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Minha querida irmã

por Teresa Power, em 17.09.14

A Lúcia começou o primeiro ano. Que orgulhosa ela estava, na fila com os seus companheiros, já todos amigos de longa data, isto é, desde o seu primeiro ano de vida!

 

Na sala de aula, a Lúcia sentou-se e ficou muito compenetrada a escutar a sua querida professora. Sim, porque a Lúcia gostou da professora antes mesmo de a conhecer, através das palavras reconfortantes do Francisco:

- Lúcia, a professora Rosário foi a minha professora. Vais ver como ela é "fixe"!

E a Lúcia aceitou isto como um dado adquirido.

 

Às cinco horas da tarde fui buscar os meus seis filhos. Uma das muitas vantagens em tê-los no Colégio Nossa Senhora da Assunção (uma escola católica com contracto de associação) é que todos terminam à mesma hora, no mesmo lugar. Assim, com uma só viagem entrego-os e recolho-os a todos, que entram para o carro vindos dos diversos blocos de salas quase como que ao toque do apito, estilo Família Van Trapp.

Ao chegar ao Colégio para a "recolha", lembrei-me de repente que não explicara à Lúcia o que devia fazer para passar o cartão electrónico no final das aulas. Nem sequer pedira ao Francisco ou à Clarinha para a ajudarem... Eu sei (porque o David, o Francisco e a Clarinha já passaram por isso) que passar o cartão electrónico à "hora de ponta" pode ser aterrorizador para uma criança de cinco anos: os "grandes" não costumam ter muito respeito pelos pequeninos e atropelam-nos sem compaixão para lhes passarem à frente. Perguntei-me se a professora acompanharia os pequeninos nesse primeiro dia, e concluí que naturalmente o faria.

 

Estava eu nestas conjunturas, quando os quatro apareceram a correr, para se juntarem à Sara e ao António, que já esperavam dentro do carro.

- Ajudaste a Lúcia com o cartão, Clarinha? - Perguntei.

- Não, mãe, quando fui ter com ela, já ela tinha passado o cartão.

- Lúcia, quem te ajudou?

- O David.

 

No domingo seguinte, depois da missa, a Carla veio contar-me o que observara naquele primeiro dia de aulas, enquanto também ela esperava pela sua filha mais velha.

- Fiquei com lágrimas nos olhos, Teresa, foi uma cena tão bonita e tão comovente!

E contou-me...

Ao sair da sala de aula, a Lúcia tinha à sua espera o David. Com a segurança possível, o David colocou o braço sobre os ombros da irmã e os dois caminharam abraçados até à portaria. Pelo caminho, e à medida que se aproximavam da confusão, o David protegia a irmã o melhor que conseguia, abraçando-a com força e enxotando os encontrões. Depois, muito carinhoso, pegou na mão da Lúcia, e fez com ela o gesto mágico de passar o cartão. Tarefa cumprida, sempre sem deixar de abraçar a Lúcia, o David conduziu novamente a irmã para longe do reboliço, e a Carla deixou de os ver.

Senti-me orgulhosa do David. Ninguém lhe pedira nada, mas ele tomara sobre si a responsabilidade de ajudar a Lúcia no primeiro dia de escola.

 

Oferecer um irmão a um filho é oferecer-lhe alguém por quem se responsabilizar, alguém a quem amar, alguém a quem servir; e é também oferecer-lhe alguém que se vai responsabilizar por ele, que o vai amar, que o vai servir.

Todas as crianças do mundo têm direito a este abraço. Nós, cristãos, sabemos que todos somos irmãos, porque todos temos o mesmo Pai. Possam os nossos filhos aprender connosco a ser irmãos do mais frágil, do mais triste, do estrangeiro, do que anda perdido; possam os nossos filhos aprender connosco a dar um abraço ao mais fraco e a conduzi-lo, com segurança, pelos labirintos das relações sociais nos recintos escolares...

 

"«Qual destes homens foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?», perguntou Jesus. »O que usou de misericórdia para com ele», respondeu o doutor da Lei. «Tens razão. Vai e faz tu também o mesmo.»" (Lc 10, 36-37)


 

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publicado às 06:20


4 comentários

De gralha a 17.09.2014 às 09:50

Até fiquei com os olhos marejados :)

De Bruxa Mimi a 18.09.2014 às 08:29

Também eu!

De Rute Almeida a 17.09.2014 às 11:02

Obrigada Teresa, pela partilha tão bonita! São estes pequenos gestos que transformam o mundo... e nos fazem pensar que tudo aquilo que transforma o coração, nos dá valores e nos amadurece nasce, sem dúvida, no meio familiar, em especial entre irmãos...

De carla a 19.09.2014 às 23:30

Acho que não mais vou esquecer aqueles dois pequeninos, que mais pareciam dois namorados ternurentos, a sepentear entre "gigantes". Foi de facto uma cena de ternura e carinho que não vemos todos os dias. Mesmo sem lhes ver os rostos-porque estavam de costas para mim-posso imaginar os cochichos que trocaram no meio da enorme algazarra que é a hora de ponta naquele pátio pequeno para tantos. E segundo uma menina que os viu sair da sala, percorreram todo o caminho desde a sala atéao portão naquele abraço. Grande beijinho ao David que guiou a Lúcia e grande beijinho à Lúcia que nunca deixou o irmão.

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