizemos os possíveis por preparar esta grande festa. Começámos por nos confessar no santuário. O senhor padre teve a gentileza de nos confessar "em série" e de esperar pacientemente que o António tirasse os patins ou o David descesse da trotinete para a sua confissão. Só a Sara, que ainda não fez três anos, não se confessou - e olhem que não foi por falta de tentativas da sua parte, pois não há nada que os irmãos façam que ela não imite a seu jeito!

Depois, preparámos o nosso Canto de Oração com as cores marianas. Na verdade, o dia 15 de agosto é apenas o começo de uma série de festas marianas: dia 8 de setembro teremos o aniversário de Nossa Senhora, e durante todo o mês de outubro teremos o mês do rosário. Assim, o Canto de Oração fica bem caracterizado para estes próximos meses. Que vos parece?

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Finalmente, na Eucaristia de dia 15, cantámos os louvores de Maria na companhia das poucas famílias que aí se reuniram também.

No Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, há uma imagem belíssima de Nossa Senhora "em saída", pronta a visitar as nossas casas como visitou Isabel, há dois mil anos atrás. No final da Eucaristia, cantando, convidámos Maria a vir connosco:

"Vem vem connosco a caminhar, Santa Maria vem!"

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Uma das três Famílias de Caná que participaram na Eucaristia foi a família da Olívia e do Álvaro, que fizeram duas horas de viagem para passarem o dia connosco. Assim, durante a tarde, as crianças puseram a brincadeira em dia, os adultos a conversa, e claro, como sempre que duas Famílias de Caná se encontram, rezámos o terço, em honra da nossa Mãe e Rainha, neste dia em que o céu inteiro festejava.

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 O dia foi tão bom, a oração tão bela, o convívio tão simples, que por várias vezes me lembrei do Cântico de Maria, o Magnificat, escutado na missa da manhã:

 

"A minha alma glorifica o Senhor

e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador!

Porque pôs os olhos na humildade da sua serva,

de hoje em diante me chamarão Bem-Aventurada

todas as gerações!

O Todo Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome!"

(Lc 1, 46-49)

 

Maria tem esta forma tão própria de unir em oração as famílias e os amigos, criando comunidade ao redor do terço. À noite, quando me deitei, agradeci-lhe com sinceridade a graça de permitir aos meus filhos crescerem em família de famílias, como certamente Jesus cresceu em Nazaré... Não são precisamente isto, as Aldeias de Caná?...

 

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publicado às 06:26

O Jovem Rico e o Barrica

por Teresa Power, em 19.08.15

Hora de oração familiar.

- António! Sara! David! Depressa, vamos rezar!

Passos apressados no corredor.

- Francisco! Clara! Lúcia!

- Já vou!

- Já vou!

- Não é já vou, é vir mesmo! São horas!

Mais passos apressados no corredor.

- Dá-me o Barrica! - Grita de repente a Sara, procurando agarrar o pequeno boneco da mão do António.

- Não dou! É meu! Meu!

- Eu quero o Barrica! EU QUERO O BARRICA!

- É MEU!

Gritos. Mais gritos. Empurrões. A Sara está a chorar.

- Acabou-se! São horas de rezar!

A Sara sai da sala, a soluçar. Perante um ataque tão grande de mau génio, decidimos avançar com a oração, e começamos a cantar e a dançar o nosso louvor. Irritadíssima, reaparece:

- NÃO REZAM SEM A SARA!

Eu sabia que a Sara não perderia este momento por nada deste mundo. A hora de oração costuma ser uma das horas preferidas dos mais pequeninos por causa dos cantos e das danças, e certamente também por causa do carinho e da presença uns dos outros.

Decido então pegar-lhe ao colo, e a Sara acalma com a cabeça no meu ombro. Podemos continuar a oração. Depois de partilharmos em voz alta a nossa ação de graças, sentamo-nos para escutar o Evangelho, que nos conta a inquietante história do Jovem Rico:

 

"Aproximou-se de Jesus um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Cumpre os mandamentos!» Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido todos os mandamentos; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se entristecido, porque possuía muitos bens." (Mt 19, 16-22)

 

- Que precisava o jovem rico de fazer para ser feliz? - Pergunto, perante o silêncio geral.

- Precisava de deixar tudo o que tinha.

- E ele foi capaz de tanto?

- Não, porque tinha muitas, muitas coisas!

- Pois era, o jovem rico tinha muitas coisas. Quando temos muitas coisas, é mais difícil deixá-las para trás!

- Mas ele ficou triste.

- Claro: é preciso coragem para se ser feliz! A coragem de fazer a vontade de Deus, ou seja, de realizar o sonho que Deus sonhou para cada um de nós. Deus só nos pede o que nos faz felizes!

- Mesmo quando custa?

- Custa sempre um bocadinho, mas a recompensa é a felicidade.

Silêncio. Depois, calmamente, o António levanta-se e diz:

- Vou buscar o Barrica para dar à Sara.

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A isto eu chamo: escutar a Palavra e colocá-la em prática...

 

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