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Os padres ganham dinheiro?

por Teresa Power, em 21.10.15

Hora de oração familiar. Juntos, lemos o Evangelho do dia. É a minha vez de ler em voz alta, e leio assim:

 

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «A todo aquele que Me tiver reconhecido diante dos homens também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos Anjos de Deus. Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus." (Lc 12, 8-9)

 

- Que significa negar? - Pergunta a Lúcia, atenta.

- Alguém quer explicar?

- Eu explico - Diz a Clarinha - Imagina que um amigo te pergunta se vais à missa, e tu dizes que não. Isso é negar Jesus.

Silêncio.

- Às vezes tenho vergonha de dizer que quero ser padre - Diz o David, hesitante. - Mas depois ganho coragem e consigo dizer. Não estou a negar Jesus, pois não?

- Ainda bem que tens coragem - Sorrio - Assim não estás a negar Jesus! Cada um é livre de dizer o que pensa vir a ser, quando crescer. E, claro, és livre para mudar de ideias e vires a ser outra coisa qualquer. Mas se agora achas que queres ser padre, então ainda bem que tens coragem de o dizer.

- Sabes o que é que os meus amigos me respondem logo?

- Não faço ideia! O que é?

- Eles dizem que os padres não ganham dinheiro!

Sara e David parabéns na missa.JPG

Ficamos todos em silêncio. Por onde andam os sonhos infantis de heroismo, os desejos de ser bombeiro, enfermeiro do INEM, piloto aviador? Por onde anda a infância dos nossos filhos? Que fizemos dela? Aos nove anos já não têm direito a sonhar? Lembrei-me do Principezinho, daquela passagem em que Saint-Exupéry fala da diferença entre os adultos e as crianças:

 

"As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falam de um amigo novo, nunca perguntam nada de essencial. Nunca perguntam: «Como é a voz dele? A que é que ele gosta mais de brincar? Faz coleção de borboletas?» Em vez disso, perguntam: «Que idade tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?» Só então julgam ficar a saber quem é o vosso amigo. Se contarem às pessoas crescidas: «Hoje vi uma casa muito bonita de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado...», as pessoas crescidas não conseguem imaginá-la. Precisam de lhes dizer: «Hoje vi uma casa que custou quinhentos mil euros.» Então já são capazes de a admirar: «Mas que linda casa!»

 

 "O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males" (1Tm 6, 10)

 

Assim escreveu S. Paulo a Timóteo.

Talvez seja um bom exercício verificarmos a frequência com que falamos de dinheiro na nossa casa, em brincadeiras, em comentários mais ou menos maledicentes sobre a roupa e o carro dos outros, em discussões sobre poupanças e gastos, em ralhetes, em... É que pela frequência com que falamos de um assunto pode medir-se a importância que esse assunto tem para nós. Os nossos filhos observam atentamente todos os nossos gestos e escutam até as palavras que calamos. Que mensagens lhes transmitimos sobre o dinheiro?

Ah, a Palavra de Deus a identificar as nossas feridas antes de as poder curar...

 

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O argueiro, a trave e os filhos

por Teresa Power, em 24.09.15

Hora de oração familiar. Junto ao Canto de Oração, lemos as leituras da missa do dia.

 

"E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Ou como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o argueiro que está no teu olho, não atentando tu mesmo na trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão." (Lucas 6:41,42)

 

Ainda não acabei de ler, e já as perguntas chovem:

- O que é um argueiro?

- E uma trave?

- Um argueiro é uma coisa pequenina, um grão de poeira, e uma trave é uma coisa grande - Explica o Francisco, solícito.

- Não percebi o que Jesus disse então...

- Quem quer explicar?

A Clarinha aventura-se:

- Quer dizer que, antes de apontarmos os erros dos outros, temos de corrigir os nossos.

- Mas - Intervém o David com ar importante - os pais passam a vida a fazer isso mesmo! Eles zangam-se quando fazemos as coisas erradas, mas eles também fazem coisas más!

O Niall e eu trocamos um sorriso cúmplice. O tema que o David trouxe à nossa discussão não nos é absolutamente nada estranho. Quantas e quantas vezes conversamos entre nós sobre as oportunidades de crescimento que os filhos nos proporcionam!

- David - respondo - Tens toda a razão! Os pais não têm o direito de dizer aos filhos para não gritar, se eles gritam por todo o lado; ou de lhes dizer que não se deve mentir, se eles lhes mentem; ou de os mandar rezar, se não rezam; ou de os obrigar a estudar, se eles fogem às suas obrigações de trabalho!

- Nós sabemos disso - Acrescenta o Niall - E podes ter a certeza, David, que ter seis filhos é uma escola de santidade magnífica! Por vossa causa, para vos podermos educar corretamente, nós sentimo-nos desafiados a corrigir os nossos defeitos.

 

Já depois de os deitarmos, o Niall e eu continuámos a nossa conversa:

- Já pensaste em tudo o que aprendemos graças aos filhos? - Perguntou-me ele.

- Oh, sim! Lembras-te do caos da nossa casa só com um filho? Da nossa insegurança, da nossa incapacidade em atender a várias frentes ao mesmo tempo...

- Nessa altura, também discutíamos por tanta coisa sem importância!

- E perdíamos tanto tempo com futilidades! Ter todos estes filhos obrigou-nos a selecionar muito bem as nossas atividades, leituras, conversas, passatempos...

- Mas talvez o mais importante tenha sido a nossa relação com Deus.

- Sim, foram os nossos filhos que nos desafiaram a construir um Canto de Oração cada vez mais bonito, e sobretudo, foi para os educar na fé que a nossa oração familiar se transformou na rotina maravilhosa que é hoje.

- É verdade... São as suas perguntas, as suas dúvidas, a sua curiosidade que nos lançam na procura das respostas!

- E são eles que, nos dias de maior agitação, nos desafiam: então hoje não rezamos?

- Deus tem formas diferentes de ajudar as pessoas a alcançar a santidade. O sofrimento é uma escola magnífica, o serviço dos outros é outra, a vida sacerdotal ou consagrada outra. A nossa escola é uma família numerosa, que todos os dias nos desinstala, que nos obriga a interromper os nossos trabalhos e o nosso descanso vezes sem fim, que nem sequer nos permite rezar em paz!

- Ninguém se santifica sentado num sofá...

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De cor(ação)

por Teresa Power, em 18.09.15

Hora de oração familiar. O evangelho de hoje, bastante longo, contém alguns dos ensinamentos mais fortes e desafiantes de Jesus. Leio uma primeira vez, pedindo aos meninos que memorizem uma ou duas palavras, de acordo com a sensibilidade do seu coração.

 

"A vós, porém, que me escutais, eu digo: amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te bater numa face, oferece também a outra. E a quem te levar a capa, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar do que é teu, não peças de volta. Assim como desejais que os outros vos tratem, tratai-os do mesmo modo. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Os pecadores também agem assim. E se prestais ajuda somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores prestam ajuda aos pecadores, para receberem o equivalente. Amai os vossos inimigos, fazei o bem e prestai ajuda sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande. Sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste, pois a medida que usardes para os outros, servirá também para vós." (Lc 6, 27-38)

 

- Perdoai! - Grita o António, ainda mal acabei de ler.

- Amai! - Continua a Lúcia.

- Recompensa! O que é recompensa?

- É prémio, António.

- Miseri...miseri...

- Misericordioso. Deus é misericordioso. Significa que Deus é bom para com os bons e os maus.

- E porque é que Ele é bom para os maus?

- Porque é misericordioso, David: Deus não nos ama porque nós somos bons; Deus ama-nos porque Ele é bom! Deus só consegue amar, só consegue perdoar, só consegue ser bom.

- Ah!

- Bem, este Evangelho tem tanta coisa bonita para aprender! Vamos ver se nos lembramos do mais importante. Eu vou voltar a ler algumas partes, e vocês completam-nas. Combinado?

Grande entusiasmo. Ninguém quer falhar. Os meninos ajeitam-se no sofá e são todos atenção. Começo o jogo:

- Amai...

- ...os vossos inimigos! - Respondem quase em coro.

- Falei bem...

- ...dos que falam mal de vós!

- Se alguém te bater numa face...

-...apresenta-lhe também a outra!

- A quem te levar a capa...

-... dá-lhe também a túnica!

- Se te levarem o que é teu...

- ... não te queixes!

- Se amais aqueles que vos amam...

-... que agradecimento mereceis?

- Sede misericordiosos...

- ... como o vosso Pai é misericordioso!

- Não julgueis...

- ... e não sereis julgados!

- Não condeneis...

- ... e não sereis condenados!

- Perdoai...

- ... e sereis perdoados!

- Dai...

- ... e dar-se-vos-á!

- A medida que usardes com os outros...

- ... será usada também convosco!

Todos, dos maiores aos mais pequenos, se atropelam para responder primeiro, com grande alegria. Terminamos o jogo com alegres gargalhadas.

Aprender a Palavra de Deus de cor, bocadinho a bocadinho, com jogos, charadas e brincadeiras, é um caminho seguro para dar cumprimento à Palavra de S. Paulo, que lemos neste mesmo dia:

 

"Habite em vós com abundância a Palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria." (Col 3, 15)

 

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Agora é preciso pôr em prática...

 

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O Jovem Rico e o Barrica

por Teresa Power, em 19.08.15

Hora de oração familiar.

- António! Sara! David! Depressa, vamos rezar!

Passos apressados no corredor.

- Francisco! Clara! Lúcia!

- Já vou!

- Já vou!

- Não é já vou, é vir mesmo! São horas!

Mais passos apressados no corredor.

- Dá-me o Barrica! - Grita de repente a Sara, procurando agarrar o pequeno boneco da mão do António.

- Não dou! É meu! Meu!

- Eu quero o Barrica! EU QUERO O BARRICA!

- É MEU!

Gritos. Mais gritos. Empurrões. A Sara está a chorar.

- Acabou-se! São horas de rezar!

A Sara sai da sala, a soluçar. Perante um ataque tão grande de mau génio, decidimos avançar com a oração, e começamos a cantar e a dançar o nosso louvor. Irritadíssima, reaparece:

- NÃO REZAM SEM A SARA!

Eu sabia que a Sara não perderia este momento por nada deste mundo. A hora de oração costuma ser uma das horas preferidas dos mais pequeninos por causa dos cantos e das danças, e certamente também por causa do carinho e da presença uns dos outros.

Decido então pegar-lhe ao colo, e a Sara acalma com a cabeça no meu ombro. Podemos continuar a oração. Depois de partilharmos em voz alta a nossa ação de graças, sentamo-nos para escutar o Evangelho, que nos conta a inquietante história do Jovem Rico:

 

"Aproximou-se de Jesus um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Cumpre os mandamentos!» Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido todos os mandamentos; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se entristecido, porque possuía muitos bens." (Mt 19, 16-22)

 

- Que precisava o jovem rico de fazer para ser feliz? - Pergunto, perante o silêncio geral.

- Precisava de deixar tudo o que tinha.

- E ele foi capaz de tanto?

- Não, porque tinha muitas, muitas coisas!

- Pois era, o jovem rico tinha muitas coisas. Quando temos muitas coisas, é mais difícil deixá-las para trás!

- Mas ele ficou triste.

- Claro: é preciso coragem para se ser feliz! A coragem de fazer a vontade de Deus, ou seja, de realizar o sonho que Deus sonhou para cada um de nós. Deus só nos pede o que nos faz felizes!

- Mesmo quando custa?

- Custa sempre um bocadinho, mas a recompensa é a felicidade.

Silêncio. Depois, calmamente, o António levanta-se e diz:

- Vou buscar o Barrica para dar à Sara.

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A isto eu chamo: escutar a Palavra e colocá-la em prática...

 

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Os golos falhados e o poder de Deus

por Teresa Power, em 25.06.15

Hora de oração familiar. A primeira leitura da missa diária é de S. Paulo, da Segunda Carta aos Coríntios.

 

"Falarei agora das visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo, que há catorze anos - com o seu corpo ou sem o corpo, não sei; Deus o sabe - foi arrebatado ao terceiro Céu. E sei que esse homem ouviu palavras inefáveis, que um homem não pode repetir. Mas não me gloriarei senão das minhas fraquezas. Para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me deixado um espinho na carne, para que não me orgulhe. Por três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim. Mas Ele disse-me: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder.» Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte." (2Cor 12, 1-10)

 

- Não percebi muito bem essa história do espinho na carne. - Diz a Lúcia.

- Um espinho espetado no nosso corpo é algo que nos incomoda, não é verdade? Ninguém sabe ao certo a que é que S. Paulo se referia, mas ele falava de alguma coisa nele mesmo que o irritava, que o fazia perceber como era apenas humano, como não era perfeito. Podia ser uma lembrança dolorosa, um defeito físico, um problema espiritual, enfim, qualquer coisa que o humilhava.

- E isso é bom?

- Claro! Sem isso, talvez S. Paulo se tivesse tornado muito vaidoso. A primeira parte da leitura diz-nos que S. Paulo teve visões de Jesus fantásticas. Ora  ninguém chega ao céu por ter visões, aparições, orações cheias de ardor, emoções fortes no campo da fé. Se essas visões não forem acompanhadas de uma grande humildade, tornam-se fonte de vaidade, e lá se vai o Céu! Nós falamos muito em humildade, mas a verdade é que, para nos tornarmos humildes, precisamos de sofrer humilhações.

- Sabes - Diz o David, depois de pensar um pouco - Ao jogar futebol sozinho, eu faço uma coisa que se calhar não é muito certa: quando marco golo, faço festa achando que sou o maior; mas quando falho, faço de conta de que sou outra pessoa, isto é, que foi o meu adversário que falhou.

Sorrisos.

- Realmente, David, S. Paulo diz-nos que as nossas fraquezas são uma bela oportunidade para aprendermos que sem Deus, nada somos.

- Então eu não me devia irritar tanto ao perder contra mim mesmo?

- Nem contra ti mesmo, nem contra ninguém. O importante é dares o teu melhor. Depois, se ganhares, ficas feliz, e se perderes, ficas feliz na mesma, porque descobres que nada vales, e só Deus vale tudo em ti!

- Eu também já experimentei isso muitas vezes - Confessa o Francisco - As minhas fraquezas ajudam-me a ser humilde, ajudam-me a perceber que os meus dons, foi Deus quem mos deu, e que não sou melhor do que ninguém por ter mais facilidade para algumas coisas.

- Sim - Diz a Clarinha - Eu às vezes fico desanimada comigo mesma, com o meu feitio...

- Mas até o teu feitio te foi dado por Deus, para te santificares!

- Sim, tudo nos foi dado... Não há qualquer razão para nos envaidecermos!

A conversa prolonga-se muito para além do esperado. Todos têm uma história a contar, um desabafo a fazer, um desafio a lançar a si mesmos. A Palavra, meditada diariamente em família, torna-se verdadeiramente espelho no qual contemplamos a nossa vida, os nossos valores, os nossos pecados e as nossas virtudes. É a Palavra meditada e partilhada que abre caminho à nossa frente, resolvendo conflitos e aperfeiçoando temperamentos.

- Então vamos procurar memorizar este versículo, e repeti-lo muitas vezes, sobretudo quando não nos conseguimos suportar a nós mesmos... Quando, como diria o David, desejaríamos que tivesse sido outra pessoa a falhar o golo, e não nós.

 

"Quando sou fraco, então é que sou forte!"

 

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Diz Stop

por Teresa Power, em 19.06.15

Hora de oração familiar. Sentados diante do Canto de Oração, lemos em voz alta as leituras da missa diária.

- Hoje a primeira leitura é de S. Paulo, da sua segunda carta aos cristãos de Corinto - Digo.

Dando uma rápida vista de olhos ao texto, apercebo-me da sua complexidade. Decido então usar uma das estratégias que costumam ajudar a manter a atenção dos meninos:

- Eu vou ler o texto, e cada um vai memorizar a frase que lhe parecer mais importante ou mais bonita. De acordo?

- Sim! Começa, estamos atentos.

 

"Irmãos: Lembrai-vos disto: quem semeia pouco também colherá pouco e quem semeia abundantemente também colherá abundantemente. Dê cada um segundo o impulso do seu coração, sem tristeza, porque Deus ama aquele que dá com alegria. E Deus é poderoso para vos cumular de todas as graças, de modo que, tendo sempre e em tudo o necessário, vos fique ainda muito para toda a espécie de boas obras, como está escrito..." (2Cor 9, 6-11)

 

- Mãe, já me perdi! - Interrompe o David. - Tinha uma frase tão boa, e agora já não me lembro.

- Nem eu - Confessa a Clarinha. - Acho que tens de começar outra vez.

- Então fazemos assim: eu volto a ler, e quando escutarem a frase que acharem mais importante, dizem "Stop!"

- Ok!

- Ok!

- Ok!

- Ok!

 

"Irmãos: lembrai-vos disto: quem semeia pouco também colherá pouco e quem semeia abundantemente também colherá abundantemente..."

 

- Stop!

- Sim, Lúcia?

- O que é "abundantemente"?

- É muito.

- Então temos de semear muito!

- É isso mesmo, precisamos de semear muito se queremos colher muito. E o que é que precisamos de semear?

- Isso é fácil - atalha o David - Semear é espalhar a Palavra de Jesus.

- E como espalhamos nós a Palavra de Jesus?

- Com palavras e com obras - Explica o Francisco - É preciso falar de Deus, mas é sobretudo preciso fazer as obras de Deus.

- Bem, vou continuar a ler:

 

"Dê cada um segundo o impulso do seu coração, sem tristeza, porque Deus ama aquele que dá com alegria..."

 

- Stop!

- Stop!

- Ena, dois stop, David e Clarinha: o que vos diz esta Palavra?

- Eu gosto daquela coisa do coração - Diz o David - Mas, mamã, o que significa dar segundo o impulso do coração?

- Estava mesmo a pensar nisso - Diz o Francisco.

- Bem, eu penso que muitas vezes nós sentimos o impulso para dar, para sermos generosos, mas a razão diz-nos que não podemos, porque se dermos demais ficamos pobres, ou porque os outros não merecem, ou por milhares de outras coisas... Se escutarmos a voz do coração, seremos bem melhores!

- Eu gostei da frase da alegria - Diz a Clarinha - Precisamos de dar sem resmungar, não é mesmo?

- Sim, é isso! A primeira coisa que damos é a alegria, o sorriso pronto.

Nesse momento, o pai entra em casa. Excecionalmente, não estivera connosco durante a oração familiar.

- Dad, terás de dizer stop quando a mamã ler o texto para ti - Explica-lhe o David. - Vais ler outra vez, não vais, mãe?

- Talvez não seja preciso - Respondo, sorrindo - Se cada um de vocês disser ao papá a frase que escolheu, ele vai ficar a conhecer a leitura, e depois podemos continuar a rezar o salmo e o Evangelho.

- A minha é sobre sementes...

- E a minha sobre o coração!

- A minha é sobre alegria...

- A minha sobre boas obras!

- Querem repeti-las comigo?

 

"Quem semeia muito colherá muito."

"Dá segundo o impulso do teu coração."

"Dá sem tristeza, porque Deus ama aquele que dá com alegria."

 

- Até já sabemos de cor!

- É verdade, vamos decorando as Escrituras quase sem darmos por isso, como faziam Jesus, Maria, José, e todos os seus amigos.

A oração continua, e a semente da Palavra vai caindo, sulcando, ganhando raizes, dando flor e dando fruto... 

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Polícias, pastorinhos e um polvo gigante

por Teresa Power, em 06.05.15

Oração familiar. Leitura do Livro dos Atos dos Apóstolos. O Francisco lê sobre a prisão de Pedro e de João, decretada pelos fariseus.

- Esses polícias são os mesmos que prenderam os pastorinhos de Fátima? - Pergunta a Lúcia com simplicidade.

Entre gargalhadas, explicamos-lhe que não, que viveram algum tempo antes...

No dia seguinte, o António e a Lúcia brincam animadamente com blocos de madeira, enquanto conversam. O António reune várias figurinhas e vai explicando:

- Estes vão à missa, estes não vão...

- Mas somos todos polvo de Deus, António - Explica a Lúcia, com ar superior - Um polvo com muitos braços!

Interrompo a sua conversa, divertida:

- Lúcia, não é polvo, querida, é povo, povo, ou seja, muitas pessoas juntas!

- Ah, eu não sabia...

- Eu sabia! - Interrompe o António, muito seguro do alto dos seus cinco anos.

- Ai sabias, António? - Reage a Lúcia, indignada - A professora Rosário diz que os meninos que sabem tudo podem ir para o décimo segundo ano.

- Não discutam, meninos! Ninguém sabe tudo. A mãe também não sabe tudo. O importante é mesmo querer saber sempre mais, querer conhecer e descobrir sempre mais!

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Estes pequenos episódios da nossa vida de evangelização familiar mostram-me com clareza como é importante evangelizar os nossos, diariamente, em família. Se não lhes contarmos as histórias, se não lhes explicarmos a Palavra, como hão-de conhecê-la para a praticar? As nossas conversas ao serão em torno da Palavra revelam-nos, primeiro, o pouco que sabemos; e depois, despertam em nós a vontade de aprender. Perguntando, respondendo, sugerindo, imaginando, uns com os outros vamos desvendando os mistérios da nossa fé e fazendo caminho com Jesus.

Cá em casa, gostamos de seguir o missal, meditando nas leituras da missa diária. Elas permitem-nos uma sequência na leitura da Bíblia, pois em cada semana, a Igreja medita num Livro Sagrado, um bocadinho cada dia, oferecendo no missal uma pequena explicação introdutória. Para nós, é sem dúvida a melhor forma de ler a Bíblia. Assim, ao longo das semanas do Tempo Pascal meditamos no Livro dos Atos dos Apóstolos e no Evangelho de S. João, e a experiência de aprendizagem tem sido fantástica.

Que cada Família de Caná tenha todos os dias alguns minutos para a Palavra de Deus na sua casa, à semelhança da Mãe, que este mês celebramos de uma forma especial. Maria, na verdade,  alimentava-se diariamente desta Palavra, que reconhecia em cada gesto do seu divino filho:

 

"Quanto a Maria, guardava todas estas coisas, ponderando-as em seu coração." (Lc 2, 19)

 

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publicado às 06:27

Saboreai e vede

por Teresa Power, em 18.04.15

Hora de oração familiar. Na sala, diante do Canto de Oração, rezamos o salmo da missa do dia. Um dos versículos diz assim:

 

"Saboreai e vede como o Senhor é bom!" (Sl 34/33)

 

- David, que te lembra este versículo? - Pergunto.

O David fica confuso, depois reage com alegria e surpresa:

- A hóstia! Saborear o Senhor! Ver como Ele é bom...

- Claro! Vais fazer a tua primeira comunhão. Vais pela primeira vez saborear e ver como o Senhor é bom!

- Mas eu já sei que Ele é bom.

- Agora falta saborear o Pão que Ele te dá, o Pão que é a sua carne, o seu próprio corpo entregue por ti.

- Como é saborear? Tenho de deixar a hóstia na boca muito tempo?

- Não. Jesus vai entrar na tua boca, mas Ele quer chegar ao teu coração. Saborear um alimento significa comer com gosto, pensando no que estamos a fazer, não é? Saborear o Senhor significa tomar gosto no seu amor, pensar na sua Palavra, estar consciente da sua presença. Quando Jesus entrar no teu coração, podes dizer com toda a verdade: "Nós, Jesus." Porque a partir desse momento, Jesus e tu estarão para sempre unidos.

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O David deitou-se cheio de alegria, a pensar na sua primeira comunhão, tão próxima. Eu fui para a sala e procurei na estante um livro magnífico: O Preço a Pagar por me tornar Cristão, de Joseph Fadelle. Já referi várias vezes este livro. Conta a história verídica e atual de um muçulmano que se converteu ao cristianismo, e as torturas e os tormentos por que teve de passar a partir de então, até finalmente conseguir ser batizado e refugiar-se em França, onde vive com a mulher e os filhos. Na base da sua conversão esteve um sonho, e foi esse sonho que me fez procurar de novo o livro na estante. Passo a citar:

"Este sonho - e lembro-me dele muito nitidamente - coloca-me na margem de um rio, não muito largo. Na outra margem, uma personagem com cerca de quarenta anos, talvez mais velha, vestida com uma roupa bege de uma só peça, à oriental, sem gola. E sinto-me irresistivelmente impelido para aquele homem, desejando passar para o outro lado, para me encontrar com ele.

Quando começo a atravessar o regato, fico suspenso no ar, durante alguns minutos que me parecem uma eternidade. E receio até com algum horror não poder descer à terra.

Como tinha sentido que o meu mal-estar aumentava, o homem da outra margem estende-me a mão, para me ajudar a atravessar o curso de água e aterrar ao seu lado. Nesse instante, posso facilmente observar o seu rosto: olhos azuis acizentados, uma barba rala e cabelos meio longos. Fiquei impressionado com a sua beleza.

Pousando sobre mim um olhar de uma doçura infinita, o homem dirigiu-me suavemente uma única frase, enigmática, com um timbre de voz tranquilizador e convidativo: «Para atravessares o ribeiro, precisas de comer o pão da vida.»"

Nesse mesmo dia, este jovem muçulmano tem pela primeira vez na mão o Novo Testamento (terão de ler o livro para perceber como teve acesso a ele!). Sem saber por onde começar, decidiu-se pelo último evangelho, o de João:

"Quando chego ao capítulo seis, paro repentinamente a minha leitura, atordoado, no meio de uma frase. Tenho o cérebro em ebulição: "Eu sou o Pão da Vida", leio. Então passa-se em mim algo extraordinário, como se repentinamente, uma luz deslumbrante iluminasse a minha vida de maneira inteiramente nova e lhe desse todo o seu sentido. No mesmo instante, compreendo que o meu sonho da noite anterior era mais do que um sonho: sinto, muito nitidamente, que havia nele como que um chamamento ou uma mensagem pessoal que me era dirigida através daquelas palavras..."

 

Saborear e ver como o Senhor é bom... Comer o Pão da Vida para podermos passar para a outra margem, a margem da eternidade e da perfeita felicidade... É já amanhã, a primeira comunhão do David!

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   (David e Lúcia ontem de manhã na Gruta de Lourdes, no seu Colégio)

 

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Misericórdia

por Teresa Power, em 26.03.15

Domingo de manhã. O Niall saiu para ir buscar pão (não, não houve tempo para panquecas!) e regressou muito feliz:

- Teresa, encontrei a resposta para a minha dúvida do outro dia!

- Que dúvida? - Perguntei-lhe, enquanto vestia a Sara, a única criança acordada. O Niall estava cheio de entusiasmo:

- Aquela dúvida sobre o perdão de Deus. Deus perdoa, mas será que esquece?

- Ah, já me lembro! Estávamos a falar na omnisciência de Deus, e como é possível para Deus, que sabe tudo, perdoar e esquecer mesmo a sério. E então, podes explicar-me como é que chegaste à resposta enquanto foste comprar pão? Terá sido o padeiro a tirar-te a dúvida?

- Não, foi a própria Palavra de Deus. Enquanto fui ao pão, liguei a Renascença e acertei mesmo em cheio: estavam a ler as leituras deste domingo. A primeira leitura é tão bela, tão bela, que senti arrepios ao escutá-la. Foi ela que me trouxe a resposta.

- E?

- Ora escuta... Prepara-te, porque é mesmo muito bonito. Vou tentar lembrar-me das palavras exatas:

 

"Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e a casa de Judá uma aliança nova. Hei-de imprimir a minha Lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas." (Jer 31, 31-34)

 

- Que maravilha, esta Palavra! Tens razão, Niall. Deus fala muito claramente aqui!

- Sim. Ele diz que o nosso pecado não só é totalmente perdoado, mas também que não mais será recordado. Deus esquece as nossas faltas, e não mais se lembra delas, depois de nos perdoar! Não devemos voltar a confessar faltas antigas já confessadas por medo de não termos sido perdoados, porque isso é uma ofensa ao perdão absoluto que o Senhor nos dá.

- Pois é. O amor de Deus supera a sua omnisciência... Espero não estar a dizer nenhum disparate teológico!

- Não estás. Todas as qualidades de Deus estão inseridas naquilo que Ele é: Amor. Fora do Amor absoluto que Ele é, Deus não é mais nada.

- Mas não é possível fazer uma confissão geral da nossa vida, em determinadas alturas, como por exemplo no Ano Santo?

- Claro que sim, por desejo profundo de colocar tudo diante da luz do Senhor. Dizia o Rei David: "Tenho sempre diante de mim o meu pecado..." (Sl 50) Mas não o devemos fazer por medo de não termos sido perdoados, isso nunca!

 

Os mais velhos acordaram entretanto, e todos juntos fomos tomar o pequeno-almoço.

- Meninos, tenho um desafio para vos fazer. - Disse o Niall, enquanto comíamos - Hoje, na missa, quero que estejam muito atentos à primeira leitura, porque ela vai trazer a resposta para uma pergunta que tinhamos feito uns aos outros no outro dia, durante a oração familiar.

- E qual é essa pergunta? Nós fazemos sempre tantas!

- Também vos desafio a descobrir a pergunta, Francisco.

 

Depois da missa, à hora do almoço, o Niall quis saber se todos tinham encontrado a resposta.

- Sim, encontrámos - Adiantou-se a Clarinha. - A pergunta era: Deus perdoa sempre, mas será que esquece? E a resposta é: sim, Deus esquece.

- Muito bem! O Papa Francisco tem toda a razão ao propor um Jubileu da Misericórdia para o ano que vem. Nós ainda entendemos muito mal o perdão de Deus!

- Vai ser maravilhoso viver um Ano Santo, experimentando na nossa vida este perdão absoluto, e redescobrindo o amor absoluto do Senhor!

- O Papa quer as igrejas abertas e muitas, muitas confissões. Vamos ver a misericórdia do Senhor a correr como um rio na sua Igreja, e uma nova primavera a desabrochar. Ah, que alegria...

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O dia em que o Evangelho nasceu

por Teresa Power, em 25.03.15

- Meninos, amanhã é um dia muito especial. Alguém adivinha porquê?

- Porque são férias?

- Porque já acabaste as reuniões?

- Porque vamos ver a vovó?

- Bem, tudo isso está quase a acontecer, mas ainda não é amanhã. Mais tentativas?

- ...

- Amanhã é o dia em que o Evangelho nasceu.

- A Bíblia nasceu amanhã??

- Não, o Evangelho. A Bíblia são muitas histórias do povo de Deus. Na Bíblia aprendemos sobre David, Abraão, Sara, Samuel, Moisés, Ester, e todas essas histórias que vocês gostam de ouvir. Mas a história principal da Bíblia é o Evangelho, que é a história de Jesus.

- Ah, então amanhã é o dia em que escreveram o Evangelho?

- Não. É o dia em que tudo começou!

- O dia em que Jesus nasceu?

- Os bebés começam a viver nove meses antes de nascerem, não é verdade? O nascimento de Jesus é o terceiro mistério do Rosário. Qual é o primeiro?

- Já sei!

- Diz lá então, Lúcia.

- Amanhã é o dia em que o anjo disse a Maria que ela ia ter um bebé.

- Isso mesmo! Entre o dia de amanhã e o dia de Natal são precisamente nove meses. E como chamamos nós a esse mistério?

- Anunciação.

- Muito bem, David. Amanhã é o dia da Anunciação. E sabem quais são então as primeiras palavras do Evangelho? As primeiríssimas palavras da nossa salvação?

 

"Alegra-te, ó Cheia de Graça!" (Lc 1, 28)

 

O Evangelho nasceu com um imenso convite à alegria. Jesus veio dizer-nos que temos uma razão poderosíssima para vivermos sempre alegres: Deus está connosco e ama-nos infinitamente. Deus é nosso Pai, nosso Irmão, nosso tudo. Deus dá-nos a vida e dá a vida por nós. Que mais podemos desejar?

Anunciação.JPG

Eu sei que há várias leitoras deste blogue a viver o seu momento de "anunciação", carregando dentro de si a graça de uma vida novinha em folha. Algumas estão felicíssimas, outras ainda perturbadas com o anúncio inesperado. A elas dedico este post! Que possam experimentar a certeza da Boa Nova e a alegria transbordante que Maria, a nossa Mãe, carregou em si e ofereceu ao mundo. Ámen!

 

 

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