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Crianças na Casa de Deus

por Teresa Power, em 01.06.16

- Eu também vou à catequese - Afirmou a Sara, muito séria, quando viu a Lúcia, o António e a Clarinha a trocarem de roupa e a lavarem a cara.

- Não, Sara, tu não vais porque só tens três anos - Explicavam-lhe os irmãos.

- Vou sim!

- Não vais.

- Vou, vou ficar na sala da Lúcia porque lá vêem filmes de Jesus e cantam canções e fazem desenhos e contam histórias.

- Mas a Lúcia está no segundo ano, e tu ainda nem entraste na escola. Não vais à catequese.

- VOU SIM! EU VOU À CATEQUESE!

E as palavras decididas transformaram-se em gritos histéricos, bater de pé no chão e uma cascata de lágrimas.

- Deixa-a ir, Niall - Intercedi eu, por fim.

Mas o Niall não se queria deixar convencer:

- Tu não achas que o João e a Isabel já têm que fazer, com vinte meninos da idade da Lúcia? Como podemos pedir-lhes que cuidem também da Sara?

Chegou a hora de entrar no carro, e a Sara entrou também. O Niall ficou desarmado.

- Pronto, anda lá!

Ao chegar ao Santuário, a Sara correu para junto da Isabel e do João, catequistas da Lúcia, que a acolheram com imensa alegria e o carinho habitual. Mais tarde, a Isabel enviou-me estas duas fotos, tiradas com o seu telemóvel:

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- A Sara é a nossa catequisanda mais empenhada - Comentaram os catequistas no final, a rir. E tem convite feito para ir sempre que quiser!

 

Entretanto, o António e o David tiveram uma conversa séria entre os dois, que resultou nesta afirmação do António:

- Mamã, amanhã vou ser acólito.

- Ai sim? Não és ainda pequenino para tanta concentração?

- Não. Não sabes que já tenho seis anos?

Perante tanta convicção, não nos restou alternativa senão apoiar o nosso filho nesta sua grande decisão. Lindo, sereno, muito sério, muito compenetrado, o António serviu o altar do Senhor com imenso entusiasmo. No final da eucaristia, teve direito a uma salva de palmas...

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 Os filhos crescem, e como Jesus, crescem em todas as áreas da sua humanidade:

 

"Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens." (Lc 2, 52)

 

É um privilégio tão grande, este que o Senhor nos concede de os podermos acompanhar!

Também o nosso primogénito cresceu. Sexta-feira participará na missa dos finalistas do Colégio Nossa Senhora da Assunção, Colégio a que tanto, tanto deve, e que embora não tenha podido frequentar este ano letivo, o continua a considerar como aluno.

Será também no Colégio que, no próximo domingo às três da tarde, o Francisco fará um espetáculo de Ilusionismo. Querem vir? Temos bilhetes para vender, e só precisam de me escrever para o mail. O espetáculo foi a forma que o Francisco encontrou de reunir algum dinheiro para, no final de Julho, ir a Cracóvia, às Jornadas Mundiais da Juventude, inserido num grupo de jovens salesianos. Que grande graça! O Francisco terá oportunidade de ver o Papa, de conviver com milhões de outros jovens crentes, de escutar catequeses fantásticas, de participar em atividades divertidas e sérias, de visitar o Santuário da Misericórdia, de me trazer uma imagem de Jesus Misericordioso :)  

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Apareçam no domingo!

E hoje, Dia mundial da Criança, rezemos ao Senhor por todas as crianças do mundo, para que todas cresçam bem pertinho da Casa de Deus! Ámen.

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O António e a graça divina

por Teresa Power, em 11.02.16

Hoje o António faz seis anos. Ena, é difícil acreditar que já passaram seis anos desde aquele dia em que o tomei nos meus braços pela primeira vez, bebé pequenino mas tão cheio de força, de doces olhos castanhos... Seis anos!

- Há quanto tempo não escrevo um post sobre as birras do António! - Comentei eu outro dia com o Niall.

- É verdade! Até nos esquecemos de que ele fazia tantas, tantas birras! Quando foi a última vez que fez uma?

- Nem consigo lembrar-me...

O António cresceu. Um crescimento cheio de desafios e lutas interiores, que ele, apesar da sua tenra idade, tão bem tem sabido gerir. Birra após birra, o António foi tomando consciência de como o seu comportamento precisava de afinação. Rezou, com a sua confiança infantil, pedindo a Jesus que o ajudasse a ser bom.

- Todos os dias peço ao Jesus para ser bom, sabes, mãe? Quando me deito, antes de adormecer...

E Jesus atendeu a sua oração pura. Já vão longe, as birras que duravam uma manhã inteira, ou que deixavam o António especado no chão, imóvel e inamovível, a gritar, perante os olhares surpresos de quem passava e a minha triste impotência. Já vão longe, as birras que nos faziam perder a paciência e reagir com palavras ou gestos violentos, de tão cansados ficávamos. Agora, as birras do António duram apenas alguns segundos, o suficiente para ele se dominar e acalmar. E nós suspiramos de alívio.

O mesmo carácter forte que se manifestava em birras sucessivas, revela-se agora numa força interior invejável. De todos os nossos filhos, nenhum supera o António em fortaleza! Confiante e seguro de si, o António adora novos desafios e não tem medo de nada. Se o Francisco encontrar uma salamandra no jardim, é o primeiro a ter coragem para pegar nela, antes de a devolver à natureza:

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  Se é preciso cuidar da horta, levar os cães a passear, limpar o galinheiro, ajudar o pai a montar qualquer coisa ou simplesmente varrer o chão da garagem, o António é o primeiro (ou o único...) a oferecer-se. Assim, teve direito, no ano passado, a considerar suas as flores que nasceram no nosso jardim, pois foi ele quem as semeou e quem as acompanhou, desde a terra à jarra no Canto de Oração:

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Patins, bicicletas, bolas, árvores, nada o assusta e tudo ele gosta de dominar com mestria.

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As lágrimas sempre prontas deram lugar a gargalhadas também sempre prontas, e o António enche a casa de felicidade.

O António mostrou-me que lá onde residem as nossas maiores fraquezas podem também residir as nossas maiores virtudes, se nos abrirmos à graça divina; porque a teimosia pode ser transformada em fortaleza, a mesma vontade insistente que nos faz persistir na birra pode ser transformada na vontade insistente que nos torna santos. Não foi assim que S. Paulo passou de perseguidor dos cristãos para o seu maior apóstolo, e que Pedro passou de pescador de peixes a pescador de homens?

Aprendi com o António a pedir o auxílio da graça divina na construção do meu caráter. Como ele, também eu peço ao Senhor todos os dias que me faça boa, e que transforme os meus maiores defeitos nas minhas maiores virtudes. Disse o Papa Francisco:

"Se levantarmos o olhar humilde do nosso pecado e das nossas feridas para o Senhor, e deixarmos pelo menos uma abertura à acção da sua graça, Jesus faz milagres também com o nosso pecado, com aquilo que somos, com o nosso nada, com a nossa miséria." (in O Nome de Deus é Misericórdia). Como diz S. Paulo:

 

"Onde abundou o pecado, superabundou a graça." (Rm 5, 20)

 

Bem hajas por tudo o que me ensinas a cada dia, querido filho. Parabéns, António!

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Mea culpa

por Teresa Power, em 28.09.15

Enquanto faço a minha cama, pela manhã, dou-me conta de uma enorme mancha de cola na colcha.

- David! António! Lúcia! - Chamo, bem alto.

Os meninos aparecem a correr.

- O que foi, mamã?

Aponto para a colcha:

- Quem fez isto?

Silêncio. Olhares cúmplices. Depois, a costumada resposta:

- Eu não!

- Eu não!

- Eu não!

Finjo que não me importo e encolho os ombros.

- Bem, tínhamos combinado ir juntos à loja. Enquanto não souber a verdade, não vamos sair. Claro que, se demorar muito, eu saio sozinha. Agora vão pensar no assunto, e avisem-me quando souberem alguma coisa.

Os meninos afastam-se em silêncio. Alguns minutos mais tarde, a Sara aparece a correr junto de mim.

- Fui eu! Fui eu! Fui eu! - Cantarola ela, aos saltinhos.

- Foste tu o quê, Sara?

- Não sei! Não sei! Não sei! - Responde, sempre muito feliz.

Disfarço um sorriso e ponho o meu ar mais sério. Lá terei de chamar novamente os três meninos... Aparecem a correr:

- Então, mamã, já descobriste quem foi?

- Não, mas já descobri quem NÃO foi. Não foi a Sara, meus amigos. Por favor pensem melhor e decidam-se, que são horas de sair!

Silêncio. Alguns minutos que parecem uma eternidade. Então o António, sempre muito sério, dá um passo em frente:

- Sabes, mamã, eu estive a pensar... Sabes, parece, acho, bem, acho que se calhar, se calhar mesmo, fui eu... Mas olha, não me consigo lembrar!

 

A confissão atabalhoada do meu filho de cinco anos fez-me pensar na quantidade de vezes que encontramos desculpas e procuramos bodes expiatórios para os nossos pecados. É por isso que é tão, mas tão importante a instituição da confissão individual. E não são apenas os católicos que o afirmam: Martinho Lutero nunca deixou de a fazer durante toda a sua vida, e inúmeros psiquiatras, crentes e não crentes, já atestaram o seu poder.

"Por minha culpa, minha tão grande culpa...", rezamos todos os dias na missa, batendo com a mão no peito. Na verdade, assumirmo-nos culpados dos nossos pecados é o primeiro e mais importante passo para acolhermos a misericórdia infinita de Deus. O Rei David, que foi um grande santo, foi também um grande pecador. A ele devemos o magnífico salmo 50, onde David confessa publicamente a sua culpa e, arrependido, pede perdão:

 

"Lava-me completamente da minha iniquidade,

e purifica-me do meu pecado.

Porque eu conheço as minhas transgressões,

e o meu pecado está sempre diante de mim.

Contra Ti, contra Ti somente pequei,

e fiz o que é mal à Tua vista..."

(Salmo 51/50, 2-4)

 

Querido António, hoje a tua confissão foi suficiente. Mas crescer vai significar também seres capaz de assumir a tua culpa e enfrentar o teu pecado sem hesitações... Que o Senhor e eu te ajudemos neste caminho de perdão!

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O Jovem Rico e o Barrica

por Teresa Power, em 19.08.15

Hora de oração familiar.

- António! Sara! David! Depressa, vamos rezar!

Passos apressados no corredor.

- Francisco! Clara! Lúcia!

- Já vou!

- Já vou!

- Não é já vou, é vir mesmo! São horas!

Mais passos apressados no corredor.

- Dá-me o Barrica! - Grita de repente a Sara, procurando agarrar o pequeno boneco da mão do António.

- Não dou! É meu! Meu!

- Eu quero o Barrica! EU QUERO O BARRICA!

- É MEU!

Gritos. Mais gritos. Empurrões. A Sara está a chorar.

- Acabou-se! São horas de rezar!

A Sara sai da sala, a soluçar. Perante um ataque tão grande de mau génio, decidimos avançar com a oração, e começamos a cantar e a dançar o nosso louvor. Irritadíssima, reaparece:

- NÃO REZAM SEM A SARA!

Eu sabia que a Sara não perderia este momento por nada deste mundo. A hora de oração costuma ser uma das horas preferidas dos mais pequeninos por causa dos cantos e das danças, e certamente também por causa do carinho e da presença uns dos outros.

Decido então pegar-lhe ao colo, e a Sara acalma com a cabeça no meu ombro. Podemos continuar a oração. Depois de partilharmos em voz alta a nossa ação de graças, sentamo-nos para escutar o Evangelho, que nos conta a inquietante história do Jovem Rico:

 

"Aproximou-se de Jesus um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Cumpre os mandamentos!» Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido todos os mandamentos; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se entristecido, porque possuía muitos bens." (Mt 19, 16-22)

 

- Que precisava o jovem rico de fazer para ser feliz? - Pergunto, perante o silêncio geral.

- Precisava de deixar tudo o que tinha.

- E ele foi capaz de tanto?

- Não, porque tinha muitas, muitas coisas!

- Pois era, o jovem rico tinha muitas coisas. Quando temos muitas coisas, é mais difícil deixá-las para trás!

- Mas ele ficou triste.

- Claro: é preciso coragem para se ser feliz! A coragem de fazer a vontade de Deus, ou seja, de realizar o sonho que Deus sonhou para cada um de nós. Deus só nos pede o que nos faz felizes!

- Mesmo quando custa?

- Custa sempre um bocadinho, mas a recompensa é a felicidade.

Silêncio. Depois, calmamente, o António levanta-se e diz:

- Vou buscar o Barrica para dar à Sara.

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A isto eu chamo: escutar a Palavra e colocá-la em prática...

 

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Birras e pecados

por Teresa Power, em 20.07.15

- Está, senhor padre? Sim, é o Niall... Tudo bem? Senhor padre, aqui em casa vive uma família de pecadores! Sim... Estávamos aqui a ver se o senhor padre tinha um buraquinho no seu horário para nós, esta tarde! Queríamos confessar-nos antes do retiro de amanhã... Que bom! Vamos já para o carro, assim eu os consiga encontrar a todos nos próximos cinco minutos. Até já!

Logo que o Niall desligou o telefone, corri para o jardim:

- Meninos, vamos confessar-nos! Depressa, para o carro!

- Vamos todos?

- Sim, Francisco, temos de levar todos, claro! Não temos com quem deixar o António e a Sara. Eles ficam por lá a brincar enquanto nos confessamos.

- Mas eu também me quero conversar!

- Tu, António?

- Sim! Eu também me vou conversar!

- Tu ainda és pequenino, António. Já tens pecados?

- Então não tenho? Não te lembras das minhas birras? Nem das vezes em que eu bato na Sara?

- Ah... Lembrar, lembro muito bem! Então anda daí, que também te podes confessar!

 

O Catecismo da Igreja Católica diz que se pode confessar "todo o fiel que tenha atingido a idade da discrição" (CIC 1457). Se por "discrição" entendermos a consciência de pecado, então o António já tem a maior idade... Aos cinco anos já somos capazes de avaliar as nossas ações e de perceber quando praticamos o mal.

 

Pacientemente, o António esperou pela sua vez para se confessar, e fê-lo com uma enorme felicidade. Ao sair do confessionário, sorridente, abraçou-me e disse:

- Agora vou rezar um bocadinho no meu coração. Sabes, tenho o coração limpinho, sem nenhum pecado! Vais ver: quando chegar a casa vou portar-me sempre bem!

Com a cabeça no meu ombro, rezou a Jesus, enquanto os irmãos se confessavam. Depois, no pátio do Santuário, correu e brincou cheio de alegria, e cheio de Deus.

Olhando para ele a transbordar felicidade, lembrei-me das palavras de Jesus:

 

"Deixai vir as Mim as criancinhas, não as impeçais, porque é delas o Reino dos Céus." (Mt 19, 14)

 

Os sacramentos são poderosos encontros com Jesus, o Salvador. Confessar os nossos pecados, um a um, e escutar as palavras de perdão e salvação é uma das maiores graças que o Senhor nos faz a todos, pequenos e grandes, enquanto caminhamos nesta Terra...

 

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Banhos velhinhos

por Teresa Power, em 09.07.15

O dia fora longo e feliz. Depois de uma alegre manhã na praia, tínhamos almoçado em casa das duas avós - a vovó Mimé e a bisavó, que embora não nos reconheça, gosta de ver os meninos a brincar à sua volta. Por fim, tínhamos ainda tido bastante tempo para saltar no jardim.

Hora do banho. O António está sentado na banheira, e eu esfrego-o vigorosamente, deixando a água que se acumula no fundo bastante suja. Verão é também tempo de muita sujidade, penso eu.

Interrompendo os meus pensamentos, o António faz-me uma pergunta:

- Mamã, quando fores velhinha sou eu que te dou banho?

- Banho? A mim?

- Sim. A vovó mamã - é assim que os nossos filhos tratam a bisavó, talvez por escutarem a avó tratá-la por mãe - não toma banho sozinha, pois não? Um dia, eu vou dar-te banho com tu me dás agora a mim!

Sorrio, e continuo a esfregar o meu filho. Espero sinceramente não vir a precisar da ajuda do António, mas se Deus achar de outra forma, espero que o António, e todos os meus outros filhos, sejam capazes disso e de muito mais! E olhem que não estou a pensar no meu bem estar pessoal na terceira idade: estou a pensar na sua capacidade de amar, porque como dizia a Madre Teresa, amar é dar até doer...

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"A glória de uma pessoa vem da honra de seu pai, e é uma desonra para os filhos a mãe desprezada. Filho, ampara teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto vive. Ainda que perca a razão, sê tolerante e não o desprezes, tu, que estás em teu pleno vigor. Pois a compaixão para com teu pai não será esquecida e, em lugar dos pecados, terás os méritos aumentados. Quem abandona seu pai é como blasfemador, e é maldito do Senhor quem irrita sua mãe." (Ecl. 3, 11-16)

 

 

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Testemunho

por Teresa Power, em 03.07.15

- Mãe, lembras-te daquele dia em que a vovó Mimé bateu à porta, vocês abriram e ela estava vestida de urso? E todos desataram aos gritos? Era carnaval, não era?

- António, como é que tu sabes, se tu não tinhas nascido? Nessa altura eu era o bebé da família.

- Mas sei, David!

- Como? Sabes que todos gritaram? Sabes mesmo?

- Sei! Sei, porque já ouvi esta história muitas vezes!

Sorri, a conduzir o carro por montes e vales para mais um piquenique em família. Nos bancos traseiros, os mais novos continuaram a conversar sobre as recordações de uns e de outros. Apercebi-me de que era difícil distinguir entre os que tinham vivido as diversas situações e os que as tinham meramente escutado vezes sem conta, em viagens como esta. Ambos recordavam os mais curiosos detalhes e os episódios mais divertidos.

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As histórias de família passam de geração em geração, de pais para filhos, em passeios como este, ou aos serões de inverno, ao redor de uma lareira. E de história em história, nasce a cumplicidade, criam-se laços, edifica-se sobre alicerces antigos. Uns são os que vêem e contam, outros os que escutam e acolhem. As histórias passam, a tradição fica.

S. João inicia assim a sua primeira carta:

 

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e o que as nossas mãos apalparam a respeito da Palavra da vida - porque a vida se manifestou; e nós vimos, testemunhamos e vos anunciamos a vida eterna que estava com o Pai e nos foi manifestada - o que vimos e ouvimos, nós também vos anunciamos, a fim de que também vós vivais em comunhão connosco." (1Jo 1-3)

 

E S. Paulo afirma:

 

"A fé vem pela escuta, e a escuta vem da Palavra de Cristo."

(Rm 10, 17)

 

Nós cremos na Igreja Apostólica, isto é, a Igreja que nasceu do testemunho dos Apóstolos - aqueles que viram e ouviram, tocaram e experimentaram - transmitido de geração em geração pela pregação de uns e a escuta de outros.

Como é na nossa casa? Será que os nossos filhos escutam as histórias de família desta grande Família que é a Igreja? Contaremos nós as histórias da Bíblia e da vida dos santos com o entusiasmo e o ardor das testemunhas oculares? Como o António a contar a história daquele carnaval que não presenciou - falaremos nós dos episódios da vida de Jesus como se os tivéssemos vivido na primeira pessoa? Afinal, foi precisamente para serem vividos por cada um de nós que eles foram escritos...

 

 

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Aquele olhar

por Teresa Power, em 23.06.15

Com o fim do ano, chegam as festas. Cá em casa, é talvez a época mais ocupada do ano inteiro, com a multiplicação de festas do colégio, da pré-escola, da catequese, da ginástica rítmica e de mil e uma outras coisas. Passamos os fins-de-semana em festa, e confesso que estou a precisar de... férias!

No sábado, depois da festa da catequese, foi a vez do Centro Social S. José de Cluny. O António e a Sara deviam estar no centro pelas cinco e meia da tarde, e às seis horas iriam dançar as marchas populares. E assim foi.

O dia estava de calor intenso, e foi com bastante esforço que nos deslocámos ao colégio. O António e a Sara estavam excitadíssimos:

- Mamã, tu vais ver, eu sei dançar muito bem! - Dizia o António.

- Muito bem, muito bem! - Repetia a Sara, entre gargalhadas.

Sob o calor do sol, assistimos então à atuação dos nossos pequeninos. O António e a Sara dançaram marchas diferentes. Mas ambos entraram em cena com a mesma atitude: bem dispostos, atentos, compenetrados.

- Põe-te de pé, mamã, para ele te ver - Dizia-me o David.

- Oh, a Sara está à nossa procura com o olhar, mas não nos consegue identificar - Suspirou a Clarinha - Aqui, Sara! Aqui!

- Olha, ela já nos viu! Vê como está feliz! Adeus, Sara!

- E o António também! Adeus, António! Adeus!

- Ena, que bom, o António está a rir-se para nós! Cuidado, não o distraias! Já sabe que estamos aqui.

Gesticulando o mais possível, lá nos conseguimos fazer mostrar aos nossos filhos. Como todos os outros pais, também nós sabíamos que as crianças em palco não estavam a atuar para absolutamente mais nada nem ninguém, senão para aquele olhar... Aquele olhar de amor do pai e da mãe.

Conseguem identificá-los? Bem, eles estão mesmo a olhar para nós...

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Crescer significa também procurar no público outros olhares diferentes, e descobrir na vida outras motivações para os nossos gestos. Talvez esta seja mais uma razão pela qual Jesus compara os verdadeiros discípulos às crianças pequeninas... Só elas estão totalmente focadas em trabalhar para fazer sorrir os olhos do pai e da mãe.

E eu?... No meu trabalho, na minha família, junto dos amigos e dos colegas, dos vizinhos e dos clientes, dos pais e dos filhos - e eu? Quem procuro eu com o meu olhar?

Quantas vezes faço o que tem de ser feito e dou o meu melhor para obter a aprovação dos olhares errados... Ajo para que falem de mim, para que não falem de mim, para que não me incomodem, para que fique feito, para despachar, para agradar ao patrão, para desagradar ao colega, para que ninguém tenha nada a dizer, para que todos tenham algo a dizer, para...

 

"O Senhor olha do céu e vê toda a humanidade.

Do lugar da sua morada Ele observa

todos os habitantes da terra

e está atento a tudo o que fazem.

Eis que o Senhor pousa o seu olhar sobre os que O temem..."

(Sl 33)

 

Senhor, que em cada momento da minha vida, eu trabalhe apenas para Ti. Senhor, que no palco da minha vida, todos os meus gestos sejam por causa do Teu olhar. Senhor, que eu não descanse enquanto não cruzar com o Teu o meu olhar... Ámen!

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Jantar ou não jantar, ter razão ou amar

por Teresa Power, em 15.06.15

- Conta mais coisas do teu passeio, António - Pedi, enquanto nos sentávamos à mesa para jantar.

- O comboio anda muito depressa mas não faz "pouca-terra".

- Ai não?

- Não, nem "UUUUU". Não faz nada. Só anda.

- E almoçaste bem?

- Sim. As Irmãs foram ter connosco ao Portugal dos Pequenitos e levaram o almoço. Mas foi só almoço, não foi jantar.

- Claro! - Atalhou o David - Tu nunca jantas nos passeios, nem na escola!

- Ai janto sim.

- Não jantas nada!

- Janto!

- Não jantas, António! Ninguém janta na escola! - Continuou o David.

- EU JANTO!!!!

- A nossa doce e suave família num agradável momento de partilha - Comentou o Francisco ironicamente, entre duas garfadas.

- Mamã, diz ao António que não se janta na escola.

- Deixa lá, David. Que importa isso?

- Importa sim! Porque é mentira! Porque ele tem de aprender!

- EU SEMPRE JANTO NA ESCOLA!

- NÃO JANTAS!

- E os momentos agradáveis não cessam de se repetir cá em casa - Continuou o Francisco - Ai como é agradável um jantar em família!

- António, pára de gritar. E tu, David, pára de arreliar o António. Não importa que o António esteja errado. Isso é o que menos interessa aqui.

- Ai é? E como é que ele vai aprender?

- Ele vai aprender quando for importante aprender. Agora, o importante é ser amigo. Não vês que o António vem cansado do passeio da escola e está cheio de sono? Não o irrites!

- Mas que ele não janta na escola, não janta.

- JANTO!!!

- NÃO JANTAS!

 

Quando finalmente se fez algum silêncio em volta da mesa, fiquei a pensar em como é importante aprender a calar sobre coisas triviais, mesmo quando temos razão; e como é difícil calar sobre coisas triviais, quando temos razão! Calamo-nos mais facilmente sobre coisas realmente graves, e ficamos mudos quando atacam os valores maiores em que acreditamos; mas insistimos e tornamos a insistir em casa, junto da mulher ou do marido, junto dos irmãos ou dos amigos, forçando a nossa opinião sobre coisas triviais. Quantas discussões familiares se evitariam, se em vez de nos especializarmos na arte da argumentação, nos especializássemos na arte do amor... É que amar o próximo é sempre, sempre mais importante do que ter razão.

 

"Começar uma briga é desencadear uma enxurrada: desiste antes que se exaspere a disputa!"(Pro 17, 14)

 

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Santo António

por Teresa Power, em 13.06.15

Hoje é dia do santo padroeiro do António. Cá em casa, a festa vai começar com um pequeno-almoço de panquecas (a receita aqui) e muitas histórias das aventuras deste grande santo português.

E aí em casa? Conhecem histórias de Santo António? Para mostrar aos mais novos, aqui ficam duas: uma contada ontem pelo David, sobre um burro que um dia se ajoelhou diante do ostensório com a Eucaristia...

E a outra contada pelo António, no inverno passado, sobre a pregação aos peixinhos. Para quem não viu o vídeo na altura, aqui fica:

São tantas e tão belas as histórias da vida deste santo! Divirtam-se a contá-las aos mais novos, e a meditar sobre elas com os mais crescidos! Santo António viveu plenamente a profecia de Jesus:

 

"Eis os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem: em meu Nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, pegarão em serpentes com as mãos e, se beberem veneno, não lhes fará mal. Imporão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados." (Mc 16, 17-18)

 

Santo António, rogai por nós!

 

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publicado às 06:20



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