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Queixinhas

por Teresa Power, em 22.07.14

Por causa da infecção que o Francisco arranjou na perna com a picada de vespa, estivemos uma semana "fechados" em casa. Finalmente, a perna ficou curada, e ontem de manhã lá nos pusemos nós a caminho da praia. Contentes, os meninos cantavam e batiam palmas no carro. Mas a meio caminho, um qualquer impedimento na estrada (obras? Um acidente?) fez-nos ficar parados meia hora, e porque a fila continuava a perder de vista, tivemos mesmo de regressar. Eu vinha bastante irritada. Uma semana trancados, e quando finalmente podemos ir de novo à praia, acontece isto! Decidi parar na mercearia e na farmácia para umas compras de última hora e, com a pressa, escorreguei e estatelei-me no chão contra o vidro da farmácia. Uma dor aguda penetrou-me no joelho, pensei que ia desmaiar, e quase morri de vergonha ao ver toda a gente à minha volta, ou melhor, uma série de pés e pernas, porque eu não conseguia levantar a cabeça para ver a quem pertenciam...

Quando cheguei a casa, o Niall telefonou-me também com uma má notícia: perdera o comboio que o levaria a Lisboa a uma reunião importante, e quer fosse de carro, quer no comboio seguinte, já ia chegar atrasado. Também ele não tivera culpa: a ligação entre Mogofores e Coimbra atrasara-se! Ao telefone, queixámo-nos da vida, ambos a tentar controlar os nervos, e eu a coxear, com o joelho magoado.

 

Pouco tempo depois, o Niall telefonou-me de novo. Enquanto esperava pelo comboio seguinte, estivera num café e vira as notícias na televisão. Na Faixa de Gaza, centenas de pessoas tinham morrido no dia anterior. O Niall assistiu a uma cena que lhe gelou o sangue: uma bomba explodiu sobre uma criança, o pai pegou nela ao colo e, em pânico, levou-a nos braços até ao hospital, apenas para escutar dos médicos que a menina estava morta. MORTA! Uma criança... Que revolta, que angústia, que dor não atravessará a alma daquele pai, e de tantos outros como ele!

Nós vivemos no primeiro mundo, com todas as comodidades da vida. Talvez não tenhamos dinheiro para compras supérfluas, talvez não tenhamos dinheiro para férias, talvez nos falte até o essencial no final do mês... Mas não temos de que nos queixar! Os nossos filhos e as nossas filhas não nos são roubados na guerra nem morrem de fome nas sargetas. Temos tanto, vivemos com tanto, e queixamo-nos tanto! Quanta ingratidão! Lembra-me a censura de Jesus a Simão, o fariseu, que o convidou um dia para jantar em sua casa. Simão tinha tudo, mas não era agradecido; e a adúltera, um ser miserável e desprezível aos olhos de todos, não tinha nada, mas transbordava gratidão:

 

"Vês esta mulher, Simão? Entrei em tua casa e tu não Me deste água para lavar os pés; mas esta mulher lavou os meus pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Tu não Me saudaste com um beijo; mas ela, desde que entrou, não parou de Me beijar os pés. Tu não Me ungiste a cabeça com óleo. Ela ungiu-Me os pés com perfume..." (Lc 7, 44-46)

 

Não fomos à praia de manhã, como gostamos de fazer, mas terminámos o dia numa magnífica praia fluvial. No caminho, rezámos o terço, e oferecemo-lo por duas intenções: acção de graças pela vida maravilhosa que temos, e súplica pelos milhões de irmãos nossos que sofrem no mundo...

 

 

 

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publicado às 06:30


8 comentários

De Olívia a 22.07.2014 às 09:13

Quando nos sucedem acontecimentos desse género lá em casa é uma espiral... um enerva-se, outro está chateado, e por aí fora... mantemo-nos concentrados na nossa "carapaça" e no que se passa aqui mesmo no nosso umbigo... quando temos a capacidade de olhar para o lado descobrimos muitas vezes que existe alguém tão pior... a combater um cancro, sem saber o que dar de comer à família, a enfrentar um luto por alguém que ama... quando começo a aperceber-me destas coisas tento cantar aquele cântico que cantámos no reencontro, apesar de não recordar as estrofes vou inventando... «Deus é bom p'ra mim, Deus é bom p'ra mim - maior que os meus problemas, maior que a teimosia... maior que a inveja... maior que a incerteza... e por aí fora!
Todos os dias quantas vezes reclamamos e quantas agradecemos?

De Anónimo a 22.07.2014 às 21:07

É um dos aspectos que andamos a trabalhar em família.... Mostrarmos-nos agradecidos pelo tanto que temos. Há dias que é muito difícil, mas não podemos desistir!
Mais uma vez obrigada pela sua partilha diária, que lemos em família, todos os dias, sem excepção! Beijinhos, Lilian

De Sara a 23.07.2014 às 17:22

Souto Rio?

De Sara a 23.07.2014 às 17:47

Ah, Redonda não conheço, mas sou fã de Souto Rio. Obrigada pela dica!
beijinho
Sara

De Teresa Power a 23.07.2014 às 17:56

Bem, e eu digo o mesmo... Vou experimentar Souto Rio então! A Redonda fica a dez minutos de Águeda na direcção do Caramulo, logo depois de Bolfiar. Nós adoramos! Bjs

De Sara a 24.07.2014 às 01:14

Pelas fotos lindas que vi da Redonda, Souto Rio parece-me mais selvagem (ou menos cuidada...), mas tem um grande parque de merendas, casas de banho, muito espaço, e tinha até uma ponte suspensa espetacular que dava para uns trilhos de caminhada do outro lado, mas fui lá há pouco tempo e já não existe (caiu?) o que é uma pena. Mas andar lá no rio a nadar ou simplesmente a chapinhar ou de barco é lindo (durante a semana que ao fds não se pode...). É na Borralha, quem vem do estádio municipal de Águeda, passando lá um hotel palácio. Quem vem de Águeda vira naquela rotunda com a bicicleta grande. Bons mergulhos!

De Lurdes a 24.07.2014 às 08:29

Obrigada Teresa por este belíssimo post que me acompanhou durante as horas menos boas desta semana.


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