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Tempos Livres VI - Felicidade

por Teresa Power, em 30.01.16

Termino hoje a "saga" da Clarinha, tal como espero e desejo que tenha terminado cá em casa, e termino esta pequena "série" de posts sobre os tempos livres dos Power. Quem chegar ao blogue aqui pela primeira vez, talvez seja conveniente ler esta sequência de seis posts antes deste!

 

Depois de jantar, na sala, fazemos alguns jogos ou lemos histórias todos juntos. São apenas dez minutos do nosso serão, o suficiente para nos divertirmos em família, antes da nossa oração familiar. Numa destas noites, durante um animado jogo em que o monstro maior da casa procurava agarrar os seus pequenos prisioneiros, que fugiam aos gritos e às gargalhadas, a Clarinha fez uma roda e um pino tão entusiásticos, que atirou para o chão a fotografia do Tomás e a imagem de S. Tiago vinda diretamente de Compostela.

- Clarinha, por favor, sabes bem que a nossa sala é pequena para os teus pinos! - Ralhei. Ela desatou a chorar:

- Mãe, eu não aguento ficar sem fazer ginástica! Eu não sou capaz de passar os dias sem me esticar muito bem esticadinha!

Suspirei fundo e abracei-a.

- Clarinha, podes sempre voltar às aulas de ginástica sem estares em competição...

- Sabes bem que não, mãe. Outras poderão, não eu. As professoras iriam pressionar, porque não me querem perder. Eu ajudo a dar nome ao clube... Não. Não posso arriscar. Além disso, as aulas são iguais para todos, estejam ou não em competição, e deixa-me que te diga... são uma seca! Temos de treinar em silêncio completo, se nos distraímos ou rimos, gritam logo connosco. Não quero isso para mim! Só quero descontrair e divertir-me ao fim de um dia de escola...

- Mas se precisas assim tanto de fazer ginástica, temos de encontrar uma alternativa à ginástica rítmica.

Ela acalmou um pouco, perante os olhares espantados dos irmãos mais novos, que com o aparato, se tinham esquecido de fugir do "monstro". Ouvi o David a murmurar baixinho, abanando a cabeça com sabedoria: "Não entendo nada... Chora por fazer, e chora por não fazer..."

De repente, lembrei-me de uma conversa que tivera há alguns dias com uma amiga.

- Clarinha, disseram-me que no velódromo, ao mesmo tempo que há aulas de ginástica rítmica, também há de artística. É verdade?

- Sim, é. Mas iria ser a mesma coisa, mãe. Quando os treinadores vêem do que eu sou capaz, começam a pressionar.

- Contudo, disseram-me que tu já és demasiado crescida para começar competição agora, em artística. Disseram-me que o professor se concentra nos pequeninos, que vão trabalhar para competir, e vai ensinando os mais crescidos de forma descontraída, sem lhes dedicar demasiada atenção. No fundo, o que tu queres...

No dia seguinte, levei a Clarinha à sua primeira aula de artística. O professor disse-me que, a começar nesta altura do ano, só seria possível se a Clarinha soubesse fazer uma roda, um pino, uma cambalhota... Descansei-o. Depois expliquei-lhe que a Clarinha não tem espírito de competição, e que seria melhor não a abordar sequer sobre tal. Foi a sua vez de me descansar.

Quando a aula terminou, a Clarinha vinha radiante, e o seu sorriso iluminava.

- Então, Clarinha, gostaste?

- Adorei! Podemos conversar e rir enquanto treinamos. Já fiz amigas! Adoro ir ter com as meninas e apresentar-me: "Olá, sou a Clara." É tão bom conviver! O professor nem acreditava, quando eu lhe disse que aprendi a roda sem mãos sozinha, pela internet. Ia ensinar-me o flick, mas descobriu que eu já sei fazer dez seguidos. Na próxima aula ensina-me a fazer um mortal! Fiz uma aranha na trave e não tive medo. Não te preocupes: temos uma piscina de esponjas espetacular por baixo, se por acaso cairmos! - Atirou-se para o sofá, esgotada e feliz. E acrescentou: - Eu adoro ginástica, eu preciso de ginástica, mas a ginástica não é a minha vida. Nestas novas aulas tenho espaço para conversar, rir, descontrair enquanto treino, que é o que eu preciso ao fim de um dia de escola e estudo... Tive um sonho, concretizei-o, já é passado.

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Tenho tido oportunidade de escutar a Clarinha a responder a quem lhe pergunta pelas suas razões de desistência. "Foi a professora?" "Ela não exigia o suficiente de ti, que podias dar mais?" "Ela exigia demasiado de ti?" "Ela era fria?" A resposta da Clarinha tem-me surpreendido: "Não, não saí por causa da professora. Saí por minha causa. A professora fez o que tinha de fazer. Eu é que não estava bem." E uma das maiores alegrias da Clarinha nos últimos dias foi um abraço e um sorriso da sua antiga treinadora (a que a acompanhava mais de perto), que no velódromo lhe estendeu os braços: "Clarinha, parabéns, tens imenso jeito para a artística! O importante é estares feliz."

Às vezes, na cama, a Clarinha chora um bocadinho com saudades das bolas, das fitas, dos arcos, das cordas. Também eu recordo, com alguma emoção, a alegria imensa da Clarinha durante o verão, quando, com o pai, fez a sua encomenda, pela Internet, da bola e da fita mais lindas do mundo, o cuidado que pôs na escolha, a festa que fez ao receber a encomenda... Depois, recordo-me da história de Lot e da sua mulher, habitantes de Sodoma, a cidade pecadora que o Senhor queria destruir. Conhecem o episódio? O anjo do Senhor foi enviado a Lot e disse-lhe:

 

"Foge, se quiseres conservar a tua vida. Não olhes para trás nem te detenhas em parte alguma do vale. Foge para o monte, de contrário morrerás." (Gn 19, 17)

 

Há passagens da Bíblia que só conseguimos entender quando vivemos a sua força. Esta é uma delas. De facto, às vezes é preciso partir sem olhar para trás, para não corrermos o risco de sermos transformados, como a mulher de Lot, numa estátua de sal. Ao longo da nossa vida, Deus irá desafiar-nos a abandonarmos tudo aquilo que nos prende ao mundo, incluindo - sim, incluindo - os nossos próprios sonhos. Porque, se não nos detivermos em parte alguma do vale, em breve alcançaremos o único monte que existirá para sempre, o Coração de Deus...

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Tempos livres V - Competição

por Teresa Power, em 29.01.16

- Mãe, eu não quero mais fazer ginástica - A confissão da Clarinha apanhou-me totalmente desprevenida. Estávamos a falar de que, brevemente, teríamos de investir algum dinheiro num fato de ginástica, pois ela não podia continuar eternamente a competir com fatos emprestados. E estávamos a pensar num como prenda de Natal.

- Mas, Clarinha, o que aconteceu? Não é o que tu mais gostas de fazer?

A Clarinha desatou a soluçar. Eu sabia que ela tinha tido alguma dificuldade em se adaptar à nova treinadora principal (que orientava os treinos principais), mais fria e severa que a professora dos treinos normais, mas estava longe de imaginar tal coisa. Havia, claro, alguns sinais de mal-estar, como uma irritação excessiva nos dias anteriores às provas. E havia alguns comentários desta treinadora que me deixavam um nó no estômago, como por exemplo este: "As meninas que querem ginástica a sério têm de esquecer os tempos perdidos com missas, catequeses, coros e outras atividades", comentário que mereceu da Clarinha um encolher de ombros e uma gargalhada.

Quando, por fim, conseguiu falar, desabafou:

- Mãe, eu adoro ginástica, quer dizer, eu adorava ginástica, mas... Eu detesto competições! Eu não quero ir a mais nenhuma competição.

- E pode-se saber porquê?

- Passo o dia sozinha. Em grande solidão.

- Sozinha? Mas tu passas o dia inteiro rodeada de meninas, a treinar!

- Sim, e esse é que é o problema: estamos todas sozinhas, mãe! Cada qual está a treinar o seu esquema, e ninguém fala com ninguém... Eu bem tento sorrir, eu bem tento falar, perguntar o nome, saber o que mais gostam de fazer, saber a que escola vão ou qual a música que gostam de ouvir. Mas ninguém me devolve o sorriso... Ninguém fala comigo! É horrível!

E a Clarinha soluçou ainda mais. Abracei-a. Começava a entender.

- Clarinha, queres dizer que nas competições as meninas só estão a pensar em ganhar?

- Sim, mãe. Quando cheguei à última competição, a professora apresentou-me a uma menina da sua outra escola. Sabes como me apresentou? Não foi: "Olha, esta é a Clarinha". Foi: "Olha, chegou a tua competição".

- Que queria ela dizer com isso?

- Que eu e ela estávamos a lutar pelo mesmo lugar, claro.

- Mas eu pensei que as competições eram para cada uma se superar a si mesma, não para cada uma superar a outra.

- Também eu... E sabes o que me disse mais, quando acabei a minha prova?

- Sei, tu disseste-me na altura. Ela disse: "Tenho orgulho em ti!"

- Não, mãe, não memorizaste as suas palavras exatas, mas eu memorizei. Ela disse: "Tenho orgulho em te mostrar." É bem diferente!

Não era só o ambiente das competições que magoava a Clarinha. Era também o tempo dispendido com os treinos, e que a professora aumentava progressivamente. Mais horas de treino significavam, para a Clarinha, menos horas a fazer outras coisas também interessantes, como culinária, costura, guitarra, bandolim, brincadeiras com os irmãos, jantares em família. E a Clarinha não tinha a certeza de que o sacrifício valesse mesmo a pena.

A conversa prolongou-se por vários dias e vários treinos. Pedi à Clarinha que não desistisse sem ter a certeza de que o queria fazer. Assegurei-a do que ela já sabia: de que eu não tinha para ela qualquer sonho relacionado com a ginástica, que nunca me passara pela cabeça fazer ginástica ou ter uma filha ginasta, e portanto, ela não me desiludiria desistindo, antes simplificaria a vida de todos lá em casa. E dei-lhe espaço para chorar, pensar, decidir. Assim, durante as férias do Natal, a Clarinha ainda fez um estágio de um dia inteiro e uma competição. A última.

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Finalmente, conversámos com a professora que a acompanhava nos treinos semanais, que foi extremamente compreensiva e ficou tão surpreendida quanto eu. Com muita elegância, procurou encorajar a Clarinha a continuar. Em vão.

- Clarinha, recebi um mail da tua professora, a dar-te os parabéns - Disse-lhe, quando uma tarde a fui buscar ao colégio.

- Parabéns porquê?

- Porque já sairam os resultados da tua última prova... Ficaste em quarto lugar, com uma pontuação de... 9000 pontos! O primeiro lugar teve uma pontuação de 10 250 pontos. Não ficaste longe!

Silêncio. Depois, a Clarinha começou a chorar baixinho. Deixei-a chorar, sabendo que no seu interior as cambalhotas eram muitas.

- Clarinha, não estavas à espera de tanto, pois não?

- Não.

- Sabes que podias chegar a um primeiro lugar um dia, não sabes? Na segunda divisão, claro...

- Sei. A professora disse-me.

- E queres mesmo desistir?

- Não estou na ginástica por causa do pódio.

A decisão estava tomada.

- Clarinha, podemos dizer que foi um final feliz, então! Terminaste em beleza!

Um sorriso. Definitivo.

 

A história da Clarinha não é, claro, a história de todos os meninos que fazem desporto de competição. Não quero, com estes posts, generalizar, nem sobre atletas, nem sobre treinadores, nem sobre clubes. No entanto, nestes dois anos descobri muita coisa que antes desconhecia por completo. Descobri, por exemplo, que são muitas as crianças que detestam as competições e os treinos exagerados que as precedem; que são muitos os treinadores interessados nos atletas como fonte de promoção pessoal ou do clube, e não enquanto pessoas; que é muito difícil resistir às lisonjeiras palavras dos treinadores, convencendo-nos de que a competição é o melhor para os nossos filhos; que são muitos os pais "treinadores de bancada", decididos a fazer dos seus filhos campeões olímpicos - porque se eu me queixo de que a professora exigia demais da Clarinha, outros pais, e relativamente à mesma professora, queixam-se precisamente do contrário... Nestes dois anos, descobri que, como diz o Livro do Eclesiastes,

 

"vaidade das vaidades, tudo é vaidade" (Ecl 1, 2)

 

Penso nos pais que impõem aos filhos atividades desportivas, musicais ou outras, sem se darem conta do cansaço que eles têm receio de exteriorizar, por medo de serem uma desilusão; penso nos pais que projetam nos filhos a realização dos sonhos que não conseguiram realizar, ou pelo contrário, a continuação da educação que receberam em pequenos; penso nos pais que não permitem aos filhos desistir - e me aconselharam a não permitir à Clarinha desistir - porque a adrenalina é uma vitamina que faz crescer.

Penso em Maria de Nazaré, que não percebia as escolhas do seu Filho, mas as aceitava como fazendo parte do grandioso mistério da sua vida e tudo guardava no Coração.

Possamos nós também escutar o que os nossos filhos nos dizem com as suas atitudes, os seus silêncios, as suas lágrimas, os seus risos... Só quando se sentirem escutados, sem julgamentos; só quando sentirem que não nos vão desiludir com as suas escolhas, eles irão abrir-nos o seu mundo interior para que entremos, pé ante pé, descalçando as sandálias porque o terreno é sagrado.

E entretanto, que aconteceu à Clarinha? Não, não ficou sentada no sofá... Olha quem! O final da história amanhã, se Deus quiser :)

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Tempos livres IV - A Clarinha e a ginástica

por Teresa Power, em 28.01.16

A Clarinha tem catorze anos e frequenta o nono ano. Desde pequenina que a Clarinha manifestava um talento especial para ginástica. Com cinco anos, e sem qualquer treino específico, a Clarinha fazia rodas, pinos, espargatas e muito mais. Depois, quando no segundo ciclo teve acesso ao desporto escolar, a Clarinha começou a ocupar as tardes livres de quarta-feira (e só as tardes livres de quarta-feira), no colégio, com ginástica artística. Desafiando-se e superando-se a si mesma continuamente, a Clarinha aprendeu a fazer coisas que, a mim, nem em sonhos me ocorriam. Fazer ginástica assim, sem qualquer outro objetivo senão o superar-se a si mesma e o divertir-se, aproveitando ao máximo as possibilidades que o seu corpo treinado lhe permitia, era para a Clarinha uma fonte de alegria e de força interiores.

Para terem uma ideia das coisas que ela aprendeu a fazer, (re)vejam estes doze segundos de flicks, durante um piquenique na Irlanda, há dois anos atrás:

 

Entretanto, o professor de ginástica da Clarinha saiu do colégio. A Clarinha ficou desolada, pois mais nenhum professor, no colégio, tinha conhecimentos para a fazer evoluir. 

Por outro lado, com o seu tablet a Clarinha tinha descoberto um outro tipo de ginástica que a encantava e a fazia sonhar: a rítmica. Na rítmica não se fazem mortais, nem flicks, nem barras, nem traves, mas dança-se com bolas, fitas, arcos, cordas, e fazem-se espargatas bem mais abertas que na artística.

Foi mais ou menos por esta altura que eu esbarrei com aquele cartaz, à entrada da minha escola: a dez minutos da nossa casa, iam pela primeira vez abrir aulas de ginástica rítmica. A Clarinha  podia concretizar o seu sonho. Peguei num papel e num lápis e rabisquei um número de telefone, e ali mesmo, antes de entrar para a minha aula, fiz o telefonema que lançou a Clarinha na ginástica rítmica.

Quando cheguei a casa, não consegui conter a minha alegria:

- Clarinha, acabo de te inscrever... Clarinha, vão abrir aulas de ginástica no velódromo! Vais poder concretizar o teu sonho!

A Clarinha saltou de alegria. Depois parou:

- Mas, mãe, como vais fazer para me levar e buscar? Tu sempre disseste que as nossas atividades devem ser na escola ou perto de casa, para estarmos independentes... Tens os manos para tomar conta... Vais conseguir?

A Clarinha conhecia as nossas prioridades. Sabia que a sua ginástica iria perturbar o nosso ritmo de vida e nos iria obrigar a algumas acrobacias de logística e tempo. Mas nesse dia, a Clarinha também ficou a saber que, para nós, cada filho é único, cada filho tem as suas características e necessidades próprias, e em nome da sua felicidade pessoal, podemos fazer cedências, abrir exceções, dar algumas cambalhotas e, talvez, fazer alguns mortais.

Durante os dois anos seguintes, a Clarinha teve treinos duas ou três vezes por semana, ao fim do dia, e obrigou-nos a vários ajustes no nosso tempo de família, sobretudo por causa da oração familiar. Como costume, contámos com a colaboração dos amigos, partilhando boleias para os treinos. E tudo se fez.

A dada altura, a treinadora pediu a nossa autorização para a Clarinha entrar em competição, juntamente com várias outras meninas. Depois de me certificar que não iria ter mais do que três treinos de hora e meia por semana, nem ocupar mais do que cinco sábados por ano, aceitei.

Mal sabia eu que, assinando a entrada da Clarinha para o mundo da competição - em que, descobri mais tarde, o objetivo número um deixa de ser a alegria do desporto, para ser o pódio - eu estava a assinar o fim do seu amor pela ginástica. Mas isso fica para amanhã... Por hoje, deixo-vos com o vídeo da sua penúltima competição, em Dezembro:

 

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Tempos livres III - A net, a escola, os cavalos...

por Teresa Power, em 27.01.16

Continuamos a sequência de posts sobre a ocupação dos tempos livres dos Power, e de novo repito que esta é a nossa opção, sem qualquer juizo de valor sobre outras opções de outras famílias felizes!

Os nossos filhos têm muitos e bons amigos, mas já toda a gente sabe: não adianta convidar os Power para dormir lá em casa, porque eles dormem sempre na sua própria casa, a não ser que o convite venha de outro lugar no país, e aí tem de haver uma boa razão... Para nós, o tempo de família por excelência é o fim do dia e o serão, pelo que não sacrificamos estas horas sem uma razão muito forte. Não somos fãs de "festas do pijama"!

Jogos de computador, não temos, nem eles jogam online. Mas vão à net, claro. É com o tablet na mão que a Clarinha faz as suas receitas de bolos e bolachas, ou costura com a sua máquina. Se precisa de alguma ajuda, pedimos a quem domina a arte, com a tia Inês ou a Isabel, madrinha da Lúcia. E tudo se resolve!

Foi também pela Internet que o Francisco aprendeu ilusionismo, vendo e revendo mágicos como Luís de Matos, David Copperfield e outros cujos nomes nem sequer consigo pronunciar. E pela Internet que descobriu como resolver o cubo mágico e como participar em competições. A Internet também lhe oferece ideias e conhecimentos científicos para os seus projetos, que ocupam fins-de-semana inteiros:

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Depois, claro, é preciso aspirar e limpar o quarto - e isso também é ocupação dos tempos livres...

Os mais novos, encorajados pelos irmãos, vão dando os primeiros passos nas suas descobertas. Com a ajuda de livros, vídeos e dos irmãos, aprendem a fazer origamis, a construir objetos interessantes, a desenvolver projetos, a costurar.

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Para todos eles, o tempo livre é sobretudo isso: livre. E porque é livre, é feliz.

- Mãe, amanhã preciso que me acordes às seis e meia da manhã, se fazes favor - Pediu-me o Francisco nas últimas férias do Natal. Ele não tem despertador porque dorme num quarto de três.

 - Ai sim? E porquê?

- Combinei com o João irmos dar uma grande volta de bicicleta. Vou ter com ele a Aveiro de comboio, e o comboio é às sete da manhã. Seguimos de bicicleta para as praias, e regressamos pela hora de almoço. Não te preocupes, já verifiquei o boletim meteorológico, e o tempo vai estar bom.

- Ah... Então está tudo combinado?

- Tudo. Só preciso que me acordes a essa hora.

O resultado desta fantástica liberdade está neste vídeo, que o Francisco publicou a semana passada no seu canal:

Ser capaz de escolher uma madrugada às seis da manhã para um passeio de bicicleta em vez de uma noitada até às seis da manhã numa qualquer discoteca só faz sentido quando se cresce no ambiente correspondente, observando as escolhas felizes dos pais, passando a infância longe de centros comerciais e de noitadas. Não se chega a este nível de liberdade responsável e feliz por acaso... Digo eu, claro!

A Clarinha também adora passear de bicicleta com as amigas que têm autorização para o fazer, e os três mais novos (com exceção da Sara) já dão os seus passeios sozinhos, de bicicleta ou com os cães, ao redor da nossa casa, dentro do nosso campo de visão:

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Brincar em Náturia é a maior fonte de aventuras cá em casa. Mas não se preocupem: há sempre alguém a vigiar, e se não puder ser a mãe, os irmãos mais velhos arranjam forma de o fazer sem perderem o direito ao seu próprio tempo livre. Vejam como a Clarinha contornou a situação!

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Que mais se pode aprender em família, sem recurso a aulas exteriores? A nadar. Nos lagos, nos rios, no mar, vamo-nos desafiando uns aos outros. Um curso intensivo de verão ou, em alternativa, uma aula por semana durante alguns meses, também podem ajudar, mas não substituem a aprendizagem livre em família.

A patinar. Nem o Niall, nem eu sabíamos patinar quando, num Natal há muitos anos, oferecemos ao Francisco e à Clarinha o seu primeiro par de patins. Eles aprenderam sozinhos, e os irmãos aprenderam com eles. Desde então, a diversão é imensa, como podem (re)ver neste vídeo feito no inverno passado:

 

Também não é preciso frequentar atividades extracurriculares para se aprender, por exemplo, a subir e descer do telhado, ou pelo menos do cimo da garagem. Ora vejam só esta arte, filmada há dois anos (e não se assustem, que desde então o David já repetiu a proeza centenas de vezes):

Qual é então o nosso papel enquanto pais? Penso que é sobretudo o de facilitar e encorajar a aprendizagem, estando atentos aos interesses e às necessidades de cada um. Que grande alívio! Não é preciso dominar todos os saberes do mundo para se ser pai e mãe. Eu não sei costurar; origamis, só sei fazer um barquinho; magia, faço alguma, como curar um "doi-doi" com um beijinho, mas nada de mais; a minha ginástica é toda feita enquanto aspiro a casa ou movo vigorosamente os braços a lavar vidros cheios de dedadas e lambidelas... O Niall e eu ensinamos os nossos filhos a tocar guitarra, quando eles manifestam vontade de o fazer, mas a Clarinha aprendeu a tocar bandolim pela Internet. O Francisco gosta de fazer parkour, aprendendo com vídeos do Youtube.

 

E se eles quiserem aprender alguma coisa fora de casa? O Francisco, quase por acaso, descobriu a equitação. Como a atividade acontecia na sua tarde livre e era suficientemente perto para ele ir e vir de bicicleta, encorajámo-lo a tentar. E o Francisco adorou. Andar a cavalo às quartas-feiras à tarde tornou-se para ele uma forma de descontrair e desanuviar da escola, sonhar, desafiar-se a si próprio.

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À hora de almoço e nas tardes de quarta-feira, o colégio oferece atividades como ginástica, xadrez, desportos com bola. Todos os nossos filhos aproveitam a oportunidade, que não rouba tempo familiar e torna alguns recreios da semana mais interessantes. Para a Clarinha, a ginástica artística praticada em desporto escolar, nas tardes de quarta-feira, foi durante anos o momento alto da sua semana.

Assim, as nossas atividades extracurriculares são simplesmente formas divertidas de crescer e de explorar o mundo e o universo, pondo a render os talentos que o Senhor inscreveu em cada um, segundo a Palavra:

 

"A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade." (Mt 25, 15)

 

Um dia, há dois anos atrás, ao entrar na minha escola, esbarrei com um cartaz na porta envidraçada: uma menina pequenina e sorridente fazia uma espargata com uma bola vermelha na mão, vestida com um fatinho de brilhantes... O meu coração deu um pulo no peito. Mas sobre isso, conto-vos amanhã!  

 

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Tempos livres II - Livros e mais livros

por Teresa Power, em 26.01.16

E continuamos na série de posts sobre a forma como os Power ocupam os seus tempos livres. Repito que estou a falar dos Power, não estou a formular nenhuma teoria educativa! Se escrevo sobre a nossa experiência é porque adoro ler sobre as experiências dos outros, em variados blogues e livros, e aprender com elas (eu estou sempre a aprender), pelo que calculo que outros queiram ler e aprender, se acharem bem, connosco.

Uma das maiores fontes de prazer e de liberdade cá em casa são... os livros. Quem entrar em nossa casa a qualquer hora do dia, vai de certeza tropeçar em dois ou três livros logo ali à entrada, porque os mais novos esquecem-se de os arrumar depois de os lerem ou de verem as imagens; e vai encontrar livros na sala, na cozinha, no chão dos quartos, na casa-de-banho, livros no jardim e livros na garagem. Todos os nossos filhos adoram livros.

Uma questão de sorte? Pode ser, claro. Como diz a Pipi das Meias Altas - tenho andado a ler a história à Lúcia todas as noites, capítulo a capítulo, e por isso ela é uma referência constante nestes dias - estamos num país livre, pelo que cada um pode pensar como quiser. Mas eu tenho outra teoria, e como ando em maré de revelar segredos, aqui fica:

Na nossa casa, os livros nunca sofreram concorrência desleal. Refiro-me à televisão, aos jogos de vídeo e de computador, aos telemóveis, aos tablets e a tudo o que as crianças desde muito pequeninas manuseiam para terem acesso a aventuras e histórias. Todos os professores sabem que hoje, para conseguirmos a atenção das crianças, precisamos de estímulos constantes de som e imagem. Para quem cresce num ambiente altamente estimulado sensorialmente, um livro é mesmo uma grande sensaboria!

Com a televisão desligada e sem jogos de computador, "livros", cá em casa, significam aventuras, histórias, suspense, enredo, alegria. Aliás, não só significam, como são mesmo essenciais para uma viagem ao mundo da ficção, visto não haver alternativas. Os meus filhos gostam do cheiro dos livros, de virar as páginas, de os meter na mochila e os levar para a escola, para ocupar os "tempos mortos" em sala de aula.

Mas "livros" significam ainda outra coisa: significam tempo de família, tempo de carinho, tempo de atenção privilegiada dos pais. Através da leitura partilhada, cumpre-se também a Palavra do Senhor:

 

"Farei com que o coração dos pais se aproxime dos filhos, e o coração dos filhos se aproxime dos seus pais..." (Ml 3, 24)

 

De facto, desde muito pequeninos que os nossos filhos têm direito a pelo menos uma história por dia. Uma história contada enroscados no sofá ao colo dos pais, ou junto da lareira, ou no jardim, ou sob os cobertores da cama, ou à volta da mesa acompanhada de um chocolate quente. Nunca, para nós, os livros foram uma obrigação (bem, com exceção de Os Maias, leitura obrigatória no secundário, que o Francisco, muito embora o 18 a Português, ainda não leu por inteiro); pelo contrário, os livros são uma recompensa: "Se arrumares depressa o quarto, leio dois capítulos da Pipi em vez de um!" "Hoje foste tão lindo, ajudaste tanto a mãe, que tens direito a uma longa história antes de dormir!"

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E não, não deixamos de contar histórias em voz alta quando os meninos aprendem a ler. Continuamos a fazê-lo até eles o desejarem, geralmente por volta dos doze anos. Todas as noites? Sim, todas as noites (ninguém disse que alimentar o gosto pela leitura não dava trabalho!): uma história para a Sara, outra para o António e a Lúcia, outra para o David, pois as idades e os interesses são diferentes. E não julguem que os mais velhos já não gostam de ouvir histórias: a Clarinha pousa tudo o que está a fazer para escutar a Pipi, ou a Heidi, ou a Casa na Pradaria, ou a Anne of Green Gables, ou a Princesinha, ou o Pequeno Lord que nós lemos aos mais novos, e até o Francisco tira os auscultadores dos ouvidos quando repara que todos nos rimos à gargalhada com um episódio.

- Oh, mãe, tenho de lavar a loiça agora? Mas tu vais ler a Pipi! Eu queria ouvir! - Disse-me ontem a Clarinha, quando acabámos de jantar.

- Conta lá outra vez como é que o gato que ensinou a gaivota a voar apanhava as moscas! - Pedia o António ao pequeno-almoço.

- Deixa-me contar-te o que lemos ontem na Casa na Pradaria - Diz-me o Niall, às vezes, ao deitar. E vai buscar o livro, que deixou na mesa de cabeceira do David, para me reler uns parágrafos. Também nós parecemos duas crianças, entusiasmados com as histórias que contamos filho após filho até quase, quase as conhecermos de cor. Como em tudo o resto, o Senhor recompensa o nosso esforço dando-nos doses abundantes de verdadeiro prazer nas leituras que partilhamos com eles.

 

Com tanta carga emotiva associada, é natural que os livros sejam muito amados cá em casa. Para mim - digo-o com humildade, mas com convicção - não me surpreendem cenas como estas, várias vezes ao dia:

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Os nossos serões são, às vezes, bastante silenciosos:

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E como já contei neste blogue,há dias em que estou tão ocupada a trabalhar ao computador, durante o meu serão, que me esqueço das crianças que deixei a ler na minha cama. Ena, já passa da sua hora de dormir, e ainda ali estão!

Que livros lemos? Sobre isso, já escrevi vários posts, e podem recordá-los com a tag "livros". Não, não lemos tudo o que se publica, e há livros que não entram cá em casa. Sim, fazemos censura :) Mas a boa notícia é que entre os livros bons há suficientes para encher uma vida, segundo a minha própria experiência.

Hoje - e como professora ouço isto quase todos os dias - a grande maioria das crianças e dos jovens não gosta de ler e só lê por obrigação. Dizem-me que gostos não se discutem. Aceito que haja algumas crianças que não gostem de ler, como há crianças que não gostam de ver televisão ou de comer chocolate. Mas estou convencida de que, com outro tipo de abordagem familiar, essas crianças - que existem - seriam uma minoria. Se quiserem discordar de mim, têm de o fazer - para a discussão ser justa - nos mesmos termos que eu o fiz, ou seja: apresentem-me uma criança que ouça histórias, grandes histórias, desde pequenina, todos os dias, envolta em paciência e carinho, até cerca dos doze anos, sem concorrência (desde a primeira infância) da televisão, do tablet, do computador, e mesmo assim não goste de ler. Então eu aceitarei a derrota...

 

Mas será que os nossos filhos não vão à internet, como todos os outros? E não frequentam qualquer atividade extracurricular? Amanhã continuamos

 

 

 

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Tempos livres I

por Teresa Power, em 25.01.16

Outro dia, ao ler alguns comentários no post sobre a nossa festa das Bodas de Caná, apanhei um valente susto: será possível que haja por aí leitores convencidos de que a Clarinha aprendeu comigo a costurar e a cozinhar? Bem, fico muito lisonjeada que tenham pensamentos tão positivos sobre os meus talentos, mas... a sério que acreditam nisso??? Não, a Clarinha não aprendeu comigo. E também não treina ginástica duas horas por dia, ou sequer todos os dias, como alguém me perguntava no retiro de Natal. Socorro! Andam por aí muitas ideias erradas sobre a ocupação dos tempos livres dos Power, e porque eu gosto da verdade acima de tudo, decidi escrever uma semana de posts sobre o tema. Preparem-se!

Nunca o fiz até agora, porque não é objetivo deste blogue a discussão das diferentes perspetivas de educação,  e porque em matéria de educação não me considero mais "expert" que qualquer de vós. Como dizia John Wilmot - e eu posso assinar por baixo - "antes de casar, tinha seis teorias sobre educação e nenhum filho; hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria."

De qualquer forma, achamos importante explicar os nossos princípios, sabendo à partida que muitos discordarão deles. Mas porque são um dos pilares da educação dos Power, vou tentar apresentá-los por tópicos, algo que me obrigou a alguma reflexão, pois nunca antes pensei neles de forma tão sistematizada.

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Aqui ficam:

- Nenhuma atividade extracurricular dos nossos filhos os deve fazer passar fora de casa mais tempo do que o que passam connosco, em família. De outra forma, correm o risco de serem educados mais pelos professores e treinadores do que por nós.

- Nenhuma atividade extracurricular os pode ocupar, por norma, ao fim-de-semana e muito menos impedir-nos de irmos à missa todos juntos, em família. Sem o nosso "tempo de família", não seríamos a família unida e feliz que hoje somos.

- Nenhuma atividade extracurricular lhes pode roubar o seu direito inalienável a brincar e a... não fazer nada. O ligeiro aborrecimento de uma criança desocupada, quando acompanhado por algumas palavras de encorajamento dos pais, é o furo na rocha que permite fazer jorrar a fonte da criatividade.

- Nenhuma atividade extracurricular é imposta pelos pais, e ninguém desilude os pais por desistir do que quer que seja.

- Nenhuma atividade extracurricular começa antes dos oito, nove anos, ou seja, antes da criança demonstrar uma vontade específica de experimentar alguma coisa, e antes da criança ter tempo para brincar, brincar, brincar e... brincar.

- Aliás: nenhuma atividade extracurricular é mais importante do que brincar.

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Não, não há competição de basquetebol mais importante que... isto:

E não há competição de ginástica mais importante que... esta, filmada na nossa sala há dois anos atrás:

Não partilhamos a crença de que as crianças trabalham melhor sob stress, ou de que há linguagens, como a música, que é mesmo preciso aprender em profundidade, ou que a única alternativa à televisão é não ter tempo para ela, ou de que os banhos de adrenalina das competições melhoram a personalidade.

Também não achamos que o papel do pai ou da mãe seja fazer de motorista dos filhos, correndo de atividade em atividade para que eles aprendam tudo a que têm direito - há tanta coisa que podem aprender em casa, e que devem aprender em casa!

Por outro lado, e no outro extremo, rejeitamos o papel de professores ou de treinadores dos nossos filhos (tentação que um professor por profissão tem de continuamente combater) por uma razão, para nós, bastante evidente: os nossos filhos têm a oportunidade, na vida, de ter os mais variados professores e treinadores, aprendendo com cada um e crescendo com cada um - quer por empatia, quer por rejeição; mas pais, os nossos filhos só têm dois. Quando os pais se assumem também como professores ou treinadores (não falo de vida ou de fé, mas dos saberes do mundo, claro), correm o risco de serem rejeitados como pais, se por acaso vierem a ser rejeitados como professores ou treinadores. Em que ombro irá então a criança chorar para se queixar do excesso de trabalhos de casa ou da dureza do treino?...

Espero não desiludir demasiado alguns leitores ao afirmar, humildemente, que não tenho outras provas em defesa de todos estes princípios senão o reino de Náturia e seis filhos felizes. Acredito que haja muitos outros filhos felizes com outros princípios, claro. Estes são os princípios dos Power, não os princípios das famílias felizes, ou das famílias católicas, ou das Famílias de Caná. Os próximos posts  vão ser uma partilha singela do que, filho a filho, ano a ano, prece a prece, fomos descobrindo. A nosso favor, temos apenas uma vontade muito grande de nos aperfeiçoarmos continuamente como família. Em nossa casa, não conhecemos a frase: "Sempre se fez assim, e pronto." Preferimos a Palavra da Sabedoria:

 

"A sabedoria facilmente se deixa ver por aqueles que a amam, e encontrar por aqueles que a buscam. Antecipa-se a manifestar-se aos que a desejam. Quem por ela madruga, não se cansará; há de encontrá-la sentada à sua porta. Pois ela própria vai à procura dos que são dignos dela e vai ao encontro deles, em cada um dos seus pensamentos. O princípio da sabedoria é o desejo sincero de ser instruído por ela, e desejar instruir-se é já amá-la." (Sb 6, 12-16)

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 Até amanhã!

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Os trava-línguas da Bíblia e as histórias do Rei David

por Teresa Power, em 21.01.16

Gostam de trava-línguas? Experimentem este, retirado textualmente do Evangelho que lemos na missa diária há uns dias atrás:

 

"Os discípulos de João guardavam jejum. Vieram perguntar a Jesus: «Por que motivo jejuam os discípulos de João e os teus discípulos não jejuam?» Respondeu-lhes Jesus: «Podem os companheiros do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles?»" (Mc 2, 18-22)

 

Se conseguirem ler todos os "j" como deve ser, e ler "Jesus" com "s" e não com "j" no meio também, estão de parabéns! Cá em casa, bem nos esforçámos por ler direitinho o Evangelho, mas não tivemos êxito. Fomos passando a leitura de uns para os outros, e as gargalhadas já eram tantas, que desistimos.

- Ah, então os judeus jejuam com João, mas não jejuam com Jesus! - Dizia o Francisco, brincalhão, no meio da festa.

- E quando Jesus partir, jejuarão - Acrescentava a Clarinha, também muito divertida.

Sim, cá em casa brincamos com a Bíblia, com todo o respeito que a nossa inocência e a nossa simplicidade nos permitem. Deus tem um grande sentido de humor, e gosta da nossa alegria! Depois de um trava-línguas tão engraçado, nenhum de nós se esquecerá desta passagem...

E os nomes? Já repararam na abundância de nomes que as leituras da missa diária ultimamente nos oferecem? Elcana, Fenena, Abiatar, Eliab, Aminabab... Quando os lemos cá em casa, não evitamos uma gargalhada. E às vezes, para os meninos estarem com atenção, fazemos o jogo: "Quem consegue memorizar os nomes na leitura que vou fazer?"

Bem, e ainda nos podemos divertir com os pormenores de alguns episódios. Há poucos dias lemos como Saul se tornou rei enquanto procurava as suas jumentas, ontem lemos como David venceu Golias com uma fisga, e agora, preparem-se, vêm aí os episódios mais divertidos, de como David poupou Saul à morte (não vos conto como foi, mas digo-vos já que vale a pena descobrir) e como Absalão foi morto. Cá em casa, estes episódios fazem furor!

Enfim, de brincadeira em brincadeira, de jogo em jogo, vamos memorizando a Palavra de Deus. Depois, com todo o respeito, beijamo-la, e colocamo-la de novo no Canto de Oração. E conversamos longamente sobre ela.

Tudo isto para vos dizer: não percam as histórias do Rei David, que todos os dias as leituras da missa nos oferecem, neste início de ano! David foi um grande santo, mas também um grande pecador. Disse o Papa Francisco ontem, na homilia, que David nos ensina esta grande verdade: "Não há santo sem passado, não há pecador sem futuro." David pecou muito, mas arrependeu-se muito também, chorou o seu pecado até ao fim da sua vida, e aceitou como merecidos todos os seus infortúnios. Longe de desbaratar a graça recebida, David lavou o seu pecado na misericórdia de Deus e mudou radicalmente o seu caminho. Profundamente humilde, louvou e amou a Deus como poucos. E talvez com exceção de Moisés, não há no Antigo Testamento personagem mais querido do Senhor.

Possa a nossa "telenovela" diária ser a Palavra do Senhor, no meio de alegria, de brincadeira, de oração, de meditação, de muita e profunda conversa! Nos serões familiares, com os mais novos ao colo, imitemos os passarinhos que levantam voo em bando, uns atrás dos outros, uns protegendo os outros, uns puxando pelos outros... em direção ao Coração de Deus...

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Trabalhar de graça?

por Teresa Power, em 20.01.16

Aula de Inglês. Turma de sétimo ano, muito simpática e participativa. Há vários anos que não tinha tanto prazer em dar aulas a uma turma.

- Meninos, amanhã quero este trabalho terminado - Digo, pouco antes do final da aula.

- Professora, não vou conseguir, porque hoje tenho catequese - Diz um rapazinho.

- Catequese? Quem é que ainda vai à catequese?! - Desafia um colega. Gargalhada geral, apenas quebrada pelo silêncio incomodado do colega.

- Foi um comentário pouco apropriado, João - Intervenho eu. - Certamente que não gostarias que eu, ou outro colega, falássemos assim nesse tom sarcástico sobre uma atividade de que tu gostes. Por exemplo, sobre o futebol...

- Mas pelo menos os futebolistas ganham dinheiro - Responde outro aluno, lá do fundo da sala.

- Ora, e os catequistas também! - Atalham logo dois ou três.

Grande burburinho. A campainha está quase a tocar, mas é preciso esclarecer este ponto. Bato na mesa para repor a ordem, e finalmente consigo que me escutem:

- Não há nenhum catequista que receba dinheiro por dar catequese. Todos o fazem gratuitamente.

- Como é que sabe? Claro que ganham dinheiro! Ninguém trabalha sem ser por dinheiro!

- Achas mesmo?

- Olha se calhar a professora é catequista! É?

- Sou.

- E não ganha dinheiro?! Então por que é que dá catequese?

A campainha toca, e todos se levantam para sair. Fico incomodada com o diálogo que acabo de ter... Já não é a primeira vez que refiro isto aqui no blogue. Aos doze anos, eu sonhava em ser muita coisa: cantora, missionária, escritora, assistente social, professora, pintora... Se pensava em ganhar dinheiro? Que detalhe tão sem graça quando se é criança! Ganhar a vida, ganhar dinheiro é muito pouco romântico nesta idade.

Talvez eu me tivesse interessado mais por dinheiro se tivesse sentido a sua falta, ao crescer. É compreensível que quem passe por graves necessidades na infância, equacione tudo em torno do dinheiro. Mas não é o caso na turma em questão, nem no aluno em questão.

De onde vem, pois, esta febre de ter, de ganhar, de gastar? Que vêem as crianças em casa, que preocupações escutam nas palavras e nos silêncios dos pais, que programas de televisão invadem os seus sonhos, que canções atacam o seu mundo interior? Como ocupam os nossos jovens os seus tempos livres? Estarão eles a brincar o suficiente? Não estarão os adultos a levar as crianças vezes demais aos centros comerciais, onde tudo custa dinheiro e nada se faz sem dinheiro? Não estará o tempo em família, dos fins-de-semana às férias, demasiadamente dependente do dinheiro? Que fizemos nós da criatividade, da alegria, da simplicidade, da inocência?...

Ah, tantas perguntas a que todos sabemos responder...

Não, os catequistas não ganham dinheiro. A hora de catequese semanal que oferecem é roubada ao seu tempo de lazer, ao seu direito ao descanso, às suas horas de sono. Compensa? Às vezes sim, outras não. Já vi catequistas encantados com o progresso das suas crianças, e já vi catequistas totalmente desmotivados com a falta de atenção, interesse e, até, educação dos meninos. Eu já me incluí em ambos os grupos...

Então, se não ganham dinheiro, se nem sempre compensa, por que raio é que são catequistas??? Os meus alunos têm a sua razão ao perguntar!

Na semana passada, lemos na nossa hora de oração familiar a história do chamamento de Levi. O momento, de um extraordinário dramatismo, capaz de transformar um simples publicano em Apóstolo Evangelista e Santo aclamado em toda a História da Igreja, está condensado num único versículo:

 

"Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança e disse-lhe: «Segue-Me.» Ele, levantando-se, seguiu Jesus."

(Mc 2, 14)

 

Só quem alguma vez experimentou na sua vida o poder do chamamento de Jesus, o magnetismo do seu olhar, a força da sua voz, consegue entender passagens como esta. E consegue entender por que razão um catequista não desiste e não recua, semana após semana.

Não, querido aluno. Não é por dinheiro: é por amor...

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E vivam as Bodas!

por Teresa Power, em 18.01.16

O dia amanhece cedo, como sempre, mas desta vez, acordo os meninos com um "refrão" diferente:

- Levantem-se, filhos, hoje é o dia das Bodas de Caná!

Na verdade, este ano, o Evangelho do Domingo Segundo do Tempo Comum é o Evangelho das Bodas de Caná, e há que celebrar.

Pouco a pouco, todos aparecem na cozinha.

- Vamos começar a festa com panquecas? - Pergunta o David, muito prático.

- Claro. O pai já está a fazê-las. Se te despachares, ainda vais a tempo de ajudar!

 

Segue-se a alegria das Bodas de Caná verdadeiras, as mais completas, aquelas em que o vinho novo, o vinho bom, o vinho guardado para o fim, se torna no Sangue do Cordeiro Imolado: as Bodas da Eucaristia. Foi para que pudéssemos viver a alegria destas Bodas que Jesus deu a sua Vida, na Cruz! E pensar que um mistério tão imenso está ao alcance de qualquer cristão, na igreja mais próxima de sua casa! Qualquer cristão, não: há no mundo irmãos nossos que têm de caminhar quatro horas pelo mato para encontrar uma igreja, ou que têm de celebrar a Eucaristia às escondidas, no meio da noite. Nós somos uns privilegiados, e fazemos tão pouco caso dos nossos privilégios!...

Durante a Eucaristia, trocamos olhares cúmplices com as outras Famílias de Caná. Todos nos sentimos verdadeiramente felizes por podermos partilhar este momento...

Regressamos a casa, com o entusiasmo próprio dos dias de festa. Para o almoço, temos pizza, a pedido da maioria:

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 E depois, enquanto o pai e a mãe arrumam a cozinha, os filhos preparam o teatro das Bodas de Caná. Que grande festa fazemos! Cantamos, dançamos, batemos palmas, e finalmente, as Bodas:

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 - Oh, já acabou?

- Foi curtinho, Sara, este texto é mais rápido que o do Natal...

Um ar amuado:

- Posso ficar com o vestido?

- Claro!

- Mas convém tirar antes de ajudares a fazer os bolinhos!

Sim, porque a festa ainda não terminou... Cá em casa, temos a bênção de ter uma Clarinha especialmente dotada para a doçaria, arte que não herdou da mãe!

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 E depois do lanche, jogamos cartas. Lembram-se do jogo "House" que jogámos nas nossas férias? Os meninos não o esqueceram e, de vez em quando, repetimos a dose! Não exige grandes quantidades de tempo, e dez minutos de "House" são suficientes para proporcionar alegres gargalhadas:

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Depois das cartas, o pictionary. Mais gargalhadas!

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 Não julguem que é fácil adivinhar o significado dos rabiscos da Sara, do António, e especialmente, bem... da mãe!

 Lá fora, há frio e chuva. Mas cá dentro, brinca-se sem parar. Até o pai e o Francisco jogam dardos na garagem. A Clarinha precisa de estudar um bocadinho, e vem ter comigo, de livros na mão:

- Há algum lugar nesta casa em que eu possa trabalhar?

É nestes momentos que as chaves dão jeito:

- Clarinha, tranca-te no escritório e não abras a porta aos manos até acabares! Entretanto, e para estares sossegada, vou contar-lhes uma história.

Há poucos momentos mais cobiçados cá em casa que aqueles em que nos sentamos no sofá de livro na mão. Hoje cabe à Lúcia o direito a escolher a história.

Uma das vantagens de se terem vários filhos é que a brincadeira precisa de nós apenas em pequenas doses. A dose maior é sempre entre eles! Assim, durante a tarde, e aos bocadinhos, vou trabalhando no novo site Famílias de Caná, que está quase, quase pronto...

À noite, antes de dormir, a Lúcia tem uma coisa para me dizer:

- Depois dos dias dos retiros e das festas de anos, este foi o melhor dia!

E o melhor dia ainda não está terminado para os mais velhos. Ainda falta a hora de oração paroquial, diante do Santíssimo, no Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora. É aí que Maria, como em Caná, nos diz:

 

"Fazei tudo o que Ele vos disser!" (Jo 2, 5)

 

E é isso mesmo o que queremos fazer.

Um grande abraço a todas as Famílias de Caná, as que conhecemos e as que o são no seu coração, sem que nunca nos tenham dito! Que a todas, o Senhor abençoe! Ámen!

 

 

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Bodas de Caná

por Teresa Power, em 14.01.16

O Evangelho do próximo domingo vai ser um dia de festa em grande para todas as Famílias de Caná, certamente celebrado com muita alegria, com bolos, com representações teatrais em família e muitas outras surpresas... Sim, estamos a falar das Bodas de Caná!

Foi precisamente enquanto Família de Caná que fomos convidados a gravar o nosso testemunho da prática diária desta Boa Notícia. A paróquia do Monte Abraão, em Sintra, tem um belíssimo projeto de evangelização online: iVangelho.com, em que semanalmente, o evangelho dominical é explicado e meditado por um sacerdote ou leigo e disponibilizado no YouTube, numa linguagem acessível e juvenil.

O nosso maior desafio foi condensar em quatro minutos a nossa vivência das Bodas de Caná. Quando, nos dias anteriores à gravação, conversávamos entre nós sobre o tema, era difícil parar a conversa, e as ideias atropelavam-se sem fim... Outro grande desafio seria falarmos um com o outro em português, algo que nunca acontece em nossa casa. De facto, o Niall e eu conversamos sempre em inglês. O Niall, em especial, sentia-se muito hesitante em fazer esta gravação, pois não gosta de falar em público, e muito menos diante de câmaras.

No dia do Retiro do Natal, a equipa do iVangelho foi ter connosco a Fátima, imaginem! Conhecemos o padre Abel Ferreira e a família que está por detrás desta grande iniciativa, todos simpatiquíssimos, de uma humildade e alegria contagiantes. Foi bom conversarmos um bocadinho sobre os diferentes projetos de evangelização que todos temos em mãos, e partilharmos ideias e esforços. À hora de almoço gravámos o nosso mini-testemunho. No final sentiamo-nos muito orgulhosos por só terem sido necessários dois "takes"!

Esta noite, o vídeo que gravámos foi publicado online. Vimo-lo depois da nossa oração familiar, e enquanto os filhos riam à gargalhada, o Niall quase chorava, jurando que nunca mais o apanham noutra. Não é nada fácil falar para uma câmara de filmar, acreditem!

Sejam benevolentes com a nossa falta de jeito cinematográfico, e limitem-se a escutar a mensagem que as palavras, os sorrisos, os gestos e a própria falta de arte procuram transmitir. Sobretudo, que o nosso exemplo vos convença de o Reino de Deus vale todos os esforços, mesmo correndo o risco de parecermos ridículos... como o Rei David. Conhecem o episódio?

O Rei David estava felicíssimo por ter recuperado a famosa Arca da Aliança, e dançava sem parar diante do cortejo comemorativo. Então...

 

"... Mical, a filha de Saul, vendo pela janela o Rei David, que bailava e saltava diante do Senhor, desprezou-o em seu coração. (...) Mais tarde disse-lhe: «Que bela figura fez hoje o rei de Israel, dando-se em espetáculo às servas de seus vassalos, e descobrindo-se sem pudor, como qualquer homem do povo!» Mas David respondeu: «Foi diante do Senhor que dancei, do Senhor que me escolheu e me preferiu a teu pai e a toda a tua família, para me fazer chefe do seu povo de Israel. E bailarei ainda mais, e me aviltarei aos meus próprios olhos.»" (2Sm 6, 16.20-22)

 

Desejamos sinceramente que a nossa atrapalhação cinematográfica não tenha atrapalhado o belíssimo trabalho desta valente equipa do iVangelho. 

Possamos todos, este domingo e sempre, oferecer ao Senhor as bilhas do nosso esforço, para que Ele as converta no Vinho Novo do seu amor. Ámen!

 

 

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