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Não fui eu!

por Teresa Power, em 20.11.14

Gritaria maluca. A Clarinha espreita à porta do quarto:

- Mãe, manda-os calar, que assim não posso estudar!

O David choraminga, olhando para os livros:

- Ainda me falta taaaaaanto TPC!

A Lúcia mostra-me orgulhosamente um desenho, onde escreveu por baixo da gravura:

"Doo Mie"

- O que é que escreveste, Lúcia? - Pergunto, também eu quase aos gritos para me fazer ouvir sobre o gritaria que continua a chegar da sala:

- Não consegues ler? Escrevi: "Vovó Mimé"!

- Ah, voltaste a trocar o D e o V, e também te esqueceste de algumas letras, mas o desenho está lindo. Depois ajudo-te a escrever bem, agora tenho de ir ver o que se passa na sala.

Entro na sala um pouco precipitadamente, a tempo de ver a Sara a sair de debaixo da mesa e o António a saltar do sofá. E depois, para meu grande espanto, a Sara coloca-se em sentido e diz muito depressa:

- Não fui eu!

Uma pronúncia perfeita, e uma expressão de inocência mais perfeita ainda, ambas francamente chocantes (e hilariantes...) numa menina de dois aninhos... No chão, um copo partido.

 

No primeiro diálogo entre os seres humanos e Deus na Bíblia, já surgem explícitas estas palavras: "Não fui eu." É com elas que Adão se defende, acusando Eva, que por sua vez as volta a usar para acusar a serpente. "Não fui eu." E no entanto, bastava ambos terem admitido o seu pecado, chamá-lo pelo nome e confessá-lo ao Senhor, que os visitava, para tudo ser perdoado...

Ao longo de toda a Bíblia, apercebemo-nos do esforço de Deus para nos ajudar a confessar o nosso pecado. Parece ser este o ponto chave da conversão! A grande maioria dos cristãos ainda está convencida de que a confissão foi inventada pela Igreja Católica. Na verdade, embora o seu carácter sacramental pertença ao catolicismo, o acto de confessar os nossos pecados pertence à mais antiga tradição de Israel. Lemos no Livro do Levítico:

 

"Quando alguém é culpado de um destes delitos, deve confessar em que pecou; depois, apresentará ao Senhor, como reparação pelo pecado que cometeu, uma femea de gado miúdo, uma ovelha ou uma cabra, em sacrifício pelo pecado; e o sacerdote fará por ele o rito da expiação do seu pecado." (Lv 5, 5-6)

 

Scott Hahn, um autor católico convertido do protestantismo e com um conhecimento bíblico ímpar, faz esta descrição no seu livro Lord, Have Mercy (tradução minha):

"Imagine-se o leitor, no Antigo Israel, depois de reconhecer que pecou, preparando-se para fazer a sua confissão e o seu sacrifício. Primeiro era preciso preparar a viagem, talvez de alguns dias a pé ou a cavalo, nas ruas poeirentas e acidentadas infestadas de bandidos e animais selvagens, a caminho de Jerusalém. Consigo tinha de levar uma ovelha, uma cabra, ou até um touro. Claro que primeiro tinha de o dominar. A sua penitência estaria apenas no início. Em Jerusalém, teria de levar o animal até ao Templo. Depois, em frente do altar, pegar numa faca e matá-lo - sim, você mesmo. Teria de o cortar e preparar, separando as várias partes, retirando o sangue e oferecer tudo, peça a peça, ao sacerdote. Tudo isto fazia da confissão um gesto que o pecador nunca mais esqueceria. Comparados com estes actos do Antigo Israel, os nossos rituais são bastante monótonos..."

 

Como em relação a todos os rituais, Jesus simplificou a forma, enquanto elevava o significado do gesto até ao expoente máximo da graça divina. Hoje, como ontem, precisamos de "dominar o animal" que habita em nós, praticando a humildade; precisamos de nos aproximar de um sacerdote, caminhando pelas estradas poeirentas do nosso orgulho e do nosso preconceito; precisamos de nos ajoelhar e de contar, um a um, os nossos pecados, como quem corta um touro em pedaços pequenos; precisamos de os chamar pelo nome, aguentando firmes a vergonha e pedindo por eles perdão. O resto - oh, o resto - é o poder do sangue de Jesus, e já não do sangue de nenhum animal, inundando e transformando toda a nossa vida...

 

"Não fui eu!" Gritam os nossos instintos mais primitivos. Sim, fui eu. "Pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, actos e omissões. Por minha culpa, minha tão grande culpa..."

Que o Senhor nos ajude a confessar o nosso pecado, para podermos abrir o coração ao seu perdão infinito e transformar a nossa vida! Ámen.

IMG_4302.JPG

                  (Dominando um animal...)

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publicado às 06:46


7 comentários

De Paula a 20.11.2014 às 08:54

Bom dia!
Concordo a 100% e lembrei-me agora, que Adão até disse "Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi".
Ou seja, culpou a mulher e Deus por lha ter dado...
Realmente, temos mesmo de ser aprender a ser cada vez mais humildes a cada dia que passa.
:)

De Teresa Power a 20.11.2014 às 09:05

É verdade, Paula, quando não conseguimos atribuir as culpas a ninguém, acabamos por as atribuir "às circunstâncias", que o mesmo é dizer, a Deus, que nos colocou nestas circunstâncias... Somos peritos em culpar Deus pelo nosso pecado!

De Aida a 20.11.2014 às 10:26

Olá,
é sempre enriquecedor acompanhar o blog!!
Gosto muito das histórias, festas, ensinamentos da religião/história judaica. Mas conheço muito pouco.
Alguma bibliografia que me aconselhe?
Orbigada
beijinhos

De Teresa Power a 20.11.2014 às 11:43

Olá Aida! Obrigada pelo comentário.
Aconselho um autor magnífico, com dois livros na Wook: http://www.wook.pt/product/facets/fsel/8066/tipo/0?palavras=achim+buckenmaier. A sua apresentação sobre Abraão e Moisés é fascinante! Aconselho os livros de Scott Hahn - alguns estão traduzidos em português. Os meus livros Os Mistérios da Fé também pegam nas festas judaicas, fazendo a ponte com o cristianismo. Pode ser que sejam úteis! Felicidades e boas leituras! Ab

De Alexandrina Andrade a 20.11.2014 às 12:15

É sempre tão bom ler as suas histórias de vida e depois a reflexão que faz sobre elas. Acabei de falar com a diretora de turma da minha filha mais velha do 9º ano, a propósito das avaliações intercalares e ela contou-me por acaso, que ontem no teste de Matemática, a minha filha entrou em "pânico" por causa de uma questão. Lembrei-me do seu post quando fala da Clarinha e da dificuldade de perceber um exercício. Este teste era para os alunos subirem a nota do teste anterior, no entanto ela tivera 96%. Penso que terá sido a pressão que a levou a este estado. Como podia ela ir mais além de 96% e por isso a minha filha achava injusto ter de fazer mais um teste. O que me choca é que ontem quando lhe perguntei sobre como tinha corrido, ela disse que tinha corrido bem e não tivera dificuldade em nenhum exercício, em circunstância alguma me referiu aquele episódio! Não sei se devo ou não abordá-la ... não quero ser dura com ela, mas fiquei triste por ela me esconder como se sentira!
É quase um "Não fui eu ..."

De Teresa Power a 20.11.2014 às 12:47

Oh, Alexandrina, percebo-a tão bem! Quando eles já não são crianças, deixam de nos abrir o coração com a simplicidade que tinham aos cinco anos, e é difícil saber o que fazer. Eu não sei mais do que a Alexandrina, e tudo o que possa dizer, será apenas uma tentativa pessoal na aventura da educação...
Não podemos forçar confidências, mas podemos ajudar a desenvolver a confiança entre pais e filhos. Se na família, o grande centro for Deus, e todos procurarem trabalhar para alcançar o céu, surge mais naturalmente a vontade de partilhar as nossas fraquezas com o outro, no sentido de sermos ajudados a melhorar. E se nós, pais, dermos o exemplo, melhor ainda! "Hoje perdi o controlo. Não sei como foi, desatei a gritar com um aluno. Estou envergonhada." Este tipo de conversa é frequente cá em casa, e ajuda os mais jovens a perceber que a mãe e o pai também têm fraquezas. Se quiserem, podem partilhar as suas! Quando percebem que somos vulneráveis, deixam de ter medo de o ser também. Quando percebem que nos sentimos perdoados por Deus depois das nossas quedas, deixam de ter medo de assumir as suas quedas também.
Educar é uma aventura fantástica! Felicidades! Ab

De Alexandrina Andrade a 20.11.2014 às 13:47

Obrigada pelas suas palavras tão certas, tão oportunas ...

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