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A Mim o fizestes

por Teresa Power, em 03.09.15

No domingo, fui visitar a minha avó a Aveiro. Ela está muito velhinha e cada vez mais próximo do céu, e por isso fui sozinha, para que o barulho dos mais novos não a incomodasse. Pelas quatro horas da tarde, decidi regressar. Entrei no carro, que estacionara em plena avenida principal, e ia dar início à minha viagem de regresso a casa, quando percebi que o carro não estava a responder normalmente. Parei o motor, saí do carro e confirmei a minha suspeita: tinha um furo. E agora? Eu não faço a menor ideia de como se troca um pneu, e o Niall estava a trinta quilómetros de distância.

Bem, no centro da cidade não devia ser difícil encontrar quem me ajudasse... A verdade é que as pessoas iam passando no passeio, algumas olhavam para o carro com os quatro piscas e certamente viam o pneu em baixo, mas ninguém parava. A minha mãe, que entretanto me fazia companhia junto do carro, ainda pediu a um transeunte que nos ajudasse, mas ele desistiu depois de procurar, em vão, retirar o pneu sobresselente de debaixo do carro. Telefonei ao Niall.

- Não faças nada, porque é mesmo complicado trocar um pneu no monovolume - Disse-me. - Eu vou  pôr-me a caminho. Espera por mim, que em meia hora estou aí.

Foi nessa altura que o arrumador de carros, que por ali andava no seu trabalho diário, percebeu o que se estava a passar.

- A senhora precisa de ajuda? - Perguntou, com simpatia.

- Não, obrigada, o meu marido já aí vem para me trocar o pneu - Respondi. Mas ele não aceitou um "não" por resposta, e num instante estava deitado debaixo do carro, procurando perceber como se desapertava o pneu sobresselente.

- Não chame o seu marido - Disse-me - Eu faço isto sem problemas!

- Mas olhe que é muito complicado! - Insisti - Estes carros modernos têm muitos segredos na troca dos pneus. O meu marido já aí vem.

- Diga-lhe que escusa de vir, porque quando chegar eu já fiz o trabalho - Insistiu ele também. Eu aceitei então, telefonei ao Niall e fiquei a observar. O arrumador trabalhou arduamente durante meia hora, porque de facto não é fácil trocar um pneu na carrinha, e foi conversando, com muita elegância e simpatia. Por fim, o trabalho ficou pronto, e ele fez menção de seguir o seu caminho.

- Espere - Disse-lhe. - O senhor foi muito gentil e perdeu imenso tempo aqui comigo. Queria agradecer-lhe... - E estendi-lhe uma mão com dinheiro.

- Ah, isso é muito, minha senhora! - Respondeu, sem pegar no dinheiro. Insisti, e ele aceitou, com um sorriso rasgado - Que Deus a ajude! Boa viagem!

Despedimo-nos em paz e com grande alegria. Na avenida, continuavam a passar rapazes novos e pais de família, alguns com pressa, outros vagarosamente. Mas o privilégio do Bom Samaritano não foi conquistado senão por um pobre arrumador...

 

"Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes. (...) Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer." (Mt 25, 31-46)

DSC03181.JPG

 

 

 

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publicado às 06:20


4 comentários

De FM a 03.09.2015 às 12:28

Bela história... se todos ajudassemos este ou aquele, um bocadinho só, podiamos fazer o mundo tao melhor.

E com as noticias destes dias, dou por mim a pensar - e o que podemos fazer? nao consigo fazer donativos... cada vez sou mais desconfiada do que as organizações fazem.

Teresa - nao tem uma boa sugestão? Não quero mudar o mundo (quer dizer, querer queria... mas...), quero só saber que neste momento ajudo mais do que a pessoa que passa por mim e me pede dinheiro para comer (e nao, raramente dou, levo-o ao supermercado comigo ou a um café... assim tenho mais certezas). Sou desconfiada eu sei... :S

(hoje os sentimentos são estes :()

De Teresa A. a 03.09.2015 às 14:54

Só tu para me pores lágrimas nos olhos.

Estava mesmo, MESMO a precisar de uma história que me fizesse acreditar na bondade humana...

Deus faz cada uma: hoje de manha "entrei" no blog mas nao tive tempo de ler o post. Só agora cá vim, e foi mesmo no momento certo.

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei."

De anônimo a 03.09.2015 às 21:37

Há uns anos atrás tive alguns pesadelos como o seu Teresa, mas nessa altura, as pessoas eram mais solidárias. Um camionista, um motociclista, um outro carro que visse logo vinham ajudar. Hoje esta nova sociedade já não são capazes de olhar e parar para dar uma ajuda. Os valores foram-se! A educação, anda pelas ruas da amargura. Valeu- lhe o simples arrumador.

De Anónimo a 03.09.2015 às 22:56

Às vezes (tantas vezes!) é quem menos esperamos que nos dá a mão!!... Temos muitos preconceitos para tantas pessoas que em sociedade considerámos piores. O que vale é que a vida está sempre a dar-nos excelentes hipóteses para aprendermos a ser humildes!

O bom samaritano seria considerado o "arrumador" naquele tempo de Jesus? :p

"Não importa o calçado que uses, lembra-te que quem anda descalço é igual a ti! "

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