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Tempo ganho e tempo desperdiçado

por Teresa Power, em 29.05.15

- António, hoje vou buscar-te à escola antes do almoço porque temos de ir a Coimbra.

- Ao dentista?

- Sim, ao dentista.

O António tem um problema de ortodôncia que está a ser corrigido no Hospital de Coimbra. Assim, de mês a mês, o Niall ou eu levamo-lo à consulta.

- Que bom! Gosto tanto de ir ao dentista de Coimbra!

- E porquê? - Quis eu saber. Pensei que fosse pela simpatia da médica, ou pela ausência de qualquer dor nos tratamentos. Tudo isso ajuda, claro, mas a razão é outra:

- Por causa da viagem!

Fui buscá-lo às onze horas. O António entrou no carro, e de imediato sugeriu:

- Podemos começar pelo jogo das cores.

- Que jogo é esse?

- Eu jogo com o papá e ganho sempre! É assim: tu contas os carros de uma cor, eu conto de outra, e vemos quem ganha.

-Ah, e que cores é que o papá costuma escolher?

- Da última vez, ele escolheu cor-de-rosa, e da outra vez foi cor-de-laranja. Eu escolhi os carros azuis e ganhei!

- Pois, estou a ver... Então hoje eu fico com os verdes, e tu com os cinzentos, a ver quem ganha!

Dez minutos passados, e depois de uma estrondosa vitória para o António, ele voltou a sugerir:

- Agora podes contar uma história da Bíblia. Eu gostava que contasses aquela do homem que mergulhou sete vezes no rio cheio de lama. Pode ser?

Contei-lhe a história do Sírio Naamã. Ele pediu outra, e contei-lhe a do paralítico que Jesus curou.

- Estás a ficar cansada, mamã?

Estava mesmo. O António compreendera, e por isso continuou, antes que eu lhe respondesse:

- Podes ficar calada um bocadinho, enquanto eu fico a pensar nas histórias que contaste.

Assim fizemos. Cinco minutos depois desta meditação silenciosa, voltou a sugerir:

- Agora, que já descansaste, podemos fazer outro jogo. O jogo do "Adivinha o que estou a ver!"

- OK, eu começo: estou a ver uma coisa grande, verde e a abanar...

- São árvores!

- Exatamente. Agora és tu!

- Estou a ver uma coisa branca, fofa e alta...

- Núvens!

Chegámos a Coimbra. Depois de estacionar e de entrar no recinto, fomos informados que teríamos de esperar cerca de meia hora.

- Que bom! - Atalhou o António - Ainda tens tempo de me ler as histórias que trouxemos.

Sentei-o ao meu colo e li-lhe duas histórias da Bruxa Mimi, que o António adora. Depois da consulta, no carro de regresso ao infantário, o António fez uma curta sesta, e eu aproveitei para rezar o terço. Á noite, durante a oração familiar, o António agradeceu:

- Obrigado, Jesus, porque hoje fui a Coimbra, ouvi quatro histórias e joguei dois jogos no carro com a mamã!

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Na mesma sala de espera onde o António e eu rimos à gargalhada com as aventuras da Bruxa Mimi, estava outra criança pequena com a mãe. Mãe e filho permaneceram num silêncio absoluto durante todo o tempo em que esperámos. Ambos tinham os olhos fixos nos ecrãs dos respetivos telemóveis, movendo os dedos sobre as teclas à velocidade da luz.

Não conheço aquela família, e Deus me livre de fazer qualquer tipo de julgamentos sobre eles em particular. Mas a verdade é que eu já assisti a inúmeras cenas parecidas, nas escolas como nos hospitais, nos consultórios médicos como nos restaurantes. São cada vez mais frequentes as famílias onde cada um vive no seu pequeno mundo, sem pontes nem janelas. Às vezes, as pessoas comentam:

- Tiveste muita sorte com os filhos!

E eu costumo responder:

- Pois é, mas olha que a sorte dá muito trabalho!

Fazer uma viagem de carro a brincar com uma criança ou ler-lhe histórias na sala de espera de um consultório é bastante mais cansativo do que oferecer-lhe um telemóvel para que se entretenha. A tentação do mais fácil é forte, mas o que está em jogo é muito mais poderoso... Diz-nos S. Paulo:

 

"Vede bem como procedeis: não como insensatos, mas como sensatos, aproveitando o tempo, pois os dias são maus."

(Ef 5, 15-16)

 

Há algo que, depois desta vida, nunca mais terei de volta: o tempo. Só tenho uma vida para aproveitar ou desperdiçar tempo. Talvez nos queixemos de que "os dias são maus" e que não temos tempo para o que é importante. Talvez não tenhamos um dia inteiro, nem umas férias dignas desse nome, nem fins-de-semana em casa. Mas não teremos cinco minutos disponíveis, no carro ou em casa, durante o jantar ou durante os banhos, num consultório ou na praia, para contar uma história, fazer uma oração familiar, fazer uma jogo ou escutar uma confidência? Cinco minutos roubados ao nosso direito ao descanso ou aos nossos outros mil afazeres? Cinco minutos cheios de esforço? Esses cinco minutos não voltarão... Mas se os empregarmos com sensatez, como sugere S. Paulo, ser-nos-ão devolvidos ainda nesta vida, em cada um dos nossos filhos, e na eternidade, em felicidade sem fim...

 

 

 

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Obrigado!

por Teresa Power, em 13.04.15

Manhã de quinta-feira. Entrei no Centro Social para deixar o António e a Sara e, como costume, a Irmã estava à porta para os cumprimentar com um beijinho simpático.

- O que é hoje a comida? - Perguntou-me, também como costume, o António. Aproximei-me da parede, para ler a ementa no cartaz semanal, e respondi-lhe. A Irmã, que escutara a pergunta do António, disse-me então:

- O seu António é um menino muito querido, sabe? Com muita frequência, no final do almoço, o António vem ter comigo e diz-me: "O comer estava muito bom, Irmã, obrigado!" É raro escutar estas palavras da parte de uma criança. Ele nunca se esquece de quem fez a refeição! Calculo que aprenda isso em casa...

- Sim - Respondi, a sorrir e obviamente orgulhosa do meu rapaz - O pai nunca os deixa sair da mesa sem antes agradecerem à mãe a refeição. É tão fácil criticar quando falta o sal, ou quando o arroz queimou, mas tão difícil lembrarmos as palavras de agradecimento! O pai é muito exigente nesse ponto, e pelos vistos, dá resultado!

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Vim para casa a pensar nas palavras da Irmã. É na verdade raro, hoje, encontrar palavras de agradecimento gratuitas e espontâneas... Nos nossos trabalhos, quantas vezes nos agradecem o que fazemos uns pelos outros - seja ou não nossa obrigação? E quantas vezes agradecemos aos outros o que eles fazem por nós - seja ou não sua obrigação? Quantas vezes agradecemos aos professores dos nossos filhos o seu trabalho e a sua dedicação? E aos catequistas, que dão o seu tempo de forma totalmente gratuita? Quantas vezes agradeço a quem limpa as salas da minha escola, ou ao funcionário que me abre o portão para eu passar com o carro? Quantas vezes agradecemos uns aos outros em casa?

E ao Senhor?...

Recordo-me do episódio dos dez leprosos que Jesus curou. Os dez descobriram que estavam curados quando se afastavam de Jesus e regressavam às suas casas. E que fizeram então?

 

"Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta; caiu aos pés de Jesus com a face em terra e agradeceu-Lhe. Era um samaritano. Tomando a palavra, Jesus disse: «Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?» E disse-lhe: «Levanta-te e vai. A tua fé te salvou.»" (Lc 17, 11-19)

 

Senhor, eu não tenho nada que Tu me não tenhas dado. Obrigada! Como o António, também eu Te quero dizer: o comer hoje estava muito bom...

 

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Não podes ver

por Teresa Power, em 13.03.15

O António entrou a correr no quarto, com a cara cheia de terra e o cabelo transpirado.

- Ena, António, isso é que é brincar! - Comentei, enquanto procurava abraçá-lo para depois lhe retirar a camisola. Mas o António afastou-me:

- Tens de ir embora, porque eu vou fazer uma coisa e não quero que tu vejas!

O seu sorriso maroto não deixava margem para dúvidas:

- Bem, se tu não queres que eu veja, é porque é asneira! Vais guardar algum pedaço de terra na gaveta, como da última vez? Ou, deixa-me adivinhar: vais guardar um pedaço partido de um vaso de cerâmica, como naquele dia em que as tuas gavetas apareceram cheias de pedaços de vidro? Ou... Não estás a pensar em fazer um ninho de minhocas debaixo da cama?

O António abanou a cabeça, muito sério. Entretanto, a Clarinha chamou-me do seu quarto, e baixinho, informou-me:

- O pai comprou um pacote de pastilhas ao António, e ele escondeu-as para as comer sem tu dares conta...

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Enquanto deixava o António sozinho com a sua "marotice", fiquei a pensar nas palavras de S. Paulo:

 

"Antigamente éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Comportai-vos como filhos da luz, pois o fruto da luz manifesta-se em toda a bondade, justiça e verdade. Procurai o que é agradável ao Senhor e não participeis nas obras estéreis das trevas. Pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque é até vergonhoso falar das coisas que estas pessoas fazem em segredo. Mas todas as coisas condenadas são postas a descoberto pela luz, pois tudo o que é manifestado torna-se luz." (Ef 5, 8-14)

 

Como o António, também eu sei perfeitamente o que devo ou não devo fazer, e para calar a minha consciência, evito cruzar o meu olhar com o do Senhor quando pratico o mal... Mas as minhas "marotices" são bem menos inocentes que as do António! Se vivesse mais consciente do olhar constante do Senhor pousado sobre mim, não pecaria tanto.

Há duas formas belíssimas de me colocar à luz do olhar do Senhor: uma delas acontece no sacramento da Confissão, quando descubro o meu pecado e o conto com simplicidade a Jesus, na pessoa do seu sacerdote; a outra, através da adoração de Jesus-Eucaristia, ou simplesmente de uma oração diante do sacrário. Nem sempre consigo falar com Ele, porque me faltam as palavras e me foge o pensamento, mas sempre, sempre me posso deixar contemplar, amar e iluminar por Aquele que é a Luz...

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Hoje, a pedido do Papa Francisco, irão começar um pouco por todo o mundo vinte e quatro horas de adoração eucarística. Nós também iremos oferecer algumas das nossas horas familiares para adorar o Senhor!

 

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publicado às 06:20

Um quilo de algodão

por Teresa Power, em 26.02.15

- Mamã, o que pesa mais: um quilo de chumbo ou um quilo de algodão?

- Não sei, António.

Eu estava muito atrapalhada entre fazer o jantar e evitar que a Sara se queimasse ou partisse a cabeça enquanto me ajudava, e por isso respondi sem pensar.

- Não sabes mesmo? Que esquisito! - Comentou o meu filho, sem desistir.

Peguei na Sara ao colo com um braço e destapei a panela da carne com a mão livre. Com um suspiro, decidi entrar no jogo:

- Acho que é o chumbo. O chumbo é muito mais pesado do que o algodão! O algodão não pesa nada, não é verdade?

- Errado! - O António estava triunfante, tal como eu esperava com a minha resposta parva. - O algodão e o chumbo pesam o mesmo, porque um quilo é sempre um quilo!

A rir, o António saiu da cozinha, e a Sara perseguiu-o aos pulinhos. Enfim só, fiquei a pensar... E recordei-me de uma meditação que gosto de reler no livro A Fé em Família, de Christine Ponsard... Um quilo é sempre um quilo, seja de algodão, seja de chumbo. Mas em matéria de pecado, diz Christine, parecemos esquecer esta verdade. Acumulamos "pecados de algodão" uns atrás dos outros, sentindo-nos muito descansados porque não são "pecados de chumbo", daqueles que matam o amor, e esquecemo-nos que, de algodão em algodão, já temos um quilo bem pesado.

Amanhã irei entregar este quilo ao Senhor, confessando o meu pecado. O Senhor livrar-me-á deste peso mortal, restituindo-me a vida com o seu perdão. Ah, que seria de mim sem o sacramento da Confissão?...

 

"Feliz aquele a quem é perdoada a culpa

e absolvido o pecado.

Enquanto me calei, os meus ossos definhavam

no meu gemido de todos os dias,

pois a tua mão pesava sobre mim dia e noite.

Confessei-Te o meu pecado e não escondi a minha culpa;

disse: «Confessarei ao Senhor a minha falta.»

E Tu me perdoaste a culpa do pecado." (Sl 32/31)

 

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PS - E por falar em confissões... Inscrevam-se o quanto antes no Retiro de Quaresma!

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Amigos

por Teresa Power, em 12.02.15

O dia de anos do António começou muito cedo. Seis horas da manhã, e já cantavam galos e meninos! Feliz, o António abria presentes e recebia abraços. Ena, as figurinhas do Jake e dos Piratas! Ah, e balões, que prenda magnífica! E tanto papel de embrulho para espalhar por todo o lado... Na cozinha havia croissants e pães com chocolate. E sobre a banca, o bolo que a Isabel fizera, pronto para ir para a escola.

Como nas tardes de quarta-feira não tenho aulas, o aniversário do António foi especial: na escolinha, os seus amigos cantaram os parabéns e partilharam o bolo; e logo depois do lanche, fui buscar o António e mais quatro amigos, para continuarem a festa cá em casa. Foi a primeira vez que o António festejou o seu aniversário com amigos da escola, e estava tão feliz!

 

Eu confesso que estava desejosa de conhecer mais de perto os seus amigos. Recordo as festas de anos do Francisco e da Clarinha, quando eram assim pequeninos... Ainda ontem me cruzei com um dos amigos do Francisco, que costumava vir aqui brincar nas festinhas e a quem tive de consolar mais do que uma vez, sentando-o ao meu colo por alguém lhe ter tirado um brinquedo. Ontem tive de olhar para cima para o poder cumprimentar... Meu Deus, como o tempo passa, e como eles crescem! As amigas da Clarinha estão altas e bonitas. Continuam a vir cá a casa, mas já não brincam com as bonecas: agora dançam no quarto, ou vão juntas dar um passeio de bicicleta.

O David tem grandes e bons amigos, que vêm cá brincar de vez em quando. Também já conheço as amigas da Lúcia, e elas também já conhecem a nossa casa, com tudo o que lhe pertence - os cães, os gatos, as galinhas, o barulho, a confusão.

Ontem fiquei a conhecer os amigos do António, de quem ele já falava há muito tempo. E pude observá-lo a brincar, a ser generoso, a zangar-se, a sorrir, a partilhar, a gerir emoções e pequenos conflitos...

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- Vai chamar o teu primo - Diz um dos amigos, filho único.

- Não é primo, é mano - Responde o António.

- Mano? E o outro também? - Pergunta, admirado.

- Sim, são todos manos!

 

- Vou ver bonecos - Diz-me outro menino, entrando disparado na sala e procurando qualquer coisa com o olhar. - Onde está o comando?

- Nós não vemos televisão cá em casa senão ao fim-de-semana - Respondo, sorrindo.

- Então com que é que brincam?

- Com os bonecos de brincar, não de ver. Já viste a coleção de animais do António? Vem que eu mostro-te!

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O António e os seus amigos irão crescer. Qualquer dia deixo de conseguir pegar-lhes ao colo ou intervir nas suas disputas. Alguns irão afastar-se, outros permanecerão fiéis, novos amigos se lhes juntarão. Como os irmãos, também o António terá de aprender a construir amizades, o que não é assim tão fácil! Agora está apenas a dar os primeiros passos.

Para se ter um amigo, é preciso reconhecer, antes de mais, que não se é o centro do mundo.  E alguns meninos, habituados ao primeiro lugar dentro da sua família - idolatrados, mas não necessariamente mais amados - irão descobrir isso demasiado tarde...

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Os amigos dos nossos filhos são um pouco também nossos filhos. Damos-lhes o lanche, abrimos-lhes a porta da nossa casa e da nossa vida, e oferecemos-lhes a gratidão que sentimos por quererem bem aos nossos. A vida sem amigos torna-se tão triste e vazia! Bem diz o Senhor:

 

"Um amigo fiel é uma poderosa proteção:

quem o encontra, encontra um tesouro."

(Ecl. 6, 14)

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 Abençoa, Senhor, os amigos dos meus filhos e os meus amigos! Que eles Te encontrem na luz da nossa amizade...

 

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Festa da partilha

por Teresa Power, em 11.02.15

- Mãe, tenho de levar bolachas ou fruta para a partilha - Diz-me o António, vestindo a bata para ir para a escola.

- Sim, António, levas. Lúcia, veste o casaco! Clarinha, por favor, lava-me a cara da Sara, que está cheia de ranho! Francisco, despacha-te!

- Mãe, assina depressa este teste...

- Agora? Não tiveste o dia todo ontem?

- Alguém mexeu no meu saco de Educação Física?

- Por favor, meninos, vamos chegar atrasados! Já são quase oito e um quarto! Corram, para o carro!

- O vidro do carro está congelado. Eu vou ligar a chaleira para aquecer água.

- Obrigada, Francisco. Vamos, entrem no carro!

 

Chegamos ao colégio em cima da hora das aulas dos mais velhos. Os do primeiro ciclo têm mais um quarto de hora de recreio, para grande alegria deles. Resta-me tirar os dois mais novos do carro e entrar na Escolinha. Com um sorriso, o António e a Sara cumprimentam a Irmã na portaria e as educadoras que vão chegando também.

De repente, o António desata a chorar:

- Não trouxe as bolachas!

Na verdade, a pressa e a confusão da manhã fizera-me esquecer.

- Não faz mal, António, trazes amanhã!

Mas o meu filho está inconsolável. E inconsolável fica, depois de lhe dar um beijo, depois da auxiliar lhe dar um abraço, depois dos amiguinhos o puxarem para brincar com eles.

 

A hora da partilha, na escolinha, é uma hora muito importante: a meio da manhã, todos os meninos têm um pequeno lanche, geralmente composto de uma peça de fruta e uma bolacha. Ao contrário das outras refeições, este lanche matinal é oferecido pelos pais. Como? De vez em quando, sem ordem fixa, os pais mandam pelos meninos um pacote de bolachas ou um cesto de fruta. Quando, no lanche da manhã, os meninos vêem a sua fruta e as suas bolachas a serem distribuídas, sentem um orgulho especial. Afinal, os autores da partilha são eles!

O António não estava a chorar por ir ficar sem lanche, claro, pois naturalmente iria ter direito a ele. Estava a chorar, porque naquele dia não iria dar, mas apenas receber. E como disse Jesus:

 

"Há mais alegria em dar do que em receber." (At 20, 35)

 

Hoje, o António vai chegar à escola com um grande cesto de quivis. E como hoje é também o dia do seu quinto aniversário, para além dos quivis, o António levará um belo bolo, feito pela nossa fada madrinha, que como o António, também gosta de dar! Já estou a adivinhar o seu sorriso de pura felicidade, primeiro ao cumprimentar a Irmã, depois ao cumprimentar as educadoras e auxiliares, e finalmente, durante a manhã, ao distribuir os quivis pelos seus amigos... Quando, à tarde, lhe cantarem os parabéns e lhe fizerem uma festa, o António já terá experimentado a outra festa, a festa da partilha. Parabéns duplamente, querido filho!

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Os cabelos de Deus

por Teresa Power, em 26.01.15

O António estava sentado no banquinho da casa de banho, mentalmente preparado para a aborrecida tarefa que se ia seguir; e eu procurava na caixa o pente mais ajustado para colocar na máquina de cortar cabelo.

- Que aborrecimento, está sem carga! - Desabafei, enquanto ajustava o pente. - António, acho que não te posso cortar hoje o cabelo. O Francisco tinha tanto cabelo que a máquina ficou sem carga depois do corte de ontem.

Enquanto retirava o pente da lâmina, liguei sem querer a máquina, que uma vez sem pente, começou a trabalhar.

- Olha, já dá! - Exclamei. E com a pressa de aproveitar o bocadinho de energia da máquina, encostei a lâmina à cabeça do António e cortei. Só quando vi os cabelos a cair no chão é que me lembrei que acabara de retirar o pente, e portanto, o que fizera na cabeça do António fora semelhante ao acto de barbear alguém. Com um grito, atirei com a máquina para o chão e abracei o meu filho.

- Desculpa, António!

- Porquê? Cortaste-me? Não me dói!

- Não, filho, não te cortei... Cortei o teu cabelo, isso sim, um pouco, bem, um bocadinho demais... Ai o que eu fiz!

Atraídos pelos meus gritos, os irmãos entraram na casa de banho. Olharam para o António com olhos muito abertos, e depois soltaram uma gargalhada:

- Assim é que tu estás na moda, António! - Disse-lhe o Francisco, dando-lhe uma palmada amigável nas costas. Depois murmurou-me ao ouvido: - Tens sorte não me teres feito isto a mim...

Mas o António não pareceu muito afectado com o corte moderno. Dando-me um grande abraço, descansou-me: 

- Não faz mal, mamã. Não fizeste de propósito! E eu ainda sou o António, não sou?

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O perdão instantâneo do António lembrou-me como é simples a vida quando não estamos presos à moda, ao que os outros vão dizer, à ditadura do espelho; mas mostrou-me principalmente como tudo se descomplica quando não duvidamos da bondade do nosso Pai, que nunca fará nada para nos magoar "de propósito". Por fim, também eu consegui dar uma gargalhada.

 

A C. é uma leitora assídua do blogue. Antes do verão passado, a C. também ficou sem cabelo - não apenas num rectângulo bem definido da cabeça, mas na cabeça inteira... Não por descuido, mas por causa da quimioterapia... Quando partilhou um bocadinho da sua jovem vida comigo, através do mail, pediu-me oração. Temos rezado por ela em família todos, todos os dias! Na semana passada, a C. deu-nos uma boa notícia: os tratamentos para o cancro estão a resultar! Em breve, o seu cabelo voltará a crescer.

 

Este post, C., é para ti, em acção de graças contigo, e para todos os leitores que, como tu, estão doentes. Sejamos todos capazes de acreditar na bondade do Senhor, que nos assegurou:

 

"Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não temais, portanto, pois valeis muito mais do que os passarinhos." (Mt 10, 29-31)

 

No dia em que acreditarmos verdadeiramente na bondade de Deus, que conta os cabelos da nossa cabeça e nos trata pelo nome - nesse dia seremos felizes...

 

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Tanta pouca

por Teresa Power, em 14.01.15

O António estava a comer com imenso prazer. Entre garfadas, ia conversando com os irmãos e connosco, muito animado.

- Quero mais!

- Se faz favor.

- Quero mais se faz favor!

Coloquei um pouco mais de massa e de carne estufada no seu pequeno prato.

- Mais! - O António manteve o prato estendido.

- Come primeiro essa, depois se ainda tiveres espaço, dou-te mais - Respondi-lhe.

E foi então que a birra começou:

- TANTA POUCA!

- O quê?

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

- António, se quiseres mais eu dou, mas primeiro comes o que tens no prato.

Agora as lágrimas corriam a alta velocidade, e o prato continuava intocado diante do meu filho de quatro anos. Já não havia nada a fazer: era mesmo hora de birra... Os irmãos encolheram os ombros, nós também, e continuámos a tentar conversar por entre os gritos do António, enquanto eu escondia um sorriso diante da sua gramática atabalhoada:

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

Por fim, vendo que ninguém cedia - e porque a carne estava mesmo apetitosa - o António lá limpou as lágrimas e assoou o nariz, e continuou a comer. Afinal o que tinha no prato parece ter sido suficiente, porque não tornou a repetir.

 

Enquanto escutava os gritos do meu pequeno filho, fui pensando em como tantas e tantas vezes, também nós ficamos com o prato estendido diante do Senhor, fazendo birra:

- Tanta Pouca!

Temos diante de nós um prato, que o Senhor preparou com carinho especialmente para nós, mas raramente estamos satisfeitos: temos filhos a mais, ou filhos a menos; temos trabalho a mais, ou trabalho a menos; temos dinheiro a mais, ou dinheiro ao menos; temos chuva a mais, ou frio a mais, ou calor a menos, ou amigos a menos, ou saúde a menos, ou... Porque não estamos nunca satisfeitos?

Recordo aqui a oração constante da jovem Beata Chiara Badano, que nasceu no mesmo ano que eu e morreu aos dezoito anos de idade. Já falei desta oração várias vezes, e hei-de continuar a falar, porque nela está contido o segredo da verdadeira alegria, essa alegria que nada nem ninguém nem circunstância alguma da vida pode roubar:

 

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero."

 

Ou como disse Jesus ao longo de toda a sua vida:

 

"Faça-se a Tua vontade, ó Pai, na Terra como no Céu." (Mt 6, 10)

 

Ámen!

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À mesa

por Teresa Power, em 21.12.14

Sentar uma família numerosa à volta de uma mesa não é fácil. Primeiro, claro, está o problema da mesa. Este ano achámos que estava na altura de mandar fazer uma mesa bastante maior, para os meninos se poderem sentar sem refilar. Ultimamente, na verdade, as refeições tinham alguns refrães incomodativos: "Chega-te para aí!" "Baixa as asas!" "Não me dês pontapés!" "Como é que queres que corte a carne com os braços tão juntos do corpo?" "Não entornes o meu copo!" Acabámos por nos convencer que uma mesa grande não é um luxo, quando se tem seis filhos em crescimento. Agora, até temos espaço para colocar no centro a coroa de Advento, nos domingos:

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Mas o tamanho da mesa não diminuiu o tamanho das birras, pelo menos de algumas. Para nosso grande desapontamento, apercebemo-nos que o refrão mudou, mas continua a existir... Às vezes é a sopa que está quente, outra, o mano que mesmo antes de vir para a mesa tirou um brinquedo. Já chegámos a ter os quatro mais novos a chorar ao mesmo tempo, todos por razões diferentes, o que fez os dois mais velhos dar uma gargalhada e comentar: "A família Power está particularmente bem disposta hoje!" Com receio que vocês não acreditem nas minhas palavras, apanhei o David em flagrante delito de choro à mesa, mesmo com uma magnífica "Apple crumble" diante dele:

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Um outro problema natural das nossas refeições é a quantidade de vezes em que precisamos de nos levantar. Felizmente agora já partilhamos essa tarefa com o Francisco e a Clarinha! O Niall costuma cantarolar um pequeno refrão do filme clássico do Winnie the Pooh, em inglês: "Up, down, turn around..." ("Levanta, senta, dá uma voltinha...") Um dia, li o dito divertido de uma humorista: "Desde que me tornei mãe, passei a comer tudo frio, excepto os gelados." Como eu a entendo!

 

Porque insistimos, então, em comer todos juntos? Porque não facilitamos e sentamos os meninos diante da televisão, ou cada um em frente do seu computador, ou porque não comemos separadamente? Porque somos cristãos. E o cristianismo nasceu e celebra-se à volta da mesa - a mesa da Eucaristia! Aliás, o cristianismo é a única religião onde podemos comer de tudo e com todos. "Comei tudo o que vos for servido" (1Cor 10, 27), disse S. Paulo. Jesus ficou bem conhecido por se sentar à mesa com publicanos e pecadores.

 As nossas refeições têm muito choro, mas também muitas gargalhadas. Enquanto jantamos, e mesmo com a música de fundo das birras, conversamos. À volta da mesa, aprendemos a comer de tudo o que nos é servido, sem esquisitices e sem fundamentalismos; aprendemos a escutar o outro, e aprendemos a esperar a nossa vez de falar. Às vezes, são os mais velhos que dominam a conversa, e os pequenos escutam sem entender muito bem; outras, são os pequeninos que nos presenteiam com as suas brincadeiras, enquanto os mais velhos engolem a vontade de os interromper; outras ainda, é o pai que relata os acontecimentos do mundo, ou a mãe que conta o que aconteceu na escola. A conversa é só uma.

Esta insistência nossa na partilha da vida em família parece dar frutos! Ontem, durante a refeição, o António decidiu que não comia a sopa, fazendo como de costume um grande espalhafato, com lágrimas e tudo. Nós, como de costume também, ignorámos a cena e continuámos a comer. Mas houve alguém que não ignorou: a Sara. Cansada de ver o irmão chorar, a Sara pegou-lhe no braço e fez com ele o gesto de levar a colher à boca, enquanto repetia:

- Papa, Tóno! Papa, Tóno!

Fui imediatamente buscar a máquina fotográfica, para partilhar convosco a cena...

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 À volta da mesa, tornamo-nos família; e tornamo-nos família de Deus! Quando deixamos a mesa, cheios de alegria e felizes por termos conseguido ultrapassar todos os obstáculos, experimentamos a generosidade do Senhor, como nos diz o Evangelho:

 

"Todos comeram e ficaram saciados; e do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios." (Lc 9, 17)

 

 

 

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O Natal (ainda) é a festa de Jesus?

por Teresa Power, em 12.12.14

- Mamã, eu queria um robô super mega fixe no Natal.

- E eu queria um carro telecomandado!

- Tanto disparate, meninos! O David já fez anos, e o António vai fazer em Fevereiro, portanto, ambos recebem uma prenda de anos. No Natal, todos receberão um presente mais simples e pequeno, porque há outra pessoa que faz anos, não é verdade?

- Pois, é Jesus...

- Então quem precisa de prendas é Jesus, e não os meus filhos, que têm brinquedos mais do que suficientes. Já prepararam hoje uma prenda para Jesus?

- Uma estrela?

- Sim, uma estrela...

Suspiros.

- Eu dou a Jesus a estrelinha de não pensar mais no robô...

- E eu não vou fazer nenhuma birra hoje. Prometo!

- Isso seria mesmo bom. Um bocadinho de silêncio nesta casa...

- Mamã, queres fazer um sacrifício para também dares uma estrelinha a Jesus?

- Quero, António, quero sim. Tens alguma sugestão?

- Tenho: fazes o sacrifício de nos deixar ver televisão!

- ????????

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Educar e educarmo-nos para uma vivência profundamente cristã do Advento exige um trabalho contínuo e sério. Não vale a pena deitarmos mãos ao arado se depois olharmos para trás. Não vale a pena começarmos se tivermos medo das comparações inevitáveis que as crianças vão fazer entre o seu Natal e o Natal dos seus amigos.

O Natal como Jesus o quer não está escondido algures na nossa infância. As nossas memórias de simplicidade não contam toda a verdade, pois as crianças que eramos não tinham como entender tudo o que se passava; e nem sempre a simplicidade que algumas famílias recordam estava impregnada de Deus!

O Natal como Jesus o quer está disponível hoje, aqui e agora, no nosso presente. Talvez possamos ir buscar ideias e inspiração à nossa infância; ou talvez precisemos antes de arriscar e de inventar os nossos próprios rituais familiares!

Saibamos integrar-nos com humildade e em clima de harmonia naquilo que são as tradições das nossas famílias alargadas, sem deixar de dar testemunho da nossa fé. A aprendizagem que resulta do encontro festivo da família, mesmo quando este é difícil, é muito superior aos conflitos que vão surgindo! Se forem à caixa de comentários ao post  Tempo de Família em Época de Natal, encontrarão as mais variadas sugestões para simplificar a troca de prendas nas famílias. Na família do Niall (nove irmãos e nove cunhados), no início do Advento um dos irmãos tira à sorte quem vai oferecer um presente a quem, em nome de toda a família. Assim, cada um de nós só precisa de comprar um presente, e não dezasseis.

Dentro das nossas próprias casas, contudo, não estamos dependentes de tradição alguma, e temos liberdade completa para as transformar no presépio onde Deus hoje quer incarnar e habitar. Sim, nós podemos reinventar o Natal! E asseguro-vos de que é fantástico, quando percebemos que estamos a escrever a História da nossa família!

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No início do Advento, Jesus aconselhou-nos a estar atentos, para que a sua chegada não nos apanhasse distraídos com os nossos afazeres, mas centrados no essencial:

 

"Vigiai, portanto, não se dê o caso que, vindo o dono da casa inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: vigiai!" (Mc 13, 37)

 

Sentemo-nos hoje mesmo, ao serão, em família, e façamos uma "chuva de ideias" em redor do verdadeiro Natal de Jesus. Como vamos celebrar o seu nascimento na nossa pequena família, antes, depois ou durante todas as festas familiares que acompanham esta época? Sejamos ousados, criativos, alegres e simples. E o Senhor virá, e habitará entre nós! Ámen.

 

PS - Enviem-me por favor, para o mail, fotografias dos vossos céus estrelados, das vossas Árvores de Jessé, ou da forma que descobriram aí em casa de preparar simbolicamente o Natal! Estou a escrever um post com algumas fotografias já recebidas, e teria todo o gosto em publicar as vossas também!

 

 

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