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A boneca assassinada

por Teresa Power, em 03.07.14

Na semana passada, o David passou uma tarde inteira de brincadeira aqui em casa, com dois amigos. De espadas de pau nas mãos e capas às costas, eles foram super heróis durante largas horas. No fim do dia, a Lúcia veio ter comigo com os olhos cheios de lágrimas, com uma das suas bonecas preferidas na mão. Estendendo para mim a boneca, disse-me com voz fininha:

- Eles mataram-na com a espada!

Tive de concordar que a boneca estava definitivamente morta: faltava-lhe um olho e metade dos dedos da mão. E se estes pequenos defeitos não equivalem realmente à morte num ser humano, numa boneca já suja e velha, podem acreditar que sim! Só faltava enterrá-la...

- Lúcia, acho que não a podemos salvar - Concordei. - Vamos ter de a deitar para aquele saco especial... Sim, o saco do lixo!

A Lúcia deu um abraço à boneca e depois entregou-ma. Guardei-a num saco de plástico no armário do meu quarto, como faço com todos os brinquedos importantes antes de os deitar no lixo. Assim, durante alguns dias estão ainda ao alcance do dono, no caso de uma crise de saudades tornar impraticável o acto derradeiro. Mas hoje, e porque a Lúcia não voltou a falar na boneca, discretamente deitei-a no contentor.

 

Numa casa com várias crianças, onde se partilham quartos e brinquedos, é mais fácil aprender a pobreza, aquela pobreza que Jesus fez equivaler à felicidade nas Bem-Aventuranças:

 

"Bem aventurados os pobres que o são no seu íntimo, porque é deles o Reino dos Céus!" (Mt 5, 3)

 

Ser pobre no seu íntimo não significa não ter bens. Podemos ser ricos - desta riqueza que nos impede de ser felizes - mesmo sem ter dinheiro! Podemos ser ricos, por exemplo, dos nossos "espaços pessoais de autonomia e relaxamento", como diz o Papa Francisco n' A Alegria do Evangelho, número 78; ou do nosso "tempo pessoal", como acrescenta no número 81. Ricos, porque não deixamos que perturbem o nosso descanso ou o nosso espaço. O Papa deu o exemplo de pobreza ao renunciar aos seus aposentos papais no Vaticano, partilhando antes a Casa de Santa Marta com muitas outras pessoas! Podemos ser ricos dos nossos objectos pessoais - o telemóvel, o computador... - gritando com quem se atreve a tocar-lhes; podemos ser ricos do nosso carro, examinando atentamente cada risco na pintura, como vejo tanta gente a fazer; podemos ser ricos de uma boneca, de um carrinho, de um desenho, de uma bola - são só objectos, por muito especiais que sejam para nós! Podemos ser ricos de nada e de coisa nenhuma, perdendo assim a felicidade da pobreza.

Se queremos experimentar a alegria do Evangelho, recorda-nos o Papa Francisco, temos de redescobrir a pobreza. Olhemos um pouco para as nossas coisas pessoais, para a nossa casa, para a nossa vida... O que preciso de deitar fora se quiser ser pobre? O que preciso de aprender a partilhar? O que preciso de deixar que me roubem ou estraguem? Isso é mais difícil... Estragaram a boneca da Lúcia, e a Lúcia aprendeu a viver sem a boneca e sem perder a alegria. E eu?

 

 

 

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publicado às 07:02




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