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Bilhas, crianças e a festa do Evangelho

por Teresa Power, em 30.09.15

Quando chegámos à igreja paroquial da Quinta do Conde, para o Retiro Famílias de Caná, reparámos de imediato nas grande bilhas que estavam colocadas à porta, ornamentando o pequeno e cuidado jardim. “Bilhas!” Pensei. “Bom começo para um retiro sobre As Seis Bilhas das Famílias de Caná…”

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Ao entrar na igreja, apercebi-me de que estava cheia, transbordante de crianças, com os seus risos, a sua alegria, a sua inquietude.

Ainda na véspera do retiro, o Niall e eu tínhamos estado a contar as crianças e os jovens inscritos, e tínhamos sido assaltados por uma espécie de pânico: 64! 64 crianças e jovens para acolher, para evangelizar, para ajudar a fazer encontro com o Senhor enquanto os pais me escutariam, descansados. Como iria ser possível? A equipa que ia trabalhar connosco era grande e estava entusiasmadíssima. A troca de e-mails, nos dias anteriores ao retiro, tinha sido uma verdadeira loucura, e todos pareciam andar a trabalhar a mil à hora… Mas 64 é um número muito elevado, mesmo para uma grande equipa!

Durante a Eucaristia, as crianças foram convidadas a sentar-se à frente, sobre uns tapetes dispostos no chão em sua honra. Os nossos filhos, claro, estavam felicíssimos, e tivemos de lhes lembrar continuamente que a conversa era para pôr em dia lá fora, depois da missa. Eu sorria: que abençoados eles são! De retiro para retiro, ganham novos amigos e vão cimentando as amizades antigas.

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 Chegou a hora do Pai-Nosso. O celebrante, visivelmente satisfeito com a afluência de crianças, convidou-as a subir os degraus do altar para rezarem juntos a oração dos filhos de Deus. Algumas responderam ao convite, e o altar encheu-se de crianças. A Sara bem tentava espreitar por detrás do altar, mas a sua baixa estatura não lhe permitiu grande visão! De mãos dadas, transbordantes de alegria, elas rezaram: “Pai Nosso, que estais nos céus…”

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Mas foi durante a comunhão, quando Jesus Salvador entrou no meu coração, que me deixei tomar totalmente pelas suas Palavras:

 

“Deixai vir a Mim as criancinhas, não as impeçais,

porque é delas o Reino dos Céus!”

(Lc 18, 16)

 

De repente, apeteceu-me rir e chorar ao mesmo tempo, emocionada perante a quantidade de crianças que se aproximaram do altar para receber Jesus, ou simplesmente serem abençoadas, em seu nome, pelo sacerdote. “Deixai vir a Mim as criancinhas…” E de um momento para o outro, fui libertada daquela sensação de pânico. 64 crianças? Podiam ser muitas mais! Se é Jesus quem as chama; se é Jesus quem nos dá esta ordem clara de não as impedir de caminhar ao seu encontro, por que hei de ter medo?

Recordei-me das bilhas de barro à porta da igreja apontando para o essencial: cada criança é uma pequena bilha que o Senhor nos confia, para que nela derramemos a sua Água Viva até transbordar! Quantas bilhas confiou o Senhor a cada um de nós?

Na nossa casa, são seis. No retiro foram 64… O Senhor tem-nos vindo a revelar, pouco a pouco, a sua vontade para este movimento nascente que são as Famílias de Caná. Uma das suas surpresas tem sido o espantoso número de crianças que levamos a Jesus em cada retiro e em cada encontro, e a abertura magnífica ao dom da vida – também através da adoção e do acolhimento de crianças - que as Famílias de Caná vão experimentando nas suas casas, à medida que crescem em proximidade com o Senhor. Uma igreja ou uma casa a transbordar de crianças é um dos mais belos sinais de esperança no nosso mundo!

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O dia foi pleno, profundo e belo. Conversando no carro, a caminho de casa, o Niall e eu sentimo-nos felizes por não termos colocado entraves à obra do Senhor, limitando o número de crianças. Deus gosta de multiplicações!

Mais tarde vim a saber que naquele mesmo domingo, no encerramento do VIII Encontro Mundial das Famílias em Filadélfia, no qual estiveram presentes mais de um milhão de fiéis, o Papa Francisco dizia: "A ação de Deus no nosso mundo ultrapassa a burocracia, o oficial e os círculos restritos. Deus quer que todos os seus filhos tomem parte na festa do Evangelho.”

Que as Famílias de Caná sejam a ilustração viva das palavras inspiradas do nosso Pastor! Ámen.

 

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Um tesouro

por Teresa Power, em 29.09.15

Há tanta coisa para contar sobre o nosso fim-de-semana de missão, e tenho tão poucos minutos disponíveis para o fazer em cada dia! Terei de repartir tudo o que me vai na alma por vários posts. Hoje vou falar-vos de amizade.

Diz o Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico):

 

"Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele." (Sir 6, 14-17)

 

Durante este fim-de-semana, a nossa família pôde experimentar a verdade de todas e cada uma destas palavras.

Quando o Senhor nos chamou para, a partir do nosso testemunho, derramar sobre a Igreja a grande graça das Famílias de Caná, estávamos muito longe de imaginar que um dia teríamos amigos espalhados um pouco por todo o país. Há dois anos atrás, teríamos dado uma gargalhada se nos dissessem que dentro de pouco tempo iríamos dormir - os oito ao mesmo tempo - numa casa em Cascais, ou em Proença, ou em Viana, ou em Neiva, e que até tínhamos boas perspetivas de poder visitar o Algarve! A verdade é que os amigos que recebemos das mãos do Senhor, através das Famílias de Caná, têm sido para nós uma bênção, uma poderosa proteção, um verdadeiro tesouro, um bálsamo suave, nas palavras da Bíblia. Deus não mente: os que temem o Senhor serão abençoados com amizades leais, daquelas que fazem bem à alma e nos reconfortam no mais íntimo do nosso ser.

Passámos o nosso fim-de-semana de missão entre amigos. Alguns destes amigos já vão sendo conhecidos de todos vós, através dos seus próprios blogues (as hiperligações estão na coluna direita deste blogue): a Família Almeida, a Família Batista, a Bruxa Mimi, a Marisa. Outros (ainda) não têm blogue, mas conheceram-nos através deste nosso blogue, vieram um dia a um retiro e, desde então, a nossa amizade não parou de crescer. A Carmina, o Edu e os seus cinco filhos pertencem a este grupo, bem como o João, a Sónia e os seus três meninos. Os nossos filhos passaram o fim-de-semana a correr e a pular de alegria, aproveitando cada minuto do reencontro com os seus "velhos" amigos, e nós fomos trocando as palavras possíveis entre os muitos afazeres do retiro e do encontro de sábado.

Mas há outro pormenor interessante, e o Niall chamou-me a atenção para ele, durante a nossa viagem:

- Já reparaste como, através do blogue, não fomos só nós a fazer amigos? Olha só para estas duas famílias: antes, eram ilustres desconhecidas, mas através do blogue chegaram juntas a um retiro, e aí nasceu uma amizade para a vida... Só Deus pode fazer um milagre assim!

Durante todo o fim-de-semana não parei de me espantar com esta graça imensa de amizades a gerar amizades, ininterruptamente... Tantas famílias que o Senhor assim uniu em amizade sincera!

À medida que os carros chegavam ao retiro, eu descobria rostos que me eram desconhecidos, mas que me sorriam como se me conhecessem há muito tempo.

- Sou mega-fã do blogue - Dizia-me a Joana. Vinha das Caldas da Rainha, com a sua família e um sorriso lindo. - Que giro que é ver-vos ao vivo!

Eu fiquei a pensar que mais giro é para mim encontrar os leitores deste blogue ao vivo. Ali, na Quinta do Conde, até havia leitores do Algarve!

Quantas vezes, ao escrever um post, me pergunto quem estará "do outro lado" a ler as minhas palavras, e como as receberá, se se sentirá tocado por Deus ou, pelo contrário, ofendido... Quantas vezes escrevo sem pensar muito, segura de que "do outro lado" está um amigo que me compreende, mesmo quando sou trapalhona e não digo bem bem aquilo que queria dizer... Com o tempo, a escrita tem-se tornado mais fácil, porque tenho a nítida sensação de que "do outro lado" já há muitos amigos - sensação que, claro, é acompanhada de certeza, quando recebo os vossos mails pessoais a partilhar um pouco das graças que Deus vos vai oferecendo, através dos retiros e da leitura do blogue. Enquanto fazia os ensinamentos, na Quinta do Conde, e cruzava o meu olhar e o meu sorriso com vários destes leitores, eu experimentei "realmente" esta mesma cumplicidade que vinha intuindo "virtualmente". E que bem me fez!

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 Já passava das sete da noite quando saímos da Quinta do Conde, de regresso a casa. Sobre a Ponte Vasco da Gama, enquanto os meninos enchiam o carro de exclamações e gritinhos de espanto perante tanta beleza, eu agradecia ao Senhor o milagre que representam todos estes amigos, luzinhas a brilhar sobre a ponte da nossa vida, essa peregrinação entre as margens do tempo e da eternidade...

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Mea culpa

por Teresa Power, em 28.09.15

Enquanto faço a minha cama, pela manhã, dou-me conta de uma enorme mancha de cola na colcha.

- David! António! Lúcia! - Chamo, bem alto.

Os meninos aparecem a correr.

- O que foi, mamã?

Aponto para a colcha:

- Quem fez isto?

Silêncio. Olhares cúmplices. Depois, a costumada resposta:

- Eu não!

- Eu não!

- Eu não!

Finjo que não me importo e encolho os ombros.

- Bem, tínhamos combinado ir juntos à loja. Enquanto não souber a verdade, não vamos sair. Claro que, se demorar muito, eu saio sozinha. Agora vão pensar no assunto, e avisem-me quando souberem alguma coisa.

Os meninos afastam-se em silêncio. Alguns minutos mais tarde, a Sara aparece a correr junto de mim.

- Fui eu! Fui eu! Fui eu! - Cantarola ela, aos saltinhos.

- Foste tu o quê, Sara?

- Não sei! Não sei! Não sei! - Responde, sempre muito feliz.

Disfarço um sorriso e ponho o meu ar mais sério. Lá terei de chamar novamente os três meninos... Aparecem a correr:

- Então, mamã, já descobriste quem foi?

- Não, mas já descobri quem NÃO foi. Não foi a Sara, meus amigos. Por favor pensem melhor e decidam-se, que são horas de sair!

Silêncio. Alguns minutos que parecem uma eternidade. Então o António, sempre muito sério, dá um passo em frente:

- Sabes, mamã, eu estive a pensar... Sabes, parece, acho, bem, acho que se calhar, se calhar mesmo, fui eu... Mas olha, não me consigo lembrar!

 

A confissão atabalhoada do meu filho de cinco anos fez-me pensar na quantidade de vezes que encontramos desculpas e procuramos bodes expiatórios para os nossos pecados. É por isso que é tão, mas tão importante a instituição da confissão individual. E não são apenas os católicos que o afirmam: Martinho Lutero nunca deixou de a fazer durante toda a sua vida, e inúmeros psiquiatras, crentes e não crentes, já atestaram o seu poder.

"Por minha culpa, minha tão grande culpa...", rezamos todos os dias na missa, batendo com a mão no peito. Na verdade, assumirmo-nos culpados dos nossos pecados é o primeiro e mais importante passo para acolhermos a misericórdia infinita de Deus. O Rei David, que foi um grande santo, foi também um grande pecador. A ele devemos o magnífico salmo 50, onde David confessa publicamente a sua culpa e, arrependido, pede perdão:

 

"Lava-me completamente da minha iniquidade,

e purifica-me do meu pecado.

Porque eu conheço as minhas transgressões,

e o meu pecado está sempre diante de mim.

Contra Ti, contra Ti somente pequei,

e fiz o que é mal à Tua vista..."

(Salmo 51/50, 2-4)

 

Querido António, hoje a tua confissão foi suficiente. Mas crescer vai significar também seres capaz de assumir a tua culpa e enfrentar o teu pecado sem hesitações... Que o Senhor e eu te ajudemos neste caminho de perdão!

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Fim-de-semana em missão

por Teresa Power, em 26.09.15

Estamos de partida para Cascais, onde iremos dar testemunho de vida familiar na igreja paroquial da Abóboda, às 15 horas. Quem quiser aparecer, nem que seja para nos cumprimentar pessoalmente, seja muito bem vindo! Para nós é uma imensa alegria conhecer os leitores do blogue!

No domingo estaremos então a orientar o Retiro Famílias de Caná na Quinta do Conde, se Deus quiser. Temos muitas famílias inscritas, e uma enorme equipa preparada para trabalhar com os bebés, as crianças, os adolescentes e os jovens participantes. Por questões de espaço, tivemos de fechar as inscrições a meio da semana. Certamente teremos oportunidade de regressar a Lisboa ainda este ano pastoral!

A todos os que vão participar, pedimos pontualidade, coração aberto e muita alegria! O Senhor, e só Ele, fará milagres certamente, como sempre tem feito nestes retiros!

E para que todos possamos estar unidos em espírito de missão neste grande fim-de-semana, sugiro que terminem a leitura deste post com uma pequena oração por cada uma das famílias que irá participar num nestes dias de encontro. Avé-Maria...

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Treinos caseiros

por Teresa Power, em 25.09.15

Em julho passado, a professora de ginástica rítmica da Clarinha emigrou para a Alemanha, deixando as ginastas muito tristes. A federação tem tido alguma dificuldade em colmatar a falta desta professora, pelo que as aulas ainda não recomeçaram. Segundo fomos informados, recomeçarão no dia 1 de outubro.

Mas pode uma ginasta fazer uma pausa de dois meses? Claro que não: duas semanas de férias já equivalem a uma perda muscular significativa, quanto mais dois meses! A Clarinha sabe disso. Assim, durante todo o verão, fez para si própria um horário de treino intensivo e diário. Outro dia encontrei-a a treinar... com um quilo de arroz em cada perna:

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Infelizmente, a ideia não foi assim tão luminosa: um dos pacotes de arroz rebentou, e o resto, teremos nós de imaginar - digo "nós", porque a Clarinha só me contou das suas aventuras depois de ter apanhado o arroz todo!

Quando a Clarinha treina em casa, raramente o faz sozinha. Reparem nesta foto:

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- Conta até dez, Sara, para eu aguentar! - Pedia ontem a Lúcia, espargata aberta no chão da sala.

- Um, dois, tês, nove, quinze, dezasseis... - Contava a Sara, do alto dos seus três anos, muito séria. E depois, ainda mais séria, perguntou à irmã: - Já dói? Já dói?

A Lúcia e a Sara aprenderam que, nos treinos, é preciso aguentar alguma dor...

"É preciso dar até doer", dizia muitas e muitas vezes a Madre Teresa de Calcutá às suas missionárias. Tudo o que não for isso, é simplesmente um despejo de sobras.

A Clarinha adora entrar em competições e sonha em ser treinadora de ginástica. E eu delicio-me a admirar a sua técnica, o rigor dos seus treinos caseiros, a disciplina que impõe a si mesma e às suas pequenas atletas, a capacidade de aguentar a dor e de não desistir.

A mim, ninguém me apanha a fazer uma espargata, claro! Mas ontem, às seis da tarde, olhei para o relógio e lembrei-me de que ainda não fizera o meu quarto de hora de oração silenciosa. De que estava à espera para rezar? Do cansaço extremo da noite? Como a Clarinha, preciso de fazer para mim mesma um horário de "treino intensivo". Marquei quinze minutos? Pois serão quinze minutos, bem contados - e não como a Sara os contaria... Dói, encontrar esse tempo no meio da corrida de cada dia? Dói, mas se não doer, não estou a dar nada ao Senhor.

Diz Jesus no Evangelho:

 

"Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas." (Lc 21, 19)

 

Ensina-me, Senhor, a levar a sério o tempo que Te quero oferecer todos os dias! Do meu "treino diário" dependerá o sucesso das "competições" que preparaste para mim...

 

 

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publicado às 06:17

O argueiro, a trave e os filhos

por Teresa Power, em 24.09.15

Hora de oração familiar. Junto ao Canto de Oração, lemos as leituras da missa do dia.

 

"E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Ou como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o argueiro que está no teu olho, não atentando tu mesmo na trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão." (Lucas 6:41,42)

 

Ainda não acabei de ler, e já as perguntas chovem:

- O que é um argueiro?

- E uma trave?

- Um argueiro é uma coisa pequenina, um grão de poeira, e uma trave é uma coisa grande - Explica o Francisco, solícito.

- Não percebi o que Jesus disse então...

- Quem quer explicar?

A Clarinha aventura-se:

- Quer dizer que, antes de apontarmos os erros dos outros, temos de corrigir os nossos.

- Mas - Intervém o David com ar importante - os pais passam a vida a fazer isso mesmo! Eles zangam-se quando fazemos as coisas erradas, mas eles também fazem coisas más!

O Niall e eu trocamos um sorriso cúmplice. O tema que o David trouxe à nossa discussão não nos é absolutamente nada estranho. Quantas e quantas vezes conversamos entre nós sobre as oportunidades de crescimento que os filhos nos proporcionam!

- David - respondo - Tens toda a razão! Os pais não têm o direito de dizer aos filhos para não gritar, se eles gritam por todo o lado; ou de lhes dizer que não se deve mentir, se eles lhes mentem; ou de os mandar rezar, se não rezam; ou de os obrigar a estudar, se eles fogem às suas obrigações de trabalho!

- Nós sabemos disso - Acrescenta o Niall - E podes ter a certeza, David, que ter seis filhos é uma escola de santidade magnífica! Por vossa causa, para vos podermos educar corretamente, nós sentimo-nos desafiados a corrigir os nossos defeitos.

 

Já depois de os deitarmos, o Niall e eu continuámos a nossa conversa:

- Já pensaste em tudo o que aprendemos graças aos filhos? - Perguntou-me ele.

- Oh, sim! Lembras-te do caos da nossa casa só com um filho? Da nossa insegurança, da nossa incapacidade em atender a várias frentes ao mesmo tempo...

- Nessa altura, também discutíamos por tanta coisa sem importância!

- E perdíamos tanto tempo com futilidades! Ter todos estes filhos obrigou-nos a selecionar muito bem as nossas atividades, leituras, conversas, passatempos...

- Mas talvez o mais importante tenha sido a nossa relação com Deus.

- Sim, foram os nossos filhos que nos desafiaram a construir um Canto de Oração cada vez mais bonito, e sobretudo, foi para os educar na fé que a nossa oração familiar se transformou na rotina maravilhosa que é hoje.

- É verdade... São as suas perguntas, as suas dúvidas, a sua curiosidade que nos lançam na procura das respostas!

- E são eles que, nos dias de maior agitação, nos desafiam: então hoje não rezamos?

- Deus tem formas diferentes de ajudar as pessoas a alcançar a santidade. O sofrimento é uma escola magnífica, o serviço dos outros é outra, a vida sacerdotal ou consagrada outra. A nossa escola é uma família numerosa, que todos os dias nos desinstala, que nos obriga a interromper os nossos trabalhos e o nosso descanso vezes sem fim, que nem sequer nos permite rezar em paz!

- Ninguém se santifica sentado num sofá...

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A grande travessia

por Teresa Power, em 23.09.15

Hora de jantar. Sentados à mesa, conversamos sobre o dia que está a chegar ao fim. Todos têm muitas novidades nestes primeiros dias de regresso à escola. Até o Niall!

- Hoje chegaram à universidade os alunos indianos - Conta-nos ele.

- Indianos? A Índia é muito longe, não é?

- Sim, António, muito mesmo! Fizeram uma longa viagem. Um deles tem apenas dezassete anos, vejam só! Tão novinho, e já tão longe de casa!

- E deve ser tudo tão diferente aqui...

- Sim. Contaram-me que hoje, na sua terra, é a festa de um dos seus deuses. Mostraram-me a imagem e tudo: parece um homem-elefante! É estranho... Conversei um pouco sobre o tema com eles...

- Um homem-elefante?! E eles acreditam mesmo em vários deuses? Isso não foi há muito, muito tempo?

- David, há muito, muito tempo, todos os homens acreditavam em vários deuses. Um dia, Abraão escutou uma voz diferente, a voz de Deus, que ele não conhecia, mas que era tão real, tão bela... Abraão foi o primeiro homem a acreditar no Deus único. A partir daí, o mundo mudou! Mas foi uma caminhada difícil, passar da crença em vários deuses para a adoração do Deus único. Ainda há religiões no mundo que acreditam em vários deuses!

- Não são apenas os Hindus. Há cristãos que também adoram outros deuses, infelizmente!

- Como assim, mamã?

- Por exemplo, o deus-dinheiro. Ou o deus-prazer! Ou o deus-saúde-a-qualquer-preço... Ou o deus-beleza, sucesso, prestígio...

- Isso são tudo deuses?!

- Sim, Lúcia. Se a nossa vida for governada por eles, são!

- Estivemos a falar sobre isso na aula de Francês.

- Sobre deuses, Clarinha?

- Não! - Gargalhadas - Sobre o dinheiro, e sobre os valores bem mais importantes.

Estamos a chegar ao fim da refeição. Penso em Abraão, que deixou o Vale do Ur, penso em Moisés, que deixou o Egito, penso no deserto imenso que ambos precisaram de atravessar para abandonar a idolatria e encontrar a felicidade da adoração do Deus único... Talvez esta travessia nunca esteja feita de uma vez por todas, talvez esta travessia tenha de ser feita por cada geração ao longo da História, talvez esta travessia tenha de ser feita por cada um de nós afinal...

 

"Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor!

Amarás o Senhor com todo o teu coração,

com toda a tua alma e com todas as tuas forças.

E amarás o próximo como a ti mesmo.

Faz isto e serás feliz!"

(Shemá, a partir de Lc 10, 27-28)

Ámen.

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publicado às 06:26

Felizes os pobres que o são no seu íntimo

por Teresa Power, em 22.09.15

De três em três dias, tenho de fazer o penso pós-operatório. Numa destas "agradáveis" sessões de enfermagem, tive uma interessante conversa com a enfermeira que me atendeu. O assunto vinha a propósito:

- Amamentou todos os seus filhos? - Perguntou-me ela delicadamente. Contei-lhe a minha história:

- Amamentei os três primeiros até eles não quererem mais. Tive três filhos sem nunca comprar um biberão! Tudo mudou com a morte do Tomás. O David nasceu três meses depois, e para minha grande tristeza, não tive nem uma gotinha de colostro para lhe oferecer... Quando a Lúcia nasceu, vibrei de entusiasmo perante a perspetiva de voltar a ter um bebé ao peito. Mas não foi assim: durante vários dias, esforcei-me por amamentar, fiz tudo o que pude, aguentei estoicamente as dores mais fortes, vi o peito ficar inflamado, vi a Lúcia chorar de fome, e por fim, desisti.

- Desistiu?

- Percebi que amamentar a Lúcia se estava a tornar numa fonte de angústia e stress totalmente desnecessária. Chorava ela, chorava eu, e isto dia após dia. A única solução era tirar o leite com uma máquina para lhe dar, o que me parecia bem mais arteficial do que dar um biberão de leite em pó, e sobretudo, impossível de praticar numa casa tão atarefada como a minha. Lembrei-me de uma frase que, muitos anos antes, o pediatra me dissera: "A hora da alimentação é a mais importante na vida de um bebé. É mil vezes preferível um biberão tranquilo que uma mama angustiada." Nunca esqueci aquilo... Decidi optar pelo biberão tranquilo. Foi uma experiência belíssima para todos - para mim, para o Niall, para os nossos outros filhos e, acima de tudo, para a pequena Lúcia. Quando o António e a Sara nasceram, eu já tinha feito as pazes com a minha incapacidade de amamentar, e voltei a dar biberão.

A enfermeira respirou fundo. Depois disse-me:

- Nem imagina o bem que me faz escutar isso! Eu estava no serviço de obstetrícia quando engravidei e tive o meu bebé. Eu não só sabia tudo sobre amamentação, como ajudava as outras mulheres a amamentar. Por isso foi uma imensa vergonha para mim descobrir que não era capaz de amamentar o meu próprio filho... Sofri horrores! Quando desisti de tentar, senti-me tão, mas tão envergonhada! Parecia que falhava no mais importante, e percebi que ninguém ali me compreendia.

Ficámos em silêncio durante uns breves instantes. Depois confidenciei-lhe:

- Nunca senti qualquer diferença, em termos de proximidade com o bebé,  entre o ato de amamentar os meus filhos e o ato de lhes dar o biberão, acredita? Sempre fiz ambas as coisas com total concentração, com total amor, com os bebés bem juntinho a mim e sem cair na tentação de delegar esta doce tarefa a outros. O que alimenta um bebé é, acima de tudo, o amor, e esse não é, de todo, uma questão de biologia! Tentámos, esforçámo-nos, esquecemo-nos de nós para servir o nosso bebé - não conseguimos. Aceitámos o nosso fracasso de cabeça erguida, como um ato de amor, e isso é o que importa!

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De regresso a casa, deparei com a cena do costume: os dois gatinhos bebés agarrados à mãe, mamando sofregamente... Parei a contemplá-los, como de costume também. Há poucas coisas mais bonitas na natureza que a visão de uma mãe a amamentar os filhos!

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Enquanto os contemplava, relembrei a nossa conversa. Pensei na mãe de Santa Teresinha, em breve canonizada, que não conseguiu amamentar vários dos seus bebés, e na forma desprendida e prática como sempre contornou a situação, sem frustrações nem lamentações.

Depois lembrei-me então que também eu, quatro filhos atrás, já estivera do lado daqueles que acham facílimo dar o peito e vergonhoso dar um biberão... Foi a minha própria experiência de fracasso, de vergonha, de pobreza, que me tornou mais humana e mais humilde, capaz de entender as experiências de fracasso, de vergonha e de pobreza dos outros.

Ter partos naturais, amamentar com facilidade, engravidar quando se quer são tudo dons gratuitos do Senhor, que Ele concede de acordo com a sua vontade. No entanto, quantas e quantas vezes nos apropriamos deles como riquezas pessoais, ou pior ainda, os associamos à nossa fé, como se fossem algo merecido pela nossa grande santidade, ou como se a sua falta fosse um castigo pelos nossos pecados... Seremos muito mais felizes fazendo as pazes, sorrindo, com as nossas limitações naturais. Ah, como é triste a vida de quem acha que Deus lhe deve alguma coisa!

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero!" Assim rezava a jovem Chiara Luce Badano, perante a doença incapacitante que lhe roubou a juventude. E em vez do dom da saúde, recebeu de Deus o dom de uma alegria perfeita.

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero!" Assim podemos nós rezar também perante a nossa vergonha, o nosso fracasso. E descobriremos que o Senhor tem para nós outros dons que não aqueles que tanto desejávamos - dons que nos irão surpreender, quando os quisermos aceitar...

É a experiência de fracasso e de pobreza que nos permite conhecer a verdadeira felicidade, a felicidade da Bem Aventurança que Jesus proclamou um dia, sobre a montanha:

 

"Bem aventurados os pobres que o são no seu íntimo, porque é deles o Reino dos Céus." (Mt 5, 3)

 

 

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A Sara e o bocadinho (a) mais

por Teresa Power, em 21.09.15

A Sara fez ontem três anos, e a nossa casa está em festa!

Meu Deus, já foi há três anos atrás que ela nasceu... A minha prenda dos quarenta anos! Como cresceu depressa, enchendo a nossa casa de alegria e gargalhadas! Ontem, no fim da missa, teve direito à canção dos parabéns - e o David, claro, também!

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Antes da Sara existir dentro de mim, a nossa vida familiar tinha atingindo um equilíbrio (quase) perfeito. Com cinco filhos, conseguíamos viajar todos no mesmo carro de sete lugares e chegávamos ao fim do mês sem dinheiro, mas também sem dívidas. Além do mais, tínhamos recuperado a tranquilidade do nosso quarto de casal, pois o António acabara de se mudar para o quarto dos rapazes. E que bem que sabia poder voltar a ler na cama sem medo de incomodar um bebé!

Tanta tranquilidade (relativa, claro, porque cinco filhos... não deixam de ser cinco filhos!) deixou-nos incomodados. O Niall e eu sabíamos que eramos capazes de dar um bocadinho mais ao Senhor. Não estaria Ele a bater à nossa porta, esperando de nós um sim alegre?

Foi por isso que nos abrimos conscientemente (embora nunca tivessemos estado fechados) a uma nova vida. E a recompensa do nosso pequeno sim foi esta bela prenda, a nossa querida Sara!

Com o nascimento da Sara, deixámos de caber todos no mesmo carro; já não chegamos ao fim do mês sem dívidas; o cesto da roupa para passar ficou um bocadinho maior; voltámos a ter, por mais um ano, um bebé no quarto e a deitarmo-nos às escuras... Mas em contrapartida, temos mais ocasiões para dar gargalhadas; voltei a passear um bebé no "pano", bem juntinho ao meu coração, que é das melhores coisas da vida; a casa voltou a encher-se daquele delicioso cheirinho a bebé; e voltámos a viver os momentos únicos e absolutamente extraordinários do primeiro passo, da primeira palavra, do primeiro beijo. A Sara foi um bocadinho mais de esforço oferecido ao Senhor; mas foi sobretudo um bocadinho mais de bênçãos que o Senhor nos ofereceu!

 

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Quando alguém me diz: "Agora a nossa vida está perfeita: temos o número certo de filhos, e outro que viesse seria a mais", fico sempre a pensar, num misto de brincadeira e seriedade que, se calhar, é o momento perfeito para... mandar vir outro bebé! É que um sinal claro da passagem de Deus é precisamente uma doce perturbação. Não é isso o que o Evangelho nos diz? Quando o Anjo do Senhor anunciou a Maria a Boa Notícia do Evangelho, diz-nos Lucas que

 

"Maria ficou perturbada, pensando no que poderia significar tal saudação." (Lc 1, 29)

 

Contudo, como o Papa Francisco disse já repetidas vezes, alguns cristãos têm na porta do coração um letreiro a dizer: "Não perturbar"...

Senhor, vem hoje de novo, com o teu sopro, desarrumar a minha vida, despentear os meus cabelos, perturbar a minha falsa paz!

Senhor, que eu não tenha receio das tuas visitas - em qualquer área da minha vida - mesmo as mais inesperadas! Ajuda-me a dar-te sempre "um bocadinho mais", porque qualquer um de nós, teus filhos, é capaz de muito mais do que imagina...

E graças, mil graças pelo dom da Sara, que é mil vezes melhor do que eu o sonhei!

Ámen.

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De cor(ação)

por Teresa Power, em 18.09.15

Hora de oração familiar. O evangelho de hoje, bastante longo, contém alguns dos ensinamentos mais fortes e desafiantes de Jesus. Leio uma primeira vez, pedindo aos meninos que memorizem uma ou duas palavras, de acordo com a sensibilidade do seu coração.

 

"A vós, porém, que me escutais, eu digo: amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te bater numa face, oferece também a outra. E a quem te levar a capa, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar do que é teu, não peças de volta. Assim como desejais que os outros vos tratem, tratai-os do mesmo modo. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Os pecadores também agem assim. E se prestais ajuda somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores prestam ajuda aos pecadores, para receberem o equivalente. Amai os vossos inimigos, fazei o bem e prestai ajuda sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande. Sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste, pois a medida que usardes para os outros, servirá também para vós." (Lc 6, 27-38)

 

- Perdoai! - Grita o António, ainda mal acabei de ler.

- Amai! - Continua a Lúcia.

- Recompensa! O que é recompensa?

- É prémio, António.

- Miseri...miseri...

- Misericordioso. Deus é misericordioso. Significa que Deus é bom para com os bons e os maus.

- E porque é que Ele é bom para os maus?

- Porque é misericordioso, David: Deus não nos ama porque nós somos bons; Deus ama-nos porque Ele é bom! Deus só consegue amar, só consegue perdoar, só consegue ser bom.

- Ah!

- Bem, este Evangelho tem tanta coisa bonita para aprender! Vamos ver se nos lembramos do mais importante. Eu vou voltar a ler algumas partes, e vocês completam-nas. Combinado?

Grande entusiasmo. Ninguém quer falhar. Os meninos ajeitam-se no sofá e são todos atenção. Começo o jogo:

- Amai...

- ...os vossos inimigos! - Respondem quase em coro.

- Falei bem...

- ...dos que falam mal de vós!

- Se alguém te bater numa face...

-...apresenta-lhe também a outra!

- A quem te levar a capa...

-... dá-lhe também a túnica!

- Se te levarem o que é teu...

- ... não te queixes!

- Se amais aqueles que vos amam...

-... que agradecimento mereceis?

- Sede misericordiosos...

- ... como o vosso Pai é misericordioso!

- Não julgueis...

- ... e não sereis julgados!

- Não condeneis...

- ... e não sereis condenados!

- Perdoai...

- ... e sereis perdoados!

- Dai...

- ... e dar-se-vos-á!

- A medida que usardes com os outros...

- ... será usada também convosco!

Todos, dos maiores aos mais pequenos, se atropelam para responder primeiro, com grande alegria. Terminamos o jogo com alegres gargalhadas.

Aprender a Palavra de Deus de cor, bocadinho a bocadinho, com jogos, charadas e brincadeiras, é um caminho seguro para dar cumprimento à Palavra de S. Paulo, que lemos neste mesmo dia:

 

"Habite em vós com abundância a Palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria." (Col 3, 15)

 

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Agora é preciso pôr em prática...

 

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