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A Alegria do Amor

por Teresa Power, em 14.04.16

Sexta-feira, oito de abril. O Niall está em viagem de trabalho há já dois dias, e hoje deverá fazer escala na Irlanda, para visitar os pais e os irmãos durante um fim-de-semana prolongado. Mas mesmo longe, nós precisamos de conversar. Aliás, conversas à distância não são nada de estranho para nós... Sentada ao computador, depois de deitar os mais novos, vou trocando mails com o meu marido.

- Já passaste os olhos pela exortação pastoral A Alegria do Amor? - Pergunto.

- Não. Já saiu?

- Hoje. Olha, vou enviar-ta em anexo. Descarreguei em Inglês e em Português do site do vaticano. Aqui vai!

Afasto-me do computador para fazer as minhas últimas tarefas do dia, e meia hora depois estou de volta - ao computador e ao diálogo com o Niall, que entretanto já adiantou a sua leitura.

- Leste o capítulo quatro? - Pergunta-me ele. - É fantástico! Um verdadeiro hino ao amor!

- Sim, li um bocadinho.

- Tão terno! Parece um avô carinhoso, e ao mesmo tempo, o mais exigente dos mestres...

- Preciso de ter o livro nas mãos. Quero poder lê-lo e relê-lo em todo o lugar, sublinhá-lo, marcá-lo...

- Assim que chegar a Portugal vou comprar-to em Aveiro, na livraria católica. Vamos vê-lo em conjunto.

- O capítulo quatro merece ser lido à hora de jantar, à volta da mesa, um número de cada vez.

- Vai dar muita conversa!

- Sim, vai certamente.

O Papa alerta, logo na introdução, para a dificuldade que terão na leitura aqueles que tiverem pressa, por isso decido ler devagar, número a número. O texto é tão atraente, que me deito tardíssimo, sem conseguir interromper a leitura... Do outro lado do computador, num hotel no aeroporto de Dublin, o Niall também fica a ler pela noite dentro. Despedimo-nos por entre parágrafos e citações.

 

O Niall passou três magníficos dias com a sua família de origem, na Irlanda. Os pais não cabiam em si de felizes, e todos os irmãos se reuniram para festejar este reencontro numa celebração tipicamente irlandesa, cheia de histórias e gargalhadas.

Segunda-feira à noite, sentados à volta da mesa da cozinha, iniciando a nossa refeição, aguardávamos ansiosos o regresso do Niall. Por fim, a porta abriu-se e ele entrou de rompante, causando a confusão de beijos, abraços, sopa entornada, presentes e fotografias dos primos, tios e avós guardadas no telemóvel. Perante tanta alegria, lembrei-me do início da Exortação Pastoral do Santo Padre:

"Agora entremos numa dessas casas, guiados pelo Salmista, através dum canto que ainda hoje se proclama nas liturgias nupciais quer judaica quer cristã:

 

« Felizes os que obedecem ao Senhor

e andam nos seus caminhos.

Comerás do fruto do teu próprio trabalho:

assim serás feliz e viverás contente.

A tua esposa será como videira fecunda

na intimidade do teu lar;

os teus filhos serão como rebentos de oliveira

ao redor da tua mesa.

Assim vai ser abençoado o homem que obedece ao Senhor.»

(Sl 127/128)

 

Cruzemos então o limiar desta casa serena, com a sua família sentada ao redor da mesa em dia de festa. No centro, encontramos o casal formado pelo pai e a mãe com toda a sua história de amor." (nºs 8 e 9)

 

- É tão bom regressar a casa! - Dizia-me o Niall, à noite, já deitados nos braços um do outro. - Não importa o quão belas são as nossas viagens, não há nada mais belo que regressar.

Ficámos uns momentos em silêncio, depois ele continuou:

- Deve ser tão triste não se ser amado no seio da sua família! Marido e mulher que discutem com violência, palavras ofensivas, filhos que tratam os pais com desprezo, pais sem tempo para os filhos... Deve ser muito triste...

- Nós não nos damos conta do tesouro que guardamos em nossa casa - Respondi-lhe. 

- Não há nada mais central para o ser humano que a família. De que adianta ter um emprego fantástico, um salário de luxo, uma mansão, férias e carros e tudo o que possamos imaginar, se não experimentarmos esta alegria e este amor ao fim do dia?

Suspirei, profundamente reconfortada nos braços do meu marido, e fiz mentalmente uma breve prece por todos os que não experimentam esta alegria. A Alegria do Amor... Sim, falar de família é acima de tudo falar da alegria do amor...

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Rabiscos

por Teresa Power, em 06.11.15

A Sara olhou para mim com um sorriso triunfante.

- Está lindo, mãe? Olha!

Olhei. Querem ver também?

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- Está lindo, Sara! - Respondi. E com uma série de exclamações, elogiei dignamente os rabiscos que me eram assim apresentados. Feliz, a Sara estendeu-me o desenho:

- Toma, é para ti!

Enquanto o colava na parede da cozinha, onde ficou a fazer companhia a quinhentos outros desenhos de várias épocas e de vários filhos, eu pensava...

Que "desenhos" ofereço eu a Deus? Certamente a minha vida não tem a qualidade artística dos santos... Talvez os meus desenhos não passem de rabiscos na folha branca que o Senhor me oferece em cada manhã, para eu encher de cor e de beleza. Que importa? Se eu sou capaz de sorrir perante os rabiscos da minha filha, não será o Senhor capaz de sorrir perante os meus rabiscos infantis? Certamente que lhe agradarão as minhas vãs tentativas de perfeição se, como a Sara, eu lhas oferecer com muito amor. Dizia a Madre Teresa de Calcutá: "Nós não fazemos grandes coisas: fazemos pequenas coisas com um grande amor." E S. Paulo explicava:

 

"Ainda que eu fale a lingua dos homens e dos anjos,

se não tiver amor,

sou como um címbalo que soa...

Ainda que eu tenha fé capaz de transportar montanhas,

se não tiver amor,

de nada me vale..." (1Cor 13)

 

Senhor, esta manhã quero agradecer-te pela folha em branco que me ofereces, pelas cores e pelas ideias que colocas à minha disposição, pelo tempo que me dás para eu fazer o meu desenho. Senhor, aceita os meus rabiscos, porque apesar de muito fracos, são feitos com um grande amor... Ámen!

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Ainda que a mãe se esqueça

por Teresa Power, em 05.10.15

Quartas-feiras são o meu dia de motorista. Aliás, só me falta o chapéu a condizer! Já assim era o ano passado, pois às quartas-feiras à tarde, não há aulas no colégio nem no meu agrupamento de escolas para o terceiro ciclo e secundário, e a primária termina às três horas. De acordo com as minhas contas, eu fazia, no ano passado, seis vezes o percurso, ida e volta, casa / escola ou casa /colégio dos meninos. Este ano, as contas não são muito diferentes, e ainda estou em processo de adaptação a horários, meus e deles. A adaptação nem sempre é fácil, e a prova "vergonhosa" é a história que vos vou contar...

Quarta-feira. O Francisco veio para casa de bicicleta - depois da peregrinação a Santiago de Compostela, não há distâncias para ele - e eu chego uma hora mais tarde, para almoçarmos juntos. Depois de conversarmos um bocado e arrumarmos a cozinha, sento-me diante do computador para aprovar alguns comentários e para preparar as minhas aulas do dia seguinte, antes de interromper para estender uma máquina de roupa. Olho para o relógio: são duas e um quarto, e às três horas devo ir buscar o David e a Lúcia; às quatro, o António e a Sara; depois, levar a Clarinha à explicação de Matemática e, hora e meia mais tarde, ir buscá-la...

Ainda estou eu a fazer as contas às horas, quando ouço o portão da rua a abrir, seguido de passos apressados. A porta da cozinha abre-se de rompante:

- Mãe! Onde estás?

Dou um salto de susto.

- Clarinha! Que fazes em casa a esta hora?

Ela olha para mim, espantada, transpirada, sem fôlego:

- Mas, mãe, esqueceste-te de mim? Hoje era suposto teres ido buscar-me à uma e meia... Vim a pé do Colégio! 40 minutos a andar a toda a pressa... Não foi a distância, claro, porque até gostei do passeio... Mas estava tão nervosa! Pensei que te tinha acontecido alguma coisa!

E a Clarinha desata a chorar.

- Oh, filha, desculpa-me! Esqueci-me completamente! E olha que estava agora mesmo a pensar em ti, vê lá tu!

- E nem a pensar em mim te lembraste?!

- Não! Contava ir buscar-te à hora do costume... Desculpa! Desculpa! Desculpa!

Abraçamo-nos, e depois desatamos a rir.

- Não vais dizer isto no blogue, pois não? - Pergunta-me ela, enquanto lava a cara e os braços, todos transpirados - Vão ficar a pensar que és maluca!

- Claro que não! (Ups!)

Deixem-me aqui fazer um parêntesis: esta história só é possível acontecer, naturalmente, numa casa onde os únicos telemóveis são o do pai e o da mãe...

 

Mais tarde, vieram-me à mente as palavras da Bíblia:

 

"Poderá a mãe esquecer-se da criança que trouxe nas suas entranhas?"

(Pode...)

"Pois bem, mesmo que ela se esqueça, Eu não me esquecerei de ti, Israel!"

(Is 49, 15)

 

Ah! Quantas vezes me sinto abandonada, esquecida por Deus? Quantas vezes penso que Ele não tem tempo para pensar em mim, ocupado como deve estar com assuntos bem mais sérios do que os meus? Não, ao contrário de algumas mães desnaturadas (ups!) o Senhor não esquece nenhum dos seus filhos! Em cada momento da minha vida, Deus pensa em mim como se só Eu existisse sobre a Terra. Deus tem o seu olhar pousado sobre mim, o seu coração aberto para mim, o seu amor, transbordante, derramado a cada instante sobre mim...

Se por uma fração de segundo apenas, Deus se esquecesse da sua mais pequena criatura, homem ou estrela, animal ou flor, o universo inteiro ruiria como um castelo de cartas. Acreditamos nisto?...

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Uma oração irritante

por Teresa Power, em 02.06.15

Um dia destes tive uma experiência de oração muito peculiar. Encontrava-me eu num dos locais onde costumo fazer oração, quando a meu lado se sentou uma senhora bastante irritante. Interrompia continuamente a minha oração com expressões de vaidade, chamando a atenção para o seu papel na sua paróquia, e repetindo uma das expressões que mais me incomodam, e que pelos vistos incomodam também o Papa Francisco (ver A Alegria do Evangelho, número 33): "Aqui fez-se sempre assim." "Vamos fazer assim porque é costume", etc.

Depois de algum tempo, comecei a sentir-me realmente irritada. Afinal, eu queria rezar, queria concentrar-me totalmente em Deus. E em vez disso, tinha de aguentar a presença e os comentários de quem me acompanhava, sem ter sido convidada. A minha oração corria o risco, achava eu, de perder o seu valor e a sua riqueza.

Foi então que me ocorreu... A presença daquela senhora era uma imensa graça que Deus me concedia! Nela, o Senhor oferecia-me uma oportunidade de rezar verdadeiramente, com uma oração feita de renúncia ao meu prazer e aos meus direitos, ou seja, uma oração feita de amor.

Decidi assim deixar de lutar para conseguir a união com Deus que desejava. Em vez disso, concentrei-me em lutar por O conseguir amar, no concreto da irmã que tanto me incomodava. E em vez de oferecer a Deus uma meditação profunda dos mistérios da minha fé, ofereci-lhe um ato profundo de amor. A minha oração foi mais ou menos assim:

- Jesus, ajuda-me a amar esta minha irmã, como Tu a amas. Jesus, ajuda-me a sorrir. Jesus, agora aceita a irritação que a sua voz causa em mim. Jesus, este comentário parece-me tão estúpido... Toma, ofereço-Te este pensamento indelicado que acabo de ter. Perdoa-me... Jesus, eu quero amar...

Saí dali com a certeza de que a minha oração tinha sido atendida, não pela sua riqueza, mas exatamente pela sua pobreza.

 

 Eu gostaria de rezar sempre nas condições ideais... Gostaria ainda mais de trabalhar sempre nas condições ideais, de ter os alunos ideais e de ser para eles a professora ideal. Gostaria que os meus filhos frequentassem a escola ideal, e que nunca fossem injustiçados pelos professores ou prejudicados pelos colegas, e que só aprendessem o que lhes interessa. Gostaria de viver no sítio ideal e de ter vizinhos ideais. Gostaria de ser sempre saúde e de nunca me sentir esgotada. Gostaria de ter os filhos ideais e o marido ideal, e gostaria que os meus filhos e o meu marido tivessem em mim a mãe e a mulher ideal. Gostaria...

E que bem me traria tanto ideal, a mim ou aos meus? As Bem Aventuranças, esse programa de felicidade que Jesus nos ofereceu, parecem sugerir precisamente o contrário:

 

"Bem-aventurados os que têm um coração pobre, porque deles é o Reino dos Céus!

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!

(Mt 5, 1-10)

 

É preciso aprender a encontrar a paz, o bem, a alegria, a esperança e a perfeição no meio do lamaçal...

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Os gatinhos e a paternidade de Deus

por Teresa Power, em 28.05.15

Os nossos gatinhos têm sido uma fonte de animação cá em casa. Lembram-se de como deixámos a Tiger e os seus quatro filhotes fechados na garagem, para que ela se ajeitasse com eles durante a noite e encontrasse um ninho fofo para os criar? Pois bem, no dia seguinte, logo de madrugada, descalços e em pijama, corremos para a garagem. Estávamos desejosos de ver como os gatinhos tinham passado a noite.

Qual não foi a nossa desilusão quando, ao entrar na garagem, não encontrámos sinais dos gatinhos! Que se teria passado? Procurámos debaixo da mesa, dentro da máquina da roupa, sobre as estantes de sapatos e ferramentas, até que a porta entreaberta de um roupeiro chamou a atenção:

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 Naquele armário só temos roupa fora de uso, à espera que sirva a alguém. Cá em casa, reciclamos a roupa entre irmãos e entre família e amigos. Será que...? Decidimos espreitar:

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Que belo ninho a Tiger arranjou! Não teríamos escolhido melhor!

A Tiger saiu do ninho, e pudemos contemplar os seus filhotes:

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Ei-los!

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Temos dois branquinhos como o pai, um todo preto e um preto e branco. Não são lindos?

Ontem fiz este curto filme, para poderem também aí em casa, com os vossos filhos se for o caso, contemplar esta maravilha da natureza que é o instinto maternal em ação:

 

Quando contemplo a ternura de uma gata ou de qualquer outra mãe do reino animal; quando contemplo a ternura de uma mãe humana para com o bebé, não posso deixar de pensar no amor infinito de Deus...

Diz-nos o Génesis que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Portanto, se a natureza é capaz de gestos maternais desta intensidade, é poque antes de existirmos, já Deus era maternal. Jesus tratava-O por Pai, Pai que é também Mãe, e muito mais do que Mãe. S. Paulo diz-nos:

 

"Dobro o meu joelho diante do Pai, do qual procede toda a paternidade que há no céu e na terra." (Ef 3, 14-15)

 

Que a contemplação da natureza e a intensidade dos nossos próprios sentimentos nos desafie a acreditar no amor infinito que Deus tem por cada um de nós!

 

 

 

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Amor de irmão

por Teresa Power, em 22.05.15

Na viagem de regresso do Retiro Famílias de Caná em Castelo de Neiva, a Lúcia lembrou-me:

- Mãe, amanhã vou a uma visita de estudo!

- É verdade, Lúcia, ainda nos falta essa! Chegar a casa, despejar os restos do piquenique e preparar novo piquenique para ti!

A Lúcia bateu palmas de excitação:

- Vou ao Portugal dos Pequeninos! E vou comer gelado. O gelado é grátis!

Ao chegarmos a casa, como se devem recordar, tínhamos uma ninhada de gatinhos recém-nascidos à nossa espera, e tralha e mais tralha para arrumar. Pouco tempo sobrou para pensar na merenda da Lúcia ou no seu passeio. De vez em quando, contudo, ela lembrava-nos:

- Mamã, não podemos esquecer de levar o banquinho do carro! É obrigatório! E eu quero levar Nuggets. O papá pode ir comprar?

Respondíamos a tudo que sim, e lá continuávamos a arrumar. Até que chegou a hora de deitar. Um a um, deitámos os mais pequeninos, depois foi a vez do David... Fechei as luzes dos quartos e regressei à cozinha, onde continuei a trabalhar.

Foi então que senti passinhos no corredor. Era o David.

- David, não estás a dormir? Passa-se alguma coisa?

Baixinho, para não acordar ninguém, o David murmurou:

- Vim dizer-te para não te esqueceres da visita de estudo da Lúcia... Ela tem de levar uma boa merenda, mamã!

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Tenho recebido mails e trocado palavras com mães de um ou dois filhos, cansadas e sobressaltadas com todo o trabalho que envolve a maternidade.

Eu lembro-me muito bem da passagem de um para dois filhos, e de como foi difícil gerir uma família a crescer! Lembro-me das crises de ansiedade, do stress, do cansaço, do desânimo. Lembro-me das lágrimas, das dores de cabeça. Lembro-me das noites mal dormidas e das birras longas e difíceis dos mais velhos. Lembro-me de achar que não ia ser capaz... Lembro-me de ver outras famílias com muitos filhos e de me perguntar: "Como é que eles fazem?" Lembro-me de perguntar à minha cunhada, na altura com três filhos, se dava banhos todos os dias ou como fazia para dar de mamar e ao mesmo tempo impedir que o mais velhito não se atirasse de uma escada abaixo. Lembro-me de me sentir incapaz e inútil. Lembro-me...

Mas lembro-me de outras coisas também! Lembro-me das gargalhadas, das festas, dos saltos, da alegria. Lembro-me da primeira vez que o Francisco pegou na Clarinha ao colo. Lembro-me dos abraços que os dois davam ao Tomás. Lembro-me da festa que foi o nascimento do David, três meses depois da morte do Tomás. Lembro-me de como o Francisco, então com sete anos, me repetia vezes sem conta:

- Obrigada, mamã, por me dares este mano!

Custa, dar um irmão - ou dois, ou três, ou quatro... - aos nossos filhos? Custa. Irá ser difícil adaptarmo-nos? Sim. Vão surgir momentos em que nos parece que fizemos asneira? Vão. Os mais velhos irão fazer birras? Certamente que sim, não porque tiveram um irmão (nós é que gostamos de fazer associações...), mas porque todas as crianças fazem birras ao crescer.

Vale a pena dar um irmão - ou dois, ou três, ou quatro... - aos nossos filhos? Dificilmente lhes daremos presente melhor! Oferecer um irmão a uma criança é oferecer-lhe a oportunidade de amar e cuidar de alguém. Os irmãos fazem-nos vencer o nosso egoísmo natural, ensinam-nos a resolver conflitos, forçam-nos a partilhar afetos, tempo e brincadeiras, e despertam em nós a solidariedade e a compaixão.

O David estava cheio de sono, mas na sua cabecinha de criança de oito anos não passavam apenas imagens do passeio do fim-de-semana: na sua cabecinha de criança de oito anos estava bem marcada a imagem da sua querida irmã Lúcia, que corria sérios riscos (segundo ele, claro...) de acordar de manhã e não ter uma merenda digna de visita de estudo. O seu amor fraternal foi mais forte que o cansaço, e o David não hesitou em saltar da cama para me recordar as minhas obrigações maternais...

 

"Que fizestes de teu irmão?" (Gen 4, 10)

 

A voz de Deus ecoa ao longo de toda a Bíblia. Possam os nossos filhos aprender, em família, a fraternidade dos filhos de Deus. Ámen!

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E por falar em irmãos... Já assinaram a Petição pelo Dia dos Irmãos? São precisas quatro mil assinaturas. Assinem e passem palavra!

 

 

 

 

 

 

 

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O abismo

por Teresa Power, em 19.05.15

Faz hoje nove anos que tu partiste para o céu, meu pequeno Tomás. Nesse dia, eu só conseguia pensar na alegria imensa que devias estar a experimentar, liberto do teu corpinho doente como uma borboleta a voar para longe do seu casulo opressor... E a certeza de que estavas bem melhor suavizou a minha dor.

No dia seguinte, na missa, fizemos-te uma festa. Não queríamos, de forma alguma, que a celebração da tua vida eterna fosse uma cerimónia triste. O teu pai e eu escolhemos, com cuidado, os teus cânticos preferidos, e tocámo-los na viola, cantando com quanta força tínhamos. Lembras-te? Cantámos cânticos pequeninos como tu, e que nos falavam do amor com que o Senhor cuida de nós:

"Eis-me aqui, sou criança que procura a mão!

Eis-me aqui, pequenino, nos teus braços!

Dá-me hoje teu amor, teu perdão, Senhor!

Guarda-me pequenino, para Ti!"

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Às vezes, mães que perdem os seus filhos ou que os vêem muito doentes perguntam-me se é possível voltar a ser feliz. É, Tomás, não é verdade? Eu pensei que não, e durante algum tempo convenci-me que não, mas é. O tempo cura tudo? Não, o tempo não cura nada: o que cura é o amor. A tua morte escavou em mim um abismo imenso, e eu deixei que o amor o preenchesse. A felicidade que agora experimento é diferente da que conhecia antes da tua partida, porque é mais profunda, como mais profundo é o abismo da minha vida. Agora, Tomás, não sou feliz porque tenho saúde, porque tenho filhos, porque tenho trabalho, porque tenho sucesso ou por qualquer outra razão... Deixei de ter medo de perder tudo isso, sabes? Que libertação, quando perdemos o medo! Agora, Tomás, sou feliz porque amo e sou amada, infinitamente amada por Deus. Como tu!

Afinal, o que é o Céu senão este tsunami de amor que, de repente, invade o imenso abismo que somos?...

 

"Se subir aos céus, Tu lá estás;

se descer ao abismo, ali Te encontras também.

Se voar nas asas da aurora

ou for morar nos confins do mar,

mesmo aí a tua mão há-de guiar-me

e a tua direita sustentar-me-á.

Se disser: «Talvez as trevas me possam esconder,

ou a luz se transforme em noite à minha volta»,

nem as trevas me ocultariam de Ti

e a noite seria, para Ti, brilhante como o dia..."

(Sl 139/138)

 

 

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Tomás, reza por nós!

 

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Amor de mãe

por Teresa Power, em 09.05.15

- A partir de hoje, desisto do meu filho - Gritava uma mãe, visivelmente aborrecida, diante da pauta com as notas da turma. Eu estava a atender os pais e a entregar as avaliações da minha direção de turma, antes das férias da Páscoa. O filho em questão tem quase dezassete anos e continua no nono ano. É um rapaz simpático e muito trabalhador - no mini-mercado dos pais, que na escola só gosta de brincadeira.

Senti-me constrangida diante do desespero daquela mãe. Ela parecia ignorar os olhares dos outros pais, e continuava, gesticulando e falando muito alto:

- Cria uma mãe um filho para isto! Só o temos a ele, o pai e eu não fazemos outra coisa senão trabalhar, trabalhar, trabalhar de manhã à noite, para ele, naturalmente. E como é que ele agradece? Repetindo o ano novamente, claro!

Tentei acalmá-la, mas percebi que não tinha palavras suficientes. Tudo o que ela dizia era verdade, e o meu aluno não faz um esforço, por pequeno que seja, para dar alegria aos seus pais nos estudos. Registei interiormente a necessidade de conversar com o rapaz, assim que recomeçasse a escola. Sabia, no entanto, que a minha tarefa seria quase impossível se a mãe, de facto, desistisse de lutar pelo sucesso do seu filho.

Oito e meia da manhã, primeiro dia de aulas do terceiro período. À porta da minha sala, tenho a mesma mãe, acompanhada do filho.

- Bom dia, professora! Tem um minuto para falar connosco?

- Claro que sim! Daqui a quarenta e cinco minutos tenho hora de atendimento. Aguarda um bocadinho?

Quarenta e cinco minutos depois, a mãe e o filho estavam sentados diante de mim. O meu aluno mantinha a cabeça baixa, enquanto a mãe, com os olhos cheios de lágrimas, falava.

- Professora, eu vou fazer tudo o que puder para ajudar o meu filho a passar o ano - Disse-me, sempre emocionada. - Ele é tudo o que nós temos. Acha que ainda vamos a tempo?

 

Recordei-me desta conversa ontem, enquanto rezava diante da imagem de Nossa Senhora, na oração do Mês de Maria.

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Olhando para a imagem da Senhora Auxiliadora dos cristãos, eu dizia interiormente:

- Querida mãe, deves estar cansada das desilusões que te causei ao longo da minha vida, e que te continuo a causar! Será que ainda acreditas que sou capaz de santidade?

Foi então que me lembrei da mãe do meu aluno. Uma mãe que o seja verdadeiramente nunca desiste do seu filho, mesmo que, num momento de desespero, tenha a intenção de o fazer. Maria não é apenas uma mãe, mas a melhor das mães. Em Medjugorje, Maria disse um dia: "Se soubesseis quanto vos amo, choraríeis de alegria." No Livro de Isaías, o Senhor diz-nos:

 

"Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria." (Is 49, 15)

 

Nem Deus, nem Maria alguma vez desistirão de nós. Ao longo da nossa vida, o Senhor irá servir-se de tudo para nos ajudar a encontrar o Caminho para Casa. Servir-se-á de um amigo, de um problema, de uma doença, de uma crise, de um momento de oração, de um blogue, de um retiro (já se inscreveram no Retiro de Neiva?) e até de um pecado. Não seremos nunca capazes de O desiludir ao ponto de nos abandonar!

E Maria, que viu o Filho morrer por nossa causa, continua a visitar a Terra para nos aconselhar, nos corrigir e nos encorajar... Conhecemos nós a mensagem de esperança que nos deixou em Fátima? Ah, como é forte e poderoso, o amor de uma mãe!...

 

 

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Uma canção e uma vocação

por Teresa Power, em 04.05.15

No domingo dia 26 à noite, ao chegarmos do grupo de oração, encontrámos o Niall sentado diante do televisor, muito feliz. Ele costuma ficar em casa a cuidar dos mais pequeninos, enquanto o Francisco, a Clarinha e eu vamos rezar.

- Venham ver! Está a dar um programa de celebração dos 60 anos do Festival da Eurovisão!

- Do quê? - Perguntaram eles. 

O Niall e eu trocámos um olhar cúmplice. Somos do tempo em que a televisão congregava as famílias em torno de um único programa, e em que o país inteiro parava para assistir em direto ao Festival da Eurovisão da Canção.

- Lembras-te do Johnny Logan? - Perguntou-me o Niall. - Ganhou por duas vezes. Era irlandês!

- Claro que me lembro! "Hold me now!" Cantámos esta música até à exaustão, no recreio da escola! E pensar que um dia havia de casar com um irlandês! Lembras-te da música do Carlos Paião: "Hei, Playback"? Nós adorámos aquela música, Portugal inteiro a cantava, mas ficou em último lugar. Foi cá um choque coletivo!

- Lembro-me, claro. Nós na Irlanda rimos à gargalhada da vossa música! Achámos muito divertida, mas um pouco tonta.

- Ora!

De repente, calámo-nos, de olhos fixos no televisor. Em palco entrava Nicole, trinta e três anos mais velha que a jovenzinha de dezoito anos, daquele longínquo serão de 1982. Visivelmente emocionada, cantou "A Little Peace", a segunda canção mais bem sucedida de todos os anos do Festival da Eurovisão. Enquanto o Niall e eu cantarolávamos a canção, acompanhando Nicole, o Francisco e a Clarinha olhavam espantados para nós.

- Quem não se lembra de "A Little Peace"? A Europa inteira cantava esta canção. - Explicou o Niall.

- E eu até a tocava na guitarra... Estou aqui a pensar, Niall, que naquela noite de 1982, tu e eu estávamos à mesma hora a escutar a mesma canção. É um bocadinho romântico, não te parece?

Rimo-nos todos. Mas a verdade nua e crua é mesmo essa...

 

Dizia o nosso pároco aos jovens crismados, no final da Eucaristia:

- Há três formas de encarar a vida: uma sucessão de acasos; o destino, onde tudo está pre-definido; ou então - e esta é a única forma digna de um cristão - como um chamamento, isto é, uma vocação.

Gosto de dizer aos meus filhos que o marido ou mulher que Deus sonhou para cada um deles - se os chamar ao matrimónio - já deve andar por aí a correr, a brincar, a ir à escola, a rezar... Na verdade, o acaso não existe, e ninguém tem o destino marcado, porque Deus nos fez livres.

Podemos enganar-nos? Claro! E se nos enganarmos, não estamos condenados à infelicidade. Pensemos no GPS que temos no carro: ele vai-nos indicando o caminho, mas se decidirmos ir por outra estrada, imediatamente refaz os seus cálculos e sugere nova rota que nos conduz ao mesmo destino. Também a voz de Deus dentro de nós nos vai conduzindo pelos caminhos que vamos escolhendo, para nos fazer chegar ao Céu. Nunca baixemos os braços perante um engano evidente no caminho: a Deus, nada é impossível!

Todos os dias rezamos em família para que os nossos filhos sejam capazes de reconhecer a voz do Senhor, quando Ele os chamar a um caminho específico, a uma vocação concreta. Rezamos para que tenham a audácia de responder "sim", por difícil que pareça, como difícil nos pareceu a nós construir uma família a partir da Irlanda e de Portugal. Disse Jesus:

 

"Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair. Depois de tirar todas as que são suas, vai à frente delas, e as ovelhas seguem-no, porque reconhecem a sua voz." (Jo 10, 2-4)

 

 

E agora... Para os que foram jovens quando nós fomos - se quiserem recordar A Little Peace, aqui fica:

 

 

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Jardinando por amor

por Teresa Power, em 24.03.15

- Quem me vem ajudar a tratar da horta?

- Eu!

- Eu!

- Eu!

- Eu!

Rodeado de quatro crianças, o Niall calça as galochas, pega na enxada e dirige-se para a horta. O trabalho que se segue promete ser árduo, pois a nossa horta tem estado um pouco abandonada, entre tantos trabalhos que todos os dias se nos oferecem.

- Já percebi que a minha tarde vai ser trabalhosa - Diz-me, a sorrir - Quando tenho quatro ajudantes, demoro também quatro vezes mais!

Mas o Niall sabe que o importante não é a qualidade da nossa horta. Felizmente, ela é apenas uma experiência pedagógica e não precisamos dela para comer! O importante é a qualidade do amor que os nossos filhos experimentam na sua tarde de trabalho na horta...

 

Mas se os mais novos adoram ajudar - desajudando -, os mais velhos já não insistem para que os deixemos trabalhar.

- Francisco, não vens comigo?

-...

- Francisco, preciso que retires todas as ervas daninhas.

- Todas, pai?

- Sim. É preciso limpar tudo para depois começar a plantar. Tens ali tudo o que é preciso, e o carrinho de mão está no pátio. Vens ou não vens?

Um suspiro quase imperceptível, o computador que se fecha, e o Francisco vai ajudar o pai.

O Niall sorri, contente. De novo, o que está em jogo é muito mais do que uma horta experimental... Importa ensinar aos nossos filhos o valor do trabalho e oferecer-lhes oportunidades para, também eles, aprenderem a amar, servindo.

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 Ao pôr do sol, encontro o Francisco na horta, três baldes de ervas daninhas a seu lado.

- Estás a fazer um belo trabalho! - Digo-lhe.

- Eu sei. Mas estou estafado! Hoje acordei com dores de costas por ter saltado tanto ontem com os cavalos.

- Todos nós estamos cansados. É natural! Agora importa não desperdiçares o teu trabalho desta tarde.

- Como assim, desperdiçar?

- Fizeste o que tinha de ser feito, porque o teu pai te pediu. Como filho obediente que és, não te passava pela cabeça não o fazer. Para o trabalho ficar feito, é indiferente estares de boa ou de má vontade... Mas para Deus, isso faz toda a diferença! Para Deus, só conta o que for feito por amor. O resto é pura perda de tempo.

- Eu sei. E é por isso que tenho estado a tarde inteira a oferecer a Jesus este trabalho!

 

Oferecer a Jesus o trabalho, por amor. Não é preciso que o trabalho nos faça sentir bem, nem que nos apeteça: basta dirigir a nossa intenção e, como o Niall e o Francisco, oferecer a Jesus o que tem de ser feito, unindo cada gesto à sua entrega na cruz. E de repente, tudo ganha sentido!

Desperdiçamos tantas oportunidades na vida, fazendo o que tem de ser feito por obrigação, contrariados, resmungando, para parecer bem, para não falarem de nós, por vaidade, por orgulho, por submissão... Dizia a Madre Teresa:

"Na nossa vida, não somos chamadas a fazer grandes coisas,

mas antes a fazer pequenas coisas com um grande amor."

E S. Paulo explica, no belíssimo capítulo 13 da sua primeira carta aos Coríntios:

 

"Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos

mas não tiver amor,

sou como bronze que soa ou tímpano que retine.

E se eu possuir o dom da profecia,

conhecer todos os mistérios e toda a ciência

e tiver tanta fé que chegue a transportar montanhas,

mas não tiver amor,

nada sou.

E se eu repartir todos os meus bens entre os pobres

e entregar o meu corpo ao fogo,

mas não tiver amor,

nada disso me aproveita." (1Cor 13, 1-3)

 

 

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