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O António e a graça divina

por Teresa Power, em 11.02.16

Hoje o António faz seis anos. Ena, é difícil acreditar que já passaram seis anos desde aquele dia em que o tomei nos meus braços pela primeira vez, bebé pequenino mas tão cheio de força, de doces olhos castanhos... Seis anos!

- Há quanto tempo não escrevo um post sobre as birras do António! - Comentei eu outro dia com o Niall.

- É verdade! Até nos esquecemos de que ele fazia tantas, tantas birras! Quando foi a última vez que fez uma?

- Nem consigo lembrar-me...

O António cresceu. Um crescimento cheio de desafios e lutas interiores, que ele, apesar da sua tenra idade, tão bem tem sabido gerir. Birra após birra, o António foi tomando consciência de como o seu comportamento precisava de afinação. Rezou, com a sua confiança infantil, pedindo a Jesus que o ajudasse a ser bom.

- Todos os dias peço ao Jesus para ser bom, sabes, mãe? Quando me deito, antes de adormecer...

E Jesus atendeu a sua oração pura. Já vão longe, as birras que duravam uma manhã inteira, ou que deixavam o António especado no chão, imóvel e inamovível, a gritar, perante os olhares surpresos de quem passava e a minha triste impotência. Já vão longe, as birras que nos faziam perder a paciência e reagir com palavras ou gestos violentos, de tão cansados ficávamos. Agora, as birras do António duram apenas alguns segundos, o suficiente para ele se dominar e acalmar. E nós suspiramos de alívio.

O mesmo carácter forte que se manifestava em birras sucessivas, revela-se agora numa força interior invejável. De todos os nossos filhos, nenhum supera o António em fortaleza! Confiante e seguro de si, o António adora novos desafios e não tem medo de nada. Se o Francisco encontrar uma salamandra no jardim, é o primeiro a ter coragem para pegar nela, antes de a devolver à natureza:

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  Se é preciso cuidar da horta, levar os cães a passear, limpar o galinheiro, ajudar o pai a montar qualquer coisa ou simplesmente varrer o chão da garagem, o António é o primeiro (ou o único...) a oferecer-se. Assim, teve direito, no ano passado, a considerar suas as flores que nasceram no nosso jardim, pois foi ele quem as semeou e quem as acompanhou, desde a terra à jarra no Canto de Oração:

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Patins, bicicletas, bolas, árvores, nada o assusta e tudo ele gosta de dominar com mestria.

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As lágrimas sempre prontas deram lugar a gargalhadas também sempre prontas, e o António enche a casa de felicidade.

O António mostrou-me que lá onde residem as nossas maiores fraquezas podem também residir as nossas maiores virtudes, se nos abrirmos à graça divina; porque a teimosia pode ser transformada em fortaleza, a mesma vontade insistente que nos faz persistir na birra pode ser transformada na vontade insistente que nos torna santos. Não foi assim que S. Paulo passou de perseguidor dos cristãos para o seu maior apóstolo, e que Pedro passou de pescador de peixes a pescador de homens?

Aprendi com o António a pedir o auxílio da graça divina na construção do meu caráter. Como ele, também eu peço ao Senhor todos os dias que me faça boa, e que transforme os meus maiores defeitos nas minhas maiores virtudes. Disse o Papa Francisco:

"Se levantarmos o olhar humilde do nosso pecado e das nossas feridas para o Senhor, e deixarmos pelo menos uma abertura à acção da sua graça, Jesus faz milagres também com o nosso pecado, com aquilo que somos, com o nosso nada, com a nossa miséria." (in O Nome de Deus é Misericórdia). Como diz S. Paulo:

 

"Onde abundou o pecado, superabundou a graça." (Rm 5, 20)

 

Bem hajas por tudo o que me ensinas a cada dia, querido filho. Parabéns, António!

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Birras e pecados

por Teresa Power, em 20.07.15

- Está, senhor padre? Sim, é o Niall... Tudo bem? Senhor padre, aqui em casa vive uma família de pecadores! Sim... Estávamos aqui a ver se o senhor padre tinha um buraquinho no seu horário para nós, esta tarde! Queríamos confessar-nos antes do retiro de amanhã... Que bom! Vamos já para o carro, assim eu os consiga encontrar a todos nos próximos cinco minutos. Até já!

Logo que o Niall desligou o telefone, corri para o jardim:

- Meninos, vamos confessar-nos! Depressa, para o carro!

- Vamos todos?

- Sim, Francisco, temos de levar todos, claro! Não temos com quem deixar o António e a Sara. Eles ficam por lá a brincar enquanto nos confessamos.

- Mas eu também me quero conversar!

- Tu, António?

- Sim! Eu também me vou conversar!

- Tu ainda és pequenino, António. Já tens pecados?

- Então não tenho? Não te lembras das minhas birras? Nem das vezes em que eu bato na Sara?

- Ah... Lembrar, lembro muito bem! Então anda daí, que também te podes confessar!

 

O Catecismo da Igreja Católica diz que se pode confessar "todo o fiel que tenha atingido a idade da discrição" (CIC 1457). Se por "discrição" entendermos a consciência de pecado, então o António já tem a maior idade... Aos cinco anos já somos capazes de avaliar as nossas ações e de perceber quando praticamos o mal.

 

Pacientemente, o António esperou pela sua vez para se confessar, e fê-lo com uma enorme felicidade. Ao sair do confessionário, sorridente, abraçou-me e disse:

- Agora vou rezar um bocadinho no meu coração. Sabes, tenho o coração limpinho, sem nenhum pecado! Vais ver: quando chegar a casa vou portar-me sempre bem!

Com a cabeça no meu ombro, rezou a Jesus, enquanto os irmãos se confessavam. Depois, no pátio do Santuário, correu e brincou cheio de alegria, e cheio de Deus.

Olhando para ele a transbordar felicidade, lembrei-me das palavras de Jesus:

 

"Deixai vir as Mim as criancinhas, não as impeçais, porque é delas o Reino dos Céus." (Mt 19, 14)

 

Os sacramentos são poderosos encontros com Jesus, o Salvador. Confessar os nossos pecados, um a um, e escutar as palavras de perdão e salvação é uma das maiores graças que o Senhor nos faz a todos, pequenos e grandes, enquanto caminhamos nesta Terra...

 

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Tanta pouca

por Teresa Power, em 14.01.15

O António estava a comer com imenso prazer. Entre garfadas, ia conversando com os irmãos e connosco, muito animado.

- Quero mais!

- Se faz favor.

- Quero mais se faz favor!

Coloquei um pouco mais de massa e de carne estufada no seu pequeno prato.

- Mais! - O António manteve o prato estendido.

- Come primeiro essa, depois se ainda tiveres espaço, dou-te mais - Respondi-lhe.

E foi então que a birra começou:

- TANTA POUCA!

- O quê?

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

- António, se quiseres mais eu dou, mas primeiro comes o que tens no prato.

Agora as lágrimas corriam a alta velocidade, e o prato continuava intocado diante do meu filho de quatro anos. Já não havia nada a fazer: era mesmo hora de birra... Os irmãos encolheram os ombros, nós também, e continuámos a tentar conversar por entre os gritos do António, enquanto eu escondia um sorriso diante da sua gramática atabalhoada:

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

Por fim, vendo que ninguém cedia - e porque a carne estava mesmo apetitosa - o António lá limpou as lágrimas e assoou o nariz, e continuou a comer. Afinal o que tinha no prato parece ter sido suficiente, porque não tornou a repetir.

 

Enquanto escutava os gritos do meu pequeno filho, fui pensando em como tantas e tantas vezes, também nós ficamos com o prato estendido diante do Senhor, fazendo birra:

- Tanta Pouca!

Temos diante de nós um prato, que o Senhor preparou com carinho especialmente para nós, mas raramente estamos satisfeitos: temos filhos a mais, ou filhos a menos; temos trabalho a mais, ou trabalho a menos; temos dinheiro a mais, ou dinheiro ao menos; temos chuva a mais, ou frio a mais, ou calor a menos, ou amigos a menos, ou saúde a menos, ou... Porque não estamos nunca satisfeitos?

Recordo aqui a oração constante da jovem Beata Chiara Badano, que nasceu no mesmo ano que eu e morreu aos dezoito anos de idade. Já falei desta oração várias vezes, e hei-de continuar a falar, porque nela está contido o segredo da verdadeira alegria, essa alegria que nada nem ninguém nem circunstância alguma da vida pode roubar:

 

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero."

 

Ou como disse Jesus ao longo de toda a sua vida:

 

"Faça-se a Tua vontade, ó Pai, na Terra como no Céu." (Mt 6, 10)

 

Ámen!

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Sorri!

por Teresa Power, em 03.10.14

Num dia da semana passada, recebemos um telefonema urgente da Visão. Andavam à procura de famílias "Erasmus", ou seja, de casais que se tivessem conhecido através do programa de intercâmbio universitário "Erasmus". Alguém lhes falou no nosso caso, e a Visão não perdeu tempo. Fizemos a entrevista por Skype, com muita dificuldade da nossa parte, pois todos queriam mexer no computador, dizer adeus à Luísa Oliveira, a nossa entrevistadora, falar com ela e interromper constantemente a conversa. Depois enviámos por mail algumas fotos, das que temos publicadas no blogue.

No dia seguinte, novo telefonema: as fotos não tinham qualidade suficiente, pelo que um fotógrafo da Visão iria deslocar-se até nossa casa para nos fotografar. Sentimo-nos verdadeiramente importantes! A Família Power iria fazer um pobre fotógrafo atravessar meio país apenas para nos fotografar! Marcámos a única hora disponível para a fotografia - entre as 18h30, hora de chegada a casa do Niall, e as 19h, hora de saída da Clarinha para a ginástica. Assim, às 18h30 em ponto, uma simpática fotógrafa do Porto estava à nossa porta, e os meninos apressaram-se a lavar a cara e a trocar de roupa, pois a essa hora costumam estar sujos de terra e de leite com chocolate. O Niall chegou quase ao mesmo tempo, e lá fomos nós fazer a fotografia.

Na sala, no jardim, sob a oliveira, no escorrega, com cães e com gatos, sem cães e sem gatos, a fotógrafa lá foi clicando, fazendo foto atrás de foto e conversando animadamente. Mas de repente, o inevitável aconteceu: o António cruzou os braços, fez cara feia e disse: "Eu não tiro mais fotos!" A fotógrafa tentou todas as técnicas maternais de que foi capaz, o Niall fez-lhe cócegas, os manos falaram com ele, mas o António manteve-se irredutível. E uma birra do António não é para qualquer um! Olhei para o relógio e vi o tempo a escoar-se; a Clarinha fez menção de ter de mudar de roupa, que a hora da ginástica é sagrada; pensei na pobre fotógrafa, que viera de longe para fazer o seu trabalho e não ia conseguir. Não tive alternativa: baixinho, falando-lhe ao ouvido para ninguém me ouvir, eu pequei contra todos os meus princípios educativos:

- António, se tu sorrires mais uma vez, eu dou-te uma prenda!

Apanhado de surpresa, completamente aturdido perante tanta generosidade - quando ele sabia bem que o que merecia não era prenda nenhuma - o António fez o seu mais belo sorriso, o sorriso que a Visão guardou e publicou. E quando a fotógrafa saiu, o António veio ter comigo de mão estendida, porque promessa é promessa...

Neste início da catequese, vejo muitos pais com atitudes bastantes semelhantes à do António:

- Se o meu filho faltar não faz a comunhão?

- Quantas vezes tem de vir à catequese para passar?

- O que acontece se ele tiver que estudar e não puder vir?

- Ir à missa conta ou não conta para falta?

Traduzindo:

- O que é preciso fazer para receber um presente?

Bem nos alerta S. Paulo:

 

"Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança." (1Cor 13, 11)

 

Que este começo de ano pastoral nos lance numa nova relação com Deus, e nos ajude a fazer o que sabemos ser correcto, não pelo que daí nos possa advir de lucro ou vantagem, mas por amor...

 

 

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Consolar

por Teresa Power, em 20.08.14

A Sara não suporta o choro do António. Sempre que o ouve chorar, a Sara deixa tudo o que está a fazer e corre ao seu encontro, para o abraçar e o beijar à sua maneira. E como o António é capaz de chorar várias vezes ao dia (com lágrimas e tudo, imaginem!), a Sara é capaz de deixar tudo várias vezes ao dia também. Se está, por exemplo, a brincar com lego, e o António chora no jardim, a Sara deixa o lego e corre para o jardim, sempre a dizer: "Ohhhhhhh!" Claro que, à vista de tanto amor, o António seca as lágrimas num instante e retoma a brincadeira, consolado.

 

 

Mas ontem, a capacidade de consolação da Sara ultrapassou tudo...

Estávamos a meio da noite. De repente, um estrondo, seguido de um enorme grito e um intenso choro: o António caíra da cama! O Niall levantou-se e, meio sonâmbulo, dirigiu-se ao quarto dos rapazes, levantou o António, deitou-o novamente e deu-lhe um beijo carinhoso. Foi nesse momento que sentiu atrás de si uns passinhos rápidos. Voltou-se, e qual não foi o seu espanto ao ver a Sara, com a boca bem aberta no seu costumado "Ohhhhhh!" Apressada, a Sara esticou-se toda para chegar à cara do António e encostou a sua face à do irmão. Depois, com a mesma ligeireza com que chegara e sem sequer olhar para o Niall, regressou ao seu quarto e enfiou-se na cama. O Niall saiu do quarto dos rapazes e dirigiu-se ao das meninas, para tratar da Sara que, imaginava, estaria bem acordada e a precisar de consolo. Qual quê! A Sara já dormia profundamente...

 

Pensei que consolar um filho a meio da noite fosse privilégio dos pais e das mães. Afinal também é privilégio dos irmãos, e dos irmãos mais novos! Todos somos chamados a ser instrumento de consolação, a ser pastor dos irmãos, imitando o Senhor.  Bem disse o profeta:

 

"Consolai, consolai o meu povo! Assim diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém! Como um pastor, Deus apascenta o seu rebanho; com o braço o reúne; leva ao colo os cordeirinhos e conduz as ovelhas que amamentam." (Is 40, 1-2.11)

 

E como nos mostra a Sara, a idade não é desculpa! Estejamos vigilantes mesmo durante a noite...

 

 

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Tu queres, Jesus? Eu também quero

por Teresa Power, em 12.06.14

O António é uma criança doce, terna e bela, por dentro e por fora. Mas o António não tem sido assim muito fácil de "criar"!

- António, queres maçã ou banana para sobremesa?

- Quero quivi.

- Não há quivi.

- Mas eu quero quivi!

- António, vou repetir: queres maçã ou banana?

- Já disse que quero quiviiiiiiiiiiiiiiii!

 

- António, o pai trouxe-te uma bola.

- Eu queria era um balão!

- Não estás contente com a bola?

- Eu queria era um balão!

 

- Mãe, quero ir à praia.

- Eu também, mas está a chover, António.

- Quero ir à praia e quero ir agora!

- Está a chover, António!

- Já disse que quero ir à praaaaaaaaaaaia!

 

Já aqui falei das birras do António, pois são bastante frequentes. Às vezes, perco a paciência, e o resultado é um grito. Outras vezes, contudo, fico simplesmente a pensar...

É que o António é mesmo uma parábola viva daquilo que nós, adultos somos diante de Deus!

O Senhor oferece-nos um emprego - mas nós queríamos mesmo era o outro!

O Senhor presenteia-nos com um filho diferente - mas o que nós queríamos era um filho "normal"!

O Senhor oferece-nos uma casinha na aldeia - mas o bom seria viver num apartamento na cidade!

O Senhor dá-nos dinheiro suficiente para alimentarmos os filhos - mas o que nós queríamos era dinheiro para férias!

E a lista seria interminável... Claro que podemos sempre argumentar: não é Deus que nos envia as doenças, ou que nos faz perder o emprego! Sabemo-lo bem, e temos razão, porque Jesus assim no-lo assegurou. Mas também podemos olhar para a vida de outra maneira, e aceitar tudo, tudo, das suas mãos, como se cada acontecimento da vida, bom e mau - excepto o pecado - fosse um presente seu! É uma proposta de vida... Assim, e ao contrário do António, estaremos sempre felizes, quer tenhamos quivi, quer tenhamos maçã, quer chova, quer faça sol!

 

Chiara Badano teria quase a minha idade, pois nasceu em 1971, e eu nasci em 1972. Contudo, Chiara morreu aos dezoito anos, e já foi beatificada pela Igreja, numa bela cerimónia que contou com a presença de 25 mil jovens. Chiara adoeceu com cancro no auge da sua juventude. A mãe recorda-se bem do dia em que Chiara chegou a casa, depois dos primeiros tratamentos. Sem dizer palavra, fechou-se no quarto, e aí permaneceu 25 minutos. Foi a luta mais difícil da sua vida - a luta entre a sua vontade e a vontade de Deus. 25 minutos que deram a vitória a Deus... Chiara saiu do quarto a sorrir. Nunca mais se queixou da doença, e morreu feliz, com uma felicidade de fazer inveja ao maior milionário da Terra. Chiara tinha uma oração que repetia a toda a hora, diante de toda e qualquer circunstância da vida:

 

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero."

 

Talvez o segredo da felicidade seja mesmo este...

 

 

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Baloiço

por Teresa Power, em 26.04.14

No jardim, a gritaria aumentava de volume. Às vezes pergunto-me o que é que as pessoas pensarão ao passar na rua e ouvir os gritos que somos capazes de dar aqui, várias vezes por dia... Por enquanto, ainda ninguém decidiu chamar a Protecção de Menores!

- Francisco, vai ver o que se passa com os teus irmãos que eu estou ocupada - gritei eu também, procurando fazer-me ouvir através dos auscultadores que o Francisco tinha na cabeça. Ele correu lá para fora e regressou para me chamar:

- Vem depressa, não consigo separá-los!

Quando espreitei pela porta da cozinha, decidi pegar na máquina fotográfica para guardar este momento e poder partilhá-lo convosco. Olhem só o que eu vi:

 

Já me perguntaram por que razão não comprei dois baloiços em vez de um. A resposta está aqui: para que os meus filhos bulhem entre si pelo baloiço! E depois de gritarem, de se baterem e de darem pontapés, descubram outra forma de resolver o problema. Quero que eles experimentem várias formas de resolução de conflitos e cheguem à conclusão que há espaço e tempo para todos, se todos forem generosos.

E quero que eles aprendam tudo isto em família, onde amam e são amados; e que aprendam tudo isto com um, dois, três, quatro e cinco anos, enquanto ainda não deixaram passar nenhuma oportunidade de fazer amigos. Esta é, na verdade, uma das maiores vantagens em se ter irmãos!

Também se aprende a resolver conflitos no infantário, mas no infantário falta o amor incondicional e "resistente a altas temperaturas" que só a família estruturada possui; também se aprende a resolver conflitos passados os anos da primeira infância, mas para muitos, já é tarde demais e já se perderam oportunidades preciosas para se ser feliz. Uma família mais ou menos numerosa é a melhor escola de socialização que conheço! É possível educar bem um filho único? Claro que sim - conheço filhos únicos fantásticos; mas é preciso que os seus pais se esforcem mais! Os pais de uma família numerosa não precisam de ser tão bons, pois a tarefa da educação passa também pelos irmãos...

 

Logo no início da Bíblia, no Livro do Génesis, encontramos um dos primeiros conflitos em família. Aconteceu com Abraão e Lot, tio e sobrinho:

 

"A terra não era bastante grande para nela se estabelecerem os dois, porque os bens de ambos eram avultados. Houve questões entre os pastores dos rebanhos de Abraão e os pastores dos rebanhos de Lot. Abraão disse a Lot: "Peço-te que entre nós e os nossos pastores não haja conflitos, pois somos irmãos. Aí tens essa região toda diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda." (Gen 13, 6-9)

 

Quanta magnanimidade, a de Abraão! Cheio de amor, com a generosidade que o caracterizava, Abraão deu a Lot a escolha total dos pastos. E Lot escolheu os mais férteis! Mas foi Abraão o abençoado e o pai de muitas gerações.

Aprender a resolver conflitos na primeira infância é uma verdadeira fonte de bênçãos e uma lição que acompanhará os nossos filhos a vida inteira.

 

A Lúcia e o António resolveram o seu conflito e decidiram andar no baloiço à vez. Foi então que a Sara apareceu e também quis andar. A Lúcia e o António perceberam que tinham pela frente uma batalha perdida. Largando o baloiço, foram jogar à bola; e a Sara, a raínha, lá ficou a baloiçar...

 

 

 

 

 

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publicado às 08:29

Crescer

por Teresa Power, em 02.04.14

1 de abril. Sentados à mesa de jantar, conversamos e rimos alegremente. Os mais pequenos partilham anedotas e inventam mentiras, porque afinal o 1 de abril é o dia das mentiras. De repente, o António desata a chorar.

- Que se passa, António? Estavas tão contente! O que aconteceu agora?

- Todos sabem dizer mentiras menos eeeeeeuu! Eu não sei dizer mentiiiiiiiiras!

E diante de tão grande problema, o António soluça a bom soluçar!

 

A birra que ontem o António fez à mesa de jantar foi uma excepção a uma regra muito, muito recente: é que há quase uma semana que o António não faz birras! Um record digno do Guiness Book, como concordarão todos os que conhecem as birras do António.

Depois de o ajudar a secar as lágrimas e, já agora, a inventar uma pequena mentira para contar aos irmãos, decidi elogiá-lo diante de todos:

- Já viram, filhos? O António porta-se agora sempre tão bem! Por isso tem oferecido tantas flores a Jesus. Que maravilha!

- A mamã ensinou-me - explicou o António, escondendo a cara na minha camisola, cheio de vergonha - e eu aprendi! Já tenho quatro anos...

 

No belíssimo capítulo 13 da sua Primeira Carta aos Coríntios, S. Paulo diz assim:

 

"Quando eu era criança, falava como criança, raciocinava como criança, pensava como criança; mas quando me tornei homem, abandonei as coisas de criança." (1Cor 13, 11)

 

Uma afirmação tão óbvia, e no entanto... Quantas vezes me comporto como uma criança birrenta com a minha família ou até no meu trabalho? Quantas vezes causo problemas em casa com atitudes semelhantes às do António?

Há uns anos, discuti com o Niall à mesa, porque o arroz que ele fizera tinha demasiada água. Ele respondeu-me que o meu era demasiado seco, e eu resmunguei qualquer coisa de volta. E assim continuámos durante um bom bocado. Enquanto discutíamos, os nossos filhos olhavam uns para os outros, perplexos. Por fim, desataram a rir.

- Querem que nós decidamos quem faz melhor o arroz? - Perguntou o Francisco, divertido.

Olhámos um para o outro e apercebemo-nos do ridículo da situação. Decidimos rir também. Ainda hoje, quando nos vêem discutir, o Francisco e a Clarinha aproximam-se sorrateiramente e dizem num tom provocador:

- É por causa do arroz?

 

Crescer é deixar para trás as birras infantis. Os nossos primeiros anos de casados estavam recheados deste tipo de discussões, altamente desgastantes e perfeitamente ridículas.  Hoje rimo-nos a bom rir daquilo que há alguns anos nos enervava tanto. E perguntamo-nos onde encontrávamos nós o tempo e a energia para discutir assim! Crescemos. Como o António. Mas como ele, ainda temos muito para crescer!

Naquela mesma carta, S. Paulo conta-nos o segredo para podermos vencer as nossas birras e crescer até à estatura de filhos de Deus:

 

 "O amor é paciente, o amor é bondoso, o amor não é invejoso, não é orgulhoso, não se envaidece, não é descortês, não é interesseiro, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor. Mas a maior delas é o amor." (1Cor 13, 4-7.13)

 

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Desculpa!

por Teresa Power, em 22.03.14

- Desculpa, António. A mãe portou-se mal.

- Ai portou?

- Sim. Tu portaste-te mal primeiro, mas eu exagerei. Não devia ter gritado tanto, porque te assustei. E isso é muito feio, assustar uma criança. E também te bati com muita força no rabo. Fiquei com a mão a doer!

- Ai ficaste? E já passou?

- Já, já passou. E a ti?

- A mim também já passou. Eu portei-me muito mal!

- Sim, às vezes todos nos portamos mal. Portámos os dois!

- Então os pais também se portam mal?

- Pois claro que sim. Desculpa.

- Está bem. Desculpa tu também!

- E se fossemos os dois pedir desculpa a Jesus?

- Como?

- Vamos ali ao Canto de Oração. Anda! Ajoelhamos e dizemos: "Perdoa, Jesus, porque nos portámos muito mal. Ajuda-nos a sermos melhores!"

 

O Papa Francisco disse numa homilia recente que as famílias precisam de três palavras para serem felizes:

 

"Com licença, obrigado, desculpa!" (26/10/13)

 

E S. Paulo recomenda aos cristãos de Éfeso:

 

"Que o sol não se ponha sobre a vossa ira." Ef 4, 26)

 

Recordo-me de muitas zangas na nossa família, de muitos excessos de gritos, de muitos amuos e de muitas palavras más. Mas não me recordo de algum dia o sol se ter posto sobre a nossa ira.

Claro que nem sempre o perdão se traduz de imediato em alegria. Algumas feridas custam mais a sarar, e é preciso muita paciência connosco e com os outros para que a dor acalme. Mas uma vez dado e recebido, o perdão começa a abrir o seu caminho de paz no casal e na família.

A nossa oração familiar, antes do dia terminar, não começa sem que todos se sintam perdoados. Cada vez somos mais exigentes neste ponto, tanto entre nós, casal, como entre os nossos filhos. De outra forma, como podemos rezar o Pai-Nosso? É preciso pedir perdão e perdoar, os pais entre si, os irmãos entre si, os pais aos filhos e os filhos aos pais, para podermos experimentar o perdão divino. Só quem se sabe perdoado é capaz de amar!

 

 

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Lanterna

por Teresa Power, em 29.12.13

Um dos objectos mais cobiçados cá em casa é a lanterna que o Niall tem guardada na mesa-de-cabeceira, para utilizar quando, durante a noite, alguma criança acorda. Com três filhos em cada quarto, não podemos acender as luzes de cada vez que temos de encontrar, a meio da noite, uma chupeta perdida ou levar alguém a fazer chichi, e daí a lanterna bem guardada na mesa-de-cabeceira. Bem guardada não é a palavra exacta, pois a maior parte das vezes, a lanterna anda desaparecida, para finalmente ser encontrada no meio dos brinquedos dos mais novos.

 

Assim, quando pensámos nos presentes de Natal, a lanterna estava no topo da lista. Nos sapatinhos do António, do David e da Lúcia, ao lado da bola e dos carrinhos da HotWheels, ao lado das fraldas e da chupeta do Nenuco, estava uma pequena lanterna.

 

Durante todo o dia de Natal, o António brincou com a sua lanterna. E tanto brincou, que a perdeu. A torrente de lágrimas dos seus olhos e o som terrível dos seus gritos obrigou toda a família a correr a casa inteira à procura da famosa lanterna. Mas foi preciso o David chutar a sua bola de futebol nova para cima do armário do quarto (a chuva lá fora faz com que se jogue futebol cá dentro...) para a lanterna aparecer. Como é que a lanterna foi parar em cima do armário do quarto, não me perguntem, nem perguntem ao António, porque segundo consta, ele também não sabe!

 

No dia seguinte, o António continuou a brincar com a sua lanterna. Mas quando chegou a hora de dormir, nova torrente de lágrimas: desta vez, a lanterna estava partida! Um dia de brincadeira, e já não dá luz! Seria das pilhas? Não: o António tinha muita curiosidade em conhecer os mecanismos ocultos da lanterna, e decidira desmontá-la...

- Agora arranja, papá! - Pediu ele, ou melhor, ordenou, estendendo os pedaços de lanterna ao Niall. E o Niall, desejoso de estancar as lágrimas e os berros, lá juntou todas as peças o melhor que pôde.

Parece que agora a lanterna funciona só quando lhe dá na "cabeça". Quanto tempo durará?

 

 

Às voltas com a lanterna do António, fiquei a pensar nos presentes que Deus nos dá. Quantos dons Ele coloca nas nossas mãos! Alguns chegam de surpresa, outros são ardentemente desejados, como o António desejou a lanterna.

Todos os dias, Deus presenteia-nos com 24 horas novinhas em folha, novos relacionamentos, oportunidades no trabalho, ocasiões para amarmos e crescermos em família, talentos pessoais para O servirmos nos irmãos, e até dificuldades e problemas para nos tornarmos mais fortes e mais corajosos. E que fazemos nós com tanto dom?

Desperdiçamos o tempo, estragamos as relações, descuidamos o casamento, resmungamos dos problemas, atiramos com os nossos talentos para cima de um armário poeirento...

Como o António com a sua lanterna, tratamos os presentes de Deus com muito pouco cuidado. Às vezes perdemo-los, outras vezes escondemo-los, outras ainda, quebramo-los em pedaços.

E depois?

Depois, pegamos nos cacos e vamos ter com Deus, para que Ele os conserte...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:11



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