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"Santo subito"

por Teresa Power, em 20.04.16

Quatro e meia da tarde. À porta do Colégio, aguardo que os meus filhos saiam das salas de aula e entrem no carro. O António e a Sara, que frequentam a pré-escola, já estão a meu lado, de mãos dadas comigo. Como sempre, a Lúcia é a última a chegar. Segundo me explicou a Clarinha - responsável por recolher os irmãos dispersos... - a Lúcia esquece-se sistematicamente de se dirigir para o portão da escola no fim do dia, tão ocupada está a brincar com as suas amigas. Assim, hoje, antes de abraçar a minha "ovelha perdida", sou brindada com uma interessante conversa com uma sua amiga, também ela à espera do pai, ao portão da escola:

- És a mãe da Lúcia?

- Sou sim!

- Ah, és tão velhinha!

 

A amiga da Lúcia originou boas gargalhadas lá em casa, sentados à mesa, à hora de jantar.

- Mamã, não és nada velhinha - Defendia-me o David, sempre muito cuidadoso com os outros - A Leonor disse isso por causa dos teus cabelos brancos. Sabes, tens alguns cabelos brancos!

Eu sei, claro. Nunca me maquilhei nem nunca pintei o cabelo (não por qualquer razão específica, descansem, apenas por feitio), por isso é natural que ele esteja mais branco do que o da maioria das mamãs.

- E se calhar és mais velha do que a mãe dela - Atalhava o António - Na minha escola, as mamãs costumam ser mais novas do que tu!

Isso eu também sei: há quinze anos que vou buscar crianças à mesma pré-escola, dia após dia, ano após ano. Durante estes quinze anos, já vi passar pela pré-escola muitas gerações de pais, e de todos eles, apenas eu continuo, teimosa, fiel, no mesmo sítio, como uma aluna repetente. É o que faz ser mãe de uma família numerosa...

Mas o comentário da Leonor fez-me pensar neste grande dom que Deus nos faz ao oferecer-nos o tempo.

A vida na Terra passa muito depressa. Um ano, vinte anos, cem anos - que é isso, comparado com a eternidade? A cada um de nós é-nos concedido apenas algum tempo, sempre muito curto, para prepararmos a nossa eternidade. A Jacinta de Fátima tornou-se santa em dez curtos anos de vida, e Chiara Badano, em dezoito... Outros santos precisaram de muitos mais anos, convertendo o seu coração ao Senhor depois de uma juventude desbaratada, como Agostinho e Francisco de Assis, ou até num último momento, como o Bom Ladrão crucificado ao lado de Jesus. Penso ainda nos mártires dos nossos dias, prontos para celebrar as Bodas do Cordeiro a qualquer idade, de um momento para o outro, entrando solenemente no céu pela Porta Santa do Sangue de Jesus... Há santos que o Senhor leva para Casa assim que conquistam a santidade, como Domingos Sávio ou Pier Giorgio Frassatti; e santos que o Senhor deixa na Terra por longo tempo, a fim de cumprirem a sua missão, como a Madre Teresa de Calcutá ou a Irmã Lúcia. Alguns santos partem para a eternidade deixando uma obra completa atrás de si, como Chiara Lubich e João Paulo II; outros partem de coração apertado, porque sabem que vão fazer muita falta a quem fica: Joana Molla, Chiara Petrillo, Zélia Martin - mães de família que, pela sua morte prematura, deixam crianças pequeninas e maridos em sofrimento. Mas diante do Senhor, que nos julga somente pelo amor, também a sua obra foi completa. Oh, se foi!

Escreveu S. Paulo:

 

"Para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós.(Fl 1, 21-24)

 

Também eu vivo nesta tensão entre a vontade imensa de chegar a Casa o quanto antes - tenho grandes expetativas em relação ao Céu! - e a vontade imensa de cumprir o meu dever aqui na Terra, junto da minha família e de todos os que ainda precisam de mim, completando a obra que o Senhor me entregou. Talvez eu não chegue ao fim do dia de hoje... Ou talvez eu ainda esteja apenas a metade da minha vida na Terra. Só Deus sabe. Que triste seria se, no momento da morte, não estivesse preparada, vestida com o traje nupcial! É urgente ser santo, aqui e agora, já. "Santo Subito", como diziam os cartazes no funeral de S. João Paulo II...

"Ah, és tão velhinha!" Sim, Leonor, já passaram quarenta e três anos desde que me foi oferecido o dom da vida. Quando se é pequenino como tu, quarenta e três anos é muito, muito tempo... Mas ainda não foi tempo suficiente para me converter e me santificar, acreditas? Por isso, hoje, do alto dos meus cabelos brancos, quero agradecer ao Senhor cada nova manhã, cada nova graça, neste caminho tão curto que separa o meu nascimento na Terra do meu nascimento no Céu... Ámen!

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Até ao céu!

por Teresa Power, em 02.03.16

- Meninos, tenho uma notícia para vos dar.

- Sim? Qual é?

- É sobre a vovó-mamã? - Os meus filhos tratam a minha avó, não por bisavó, mas por vovó-mamã, talvez por escutarem a avó a tratá-la por mãe.

- Sim, é sobre a vovó-mamã...

- Ela já está boa? Podemos ir visitá-la?

- Não vês que ela já não vai ficar boa, António? A vovó-mamã está quase a morrer, não é, mãe?

- A vovó-mamã já está com Jesus... Era isso que eu vos queria dizer.

- Já morreu? - O David quer ter a certeza.

- Sim, já morreu. Já está no céu!

- Então já está boa! Viva! Ah, deve ser tão bom estar no céu! - A Lúcia não esconde a sua alegria. Ela sabe o quanto a bisavó sofria nos últimos anos da sua vida, e também sabe, com uma certeza infantil, inocente e pura, que o céu é a maior felicidade que podemos experimentar.

- Quem me dera estar no céu agora, a brincar! Achas que a vovó-mamã já viu o Tomás?

- E vai poder pegar nele ao colo! Que sorte! Ena...

- E vai ver Jesus! E Nossa Senhora! Ah, ela deve estar tão feliz!

A conversa depressa se centra neste mistério imenso que é o céu, e que cá em casa é frequentemente motivo de belos sonhos. Há muito que a morte deixou de nos meter medo, e falamos sempre dela como da verdadeira Porta Santa, a Porta que nos lança na Vida.

- Bem, amanhã, dia 1 de março, vamos ao funeral - Interrompo.

- Funeral? Funeral? - A Sara quer saber do que falamos nós.

- Sim, Sara. Vamos fazer a última festa à vovó-mamã. Vamos rezar por ela, na missa, e depois acompanhá-la ao cemitério. Sabes, como o Tomás... Lembras-te do túmulo do Tomás, onde ficou guardado o seu corpo? A vovó-mamã também vai ter um túmulo assim. O corpo das pessoas é demasiado pesado para subir ao céu, por isso, Deus só leva a alma, e no céu dá-lhes um corpo novinho em folha, sem doenças, sem velhice, sem dores. O corpo da terra volta para a terra, aonde pertence.

- Ah, por isso é que não vemos os corpos por aí a voar!

- Claro. Seria uma grande confusão! Deus só leva as almas, e no céu tudo se arranja.

Os meninos não têm dificuldade em entender isto. Não custa, imaginar o espírito a elevar-se alto no céu, leve como as nuvens, alegre como os pássaros, azul como o horizonte... e voar até ao Coração de Deus.

Nessa noite, no terço, recordámos a vovó-mamã, pedimos ao Senhor que a acolhesse no seu Coração e agradecemos o dom que ela foi sempre na nossa vida. No dia seguinte, fui buscar os meninos à escola logo depois do almoço, e seguimos até Aveiro, rezando o terço no carro e preparando os cânticos para o funeral.

O dia estava luminoso, sereno e belo. Na missa, todos cantámos e tocámos, porque se havia coisa que a avó gostava, era da nossa música. Atentos, os meninos seguiram a belíssima homilia do Cónego António Assunção (o sacerdote da minha infância, testemunha do meu casamento, padrinho do Francisco, o mesmo sacerdote que sepultou o Tomás...), feita especialmente para que as crianças penetrassem um pouco no imenso mistério da eternidade.

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Depois, serenos, dirigimo-nos ao cemitério. O azul do céu e o branco das lajes, o silêncio e a paz...

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- A vovó-mamã vai ficar dentro daquela cova?

- Não, António. Já te esqueceste? É só o corpo que fica ali, até se desfazer em terra, em pó... Essa terra vai alimentar as plantas, fazer crescer as árvores, fazer brotar as flores, e o ciclo da vida continua. Entretanto, a alma da vovó-mamã já não está aqui, já está no céu, e Deus já lhe deu um corpo novo, sem rugas, sem fome, sem sede, sem doença, sem morte.

- Ah...

É preciso que os meninos vejam o caixão, é preciso que vejam a cova, a terra, a pedra fria. É preciso que vejam e que não desviem o olhar, e que não se distraiam com fábulas, e que não esqueçam... O mistério da morte é o mistério da vida. É preciso perder o medo à morte para perder o medo à vida.

Um a um, deitam uma última flor sobre a urna, e logo os coveiros a cobrem de terra.

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Diante daquela urna imensa, vieram-me ao pensamento memórias de um tempo antigo... A minha infância, a minha juventude, os meus primeiros anos de casada, e a minha avó sempre presente, acompanhando cada alegria e cada dor com a sua ternura infinita e uma capacidade imensa de se esquecer de si. Recordei-me de cada cheiro e de cada sabor das refeições deliciosas com que sempre nos recebia, nas longas férias que passávamos juntos; e das camisolinhas de lã tricotadas com todo o carinho do mundo, primeiro para nós, as netas, depois para cada um dos bisnetos que iam chegando... Os anos passaram, e pouco a pouco, a minha avó foi perdendo a memória, a capacidade de se deslocar sozinha, as forças. Mas nunca perdeu o essencial: o seu imenso amor, o seu imenso respeito e a sua imensa gratidão por quem dela cuidava. A todos, mesmo sem os reconhecer, respondia com um "obrigada" educado e bem disposto. E nas suas mãos, as contas do terço iam passando lentamente...

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Diante daquela cova e daquela terra, lamentei que os meus filhos não tenham conhecido a minha avó quando ela era nova e cheia de energia. Depois apercebi-me que a geração dos filhos dos meus filhos nem sequer recordará o seu nome. Que mistério! Como diz o salmista:

 

"Os dias dos seres humanos são como a erva;

brota como a flor do campo,

mas, quando sopra o vento sobre ela,

deixa de existir e não se conhece mais o seu lugar."

(Sl 102/103, 15-16)

 

Mas o mesmo salmo acrescenta:

 

"Mas o amor do Senhor é eterno para os que o temem,

para os que guardam a sua aliança

e se lembram de cumprir os seus preceitos."

(Sl 102/103, 17-18)

 

Diante de Deus, cada um de nós é sempre, sempre Presente. Os homens podem esquecer, mas o Senhor nunca esquece, porque nunca, por um instante sequer, existimos longe do seu olhar. Uma imensa alegria invade o meu coração, quando penso neste grande mistério. Sei que nenhum gesto de amor da minha avozinha ficará sem recompensa, mesmo aqueles gestos - especialmente aqueles gestos - que nunca lhe consegui agradecer.  

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 No eterno Presente que é o Céu, só o amor é recompensado... E como diz S. João, falando de todos os cristãos que o são verdadeiramente, falando - também - da minha avó:

 

"Sabemos que passámos da morte à Vida porque amamos os irmãos." (1Jo 3, 14)

 

Ámen!

 

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Parabéns, Tomás!

por Teresa Power, em 16.12.15

Terias hoje onze anos. Como será fazer anos no céu? Haverá uma festa especial? O teu anjo da guarda saltará de alegria à tua volta? Jesus tomar-te-á nos braços com carinho a duplicar? Será que o bolo de anos de Maria é melhor que o meu?... São perguntas assim que os teus irmãos me fazem neste dia, quando acendemos a tua vela e te cantamos os parabéns, à mesa do jantar.

E no entanto, nada do que possamos responder se assemelha sequer à festa que tu vives... S. Paulo, que teve visões e êxtases sem fim, e que subiu, segundo contou, ao sétimo céu, reconhecia contudo que o céu verdadeiro, aquele que só conhece quem já não vive na Terra, esse céu é infinitamente melhor que a nossa mais bela imaginação. Escreveu ele:

 

"Nem olho viu, nem ouvido ouviu, as maravilhas que Deus tem preparadas para aqueles que ama..." (1Cor 2, 9)

 

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Eu sei que, se pudesses escolher, não quererias regressar a esta Terra de sombras. Eu sei que, aí onde estás, a tua capacidade de amar se aprofunda a cada instante de eternidade que passa, e hoje me amas mais do que qualquer um dos teus irmãos. Eu sei, com a sabedoria que só a fé pode dar, que és feliz, plenamente feliz, e que a tua alegria é completa. Há muito que deixei de me demorar em pensamentos estéreis, desejando uma realidade diferente da que é nossa... Hoje, quando vejo no colégio os meninos que deveriam ser os teus colegas de turma - sim, eu sei bem quem eles são, porque nunca os perdi de vista... - já não me deixo tomar pela nostalgia do que podia ter sido, mas não é. Tudo isso, querido filho, passou, porque Deus me concedeu a graça de querer apenas o que Ele quer. Deus, Tomás, só Deus nos basta...

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Obrigada, meu Deus, porque criaste o Tomás!

 

 

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Parabéns, Olívia!

por Teresa Power, em 12.11.15

Ainda ontem escrevia que não iria haver mais nenhum post até segunda-feira, e já aqui estou a quebrar a minha palavra... Mas é por uma boa causa. Certamente já adivinharam qual! Sim, é verdade, a pequena Lúcia, a bebé da nossa querida Olívia, foi ontem para casa! Depois de muitos e complexos exames, a neuropediatra concluiu que a menina não tinha quaisquer sequelas resultantes da paragem cardio-respiratória durante o parto. O susto passou, com a graça de Deus e a oração poderosa de todos quantos se uniram a nós! Aguardamos agora com alegria que toda a família recupere emocional e fisicamente de tão dura batalha, e possamos ter notícias fresquinhas no belíssimo blogue da Família Batista. Tenho a certeza de que a Olívia terá muitas coisas para contar! Que dizem deste sorriso maroto?

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 Enquanto recebia as notícias de perfeita felicidade da Olívia, pus-me a pensar no que significa isto de estarmos vivos. Talvez não sejam muitos os momentos em que nos damos conta da preciosidade da vida humana, da grandeza do mistério que nos envolve, e simultaneamente, da fragilidade de que somos feitos... O Livro do Génesis oferece-nos esta meditação logo no seu início:

 

"Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo." (Gn 2, 7)

 

Somos pó da terra e pó das estrelas, descendentes dos astros e dos mares, habitantes da lama e dos abismos; mas somos também espírito, sopro, Vida. Que mistério! E Deus contém-nos na concha da sua mão...

De revelação em revelação, acordaremos um dia para a notícia mais bela de todas: finalmente, definitivamente, estamos curados! Nesse dia sem ocaso, o Senhor pegará em nós ao colo e, como fez a Olívia ontem à noite à sua bebé, levar-nos-á para Casa. Se os reencontros e as celebrações da Terra podem expressar tamanha felicidade, imaginem as do Céu...

 

 

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O passarinho e a porta estreita

por Teresa Power, em 04.11.15

Solenidade de Todos os Santos. A missa é verdadeiramente festiva e solene, com direito a incenso e a procissão de entrada. Ao microfone, canto a plenos pulmões a alegria dos santos no céu. 

É então que me apercebo de um leve bater de asas por sobre a minha cabeça: levantando os olhos, vejo um pequeno passarinho, muito assustado, esvoaçando sem parar. Como terá ele entrado na igreja? Certamente terá encontrado a porta principal - larga, espaçosa - aberta... Mas agora a porta já está fechada, a missa vai começar, e a pobre avezinha não tem como sair para o céu azul.

Durante toda a Eucaristia, o passarinho esvoaça no santuário, triste prisioneiro entre quatro paredes de pedra. Os vitrais podem ser belíssimos, a música animada, mas ele não está minimamente interessado: o seu único intento é encontrar a saída para a sua liberdade e o seu céu...

Finalmente, a missa termina. A porta principal do santuário continua fechada, mas as portas laterais, mais estreitas, abrem-se para as pessoas passarem, e no meio da confusão, deixo de ver o passarinho. Certamente aproveitou o abrir da porta para também ele sair... Afinal, mesmo aflito, conseguiu passar pela porta estreita que conduz à liberdade, tão diferente da porta larga e espaçosa que o fez prisioneiro, uma hora antes. Já diz o Evangelho:

 

 "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Mas estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida, e como são poucos os que o encontram!" (Mt 7, 13-14)

 

Durante a eucaristia, dei comigo várias vezes a meditar neste mistério. Também eu me sinto muitas e muitas vezes como um passarinho prisioneiro numa gaiola dourada. Que me interessam todas as coisas da Terra? Que me importam todas as honras dos homens? A única coisa que realmente me atrai é o Céu... Disse Santo Agostinho: "Criaste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós." Como é verdade!

Ah, possa eu sempre encontrar a porta estreita que me leva a Deus, como os santos que neste dia celebrávamos, e que vivem agora tão felizes, tão felizes, tão imensamente felizes...

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 Amen!

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Comunhão dos santos

por Teresa Power, em 03.11.15

A grande festa de Todos os Santos é para nós também a grande festa do Tomás. Na verdade, o Tomás é santo e festeja no céu a alegria dos Filhos de Deus. Que grande honra para nós, termos um filho que já alcançou a felicidade eterna! Tão pequenino, e já na posse do Reino... É um mistério que nos enche de espanto.

O túmulo do Tomás não está em Mogofores, mas na Gafanha da Encarnação, onde nós vivíamos na altura. De vez em quando, o Niall visita-o à hora de almoço, pois a Gafanha fica entre Aveiro e a praia, e a brisa suave por entre os pinheiros é um ótimo antídoto para o stress diário do Niall no seu local de trabalho. Mas eu raramente tenho oportunidade de ir ao cemitério.

Num dia do verão passado, a caminho da praia, visitei com os meninos o túmulo do Tomás. Não havia ninguém, cheirava a maresia e nós estávamos muito felizes. Esta fotografia foi tirada então:

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Nestes dias santos não sinto necessidade de visitar o túmulo do Tomás. A festa de Todos os Santos faz-me mergulhar de tal forma na felicidade do Céu, na alegria dos santos, na festa dançante do Reino, que me custa olhar para a pedra fria e imaginar o caixãozinho branco que vi descer numa grande cova, naquele dia longínquo de 2006. Geralmente, é a minha mãe que visita o túmulo nesta altura para o adornar de flores frescas e para colocar nele uma velinha.

Este ano, como já tem acontecido nos últimos anos, a minha mãe chegou ao túmulo e viu-o perfeitamente limpo e arranjado, com flores lindíssimas. Telefonou-me e imediato. Quem será que, ano após ano, toma a seu cargo esta doce e nobre tarefa, sem ninguém lhe pedir? Antigos vizinhos? Velhos amigos? Não sabemos. Mas já hoje pedi ao Senhor a sua bênção sobre esta pessoa generosa, que no silêncio nos dá tão doce alegria. Ela vive a bem-aventurança do Evangelho:

 

"Quando deres esmola, não saiba a tua mão direita o que fez a esquerda, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e o teu Pai, que vê o que está escondido, não te deixará sem recompensa." (Mt 6, 3-4)

 

Quanto a mim, festejei a vida e a santidade do meu filho da forma habitual: durante a Eucaristia, quando o sacerdote iniciou a grande oração eucarística, eu soube com toda a certeza que o Tomás estava ali, diante do altar, com o seu olhar azul e o seu sorriso límpido, louvando e adorando comigo Jesus-Eucaristia. E quando o senhor padre rezou: "com todos os anjos e santos, cantamos a uma só voz..." eu cantei a uma só voz com ele. É o maravilhoso mistério da comunhão dos santos, que faz de todos nós, vivos e defuntos, uma única família. Nós pensamos que o céu fica lá longe, e ele está tão próximo... Não foi Jesus quem o disse?

 

"O Reino de Deus está próximo!" (Mc 1, 15)

 

Scott-Hahn, autor americano que vivamente recomendo, interpreta assim esta frase, no seu magnífico livro The Lamb's Supper: "Sim, o Reino de Deus está próximo: tão próximo quanto a igreja paroquial mais perto de ti." E continua: "Nós vamos ao céu - não só quando morremos, mas sempre que vamos à missa."

Tomás, que todos os domingos te juntas a nós diante do altar, reza pela tua família! Ámen.

 

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publicado às 06:00

O caminho para o paraíso

por Teresa Power, em 06.08.15

A Serra da Peneda-Gerês é um verdadeiro paraíso, mas um paraíso de difícil acesso. Senão vejamos:

Para chegarmos a casa, precisávamos de subir uma calçada estreita, onde o carro, para passar, ficava a cerca de meio milímetro da parede e outro meio do abismo... A pé era bem mais fácil!

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No primeiro dia em que acordámos na casinha de férias, decidimos ir tomar banho na barragem de Vilarinho das Furnas. A barragem ficava à distância exata de um terço, de carro, num percurso de montanha digno da Heidi:

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Ao chegarmos perto da barragem, vimos a água a brilhar lá em baixo, azul e tranquila, e procurámos na estrada sinais indicativos de praia fluvial. Nem um... Percorremos a estrada para cima e para baixo, para trás e para a frente, mas não conseguíamos encontrar forma de descer até àquela água tão bonita. A nossa vista da estrada era assim:

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- Se calhar não é possível descer até lá abaixo...

- Claro que é! Não vim até ao Gerês para ficar a ver paisagem. Vamos encontrar um caminho!

- Sim, dois adultos sozinhos conseguem encontrar um caminho, mas... Temos crianças pequeninas e dois cães cansadíssimos!

- De facto, não se vê ninguém dentro de água...Parece um espelho! Não há barquinhos, não há traços de creme solar... Não há lixo, não há confusão... Será que não dá mesmo para descer?

A conversa prolongava-se no carro, e nem sinais de escadas, caminhos ou pontes até à água. Quase uma hora depois, encontrámos um pequeno trilho por entre as árvores... É agora! Ajudando-nos uns aos outros, conseguimos descer... E repetimos a proeza todas as manhãs!

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O nosso esforço foi bem recompensado. Não vos parece? Uma "praia privada" deste tamanho...

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À tarde, descíamos até ao rio, que saltava de pedra em pedra lá em baixo, no vale junto da "nossa" casa. Havia uma pequena placa a indicar "Praia Fluvial", mas nunca vimos ninguém nesta "Praia". A razão não é difícil de descobrir: para a alcançar, era preciso estar disposto a fazer uma grande caminhada, sempre a descer - e no regresso, sempre a subir!

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Neste belíssimo caminho, e como em qualquer estrada que se preze, nem sequer faltava... uma rotunda :)

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 Também esta aventura tinha um final feliz:

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A regressar da barragem ou do rio, cansados e bem dispostos, recordávamos, a rir, a passagem do Evangelho:

 

"Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição,  e muitos são os que seguem por ele. Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!"

(Mt 7, 13-14)

 

Na verdade, se estas nossas praias fluviais estivessem bem sinalizadas, com acessos fáceis e bares carregados de música e cerveja, deixariam de ser paradisíacas... E nós, que somos amantes da natureza, do silêncio e da tranquilidade, não perderíamos tempo com elas! Os parques naturais só se mantêm "naturais" assim. Se queremos o paraíso, temos de estar dispostos a trilhar o caminho que poucos encontram, estreito, pedregoso, difícil, cansativo e pouco popular... Ah, mas vale bem a pena!

- Mãe, já pensaste numa coisa?

- Em quê, Clarinha?

- Se isto é tão bonito, como será o Céu?

- ...

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O abismo

por Teresa Power, em 19.05.15

Faz hoje nove anos que tu partiste para o céu, meu pequeno Tomás. Nesse dia, eu só conseguia pensar na alegria imensa que devias estar a experimentar, liberto do teu corpinho doente como uma borboleta a voar para longe do seu casulo opressor... E a certeza de que estavas bem melhor suavizou a minha dor.

No dia seguinte, na missa, fizemos-te uma festa. Não queríamos, de forma alguma, que a celebração da tua vida eterna fosse uma cerimónia triste. O teu pai e eu escolhemos, com cuidado, os teus cânticos preferidos, e tocámo-los na viola, cantando com quanta força tínhamos. Lembras-te? Cantámos cânticos pequeninos como tu, e que nos falavam do amor com que o Senhor cuida de nós:

"Eis-me aqui, sou criança que procura a mão!

Eis-me aqui, pequenino, nos teus braços!

Dá-me hoje teu amor, teu perdão, Senhor!

Guarda-me pequenino, para Ti!"

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Às vezes, mães que perdem os seus filhos ou que os vêem muito doentes perguntam-me se é possível voltar a ser feliz. É, Tomás, não é verdade? Eu pensei que não, e durante algum tempo convenci-me que não, mas é. O tempo cura tudo? Não, o tempo não cura nada: o que cura é o amor. A tua morte escavou em mim um abismo imenso, e eu deixei que o amor o preenchesse. A felicidade que agora experimento é diferente da que conhecia antes da tua partida, porque é mais profunda, como mais profundo é o abismo da minha vida. Agora, Tomás, não sou feliz porque tenho saúde, porque tenho filhos, porque tenho trabalho, porque tenho sucesso ou por qualquer outra razão... Deixei de ter medo de perder tudo isso, sabes? Que libertação, quando perdemos o medo! Agora, Tomás, sou feliz porque amo e sou amada, infinitamente amada por Deus. Como tu!

Afinal, o que é o Céu senão este tsunami de amor que, de repente, invade o imenso abismo que somos?...

 

"Se subir aos céus, Tu lá estás;

se descer ao abismo, ali Te encontras também.

Se voar nas asas da aurora

ou for morar nos confins do mar,

mesmo aí a tua mão há-de guiar-me

e a tua direita sustentar-me-á.

Se disser: «Talvez as trevas me possam esconder,

ou a luz se transforme em noite à minha volta»,

nem as trevas me ocultariam de Ti

e a noite seria, para Ti, brilhante como o dia..."

(Sl 139/138)

 

 

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Tomás, reza por nós!

 

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Instantes de eternidade

por Teresa Power, em 11.05.15

 - Meninos, preparem-se, amanhã vamos à praia!

- Viva!

- Urra!

- Uau!

- Vamos!

- E se chover?

- Se chover vamos na mesma! Estamos sempre a adiar o primeiro dia de praia, ou porque está frio, ou porque está chuva, ou porque não temos tempo. Amanhã não há nada que nos impeça de ir à praia. Portanto, podem sonhar com o mar esta noite!

O sábado amanheceu nublado e fresco, mas a decisão estava tomada. Levámos os cães connosco, calculando que a praia estaria suficientemente deserta para lhes permitir brincar sem incomodar ninguém, e durante a meia hora de viagem que nos separa do mar rezámos o terço, como costume. Ainda não eram nove e meia da manhã e já todos saltávamos na areia, felizes e animadíssimos.

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 Premiando a nossa confiança e ousadia, o sol decidiu espreitar, e num instante aqueceu a praia. Tanto, tanto, que os meninos passaram a manhã assim:

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 E para os nossos leitores mais novos irem treinando aí em casa (ou não!), dois vídeos, de oito e de cinco segundos:

Não chegaram a três horas de praia, mas foi tempo suficiente para encher de canções, gritos de excitação, palmas, saltinhos nas ondas, gargalhadas, corridas e abraços. A alegria, a serenidade e a sensação de perfeição prolongaram-se ao longo de todo o dia, e à noite, durante a oração familiar, todos agradeceram esta prenda que o Senhor nos ofereceu.

 

Quando olho as ondas do mar recortadas no céu azul e polvilhadas de gaivotas, penso sempre na eternidade. Eu sei que a eternidade me devolverá todo o tempo de felicidade que experimentei aqui na Terra, todas as gargalhadas e as brincadeiras partilhadas com o Niall e os meus filhos; e sei que me devolverá todas as gargalhadas e as brincadeiras que não tive tempo de partilhar com o Tomás... Em Deus, no seu amor infinito e perfeito, tudo se torna também infinito e perfeito. Cada instante de pura alegria que nos é concedido ou impedido experimentar nesta vida será multiplicado e tornado a multiplicar na eternidade... Confuso? Escreveu S. Paulo:

 

"Nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem o coração do homem pressentiu o que Deus preparou para aqueles que O amam..."

(1Cor 3, 9)

 

Se na Terra podemos experimentar tamanha felicidade, como será no Céu, Senhor?...

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It's a Wonderful Life

por Teresa Power, em 28.12.14

Uma das coisas que gostamos de fazer nas férias, sobretudo com os mais velhos, é ver filmes de qualidade. Deitamos os mais novos, fazemos um chá quentinho, e ali ficamos, a lareira acesa e o ecrã da televisão a contar-nos histórias que valham a pena escutar.

Hoje, domingo da Sagrada Família, não resisto a sugerir-vos que vejam este filme natalício, a preto e branco, de Frank Capra (1946): "It's a Wonderful Life", em Portugal traduzido como "Do céu caiu uma estrela", e no Brasil "A felicidade não se compra". Vimo-lo sexta-feira à noite, e há muito tempo que não via um filme tão bonito... Vale bem a pena!

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George Bailey tem um sonho que o persegue desde a infância: dar a volta ao mundo, enriquecer, gozar a vida, sair dos muros estreitos da sua cidadezinha e do escritório pequeno do negócio da sua família. Mas a cada oportunidade que a vida lhe dá de realizar o seu sonho, a mesma vida dá-lhe também a oportunidade de renunciar a ele para fazer o que deve ser feito... George vê os amigos partir para longe e realizar aquilo que seriam também os seus sonhos de estudos e viagens, enquanto ele permanece no lugar onde jurara nunca ficar. Fá-lo por dever, e fá-lo por amor. A seu lado, vai crescendo uma família belíssima...

Quando George, num momento de desespero na véspera de Natal, se julga um fracassado, um anjo vem em seu auxílio (o Francisco e a Clarinha riram à gargalhada com o anjo). "Quem me dera nunca ter nascido!" Suspira George. O anjo leva-o então a visitar a sua comunidade como ela teria sido se George nunca tivesse nascido. George vê, como num pesadelo, a tristeza que teriam conhecido aqueles que o seu amor salvara, o seu dinheiro ajudara, a sua renúncia alegrara.

De volta à sua vida, a tempo de celebrar o Natal com a sua linda família, George é um homem novo: afinal, ele sempre fora feliz, e não o soubera! Pela primeira vez, George toma consciência de tudo o que tem, e da felicidade que espalhou à sua volta ao renunciar precisamente à sua ilusão de felicidade. Porque a verdadeira felicidade não nasce da realização dos nossos sonhos, mas do cumprimento honesto e humilde do nosso dever para com o próximo.

 

Qual o nosso maior desejo para os filhos? Hoje, a maior parte dos pais responde: "Que sejam felizes". Há algumas décadas atrás, na altura de Frank Capra, a resposta mais comum seria: "Que tenham carácter" "Que cresçam responsáveis, honestos, bons." Nessa altura, havia a consciência de que a felicidade é uma recompensa, não um fim.

 

"Muitos de nós, apesar das nossas boas intenções, enfatizam demasiado, por formas subtis, a felicidade dos nossos filhos, dando muito pouca atenção à sua responsabilidade pelas outras pessoas. Ao tornarmos as crianças menos morais, também as tornamos, ironicamente, menos felizes." (Richard Weissbourd, "Os Pais que Desejamos Ser")

 

Jesus foi tão claro, no Evangelho!

 

"Quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de Mim, há-de salvá-la." (Mt 16, 25)

 

A meta de um cristão é o céu. Para o alcançarmos, precisamos muitas vezes de renunciar àquilo que julgamos ser a nossa felicidade... Cuidar de uma família pode impedir-nos de alcançar os nossos objectivos profissionais, acolher um pai ou uma mãe idosos pode roubar-nos o tempo livre, a honestidade pode fazer-nos empobrecer, ter muitos filhos pode impedir-nos de viajar ou fazer férias. Mas então, só então, seremos verdadeiramente felizes. Porque Deus nunca Se deixa vencer em generosidade!

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PS - Se ainda não sabem do Retiro de Natal, leiam aí na coluna lateral direita! Vamos, não percam tempo...

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