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Uma caixa cheia

por Teresa Power, em 31.08.15

- Mãe, mãe, vem ver o que eu encontrei em Náturia! Vem depressa! Vem depressa!

Corro para o jardim.

- O que foi, Lúcia?

- Amoras! Tantas, tantas! Olha, posso levar uma caixa para trazer para todos?

- Claro. Leva esta.

Dez minutos mais tarde, nova algazarra:

- Mãe, mãe, olha só! Tantas! Tantas!

Espreito para dentro da caixa. Escondo um sorriso para não ofender a Lúcia. Querem espreitar também?

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 A verdade é que, alertados pelos gritos de entusiasmo, o David, a Sara e o António correram para o jardim; e contagiados pela alegria da Lúcia, também concordaram que a caixa estava cheia de amoras escuras e doces. Com jeitinho, cada um deles tirou uma amora da caixa, que saboreou delicadamente, e - surpresa! - ainda sobraram amoras! Deu para outra ronda e deu para a mãe também provar...

A enorme crise de migração que estamos a viver nestes dias na Europa revela-nos a dificuldade, também enorme, que temos em partilhar. Cada um dos países deste velho continente tem muito mais do que uma caixa cheia de amoras para dar... No entanto, continuamos a achar que, se dermos tudo, ficaremos sem nada.

Ah, dois mil anos de cristianismo não chegaram para nos revelar o rosto de Deus! O nosso Deus é o Senhor da multiplicação, o Deus da abundância, e para fazer milagres só precisa que lhe ofereçamos o pouco que temos, com amor. A Jesus, bastaram cinco pães e dois peixes oferecidos por um rapazinho generoso. Sabem o que aconteceu então?

 

"Então Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelo que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.» Recolheram, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer." (Jo 6, 11-13)

 

Felizmente, há cada vez mais gente disposta a aceitar o desafio da multiplicação e a experimentar o poder imenso do amor...

Senhor, transforma o nosso coração de pedra num coração de carne, generoso e disponível, capaz de partilhar, de acolher e de amar como Tu sempre fazes! Senhor, dá-nos a audácia para sermos verdadeiramente cristãos, e experimentaremos na nossa vida os teus milagres de amor. Ámen!

 

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A pregação de Jesus

por Teresa Power, em 27.07.15

Oração familiar. Junto ao Canto de Oração, rezamos o terço.

- Quinto mistério doloroso - Enuncio, à espera que um dos mais pequenos o nomeie. Ser o primeiro a dizer o nome do mistério tornou-se, cá em casa, num jogo que todos querem ganhar.

- Eu digo! Eu digo! - Grita a Lúcia, entusiasmada. E continua: - O quinto mistério é a pregação de Jesus.

- Não é nada, Lúcia! - Reage o David, impaciente - É a crucifixão de Jesus. É quando Jesus morre na cruz!

- Foi o que eu disse! - Responde a Lúcia - Eu disse "pregação", e pregação é pôr pregos, não é?

Todos nos rimos com simpatia. Interrompendo a conversa, respondo à Lúcia:

- Lúcia, o que tu dizes nem está assim tão errado. Afinal, a mais bela pregação de Jesus foi mesmo na cruz... Quando esteve suspenso na cruz, Jesus pregou quase sem palavras. Na cruz, Jesus pregou com a sua vida, com o seu olhar, com o seu suspiro, com o seu coração trespassado de amor... Não há maior pregação do que a da cruz!

 

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O trocadilho inocente da Lúcia fez-me pensar no heroísmo de tanta gente que eu conheço, e que dá testemunho da sua fé, não através de palavras, nem de milagres, nem de visões, nem de uma sucessão de acontecimentos festivos, mas precisamente através da sua cruz - uma cruz aceite com cara alegre e total confiança no Senhor.

Talvez a nossa vida não seja como gostaríamos que fosse, a nossa família não nos compreenda, os nossos filhos sigam por maus caminhos, o nosso emprego seja uma desilusão... Talvez estejamos doentes, desempregados, abandonados, traídos, magoados... Então é o momento de pregar sem palavras, carregando  a cruz com um sorriso aberto e um coração atento, transbordando amor. Na verdade, falar de Jesus quando tudo corre bem é simples; mas manter a alegria e recusar a revolta, a cara feia e os queixumes - isso é pregação! Como a de Jesus, também essa se tornará na mais bela pregação da nossa vida...

 

"Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la, mas quem a perder por Minha causa, há-de salvá-la."

(Mc 8, 34-35)

 

 

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Somos todos Jesus

por Teresa Power, em 12.06.15

- Mamã, gostaste do meu teatro da catequese?

- Adorei, Lúcia! Estavas muito bonita, a segurar a letra do nome de Jesus.

- Eu gosto tanto da catequese!

- Tens amigos no teu grupo?

- Tenho. Todos somos amigos! E os meus catequistas são muito bons. Sabem muitas histórias da Bíblia, mamã, assim como tu!

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 Os catequistas - evangelizadores, como aqui na paróquia preferimos chamar - da Lúcia são pais de uma Família de Caná muito simpática. Este ano foi a sua estreia como evangelizadores, e a experiência foi magnífica, tanto para as crianças, como para eles. No sábado passado, na hora de louvor com que terminamos sempre a catequese, fizeram com as crianças uma breve apresentação, que a todos encantou. O João começou por ler este texto, onde exprime bem aquilo que viveram ao longo do ano:

"Está quase no final este nosso primeiro ano de evangelização.
Foi uma estreia para todos. Para as nossas pequeninas e pequeninos, mas também para mim e para a Isabel…
Para muitos de nós este foi o primeiro contato, mais ou menos elaborado, com a religião e com a fé.
Nem sempre conseguimos, mas estivemos sempre todos com a noção de que não queríamos falhar, o que quer que fosse, nesta grande experiência e nesta responsabilidade de iniciar, mais formalmente, uma caminhada importante. Caminhada esta que esperemos seja longa e não se esvazie com o tempo. Que Deus nos Ajude para que esta fé não deixe de ser alimentada.
Durante esta nossa jornada pedimos ajuda a Nossa Senhora que nos auxiliasse, rezámos, rimos, brincámos, conversámos… e ganhámos todos novos amigos.
Fizemos uma tenda gigante no meio de uma sala de aula no nosso “deserto” e subimos ao monte para rezar, provámos um delicioso e suculento maná, sentimos o espírito santo de uma forma diferente e como ele pode tornar-se efervescente na nossa vida. A ressurreição de Jesus foi explosiva aos nossos olhos fazendo brotar pétalas perfumadas e corações por todos.
Ouvimos, muitos de nós pela primeira vez, nomes como Abraão, Tobias, Moisés, Tobite, Sara, Isabel, Elias e Jeremias, João, Maria, Pedro ou Simão e tantos outros… e até conhecemos de perto um anjo, que carinhosamente foi chamado de Anjo Rafa…. Imaginem! Que como Gabriel protagonizou algumas das nossas “aventuras”.
São pedaços de uma história magnífica e que acreditamos ser verdadeira, que relata muitos dos feitos também de um super-herói, um super-homem, com a vantagem que Este existe e não é ficção. E que é o nosso verdadeiro protector… JESUS
É sobre esse nosso grande amigo que vamos falar hoje.
Em muitas tarefas, pinturas, dinâmicas, musicas e vídeos, houve alguns que momentos que nos marcaram… este que vamos ver é um deles… Quem é Ele Afinal?"

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E à pergunta do João, as crianças foram respondendo, uma a uma, com uma palavra: Amor, Paz, Alegria...

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Por fim, cada uma segurou bem alta uma letra que apanhou do chão, e juntos formaram a frase:

"Somos todos Jesus".

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 Lembrei-me da afirmação de S. Paulo:

 

"Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim." (Gl 2, 20)

 

E lembrei-me do nosso lema de Famílias de Caná, expresso na primeira "bilha": Nós, Jesus. Ao longo deste mês, as Famílias de Caná foram desafiadas a meditar sobre esta união intensa com Jesus, procurada e vivida em cada circunstância, boa ou má, da nossa vida.

Cá em casa, durante o mês de junho - e hoje é o dia do Sagrado Coração de Jesus - repetimos muitas vezes a oração:

"Jesus, manso e humilde de Coração, tornai o meu coração semelhante ao Vosso."

O João e a Lúcia, catequista e catequisanda, estão convencidos da necessidade de conhecer a Palavra de Deus e todas as histórias da nossa salvação para aprender a ser como Jesus. Ao longo do ano, como o texto do João exprimiu, fizeram destas histórias vida e movimento, encheram-nas de cor, recrearam-nas, representaram-nas, recontaram-nas e trabalharam-nas até que a Palavra descesse da mente ao coração. A vida encarregar-se-á de mostrar se conseguiram...

E nós? Passamos tempo suficiente com Jesus, em oração e meditação, escutando as batidas do seu Sagrado Coração, para aprendermos a ser como Ele?...

 

 

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Sagrado Coração

por Teresa Power, em 08.06.15

Quando me fui deitar, sábado à noite, tinha sobre a cama dois desenhos da Lúcia. Ela costuma oferecer-me um presente artístico com alguma frequência, mas estes desenhos não eram um campo de flores ao sol, uma dança de fadas, uma casa familiar ou meninos a brincar. Eram desenhos especiais, feitos duma mistura de palavras, colagens e recortes:

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 Deitei-me com estes dois lindos desenhos no pensamento. E como costume antes de adormecer, examinei o meu coração... Estaria ele cheio de alegria, paz e amor? Estaria ele habitado pelo Rei? O que é que o faz bater - o mais importante, ou tanta trivialidade?

Os corações que a Lúcia colou nestes desenhos estão disponíveis no nosso Canto de Oração ao longo de todo o mês de Junho, para os podermos ofertar ao Senhor simbolicamente, cada vez que fazemos alguma coisa difícil "de coração", ou seja, por amor, unidos ao Coração de Jesus - Nós, Jesus...

 

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Na porta da entrada temos uma representação do Coração de Jesus, feita pelos meninos no ano passado, como podem ler aqui. Colocamo-lo à porta, para nunca nos esquecermos de que a Porta do Céu é o Coração de Jesus, pois ninguém entra no Céu sem passar pelo Amor...

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Nas nossas veias corre Sangue Real, o Sangue com que fomos redimidos na Cruz... Somos de descendência divina, somos filhos do Rei dos reis, do Deus dos deuses, do Senhor dos senhores!

 

"Eu lhes darei um coração não dividido e infundirei neles um espírito novo. Extrairei do seu peito o coração de pedra e lhes darei um coração de carne, de modo que andem segundo as minhas leis e observem os meus preceitos." (Ez 11, 19-20)

 

Obrigada, Lúcia, por me teres conduzido em oração nesta noite! Que os nossos corações sejam todos de Jesus, o Rei, sem divisão... Ámen!

 

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Rosas desfolhadas

por Teresa Power, em 27.05.15

- Mamã, temos de levar uma flor para Nossa Senhora, hoje na missa!

- Não é hoje, David, é no próximo sábado. Hoje será a bênção da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora em Saída, e no próximo sábado, na catequese, todos os meninos levarão uma flor. A procissão é só no outro domingo.

- Mas há uma rosa tão bonita no jardim... Tão bonita mesmo!

Sair para a missa ao domingo de manhã é sempre uma grande corrida contra o tempo, e não pude concluir este breve diálogo com o David. Mas durante a Eucaristia apercebi-me de uma curta troca de palavras entre o David, acólito, e o celebrante, o padre Aníbal, que veio expressamente de Lisboa para a ocasião. O padre Aníbal inclinava-se para o David e sorria-lhe. Já em casa, ao almoço, perguntei:

- David, que te disse o padre Aníbal na missa?

- Disse-me para não ficar triste, que no próximo domingo posso trazer a flor.

Engoli em seco.

- Então tu estavas triste?

- Não. Quer dizer, antes da missa eu disse ao senhor padre que queria ter trazido uma rosa muito bonita, mas não tivemos tempo...

- Queres mostrar-me qual é essa rosa?

- Vem cá!

O David levou-me ao jardim, onde uma única rosa vermelha erguia as suas pétalas, triunfante.

- Tens razão. É mesmo bonita! Olha, fazemos assim: mais logo colhemo-la e levamo-la ao santuário. Pode ser?

Os seus olhos brilharam.

- Sim!

Estava eu a deitar a Sara para a sesta, quando o António apareceu a correr junto de mim.

- Mamã, a Lúcia destruiu uma flor vermelha e escondeu as pétalas! E as pétalas eram para os dois!

Senti o coração aos pulos. Uma flor vermelha?

- António, que flor é que ela destruiu?

- Vem ver - E o António levou-me ao jardim. Procurei com o olhar o vermelho brilhante da rosa do David. Mas no lugar da rosa, havia apenas um caule triste.

- Lúuuuuucia! - Gritei, exasperada. Ela apareceu a correr.

- O que foi, mamã?

- Que fizeste à rosa vermelha? QUANTAS VEZES TE DISSE QUE NÃO SE PODEM ARRANCAR AS FLORES DO JARDIM?

Ela ficou muito calada. A minha brusquidão fez surgir duas grossas lágrimas nos seus olhos esverdeados.

- O David queria levar a rosa a Nossa Senhora, Lúcia. - Expliquei-lhe, sempre muito irritada.

- Eu não sabia... A sério, eu não sabia...

- Mas não podes arrancar flores. As flores não são para destruir, são para colher e colocar em jarras. Destruir, não!

- Eu não sabia...

Ficámos as duas em silêncio. Eu procurava acalmar-me, como convém a uma mãe cristã. Depois, abracei a minha filha e pedi-lhe perdão pelos gritos. Não tinham sido necessários. Aliás, raramente são necessários, e geralmente são detestáveis quando os vemos nos outros. A Lúcia sorriu, feliz, perdoando-me de coração - cá em casa, temos um grande treino nestes gestos de pedir e oferecer o perdão - e continuou a brincar.

Agora faltava contar ao David.

- David, tenho uma coisa a dizer-te... Acho que a tua rosa... Bem, acho que temos de levar outra flor a Nossa Senhora.

- Porquê?

- Porque a Lúcia arrancou todas as pétalas. Ela não fez por mal, estava só a brincar...

O David ficou calado, depois o seu rosto iluminou-se:

- Podemos apanhar as pétalas e levá-las a Nossa Senhora! Deitamo-las no chão junto à sua imagem, como se faz nas procissões!

E foi o que fizemos.

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 Enquanto observava a alegria do David, cobrindo de pétalas o chão em redor da imagem de Nossa Senhora, fiquei a pensar...

Também eu tenho um jardim interior, um jardim criado por Deus, lá nos primórdios da criação da minha vida. É nesse jardim onde, como diz o Livro do Génesis, o Senhor gosta de passear pela brisa da tarde:

 

 "Então ouviram o som dos passos de Deus, que passeava no jardim pela brisa da tarde." (Gn 3, 8)

 

No meu jardim interior há muito poucas rosas vermelhas de que me possa orgulhar. Eu gostava de poder escrever aqui que nunca perco a paciência, que nunca ralho sem razão, que sou sempre justa, que nunca me engano, que nunca me distraio na oração, mas nada disso é verdade. Como me escreveu uma simpática leitora deste blogue: "Às vezes tenho dificuldade em me aturar!" Fico com a sensação de passar anos e anos a construir virtudes, como quem faz crescer rosas com cuidado, para depois, numa fração de segundo, o meu pecado arrancar todas as pétalas e deixar à vista de todos apenas um triste caule. Um grito totalmente desproporcionado, e lá cai mais uma rosa por terra... De que valeram anos de esforço, se o meu jardim está cheio de rosas desfolhadas?

Mas dos braços de Maria, Jesus pareceu sorrir-me. E eu pensei escutar...

"Só há pétalas espalhadas pelo chão onde antes houve rosas. O que a Mim importa é que continues, todos os dias, a cultivar as tuas rosas, esforçando-te por praticar a Minha Palavra. O teu esforço cativa o meu Coração! Se depois, num segundo, o teu pecado arrancar todas as pétalas, não te aflijas. Quando não tiveres rosas para Me oferecer, ajoelha-te na poeira do teu chão e recolhe as tuas pobres pétalas, como o David fez. São-me mais agradáveis as pétalas recolhidas com a humildade de quem se sabe pecador do que as rosas oferecidas com o orgulho de quem se julga irrepreensível..."

Senhor, ensina-me a praticar o bem sem vaidade, recomeçando cada dia; e que o meu pecado nunca seja ocasião de desânimo na minha vida, mas antes fonte de humildade. Senhor, são para Ti todas as minhas pétalas...

 

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Amor de irmão

por Teresa Power, em 22.05.15

Na viagem de regresso do Retiro Famílias de Caná em Castelo de Neiva, a Lúcia lembrou-me:

- Mãe, amanhã vou a uma visita de estudo!

- É verdade, Lúcia, ainda nos falta essa! Chegar a casa, despejar os restos do piquenique e preparar novo piquenique para ti!

A Lúcia bateu palmas de excitação:

- Vou ao Portugal dos Pequeninos! E vou comer gelado. O gelado é grátis!

Ao chegarmos a casa, como se devem recordar, tínhamos uma ninhada de gatinhos recém-nascidos à nossa espera, e tralha e mais tralha para arrumar. Pouco tempo sobrou para pensar na merenda da Lúcia ou no seu passeio. De vez em quando, contudo, ela lembrava-nos:

- Mamã, não podemos esquecer de levar o banquinho do carro! É obrigatório! E eu quero levar Nuggets. O papá pode ir comprar?

Respondíamos a tudo que sim, e lá continuávamos a arrumar. Até que chegou a hora de deitar. Um a um, deitámos os mais pequeninos, depois foi a vez do David... Fechei as luzes dos quartos e regressei à cozinha, onde continuei a trabalhar.

Foi então que senti passinhos no corredor. Era o David.

- David, não estás a dormir? Passa-se alguma coisa?

Baixinho, para não acordar ninguém, o David murmurou:

- Vim dizer-te para não te esqueceres da visita de estudo da Lúcia... Ela tem de levar uma boa merenda, mamã!

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Tenho recebido mails e trocado palavras com mães de um ou dois filhos, cansadas e sobressaltadas com todo o trabalho que envolve a maternidade.

Eu lembro-me muito bem da passagem de um para dois filhos, e de como foi difícil gerir uma família a crescer! Lembro-me das crises de ansiedade, do stress, do cansaço, do desânimo. Lembro-me das lágrimas, das dores de cabeça. Lembro-me das noites mal dormidas e das birras longas e difíceis dos mais velhos. Lembro-me de achar que não ia ser capaz... Lembro-me de ver outras famílias com muitos filhos e de me perguntar: "Como é que eles fazem?" Lembro-me de perguntar à minha cunhada, na altura com três filhos, se dava banhos todos os dias ou como fazia para dar de mamar e ao mesmo tempo impedir que o mais velhito não se atirasse de uma escada abaixo. Lembro-me de me sentir incapaz e inútil. Lembro-me...

Mas lembro-me de outras coisas também! Lembro-me das gargalhadas, das festas, dos saltos, da alegria. Lembro-me da primeira vez que o Francisco pegou na Clarinha ao colo. Lembro-me dos abraços que os dois davam ao Tomás. Lembro-me da festa que foi o nascimento do David, três meses depois da morte do Tomás. Lembro-me de como o Francisco, então com sete anos, me repetia vezes sem conta:

- Obrigada, mamã, por me dares este mano!

Custa, dar um irmão - ou dois, ou três, ou quatro... - aos nossos filhos? Custa. Irá ser difícil adaptarmo-nos? Sim. Vão surgir momentos em que nos parece que fizemos asneira? Vão. Os mais velhos irão fazer birras? Certamente que sim, não porque tiveram um irmão (nós é que gostamos de fazer associações...), mas porque todas as crianças fazem birras ao crescer.

Vale a pena dar um irmão - ou dois, ou três, ou quatro... - aos nossos filhos? Dificilmente lhes daremos presente melhor! Oferecer um irmão a uma criança é oferecer-lhe a oportunidade de amar e cuidar de alguém. Os irmãos fazem-nos vencer o nosso egoísmo natural, ensinam-nos a resolver conflitos, forçam-nos a partilhar afetos, tempo e brincadeiras, e despertam em nós a solidariedade e a compaixão.

O David estava cheio de sono, mas na sua cabecinha de criança de oito anos não passavam apenas imagens do passeio do fim-de-semana: na sua cabecinha de criança de oito anos estava bem marcada a imagem da sua querida irmã Lúcia, que corria sérios riscos (segundo ele, claro...) de acordar de manhã e não ter uma merenda digna de visita de estudo. O seu amor fraternal foi mais forte que o cansaço, e o David não hesitou em saltar da cama para me recordar as minhas obrigações maternais...

 

"Que fizestes de teu irmão?" (Gen 4, 10)

 

A voz de Deus ecoa ao longo de toda a Bíblia. Possam os nossos filhos aprender, em família, a fraternidade dos filhos de Deus. Ámen!

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E por falar em irmãos... Já assinaram a Petição pelo Dia dos Irmãos? São precisas quatro mil assinaturas. Assinem e passem palavra!

 

 

 

 

 

 

 

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Polícias, pastorinhos e um polvo gigante

por Teresa Power, em 06.05.15

Oração familiar. Leitura do Livro dos Atos dos Apóstolos. O Francisco lê sobre a prisão de Pedro e de João, decretada pelos fariseus.

- Esses polícias são os mesmos que prenderam os pastorinhos de Fátima? - Pergunta a Lúcia com simplicidade.

Entre gargalhadas, explicamos-lhe que não, que viveram algum tempo antes...

No dia seguinte, o António e a Lúcia brincam animadamente com blocos de madeira, enquanto conversam. O António reune várias figurinhas e vai explicando:

- Estes vão à missa, estes não vão...

- Mas somos todos polvo de Deus, António - Explica a Lúcia, com ar superior - Um polvo com muitos braços!

Interrompo a sua conversa, divertida:

- Lúcia, não é polvo, querida, é povo, povo, ou seja, muitas pessoas juntas!

- Ah, eu não sabia...

- Eu sabia! - Interrompe o António, muito seguro do alto dos seus cinco anos.

- Ai sabias, António? - Reage a Lúcia, indignada - A professora Rosário diz que os meninos que sabem tudo podem ir para o décimo segundo ano.

- Não discutam, meninos! Ninguém sabe tudo. A mãe também não sabe tudo. O importante é mesmo querer saber sempre mais, querer conhecer e descobrir sempre mais!

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Estes pequenos episódios da nossa vida de evangelização familiar mostram-me com clareza como é importante evangelizar os nossos, diariamente, em família. Se não lhes contarmos as histórias, se não lhes explicarmos a Palavra, como hão-de conhecê-la para a praticar? As nossas conversas ao serão em torno da Palavra revelam-nos, primeiro, o pouco que sabemos; e depois, despertam em nós a vontade de aprender. Perguntando, respondendo, sugerindo, imaginando, uns com os outros vamos desvendando os mistérios da nossa fé e fazendo caminho com Jesus.

Cá em casa, gostamos de seguir o missal, meditando nas leituras da missa diária. Elas permitem-nos uma sequência na leitura da Bíblia, pois em cada semana, a Igreja medita num Livro Sagrado, um bocadinho cada dia, oferecendo no missal uma pequena explicação introdutória. Para nós, é sem dúvida a melhor forma de ler a Bíblia. Assim, ao longo das semanas do Tempo Pascal meditamos no Livro dos Atos dos Apóstolos e no Evangelho de S. João, e a experiência de aprendizagem tem sido fantástica.

Que cada Família de Caná tenha todos os dias alguns minutos para a Palavra de Deus na sua casa, à semelhança da Mãe, que este mês celebramos de uma forma especial. Maria, na verdade,  alimentava-se diariamente desta Palavra, que reconhecia em cada gesto do seu divino filho:

 

"Quanto a Maria, guardava todas estas coisas, ponderando-as em seu coração." (Lc 2, 19)

 

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publicado às 06:27

Conversa a sós

por Teresa Power, em 16.04.15

A Lúcia e a Sara brincavam animadamente na sala. A Lúcia era a professora, a Sara era a aluna. Eu passava a ferro, enquanto escutava.

- Agora vamos aprender a letra H - Dizia a professora - Sara, vem ao quadro!

E lá ia a Sara, toda contente, sem saber bem o que fazia.

- Sara, estás a portar mal! Tens de respeitar os outros!

E a Sara sorria, feliz.

- Sara, continuas a portar mal. Temos de ter uma conversa a sós. Vamos ali fora da sala, só nós as duas.

A Lúcia sentou-se no sofá - presumivelmente fora da sala de aula - e chamou a Sara para o seu colo. Depois de lhe dar um abraço, disse-lhe baixinho:

- Tens de aprender a portar bem e a respeitar os outros!

E com um beijinho, mandou-a de volta para a "sala". Eu pousei o ferro e tirei esta fotografia:

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Enquanto a brincadeira prosseguia, e o ferro deslizava sobre a montanha de roupa a meu lado, fiquei a pensar no conteúdo da conversa da Lúcia. Eu já sabia que ela tinha uma ótima professora, pois tivera a mesma experiência com o Francisco. Mas a brincadeira fizera-me descobrir alguns pormenores importantes: quando a professora quer ralhar com algum menino, não o faz em público, diante da turma, mas chama-o à parte, fora da sala de aula. E aí não o trata com aspereza, mas com ternura, como a Lúcia fez com a Sara. 

Que grande lição para mim! Quantas vezes ralho com um filho diante dos irmãos, ou com um aluno diante da turma inteira? No entanto, o Evangelho é muito claro:

 

"Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão." (Mt 18, 15)

 

Afinal, é assim que Jesus faz connosco, oferecendo-nos a oportunidade de confessarmos o nosso pecado a sós, de um para um, no confessionário... E fá-lo sempre com tanta ternura!

Obrigada, professora Rosário, obrigada Lúcia, obrigada Senhor, por mais esta lição. Que eu saiba repreender em privado e elogiar em público, sem aspereza e cheia de amor. Ámen!

 

 

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Primeira confissão

por Teresa Power, em 06.03.15

Os meninos do grupo dos seis anos - o primeiro ano de catequese - fez no sábado passado a sua confissão quaresmal. Para quase todos, tratou-se da primeira confissão, pelo que os catequistas João e Isabel (uma bela Família de Caná!) não pouparam esforços para que fosse uma experiência memorável. O encontro do nosso pecado com o perdão transbordante do Senhor tem de ser uma ocasião de festa, e é preciso que as crianças o vejam assim!

A Laura Puet, no seu blog La Familia, Lugar de Fiesta, na Argentina, mostrou-nos como se pode fazer uma celebração penitencial belíssima com crianças pequeninas. Utilizando algumas das suas ideias (que vêm ao encontro da nossa simbologia quaresmal cá em casa), o João e a Isabel prepararam um poster com a imagem de Jesus, Bom Pastor. Depois, cada criança que se confessava trazia a sua ovelhinha, bem identificada, até junto de Jesus, onde a colocava com muita alegria:

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 Falar de perdão é, na verdade, falar de uma grande festa. Diz o Senhor:

 

"Qual de vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai em busca da ovelha perdida até a encontrar? Quando a encontra, com que alegria a coloca aos ombros! Volta então para casa e chama os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: «Alegrai-vos comigo porque encontrei a ovelha perdida.» Eu vos digo que também no céu haverá mais alegria por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão." (Lc 15, 1-7)

 

Não afastemos as crianças pequeninas desta grande festa! O reencontro com o Bom Pastor é a maior alegria que podemos experimentar na vida, e elas devem sabê-lo desde muito pequeninas. Não terão certamente "pecados de chumbo" para apresentar ao Senhor, mas aos seis anos já têm um bom quilinho de "pecados de algodão"! Todos os dias as ensinamos a pedir desculpa - a nós, ao professor, ao irmão... Porque bateu no amigo, porque falou alto na aula, porque tirou um brinquedo ao mano, porque mentiu à mãe... Ensinemo-las também a pedir desculpa ao Senhor!

E Jesus toma-las-á aos ombros, cheio de alegria, chamará os amigos e vizinhos do céu e da terra e fará uma festa...

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Escrito para sempre

por Teresa Power, em 04.03.15

Eu estava bastante zangada com o David. No entanto, o disparate que o David fizera não fora por mal, e certamente não merecia a minha impaciência, ou pelo menos, não merecia tanto. Depois de ralhar, e de perceber que exagerara, abracei-o.

- Desculpa, David! - Disse, com sinceridade.

- Já te desculpei há muito - Respondeu-me ele, encostando a cabeça ao meu corpo num abraço. - Eu sei que me portei um bocadinho mal, e também sei que tu não querias ralhar tanto.

- Tens razão. Fomos os dois um pouco tontos. Vamos esquecer?

- Já está!

Tranquilizada com o perdão do meu filho, entrei no escritório para arrumar uns livros, e qual não foi o meu espanto ao deparar-me com isto:

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A letra, o uso das maiúsculas e o esforço visível empregue neste trabalho não me deixaram dúvidas:

- Lúúúúúúúúcia!

A Lúcia apareceu a correr:

- Que foi, mãe?

- Posso saber quem andou a escrever nos móveis?

- ...

- Não consigo ouvir. Dizes-me por favor quem andou a escrever nos móveis?

- ...

- Lúcia?

- Mas, mãe, tu foste um bocadinho tótó. Ralhaste com o David e ele não tinha feito de propósito!

- E era preciso escrever isso no móvel?

O David chegou nesse momento. Perante a obra de arte da irmã, comentou:

- Oh Lúcia! Isso nunca mais vai sair! Um dia quando tu tiveres filhos, eles vão pensar que a nossa mamã ainda é tótó!

Não consegui disfarçar um sorriso. Mas foi com um ar forçadamente sério que explorei a ideia do David:

- Ai, Lúcia, os meus netos, bisnetos, trisnetos e tetranetos vão todos ficar a saber que eu sou tótó. Que tristeza!

A Lúcia tinha os olhos muito abertos:

- Ah, não pensei nisso! Olha, eu depois digo-lhes que me enganei.

E aos saltinhos, foi brincar.

 

Eu sei que, quando descobrimos o prazer da escrita, todas as superfícies são boas para escrever. Mas também sei que há coisas que só se devem escrever na areia. Entre elas, os pecados e os defeitos dos outros! Quando nos ensinou a rezar, Jesus ensinou-nos a perdoar o próximo prontamente, como o David fez:

 

"Perdoai-nos as nossas ofensas

Assim como nós perdoamos

aos que nos ofendem." (Mt 6, 12)

 

É que é na areia, também, que Deus escreve os nossos pecados, para poder, com uma só onda da sua misericórdia infinita, apagá-los assim que Lho peçamos...

 

"Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia,

segundo a tua grande clemência, apaga as minhas trangressões!

Lava-me todo inteiro da minha culpa

e purifica-me do meu pecado!

Pois reconheço as minhas culpas

e tenho sempre presente o meu pecado.

Lava-me, e ficarei mais branco do que a neve!" (Sl 51/50)

 

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