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Rosas desfolhadas

por Teresa Power, em 27.05.15

- Mamã, temos de levar uma flor para Nossa Senhora, hoje na missa!

- Não é hoje, David, é no próximo sábado. Hoje será a bênção da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora em Saída, e no próximo sábado, na catequese, todos os meninos levarão uma flor. A procissão é só no outro domingo.

- Mas há uma rosa tão bonita no jardim... Tão bonita mesmo!

Sair para a missa ao domingo de manhã é sempre uma grande corrida contra o tempo, e não pude concluir este breve diálogo com o David. Mas durante a Eucaristia apercebi-me de uma curta troca de palavras entre o David, acólito, e o celebrante, o padre Aníbal, que veio expressamente de Lisboa para a ocasião. O padre Aníbal inclinava-se para o David e sorria-lhe. Já em casa, ao almoço, perguntei:

- David, que te disse o padre Aníbal na missa?

- Disse-me para não ficar triste, que no próximo domingo posso trazer a flor.

Engoli em seco.

- Então tu estavas triste?

- Não. Quer dizer, antes da missa eu disse ao senhor padre que queria ter trazido uma rosa muito bonita, mas não tivemos tempo...

- Queres mostrar-me qual é essa rosa?

- Vem cá!

O David levou-me ao jardim, onde uma única rosa vermelha erguia as suas pétalas, triunfante.

- Tens razão. É mesmo bonita! Olha, fazemos assim: mais logo colhemo-la e levamo-la ao santuário. Pode ser?

Os seus olhos brilharam.

- Sim!

Estava eu a deitar a Sara para a sesta, quando o António apareceu a correr junto de mim.

- Mamã, a Lúcia destruiu uma flor vermelha e escondeu as pétalas! E as pétalas eram para os dois!

Senti o coração aos pulos. Uma flor vermelha?

- António, que flor é que ela destruiu?

- Vem ver - E o António levou-me ao jardim. Procurei com o olhar o vermelho brilhante da rosa do David. Mas no lugar da rosa, havia apenas um caule triste.

- Lúuuuuucia! - Gritei, exasperada. Ela apareceu a correr.

- O que foi, mamã?

- Que fizeste à rosa vermelha? QUANTAS VEZES TE DISSE QUE NÃO SE PODEM ARRANCAR AS FLORES DO JARDIM?

Ela ficou muito calada. A minha brusquidão fez surgir duas grossas lágrimas nos seus olhos esverdeados.

- O David queria levar a rosa a Nossa Senhora, Lúcia. - Expliquei-lhe, sempre muito irritada.

- Eu não sabia... A sério, eu não sabia...

- Mas não podes arrancar flores. As flores não são para destruir, são para colher e colocar em jarras. Destruir, não!

- Eu não sabia...

Ficámos as duas em silêncio. Eu procurava acalmar-me, como convém a uma mãe cristã. Depois, abracei a minha filha e pedi-lhe perdão pelos gritos. Não tinham sido necessários. Aliás, raramente são necessários, e geralmente são detestáveis quando os vemos nos outros. A Lúcia sorriu, feliz, perdoando-me de coração - cá em casa, temos um grande treino nestes gestos de pedir e oferecer o perdão - e continuou a brincar.

Agora faltava contar ao David.

- David, tenho uma coisa a dizer-te... Acho que a tua rosa... Bem, acho que temos de levar outra flor a Nossa Senhora.

- Porquê?

- Porque a Lúcia arrancou todas as pétalas. Ela não fez por mal, estava só a brincar...

O David ficou calado, depois o seu rosto iluminou-se:

- Podemos apanhar as pétalas e levá-las a Nossa Senhora! Deitamo-las no chão junto à sua imagem, como se faz nas procissões!

E foi o que fizemos.

DSC02427.JPG

 Enquanto observava a alegria do David, cobrindo de pétalas o chão em redor da imagem de Nossa Senhora, fiquei a pensar...

Também eu tenho um jardim interior, um jardim criado por Deus, lá nos primórdios da criação da minha vida. É nesse jardim onde, como diz o Livro do Génesis, o Senhor gosta de passear pela brisa da tarde:

 

 "Então ouviram o som dos passos de Deus, que passeava no jardim pela brisa da tarde." (Gn 3, 8)

 

No meu jardim interior há muito poucas rosas vermelhas de que me possa orgulhar. Eu gostava de poder escrever aqui que nunca perco a paciência, que nunca ralho sem razão, que sou sempre justa, que nunca me engano, que nunca me distraio na oração, mas nada disso é verdade. Como me escreveu uma simpática leitora deste blogue: "Às vezes tenho dificuldade em me aturar!" Fico com a sensação de passar anos e anos a construir virtudes, como quem faz crescer rosas com cuidado, para depois, numa fração de segundo, o meu pecado arrancar todas as pétalas e deixar à vista de todos apenas um triste caule. Um grito totalmente desproporcionado, e lá cai mais uma rosa por terra... De que valeram anos de esforço, se o meu jardim está cheio de rosas desfolhadas?

Mas dos braços de Maria, Jesus pareceu sorrir-me. E eu pensei escutar...

"Só há pétalas espalhadas pelo chão onde antes houve rosas. O que a Mim importa é que continues, todos os dias, a cultivar as tuas rosas, esforçando-te por praticar a Minha Palavra. O teu esforço cativa o meu Coração! Se depois, num segundo, o teu pecado arrancar todas as pétalas, não te aflijas. Quando não tiveres rosas para Me oferecer, ajoelha-te na poeira do teu chão e recolhe as tuas pobres pétalas, como o David fez. São-me mais agradáveis as pétalas recolhidas com a humildade de quem se sabe pecador do que as rosas oferecidas com o orgulho de quem se julga irrepreensível..."

Senhor, ensina-me a praticar o bem sem vaidade, recomeçando cada dia; e que o meu pecado nunca seja ocasião de desânimo na minha vida, mas antes fonte de humildade. Senhor, são para Ti todas as minhas pétalas...

 

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publicado às 06:20


16 comentários

De Bruxa Mimi a 27.05.2015 às 07:21

"Só há pétalas espalhadas pelo chão onde antes houve rosas. O que a Mim importa é que continues, todos os dias, a cultivar as tuas rosas, esforçando-te por praticar a Minha Palavra. O teu esforço cativa o meu Coração! Se depois, num segundo, o teu pecado arrancar todas as pétalas, não te aflijas. Quando não tiveres rosas para Me oferecer, ajoelha-te na poeira do teu chão e recolhe as tuas pobres pétalas, como o David fez. São-me mais agradáveis as pétalas recolhidas com a humildade de quem se sabe pecador do que as rosas oferecidas com o orgulho de quem se julga irrepreensível..."

Tu pensaste escutar estas palavras, eu sei que as li e que foram escritas para mim, através de ti!

De Teresa Power a 27.05.2015 às 08:45

Deus serve-se uns dos outros para nos falar :)

De Teresa A. a 29.05.2015 às 10:36

Faco minhas as palavras da Bruxa Mimi!

De Anónimo a 27.05.2015 às 08:59

Eh pura verdade.

De Catarina Silva a 27.05.2015 às 11:12

Tal como a Bruxa Mimi, também estas palavras foram escritas para mim.
Tanto esforço para corrigir defeitos, para construir virtudes...e parece-me tantas vezes que dou um passo para a frente e dois para trás.
Vou imprimir estas palavras e lê-las uma e outra vez para que a força para me ajoelhar na poeira do meu chão e recolher as minhas pobres pétalas, nunca me falte.

Obrigada Teresa!

De Olívia a 27.05.2015 às 14:12

Os teus textos são sempre muito bons, mas por vezes superas-te!

Não tenho mais palavras... mas para compensar tenho muito em que pensar!

bj

De sara a 27.05.2015 às 15:48

Lindo! De facto a Teresa às vezes supera-se...

De Carla a 27.05.2015 às 15:54

Tu és lindo David.... Maria recebeu a tua rosa, mesmo que tenha ficado no jardim. Recebeu a rosa que és tu... bonita e sem espinhos...
Um grande beijinho para ti.
Carla

De Sara a 27.05.2015 às 17:01

Que comentário tão bonito. Como o texto da Teresa. E que todos, partilhando da mesma fé ou não, procuremos praticar o bem sem vaidade.

De Anónimo a 27.05.2015 às 20:26

E se antes não houve rosas? Também podemos oferecer o nosso pecado e a nossa procura?
Penso que não tenho nem rosas nem pétalas,

De Manuela a 27.05.2015 às 23:13

"Tomai, Senhor, porque é vosso,
Aceitai, que eu vo-lo dou,
Quanto tenho e quanto posso,
Quanto valho e quanto sou."

Oração de S Inácio de Loyola, fundados da Companhia de jesus ("Jesuítas")

Com pétalas brancas, rosa, vermelhas ou laranja, sem pétalas, com folhas ou apenas com espinhos... é quanto valho, quanto sou!

E, Teresa, este texto vai para o TOP 10 do vosso blog! :-))

De Teresa Power a 28.05.2015 às 09:25

Tem rosas, tem! Essa vontade de oferecimento é em si mesma a mais bela rosa. Jesus só precisa que O queiramos procurar... Diz o Livro da Sabedoria (6, 12): "O Senhor deixa-se encontrar pelos que O procuram." Continue a trabalhar esse jardim, e um dia, a roseira florirá! E quanto ao pecado, sejamos todos nós capazes de o oferecer diariamente ao Senhor!

De Anónimo a 28.05.2015 às 22:27

Sou o anónimo de ontem às 20:26 e estou muito reconhecido às duas respostas que me aqueceram o coração.
A Teresa sabe, como já vi em vários comentários, que é lida por muitos que não são famílias de Caná, porque têm uma fé fraca ou nem têm a certeza se têm fé. Outros nem terão famílias, só solidão, mas todos esses que aqui vêm muitas vezes é porque partilham de valores que o blog defende.
Muitos de nós, atrevo-me a pensar, gostávamos que não nos esquecessem nas vossas orações. Bem hajam. Talvez um dia mais roseiras venham a ter flor.

De Olívia a 01.06.2015 às 12:24

Parece que já estão a dar!
A compreensão, a verdade, a proximidade, a disponibilidade são adubos muito bons para que as flores nasçam!

De joana Tav a 28.05.2015 às 23:47

Oh Teresa que bonito, o desafio dos nossos dias passa por colher e voltar a plantar cada um das nossas pétalas, pois as que caem são precisamente as que nos dão a aprendizagem e a fé para plantar de novo! Um bem haja à sua coragem em connosco partilhar as pétalas dos seus dias e as rosas que tão preciosas plantações nos dão...

De Teresa Power a 29.05.2015 às 11:48

Obrigada eu pelo comentário, Joana! E vamos continuar todos a plantar e a recolher pétalas caídas! Bjs

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