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Jacintos selvagens

por Teresa Power, em 30.01.15

Num destes dias, recebi um mail muito simpático do diretor de uma das minhas turmas de Curso Vocacional: todos os professores estavam convidados a participar numa celebração festiva de "padrinhos e madrinhas" dos alunos!  Que celebração seria esta?

Em conjunto com a psicóloga da escola, cada aluno escolhera um professor com quem se sentia mais identificado, mais à vontade, mais em sintonia. Esse professor iria desempenhar junto do aluno o papel de padrinho /madrinha, ajudando-o a crescer como pessoa. No mail, descobri que fora selecionada por um dos alunos para madrinha. Senti-me particularmente honrada!

O dia da "cerimónia de investidura" chegou. Dirigi-me para a escola com muita curiosidade. Em que sala estariam os alunos do Curso Vocacional? O barulho não me deixou enganar.

Entusiasmadíssimos, os alunos saltitavam entre as carteiras, indicando aos professores o seu lugar. Sentei-me na carteira que me foi atribuída, sentindo-me um bocadinho estranha "deste lado" da sala de aula, e esperei. A psicóloga conduzia a actividade, com um sorriso feliz.

- Podemos começar? - Perguntou. Todos estávamos ansiosos!

Ligando o som do computador, a canção dos Delfins "Nasce Selvagem" percorreu a sala. Sempre adorei esta canção pop, e relacioná-la com as fotografias dos meus alunos, que entretanto iam sendo projectadas na tela, causou-me um arrepio. Cada um daqueles meninos cheios de problemas, cada um daqueles meninos com pouca higiene e nenhuma educação era afinal o protagonista de um vídeoclip musical, e de um filme real, a percorrer lentamente a tela cinematográfica da vida.

"Para ti serás alguém nesta viagem..." Cantavam os Delfins. E os meus alunos, em poses divertidas e fotogénicas, sucediam-se na tela, com sorrisos desafiantes, tentando descobrir para quem seriam eles "alguém"...

"Quando alguém nasce, nasce selvagem..." Viamo-los ali, nascidos mas não amados, "selvagens" desde a primeira hora, à espera de um abraço que lhes ensinasse o sentido de pertença...

 

Depois, na tela surgiu projetado o texto que, com a ajuda da psicóloga, eles tinham escrito para nós:

 

"APELO aos Padrinhos- MESTRES DE VIDA

O peso dum passado
A dor do presente
Que nos impedem de viver e ser homens
E voar……
Quem me dá a mão para não me afundar
Para sobreviver
Respirar.
Me acalma os ânimos
Ouve as minhas lágrimas escondidas?

Quem me dá abrigo
Amizade
Me faz rir
Me ensina a multiplicar
A escrever palavras de amor
A RECLAMAR A VIDA

Preciso que não desistam de mim
Me façam sentir com valor
Me ensinem do aço fazer aviões para voar
Me ajudem a ver e cuidar das flores que não vejo
QUE NÂO CONSIGO VER
Há Mestres de OBRAS
INSTRUTORES
EDUCADORES

Nós requeremos mãos de obra , TÉCNICOS ESPECIALIZADOS em vida pois ás vezes somos material perigoso, explosivo, poluente…
PRECISAMOS de Mestres de Vida: Moldadores de Homens
Mestres Mentores que me ajudem a tirar as vendas, abrir a mente e a ALMA

FAÇA-SE OBRA
DO BARRO SE MODELE VIDA
DO METAL SE GEREM ASAS PARA VOAR"

 

 

Cada "afilhado" ofereceu ao "padrinho / madrinha" um bolbo de jacinto, para plantarmos nos nossos jardins e nos recordamos que devemos ajudar a fazer crescer e a fazer florir. Enquanto dava um forte abraço ao meu "afilhado", recordei-me da Palavra do Senhor:

 

"O meu Amado desceu ao seu jardim.

Foi pastorear nos jardins e colher jacintos..."

(Cc 6, 2)

 

São precisas tantas combinações de elementos, para uma flor brotar e crescer! A minha contribuição é certamente limitada, mas nem por isso menos importante...

Senhor, que eu nunca desista de trabalhar nos canteiros que me ofereces para jardinar! Que eu perceba sempre a Tua presença suave, caminhando no teu jardim por entre as tuas flores...

bolbo.JPG

 

 

 

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publicado às 06:25


16 comentários

De Joana Tav. a 30.01.2015 às 07:45

Oh Teresa que ideia maravilhosa essa dos padrinhos e das madrinhas, lindo o que escreveram e a ideia de plantar uma flor, muito bonito mesmo. De facto essa ausência de afecto, valores, regras e amor incondicional são talvez o maior flagelo da sociedade. Os pais deviam ser ensinados a amar e a educar, pois hoje acredito que muitos não saibam transmitir aquilo que também não tiveram e também não têm "estrutura" para conseguir sozinhos fazer essa caminha de aprendizagem... Beijinhos Teresa e um haja pelas suas preciosas partilhas.

De Bruxa Mimi a 30.01.2015 às 08:06

Belíssima ideia!

(Cá para mim os alunos tiveram de escolher vários professores, ou escolhiam todos a mesma...)

De Teresa Power a 30.01.2015 às 22:21

Sim, tiveram de escolher vários professores (percebi isso), mas olha que muitos nunca me escolheriam a mim, não te deixes iludir!

De Bruxa Mimi a 31.01.2015 às 09:49

Achas que muitos professores lhes dão espaço semanal para falarem ou desabafarem, como tu fazes? Se assim for, ótimo, é bom sinal - e aí já compreendo a variedade na escolha.

De Teresa Power a 31.01.2015 às 10:08

Há alguns professores sem qualquer tipo de sensibilidade para com estes alunos, claro; mas também há muitos professores atentos, mais do que nós pensamos! Eu tento escutá-los e, na verdade, sempre que posso - pelo menos uma vez por semana - dou-lhes muito espaço para falarem. Mas depois tenho de ser tão "má", tão "má" nas aulas para conseguir algum silêncio, que não sei o que lhes fica na alma... É complicado, realmente, saber até que ponto eles entendem que os amo com amor cristão, e que me esforço por os servir apesar dos meus sentimentos de desolação... Enfim, só Deus guarda a verdadeira resposta!

De Olívia a 31.01.2015 às 10:42

Teresa, se eu não fosse assim tão má, achas que a Margarida era como é hoje? Se não fosse tão má achas que ela gostava de mim como mãe?
Eu sei o que é estar com miúdos assim cheio de vazio na vida, que precisam de atenção, carinho e dedicação...mas acima de tudo, precisam de regras e muitas vezes precisam de que lhes ralhemos.
Pode parecer insensível, mas é a verdade...

De Teresa Power a 31.01.2015 às 11:02

É verdade, Olívia, só somos exigentes com quem amamos! Preciso de ir pensando nisso quando me sinto mais desanimada! Bjs

De Olívia a 30.01.2015 às 08:45

É de facto espantosa essa iniciativa, para muitos desses meninos, talvez fosse uma das poucas oportunidades em que alguém lhes deu atenção, nesse dia não eram a turma rebelde, mas uma turma. Fico realmente feliz por existirem pessoas com a capacidade de promover estas iniciativas construtivas.
Que Deus ajude todos os padrinhos a conseguirem dispensar a atenção que estes seus novos afilhados precisam!

De Sandra a 30.01.2015 às 09:03

Foi uma iniciativa muito bonita! Eu vejo, por alguns amigos dos meus sobrinhos, as dificuldades que eles enfrentam porque não têm amor, carinho, regras ou educação em casa. Alguns deles chamam avó à minha mãe, porque quando vão lá a casa ela trata-os da mesma maneira que trata os netos! Dá-lhes o lanche e conversa com eles para saber como vai a escola e dá-lhes pequenos conselhos. A maior parte tem já histórias de vida tão complicadas!! Dá-lhes alguns minutos do tempo dela, sempre com carinho! Saem lá de casa a dizer: "Vocês têm uma avó muita fixe!!" Nestes pequenos momentos que passam com a minha mãe têm mais carinho e atenção do que têm em casa!!

De Alexandrina Andrade a 30.01.2015 às 10:16

Muito bonita a iniciativa. O poema é maravilhoso!
No entanto, gostaria de relatar o que se passa na escola das minhas filhas com um aluno que está a instalar o terror na mesma. Tem 14 anos, anda no 5º ano, tem dois processos em tribunal há dois anos e ainda não há resposta do tribunal. Pois este aluno, o ano passado limitava-se a roubar tudo o que fosse, desde telemóveis (pois, os alunos não deviam levar esses equipamentos para a escola), dinheiro e muito mais. Nunca roubou nada às minhas filhas. A escola segura por diversas vezes foi chamada à escola. A mãe sempre que ocorre episódios deste género, vem à escola, discute com os professores e ao mesmo tempo bate no miúdo em frente a toda a gente. De nada tem valido. Este ano letivo as coisas estão muito piores, para além de roubar está-se a tornar muito violento, o que nos deixa a nós, pais, professores e todo o pessoal, muito preocupados. No primeiro período, durante uma aula, sem que ninguém se apercebesse, aqueceu uma navalha com um isqueiro e pousou-a num braço de um colega, causando-lhe uma queimadura muito grave. Ficou suspenso durante sete dias, penso eu. Quando regressou, a maioria dos pais da turma no rapaz, não permitiu que os seus filhos fossem à escola como forma de protesto. Eu sinceramente, não sei se também não faria o mesmo se uma das minhas filhas fosse da turma do garoto. Esta semana, logo na segunda-feira, o seu telemóvel tocou numa aula, ele atendeu com toda a naturalidade do mundo, depois continuou a brincar com o aparelho até que a professora, depois de o ter alertado várias vezes, decide tirar-lhe o aparelho. Furioso, dirige-se a ela e aperta-lhe o pescoço. Os outros alunos, miúdos de 10 anos, ficam aterrorizados. O que valeu foi que a professora da turma ao lado apercebeu-se dos gritos e chegou a tempo de evitar uma tragédia. Entretanto a professora tem um ataque de pânico, desmaia e é levada ao hospital. Neste momento está a faltar às aulas. A escola, segundo as palavras do diretor, não pode fazer mais a não ser suspendê-lo por duas semanas, porque aguardam ordens do tribunal.
Eu sei que este miúdo é problemático, com certeza nunca teve carinho, nem amor ... mas neste momento é um perigo na escola. A minha filha mais nova tem medo dele, apesar de não ser das sua turma. A escola não o pode expulsar ... o que se pode fazer por este miúdo e ao mesmo tempo assegurar a segurança dos nossos filhos que frequentam a escola? É muito complicado!
Alexandrina Andrade

De Alexandrina Andrade a 30.01.2015 às 11:01

Desculpe Teresa, o meu comentário. Não queria jamais tirar a beleza do seu post, porque de facto ele é maravilhoso. É bom quando ainda se vai a tempo de fazer sentir a estes miúdos que eles são amados por alguém, nem que seja o professor ou outra pessoa qualquer e possam acreditar que são alguém muito valioso.
Quanto ao miúdo que lhe falei, acho que o diretor da escola tem sido o mais compreensivo com ele. Já sugeriu um psicólogo cujos encargos seriam da escola, mas a família e ele próprio recusam-se.
Um beijo muito grande.
Alexandrina

De Teresa Power a 30.01.2015 às 13:07

Alexandrina, acabo de sair da aula com esta turma, e digo-lhe que foi horrível... Há dias em que me apetece fugir, e faço um enorme esforço para conseguir levar a aula até ao fim. Costumo pensar que Jesus deu a vida por eles como por mim, e que os ama tanto quanto me ama a mim, e portanto, também eu preciso de os amar... Mas não é fácil!
Gestos como este de sermos padrinhos são pequeninas gotas, e quase imperceptíveis no normal funcionamento da turma, mas que fazem uma diferença imensa no coração - ou subconsciente, se quisermos - destes jovens. Vão ficar lá sempre, e talvez num "local" mental suficientemente acessível quando algum dia lhes passar pela cabeça o crime ou o suicídio. Enfim, vamos trabalhando, procurando o equilíbrio entre carinho e firmeza... Ab

De maria da conceição simões a 01.02.2015 às 18:45

Tive conhecimento desta iniciativa pela minha colega Fátima. Ela também está no Gabinete algum tempo comigo . Esta atividade veio ao encontro, do que muitas vezes falamos, na resposta que poderia ser dada ajudando estes jovens a ter um espaço onde se sintam amados, e ao mesmo tempo ajudar os professores que tanto se angustiam. Acredito nos nossos jovens que se vêm a crescer numa sociedade sem amor para lhes dar.
Graças a Deus ainda temos bons professores como a Teresa e psicólogas que se preocupam com eles.
Beijos

De Joana Tav. a 01.02.2015 às 22:48

Olá!
Julgo que um dos principais problemas passa sem duvida por um reajuste das escolas e do tempo lectivo às necessidades formativas actuais. Infelizmente as crianças hoje não têm quem lhes dê as regras básicas para se tornem cidadãos exemplares. Acho que as escolas hoje deveriam estar munidas de formação para a cidadania não para os filhos mas sim para os pais e devia ser obrigatório a frequência esses pais que a Olívia fala são o grave problema dessa criança e enquanto não se resolver o problemas dos pais não se resolvem os problemas dos filhos. Eu sei que esta é uma questão dificílima mas tem que ser posta cima da mesa, e de uma vez por todas temos que assumir que somos uma sociedade com graves lacunas nesta matéria e urge pôr mãos à obra. Beijinhos e reforço que este blog é espectacular :)

De Alexandrina Andrade a 02.02.2015 às 10:36

Concordo plenamente com a Joana. É terrível esta situação. Com disse é muito difícil para as escolas fazerem chegar esse trabalho para com esses pais. Ainda no início deste período o diretor da escola convidou num dia os pais dos alunos do 2º ciclo e noutro dia, os pais dos alunos do terceiro ciclo, para uma reunião onde nos alertou para a importância que os pais têm na vida dos filhos, não só no seu sucesso escolar mas em tudo o resto. Os pais que deveriam vir, simplesmente não apareceram. Não querem saber ... infelizmente!
Bjs
Alexandrina

De Joana Tav. a 01.02.2015 às 22:52

Não era Olívia que queria dizer mas sim Alexandrina, desculpe. Beijinho

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