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Os quinze anos e as águas profundas

por Teresa Power, em 14.03.16

Há nos quinze anos uma beleza escondida, uma luminosidade especial. Quinze anos! Quinze anos... A infância ficou definitivamente para trás, mas ainda não está definido aquilo que iremos ser... O corpo, a mente e o espírito despertam para realidades novas, e aos quinze anos já estamos a caminho das águas profundas de que nos fala o Evangelho:

 

"Faz-te ao largo e lança as tuas redes para a pesca." (Lc 5, 4)

 

A Clarinha já se fez ao largo, e há uns tempos que navega em águas profundas. Sem perder a transparência e a inocência da sua infância feliz, a Clarinha cresceu. Observo-a quando toma conta dos irmãos por sua livre vontade, contando-lhes histórias, ensinando passos de ginástica à Lúcia e à Sara, ajudando-os a vestir ou a tomar banho. Observo-a quando se oferece para me ajudar com a lida da casa, se repara que estou mesmo muito cansada, ou dobra meias enquanto rezamos o terço. Observo-a quando controla a vontade de me responder mal, mordendo os lábios para não dizer o que sabe que não deve, ou quando chora no meu ombro, pedindo desculpa depois de se ter excedido, ou ainda quando me perdoa, sorrindo, se por acaso fui eu quem se excedeu. Observo-a quando ri à gargalhada com o Francisco, conversando no quarto do irmão sobre coisas que só os dois partilham. Observo-a sentada à sua secretária, livros abertos com determinação, disposta a melhorar a cada dia os seus resultados escolares. Observo-a quando patina ao desafio com os irmãos, à volta da casa, numa velocidade estonteante. Observo-a de tablet na mão e auriculares nos ouvidos, visionando competições de ginástica e concursos de dança, ou conversando online com as primas e as amigas. Observo-a ao serão, no Canto de Oração, rezando concentrada.

Escrevo este post na manhã de sábado. A Clarinha está na cozinha a fazer a pizza para o almoço. Enquanto mistura os ingredientes e espera que o molho de tomate fique pronto, vai cantando, cantando, cantando, atingindo as notas mais agudas sem qualquer esforço.

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 Ao cantar, a Clarinha alterna com naturalidade entre as canções pop da moda e as canções de Danielle Rose, uma cantora católica americana que descobriu no blogue da Marisa. "The Saint That is Just Me" é uma das suas canções preferidas, e ela canta-a de cor, com voz forte. Ao serão, também a costuma tocar na guitarra ou no bandolim, sentada em frente da lareira. Como Danielle, a Clarinha já intuiu que Deus nos chama à santidade, e que o caminho de santidade de cada um é único, irrepetível e insubstituível.

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No Retiro em Lordelo, a Clarinha ficou muito tempo de joelhos, durante a adoração, a conversar com Jesus. No fim do dia, enquanto arrumávamos tudo para regressar a casa, a Clarinha voltou a escapulir-se para a igreja e voltou a ajoelhar-se diante de Jesus, para conversar com Ele mais um bocadinho.

"Não consigo imaginar a minha vida sem o Evangelho", diz-me ela de vez em quando. E continua, pensativa: "Como seriam os meus pensamentos? Como ficaria eu quando os testes correm mal, ou quando não consigo fazer um exercício de ginástica? Sem Jesus, acho que nada na minha vida faria sentido!" Este ano letivo não tem sido fácil para a Clarinha, que tem passado muitas horas a estudar matérias difíceis, e muitas outras horas a tomar decisões também difíceis, como se devem recordar (e como contei aquiaqui e aqui). A adolescência nunca é fácil, não é verdade? Mas todos os dias, ao serão, lemos em conjunto a Palavra de Deus, que a Igreja oferece na missa diária. Acredito que, mais do que os meus esforços como mãe, é esta Palavra partilhada, mastigada, contemplada, que dá à Clarinha a confiança para viver cada dia com alegria e simplicidade.

De facto, a cada dia que passa, a minha missão educativa vai diminuindo, e a missão educativa do próprio Jesus vai crescendo... É por isso que é tão importante - sobretudo quando se têm filhos adolescentes - meditar as Escrituras em família, proclamando não as nossas palavras educativas, mas as de Deus. João Batista sintetizou num único versículo o essencial da missão educativa cristã:

 

"É preciso que eu diminua para que Ele cresça." (Jo 3, 30)

 

Ser mãe da Clarinha há quinze anos tem sido para mim um enorme privilégio, e todos os dias agradeço a Deus ter-me oferecido esta filha e os seus irmãos para com eles partilhar a vida.

Senhor, à medida que a minha influência maternal for diminuindo na vida da Clarinha, aumenta, Te peço, a tua! Que ela navegue em águas cada vez mais profundas e seja santa, a santa que só ela pode ser...

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E hoje que fazes quinze anos... PARABÉNS, QUERIDA FILHA!

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O António e a graça divina

por Teresa Power, em 11.02.16

Hoje o António faz seis anos. Ena, é difícil acreditar que já passaram seis anos desde aquele dia em que o tomei nos meus braços pela primeira vez, bebé pequenino mas tão cheio de força, de doces olhos castanhos... Seis anos!

- Há quanto tempo não escrevo um post sobre as birras do António! - Comentei eu outro dia com o Niall.

- É verdade! Até nos esquecemos de que ele fazia tantas, tantas birras! Quando foi a última vez que fez uma?

- Nem consigo lembrar-me...

O António cresceu. Um crescimento cheio de desafios e lutas interiores, que ele, apesar da sua tenra idade, tão bem tem sabido gerir. Birra após birra, o António foi tomando consciência de como o seu comportamento precisava de afinação. Rezou, com a sua confiança infantil, pedindo a Jesus que o ajudasse a ser bom.

- Todos os dias peço ao Jesus para ser bom, sabes, mãe? Quando me deito, antes de adormecer...

E Jesus atendeu a sua oração pura. Já vão longe, as birras que duravam uma manhã inteira, ou que deixavam o António especado no chão, imóvel e inamovível, a gritar, perante os olhares surpresos de quem passava e a minha triste impotência. Já vão longe, as birras que nos faziam perder a paciência e reagir com palavras ou gestos violentos, de tão cansados ficávamos. Agora, as birras do António duram apenas alguns segundos, o suficiente para ele se dominar e acalmar. E nós suspiramos de alívio.

O mesmo carácter forte que se manifestava em birras sucessivas, revela-se agora numa força interior invejável. De todos os nossos filhos, nenhum supera o António em fortaleza! Confiante e seguro de si, o António adora novos desafios e não tem medo de nada. Se o Francisco encontrar uma salamandra no jardim, é o primeiro a ter coragem para pegar nela, antes de a devolver à natureza:

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  Se é preciso cuidar da horta, levar os cães a passear, limpar o galinheiro, ajudar o pai a montar qualquer coisa ou simplesmente varrer o chão da garagem, o António é o primeiro (ou o único...) a oferecer-se. Assim, teve direito, no ano passado, a considerar suas as flores que nasceram no nosso jardim, pois foi ele quem as semeou e quem as acompanhou, desde a terra à jarra no Canto de Oração:

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Patins, bicicletas, bolas, árvores, nada o assusta e tudo ele gosta de dominar com mestria.

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As lágrimas sempre prontas deram lugar a gargalhadas também sempre prontas, e o António enche a casa de felicidade.

O António mostrou-me que lá onde residem as nossas maiores fraquezas podem também residir as nossas maiores virtudes, se nos abrirmos à graça divina; porque a teimosia pode ser transformada em fortaleza, a mesma vontade insistente que nos faz persistir na birra pode ser transformada na vontade insistente que nos torna santos. Não foi assim que S. Paulo passou de perseguidor dos cristãos para o seu maior apóstolo, e que Pedro passou de pescador de peixes a pescador de homens?

Aprendi com o António a pedir o auxílio da graça divina na construção do meu caráter. Como ele, também eu peço ao Senhor todos os dias que me faça boa, e que transforme os meus maiores defeitos nas minhas maiores virtudes. Disse o Papa Francisco:

"Se levantarmos o olhar humilde do nosso pecado e das nossas feridas para o Senhor, e deixarmos pelo menos uma abertura à acção da sua graça, Jesus faz milagres também com o nosso pecado, com aquilo que somos, com o nosso nada, com a nossa miséria." (in O Nome de Deus é Misericórdia). Como diz S. Paulo:

 

"Onde abundou o pecado, superabundou a graça." (Rm 5, 20)

 

Bem hajas por tudo o que me ensinas a cada dia, querido filho. Parabéns, António!

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Um Jovem de Caná

por Teresa Power, em 08.10.15

Na véspera do Retiro da Quinta do Conde, o Francisco foi para Lisboa de comboio. Durante a viagem, como costume, rezou o terço em silêncio, enquanto contemplava a paisagem. Mal tinha acabado de o fazer, quando a senhora sentada a seu lado abriu a carteira e dela retirou também um terço.

- Que pena não ter tirado o seu terço antes! - Riu-se o Francisco com simpatia - Acabo de rezar o meu. Podíamos ter rezado juntos!

- Tu és católico? - Quis saber a senhora, certamente surpreendida com o comentário.

- Sim, sou católico. Pertenço ao movimento Famílias de Caná, não sei se conhece!

- Espera lá... Tu não és o filho da Teresa Power?

Não sei se a simpática interlocutora do Francisco acabou por rezar o seu terço, mas sei que continuaram a conversar durante bastante tempo. Quando, no dia seguinte, o Francisco me contou esta história, eu pensei precisamente no que significa ser um Jovem de Caná, um jovem feliz com a sua fé católica, um jovem sem medo de partilhar a sua alegria com todos os que se sentarem a seu lado, um jovem capaz de rezar em todo o lugar.

Nem sempre é fácil para o Francisco interromper as suas atividades para vir rezar o terço em família, todos os serões. Mas mesmo com um suspiro mais ou menos audível, mesmo com algum esforço e alguma pressa, o Francisco deixa o que está a fazer para se sentar ao nosso lado, no sofá, e rezar. Já não se trata, como quando era mais novo, de uma imposição familiar, uma rotina anterior ao seu próprio nascimento. O episódio do comboio veio mostrar-nos que a oração é, para o Francisco, uma imposição pessoal, um ato de vontade, uma decisão consciente de um crismado que cresceu e se sente adulto na sua fé.

O Francisco pertence a esta primeira geração de Jovens de Caná que os retiros têm trazido à luz. Quantos haverá já espalhados pelo nosso país? Alguns vão comentando no blogue, outros lêem e meditam, mas todos têm esta ânsia de crescer na alegria da sua fé católica, partilhando a vida e dando testemunho do amor de Deus.

Foi entre estes jovens participantes em retiros Famílias de Caná que o Francisco encontrou a sua namorada, há um ano atrás. Juntos, procuram aprofundar a maravilha do namoro cristão, para também no namoro serem luz na escuridão do mundo. Para nós, pais, é uma honra podermos acompanhar o desabrochar de uma nova etapa da vida cristã do nosso filho mais velho. Aí vai ele, abrindo caminho aos irmãos...

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Como Famílias de Caná, não poderemos fazer alguma coisa pelos jovens que já vivem ou se preparam para futuramente viver um namoro cristão? Claro que sim! Queremos urgentemente oferecer-lhes encontros temáticos, baseados na Teologia do Corpo de S. João Paulo II. Já temos, em Braga, um sacerdote disposto a acompanhar-nos nestes encontros, acostumado a abordar o tema com mestria. Haverá por aí jovens interessados, a quem um dia de encontro pudesse agradar? Escrevam-me para o mail!

Este ano, o Francisco deixou o Colégio que frequentava desde pequenino, para frequentar a minha escola. O Colégio não lhe permitia a opção de Física no 12º ano, e o futuro engenheiro não podia ficar sem a disciplina, pois a física é uma das suas grandes paixões. Ora reparem só na mesa de trabalho do Francisco durante as férias de verão:

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O Francisco aceitou a mudança algures entre um encolher de ombros e uma dor de estômago, mas adaptou-se rapidamente.  A escola nova é também a oportunidade de conhecer novos amigos, novos professores, novas formas de aprender e ensinar, novos desafios - e não há nada que ele mais aprecie que um desafio novinho em folha! Quanto aos amigos do Colégio, estão apenas à distância de um passeio de bicicleta...

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No seu canal do Youtube, o Francisco tem partilhado magia, aventuras, desafios, gargalhadas. Visitem-no online e comuniquem o link aos vossos filhos e jovens amigos!

Na semana passada, o Francisco dirigiu-se à porta para atender o carteiro. Era a sua prenda de anos que chegava, uma encomenda da Amazon. Recebeu a encomenda e, contendo a curiosidade, escondeu-a no armário do meu quarto. Hoje o Francisco faz dezassete anos. Quando acordar, irá abrir a prenda que ele próprio escolheu, recebeu e escondeu... Já lá vai o tempo em que acordava a meio da noite para abrir as suas prendas, incapaz de controlar a ansiedade. Aprender a esperar assim é também crescer!

Parabéns, Francisco, e bem-hajas pelo privilégio de partilhar contigo estes dezassete anos de vida! Como S. Paulo a Timóteo, também eu te digo hoje:

 

"Ninguém escarneça da tua juventude; antes, sê modelo dos fiéis, na palavra, na conduta, no amor, na fé, na castidade. Não descures o carisma que há em ti!" (1Tm 4, 12.14)

 

Ámen.

 

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A meio da noite

por Teresa Power, em 07.10.15

Lembram-se do dia de anos da Lúcia? Pois bem, nessa noite, véspera do dia 2 de outubro, o Niall e eu acordámos com barulhos estranhos na casa. O Niall levantou-se, saiu do quarto e encontrou as luzes todas acesas entre o quarto das meninas e a sala. Seguindo o rasto de luz, encontrou finalmente a Lúcia sentada no chão da sala, rodeada de papel de embrulho rasgado e montando calmamente um puzzle novinho em folha.

- Lúcia, que fazes aqui? - Perguntou-lhe carinhosamente. - Ainda não é o teu dia de anos! Faltam algumas horas...

- Ai não?

- Não. São duas e meia da manhã... Vamos dormir?

Em silêncio, a Lúcia levantou-se, deu a mão ao pai e aceitou regressar ao quarto.

Seis e meia da manhã. O António e a Sara aparecem ao nosso lado, excitadíssimos:

- Mamã, mamã, uma coisa muito estranha! A Lúcia ainda está a dormir, mas as prendas dela estão todas desembrulhadas na sala! Quem será que veio cá durante a noite?

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É tão difícil, para uma criança, aguentar uma noite inteira, quando sabe que um belo presente a aguarda pela manhã! Como fazer para chamar o sono e esperar, de olhos fechados, que o dia amanheça, os pais acordem e as luzes se acendam?

Ah, como somos infantis! Deus tem belas prendas para cada um de nós, e tudo o que nos pede é que sejamos pacientes durante a escuridão da noite... Logo logo, o dia despontará também para nós, e então poderemos abrir as belas prendas que o seu amor preparou. Mas agora - quando as horas custam a passar, quando a tarefa parece interminável, quando chove sem parar, quando tudo é sombrio e doloroso na nossa vida - agora é tempo de esperança...

 

"A minha alma espera no Senhor

Mais do que a sentinela espera pela aurora.

Mais do que a sentinela espera pela aurora,

Israel espera pelo Senhor,

porque nele há misericórdia

e com Ele é abundante a redenção."

(Sl 130, 6-7)

 

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Rebento de oliveira

por Teresa Power, em 02.10.15

Quando viemos viver para Mogofores, em agosto de 2007, a nossa casinha estava acabada de construir, mas o jardim ainda era um monte de pedras e silvas. Trabalhando arduamente, o Niall limpou o terreno, encomendou a terra, semeou a relva, plantou árvores de fruto e flores. Que alegria, ver o jardim a ganhar forma pouco a pouco!

Entretanto, uns amigos ouviram-me falar de um dos meus sonhos: ter uma oliveira no centro do jardim. Eu cresci na Beira Baixa, e as oliveiras evocam em mim as recordações mais autênticas e doces da minha infância. A minha casinha só estaria pronta quando a oliveira chegasse...

E chegou: os nossos amigos tinham um olival, e decidiram oferecer-nos uma das suas oliveiras, frondosa e bela, com mais de duzentos anos. Que maravilha!

Mas quando o trator, em outubro, deixou a oliveira no nosso jardim, na cova que, entretanto, o Niall cavara noite após noite para a receber, a minha desilusão foi grande: a oliveira alta e frondosa era simplesmente um tronco! Nem ramos, nem folhas: um tronco castanho e seco.

 

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- Que aconteceu, Niall? - Perguntei, aflita. Ele riu-se:

- É assim mesmo! Para transplantar a oliveira foi preciso cortar os ramos, pois de outra forma, ela morria. Agora temos de esperar que voltem a crescer!

- E vão crescer?

- Claro! O senhor disse-nos que a próxima primavera será o exame final: ou a oliveira rebenta por todos os lados, lançando pequenos ramos que logo crescerão, ou não rebenta, e nesse caso, está morta.

Durante todo o inverno, cuidámos da oliveira, na esperança de que tivesse aguentado bem a mudança de habitat. Mas eu estava impaciente pela prova final: estaria ela verdadeiramente viva?

Durante todo o inverno também, parecia-me escutar a voz de Deus, pedindo-me que acolhesse um novo filho. Era um chamamento distinto, persistente, percebido no mais íntimo do meu ser. O Niall e eu estávamos abertos à vida, e esperávamos, com curiosidade, a visita do Senhor.

Manhã de fevereiro, 2008. É sábado, e por isso não há pressa em sair de casa. Já é quase primavera... Haverá sinais de vida, na nossa oliveira? Espreitar o seu tronco rugoso tornou-se um hábito matinal: dirijo-me ao jardim, e observo.

E eis que, de repente, sou tomada pela visão de uma folhinha minúscula a espreitar do tronco. Sim, é o primeiro rebento! A oliveira está viva!

Então, antes de gritar de alegria, antes de correr a anunciar a boa notícia, vem-me à memória o versículo de um salmo:

 

"Teus filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa." (Sl 128, 3)

 

Instintivamente, levo a mão ao ventre: não preciso de teste de gravidez. Aquele rebento de oliveira faz-me saber, com uma certeza inusitada, que o meu ventre já está habitado... Não sei que notícia dar primeiro.

Foi assim que a Lúcia se fez anunciar, há sete anos atrás. Dia 2 de outubro, dia do Anjo da Guarda, ela nascia, rebento de oliveira em flor, para encher a nossa casa de risos. Hoje, celebrando o seu aniversário, vendo-a saltar de alegria ao desembrulhar as prendas, recebendo os seus abraços, fazendo-lhe as tranças marotas, eu recordo o tronco rugoso, a espera impaciente, o rebento minúsculo a anunciar a primavera, e a Palavra surgindo cá dentro... Quem, senão o Senhor, faz milagres assim? Ele enche a Terra de sinais do seu amor, e nós andamos tão distraídos...

Parabéns, querida filha!

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A Sara e o bocadinho (a) mais

por Teresa Power, em 21.09.15

A Sara fez ontem três anos, e a nossa casa está em festa!

Meu Deus, já foi há três anos atrás que ela nasceu... A minha prenda dos quarenta anos! Como cresceu depressa, enchendo a nossa casa de alegria e gargalhadas! Ontem, no fim da missa, teve direito à canção dos parabéns - e o David, claro, também!

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Antes da Sara existir dentro de mim, a nossa vida familiar tinha atingindo um equilíbrio (quase) perfeito. Com cinco filhos, conseguíamos viajar todos no mesmo carro de sete lugares e chegávamos ao fim do mês sem dinheiro, mas também sem dívidas. Além do mais, tínhamos recuperado a tranquilidade do nosso quarto de casal, pois o António acabara de se mudar para o quarto dos rapazes. E que bem que sabia poder voltar a ler na cama sem medo de incomodar um bebé!

Tanta tranquilidade (relativa, claro, porque cinco filhos... não deixam de ser cinco filhos!) deixou-nos incomodados. O Niall e eu sabíamos que eramos capazes de dar um bocadinho mais ao Senhor. Não estaria Ele a bater à nossa porta, esperando de nós um sim alegre?

Foi por isso que nos abrimos conscientemente (embora nunca tivessemos estado fechados) a uma nova vida. E a recompensa do nosso pequeno sim foi esta bela prenda, a nossa querida Sara!

Com o nascimento da Sara, deixámos de caber todos no mesmo carro; já não chegamos ao fim do mês sem dívidas; o cesto da roupa para passar ficou um bocadinho maior; voltámos a ter, por mais um ano, um bebé no quarto e a deitarmo-nos às escuras... Mas em contrapartida, temos mais ocasiões para dar gargalhadas; voltei a passear um bebé no "pano", bem juntinho ao meu coração, que é das melhores coisas da vida; a casa voltou a encher-se daquele delicioso cheirinho a bebé; e voltámos a viver os momentos únicos e absolutamente extraordinários do primeiro passo, da primeira palavra, do primeiro beijo. A Sara foi um bocadinho mais de esforço oferecido ao Senhor; mas foi sobretudo um bocadinho mais de bênçãos que o Senhor nos ofereceu!

 

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Quando alguém me diz: "Agora a nossa vida está perfeita: temos o número certo de filhos, e outro que viesse seria a mais", fico sempre a pensar, num misto de brincadeira e seriedade que, se calhar, é o momento perfeito para... mandar vir outro bebé! É que um sinal claro da passagem de Deus é precisamente uma doce perturbação. Não é isso o que o Evangelho nos diz? Quando o Anjo do Senhor anunciou a Maria a Boa Notícia do Evangelho, diz-nos Lucas que

 

"Maria ficou perturbada, pensando no que poderia significar tal saudação." (Lc 1, 29)

 

Contudo, como o Papa Francisco disse já repetidas vezes, alguns cristãos têm na porta do coração um letreiro a dizer: "Não perturbar"...

Senhor, vem hoje de novo, com o teu sopro, desarrumar a minha vida, despentear os meus cabelos, perturbar a minha falsa paz!

Senhor, que eu não tenha receio das tuas visitas - em qualquer área da minha vida - mesmo as mais inesperadas! Ajuda-me a dar-te sempre "um bocadinho mais", porque qualquer um de nós, teus filhos, é capaz de muito mais do que imagina...

E graças, mil graças pelo dom da Sara, que é mil vezes melhor do que eu o sonhei!

Ámen.

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Exaltação da Santa Cruz e dois aniversários

por Teresa Power, em 14.09.15

Hoje é dia de festa, e de festa em grande!

Hoje, 14 de setembro, o David faz nove anos. Nove anos! Nove anos que encheram a nossa vida de verdadeira alegria. Era um bebé tão pequenino e tão frágil ao nascer, com os seus dois quilinhos de ternura e de lembranças dolorosas - a maior parte da gravidez tinha sido passada no hospital, acompanhando a doença e morte do irmão - e tornou-se um rapazinho tão alegre, tão tranquilo e tão gentil! PARABÉNS, DAVID!

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Hoje, 14 de setembro, é o aniversário oficial das Famílias de Caná. Celebramos dois anos desde aquele dia tão simples em que desafiámos o nosso pároco e algumas famílias amigas a partilhar connosco a sua vida e a escutar o nosso testemunho de vida católica em família. Foi um retiro ainda muito rudimentar, mas que Deus abençoou, de acordo com o seu já velhinho princípio bíblico de escolher os mais fracos, os mais pobres e os mais novos para realizar os seus planos grandiosos! PARABÉNS, FAMÍLIAS DE CANÁ!

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Hoje, 14 de setembro, é a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Conta a Tradição que Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, mandou fazer escavações em Jerusalém para encontrar a verdadeira Cruz de Jesus. Encontraram as três cruzes numa vala. Como saber qual a de Jesus? Simples: levaram um doente agonizante até ao local e deitaram-no sobre as três cruzes, à vez. Quando deitado sobre uma delas - madeira tosca e pobre, em tudo igual às outras - ele ficou miraculosamente curado...

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Encontrar a verdadeira Cruz de Jesus é tarefa de uma vida inteira! É que não basta escavar: é preciso deitarmo-nos sobre ela - ah, e é tão bom deitarmo-nos sobre ela, numa cama de hospital ou em qualquer outra circunstância da vida! É preciso depositar aí as nossas dores, as nossas doenças, o nosso pecado, a nossa fraqueza, a nossa falta de fé, as nossas dúvidas, os nossos sonhos... Então experimentaremos, como aquele agonizante e como tantos irmãos nossos ao longo da História, o poder salvador da Cruz do Senhor!

 

"Pelas suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

 

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A maior honra

por Teresa Power, em 14.03.15

- Bom dia, meninas! Acordar!

Como todas as manhãs, entro no quarto das meninas e abro as janelas. A Lúcia está ainda a dormir, bem agarrada aos seus dois ou três peluches. A cama da Sara está vazia.

- Sara! Onde está a Sara?

Uma gargalhada vinda da cama da Clarinha, lá em cima. Duas cabeças a espreitar sob o edredão:

- Sara, que fazes tu na cama da tua irmã? Clarinha, o que aconteceu?

A Clarinha espreguiça-se, dá mais um beijinho à Sara e explica:

- A Sara chorou durante a noite. Antes que tu ouvisses, decidi puxá-la para a minha cama. Eu sei que andas muito cansada, e não queria que ela te acordasse!

 

Hoje a Clarinha faz catorze anos. Olho para ela e vejo uma adolescente bonita, inteligente e equilibrada. Tem alguns defeitos e muitas qualidades. A maior, sem qualquer dúvida, é a sua disponibilidade constante para servir. Esteja a estudar, a ouvir música, a dançar, a fazer ginástica ou, como ontem, a dormir, a Clarinha está sempre disponível para ajudar quem mais precisa. Fá-lo por temperamento (e nesse caso, esta qualidade é claramente herdada do pai), mas fá-lo também por virtude, emprestando à sua maneira de ser o esforço que o Evangelho nos pede.

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Li há tempos o livro "Como ser feliz com 1, 2, 3... filhos", escrito por uma mãe espanhola que tem, imaginem, dezoito filhos, Rosa Roca, num apartamento em Barcelona. Impressionou-me um pormenor: todos os períodos, esta mãe vai à escola, conversar com os professores ou diretores de turma de cada filho. Escreve ela:

"As notas não são a primeira coisa de que falamos, mas sim o comportamento, quer na sala de aula, quer com os colegas. Se se preocupa com os outros, ou se só pensa nele. Se é generoso e partilha os apontamentos, se ajuda o amigo que vai mais atrasado em alguma disciplina... E no final do encontro falamos sobre as notas, sobre se ele se esforçou ou não, sobre o professor de inglês, que parece não engraçar com ele, e sobre a matemática, pois parece que ele não percebe as frações..."

 

É curioso como, ao longo da minha vida de professora, poucos pais me têm questionado sobre a disponibilidade dos filhos para ajudar os colegas. Apercebo-me de que a capacidade de serviço não é um dos valores mais apreciados pela maioria das famílias, sejam ou não famílias cristãs. Precisamos de reler os Evangelhos e de perceber o que é mais importante para Jesus. S. João, o seu amigo mais próximo, narra-nos o que Jesus fez durante a sua última páscoa. O texto começa com um crescendo magnífico:

 

"Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo Lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa..."

 

Será que é agora que Jesus vai manifestar o seu poder divino, auto-proclamando-se Rei de Israel?

 

"...tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura." (Jo 13, 3-5)

 

Que desilusão! Tanto suspense para isto! Ou então... Ou então - e essa é a única hipótese que nos resta - servir é a maior honra que nos é oferecida aqui na Terra.

 

Parabéns, Clarinha, pelos teus catorze anos de vida ao serviço dos outros!

 

 

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Amigos

por Teresa Power, em 12.02.15

O dia de anos do António começou muito cedo. Seis horas da manhã, e já cantavam galos e meninos! Feliz, o António abria presentes e recebia abraços. Ena, as figurinhas do Jake e dos Piratas! Ah, e balões, que prenda magnífica! E tanto papel de embrulho para espalhar por todo o lado... Na cozinha havia croissants e pães com chocolate. E sobre a banca, o bolo que a Isabel fizera, pronto para ir para a escola.

Como nas tardes de quarta-feira não tenho aulas, o aniversário do António foi especial: na escolinha, os seus amigos cantaram os parabéns e partilharam o bolo; e logo depois do lanche, fui buscar o António e mais quatro amigos, para continuarem a festa cá em casa. Foi a primeira vez que o António festejou o seu aniversário com amigos da escola, e estava tão feliz!

 

Eu confesso que estava desejosa de conhecer mais de perto os seus amigos. Recordo as festas de anos do Francisco e da Clarinha, quando eram assim pequeninos... Ainda ontem me cruzei com um dos amigos do Francisco, que costumava vir aqui brincar nas festinhas e a quem tive de consolar mais do que uma vez, sentando-o ao meu colo por alguém lhe ter tirado um brinquedo. Ontem tive de olhar para cima para o poder cumprimentar... Meu Deus, como o tempo passa, e como eles crescem! As amigas da Clarinha estão altas e bonitas. Continuam a vir cá a casa, mas já não brincam com as bonecas: agora dançam no quarto, ou vão juntas dar um passeio de bicicleta.

O David tem grandes e bons amigos, que vêm cá brincar de vez em quando. Também já conheço as amigas da Lúcia, e elas também já conhecem a nossa casa, com tudo o que lhe pertence - os cães, os gatos, as galinhas, o barulho, a confusão.

Ontem fiquei a conhecer os amigos do António, de quem ele já falava há muito tempo. E pude observá-lo a brincar, a ser generoso, a zangar-se, a sorrir, a partilhar, a gerir emoções e pequenos conflitos...

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- Vai chamar o teu primo - Diz um dos amigos, filho único.

- Não é primo, é mano - Responde o António.

- Mano? E o outro também? - Pergunta, admirado.

- Sim, são todos manos!

 

- Vou ver bonecos - Diz-me outro menino, entrando disparado na sala e procurando qualquer coisa com o olhar. - Onde está o comando?

- Nós não vemos televisão cá em casa senão ao fim-de-semana - Respondo, sorrindo.

- Então com que é que brincam?

- Com os bonecos de brincar, não de ver. Já viste a coleção de animais do António? Vem que eu mostro-te!

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O António e os seus amigos irão crescer. Qualquer dia deixo de conseguir pegar-lhes ao colo ou intervir nas suas disputas. Alguns irão afastar-se, outros permanecerão fiéis, novos amigos se lhes juntarão. Como os irmãos, também o António terá de aprender a construir amizades, o que não é assim tão fácil! Agora está apenas a dar os primeiros passos.

Para se ter um amigo, é preciso reconhecer, antes de mais, que não se é o centro do mundo.  E alguns meninos, habituados ao primeiro lugar dentro da sua família - idolatrados, mas não necessariamente mais amados - irão descobrir isso demasiado tarde...

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Os amigos dos nossos filhos são um pouco também nossos filhos. Damos-lhes o lanche, abrimos-lhes a porta da nossa casa e da nossa vida, e oferecemos-lhes a gratidão que sentimos por quererem bem aos nossos. A vida sem amigos torna-se tão triste e vazia! Bem diz o Senhor:

 

"Um amigo fiel é uma poderosa proteção:

quem o encontra, encontra um tesouro."

(Ecl. 6, 14)

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 Abençoa, Senhor, os amigos dos meus filhos e os meus amigos! Que eles Te encontrem na luz da nossa amizade...

 

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Festa da partilha

por Teresa Power, em 11.02.15

- Mãe, tenho de levar bolachas ou fruta para a partilha - Diz-me o António, vestindo a bata para ir para a escola.

- Sim, António, levas. Lúcia, veste o casaco! Clarinha, por favor, lava-me a cara da Sara, que está cheia de ranho! Francisco, despacha-te!

- Mãe, assina depressa este teste...

- Agora? Não tiveste o dia todo ontem?

- Alguém mexeu no meu saco de Educação Física?

- Por favor, meninos, vamos chegar atrasados! Já são quase oito e um quarto! Corram, para o carro!

- O vidro do carro está congelado. Eu vou ligar a chaleira para aquecer água.

- Obrigada, Francisco. Vamos, entrem no carro!

 

Chegamos ao colégio em cima da hora das aulas dos mais velhos. Os do primeiro ciclo têm mais um quarto de hora de recreio, para grande alegria deles. Resta-me tirar os dois mais novos do carro e entrar na Escolinha. Com um sorriso, o António e a Sara cumprimentam a Irmã na portaria e as educadoras que vão chegando também.

De repente, o António desata a chorar:

- Não trouxe as bolachas!

Na verdade, a pressa e a confusão da manhã fizera-me esquecer.

- Não faz mal, António, trazes amanhã!

Mas o meu filho está inconsolável. E inconsolável fica, depois de lhe dar um beijo, depois da auxiliar lhe dar um abraço, depois dos amiguinhos o puxarem para brincar com eles.

 

A hora da partilha, na escolinha, é uma hora muito importante: a meio da manhã, todos os meninos têm um pequeno lanche, geralmente composto de uma peça de fruta e uma bolacha. Ao contrário das outras refeições, este lanche matinal é oferecido pelos pais. Como? De vez em quando, sem ordem fixa, os pais mandam pelos meninos um pacote de bolachas ou um cesto de fruta. Quando, no lanche da manhã, os meninos vêem a sua fruta e as suas bolachas a serem distribuídas, sentem um orgulho especial. Afinal, os autores da partilha são eles!

O António não estava a chorar por ir ficar sem lanche, claro, pois naturalmente iria ter direito a ele. Estava a chorar, porque naquele dia não iria dar, mas apenas receber. E como disse Jesus:

 

"Há mais alegria em dar do que em receber." (At 20, 35)

 

Hoje, o António vai chegar à escola com um grande cesto de quivis. E como hoje é também o dia do seu quinto aniversário, para além dos quivis, o António levará um belo bolo, feito pela nossa fada madrinha, que como o António, também gosta de dar! Já estou a adivinhar o seu sorriso de pura felicidade, primeiro ao cumprimentar a Irmã, depois ao cumprimentar as educadoras e auxiliares, e finalmente, durante a manhã, ao distribuir os quivis pelos seus amigos... Quando, à tarde, lhe cantarem os parabéns e lhe fizerem uma festa, o António já terá experimentado a outra festa, a festa da partilha. Parabéns duplamente, querido filho!

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