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Escravos ou livres?

por Teresa Power, em 24.10.14

Cada um dos meus alunos das turmas de Curso Vocacional tem uma história de fracasso, frequentemente negligência, e às vezes maus tratos para contar. Hoje quero contar-vos um episódio que se passou com o D., um menino de dezasseis anos muito sofridos e muito tristes.

Conheço o D. há três anos. De ano para ano, o D. vai ficando cada vez mais duro e mais insolente. Quando o olho nos olhos, experimento quase sempre um calafrio e tenho vontade de desviar o olhar. Mas não o faço.

Na turma em que está integrado, há um menino, chamemos-lhe T., que, por ter um atraso de desenvolvimento, se está a tornar vítima de gozo. O D., que não tem dificuldades de aprendizagem, não perde uma oportunidade para o humilhar diante de todos.

Num destes dias, lembrei-me de desafiar o D.: poderia ele sentar-se ao lado do T., para lhe explicar os exercícios, enquanto eu continuava a circular pela sala, ajudando os outros? O D. não me olhou com a dureza do costume, nem deu uma gargalhada. Por qualquer motivo que desconheço, o D. levantou-se, sentou-se ao lado do T., e para meu grande espanto, passou o resto da aula a explicar-lhe pormonorizadamente a matéria, cheio de paciência. Eu, claro, mantinha um ouvido bem atento!

 

Lembram-se da estrela escondida na maçã? A minha fé na bondade infinita de Deus diz-me que a todos os seres humanos é oferecida, nalgum momento da sua vida, a oportunidade de escolher o bem em vez do mal, a vida em vez da morte. Ninguém é de tal modo vítima das suas circunstâncias que não tenha a possibilidade de quebrar o ciclo que o mantém escravo de uma história. Assim disse Moisés:

 

"Ponho hoje diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida." (Deut 30, 19-20)

CAM00162.jpg

Conhecem a escrava Bakhita? Ah, leiam a sua história, e ficarão maravilhados! Bakhita foi raptada e tornada escrava com cerca de oito anos de idade, tendo sofrido as mais horríveis torturas na sua vida. Mas Deus nunca a abandonou, como nunca abandona ninguém. E um dia, Bakhita descobriu o seu amor... Bakhita é santa, padroeira de África. Nas suas Memórias, Bakhita recorda a primeira vez que ouviu falar de Deus:

 

"Então, aquelas santas madres, com heróica paciência, instruíram-me e fizeram-me conhecer aquele Deus que, desde criança, sentia no coração sem saber quem fosse. Recordava que, na minha aldeia, em África, vendo o Sol, a Lua e as estrelas, as belezas da natureza, eu dizia para comigo: «Mas quem é o patrão destas coisas tão belas?» E experimentava uma vontade muito grande de o ver, de o conhecer e de lhe prestar homenagem. E agora conheço-O. Obrigada, obrigada, meu Deus!»"

 

Até ao fim da sua vida, Bakhita tratará sempre o Senhor por "Patrão". E repetirá muitas e muitas vezes, com um sorriso luminoso: "Que bom que é o Patrão!" Mas o que mais impressiona em Bakhita é este pensamento constante:

 

"Se encontrasse agora os negreiros que me raptaram e os que me torturaram, ajoelhar-me-ia e beijar-lhes-ia as mãos porque, se isso não tivesse acontecido, não seria agora cristã e religiosa."

CAM00184.jpg

Bakhita escolheu perdoar em vez de odiar; o D. escolheu ajudar em vez de troçar. E eu? A cada momento, tenho diante de mim a vida e a morte, a felicidade e a facilidade, a bênção e a maldição...

Não nos refugiemos em pensamentos do tipo "Fui assim educado", "Não adianta tentar mudar as coisas",  "Já o meu pai era assim"... A cada momento temos a oportunidade de quebrar o ciclo que nos mantém escravos dos nossos defeitos, do nosso passado, do nosso pecado, da nossa história. Como Bakhita, abençoemos o caminho que me trouxe até Deus, mesmo que ele esteja clavejado de espinhos...

 

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publicado às 06:56


1 comentário

De Anónimo a 26.10.2014 às 16:55

Gostei imenso deste post! Que, tal como a Teresa fez com o seu aluno, possamos ser veículos para apresentar "o bem" como alternativa ao "mal" nos vários ambientes em que vivemos. ..
Margarida

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