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A Via Sacra, as portas e a bênção a duplicar

por Teresa Power, em 26.03.16

Ontem à noite, pela primeira vez desde que vivemos em Mogofores, a Via Sacra começou à porta da nossa casa. Ena, o entusiasmo com que preparámos tudo ao longo do dia! Haverá maior honra do que fazer parte deste Caminho da Cruz, com a nossa família, com a nossa porta santificada pelo Sangue de Cristo?

Durante a tarde, o Francisco pintou de branco o crucifixo das Famílias de Caná, aquele primeiro, feito pelos jovens no dia da Exaltação da Santa Cruz, e que costumamos venerar na nossa Via Sacra "caseira":

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 Depois de jantar, reunimos ideias e preparámos a rua em frente da nossa casa:

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E a Via Sacra começou...

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 Como é belo caminhar de noite, à luz das velas, pelas ruas da nossa terra, contemplando o ato de amor mais poderoso da História, ao ritmo dos nossos pequenos passos, ao som das nossas simples orações, às portas das nossas pobres casas... portas que Ele vai santificando com o seu Sangue!

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Neste Ano Santo da Misericórdia, e por uma coincidência que só Deus consegue fazer acontecer, a morte de Jesus na Cruz celebra-se, no tempo, no dia da sua Encarnação no seio puríssimo da Virgem Maria. Não é magnífico? 25 de março, nove meses exatos para o Natal. A solenidade da Encarnação foi transferida para depois da Páscoa, mas não podemos deixar de celebrar esta feliz coincidência! Na sua misericórdia infinita - e não tenho qualquer dúvida de que não o fez por acaso -, Deus uniu num só os dois mistérios da nossa salvação. Na verdade, a Encarnação nunca teve outro horizonte senão a Paixão, uma e outra culminando na Ressurreição triunfante amanhã, Domingo de Páscoa. Na Encarnação, Maria tornou-se Mãe de Jesus; na Paixão, tornou-se nossa Mãe. Na Encarnação, Jesus assumiu a nossa condição humana; na Paixão, redimiu-a.

S. Paulo também celebra estes dois mistérios num só, fazendo-os culminar na vitória da Ressurreição, no seu hino cristológico na Carta aos Filipenses:

 

"Cristo, que era de condição divina,

não se valeu da sua igualdade com Deus,

mas esvaziou-se a si mesmo,

tomando a condição de servo.

Aparecendo como homem,

rebaixou-se ainda mais,

tornando-se obediente até à morte,

e morte de Cruz!

Por isso Deus O exaltou

e Lhe deu o nome que está acima de todos os nomes

para que ao nome de Jesus

todos se ajoelhem nos céus, na terra e nos infernos

e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor

para glória de Deus Pai!"

(Fl 3, 6-11)

 

Se cada uma destas celebrações - a Encarnação e a Paixão - nos abre de par em par a Porta Santa do Céu, imagine-se as duas unidas! A mim, nesta noite santíssima em que, pelas ruas da minha terra, acompanhámos Jesus ao Calvário, pareceu-me que o céu inteiro se derramava em bênçãos sobre nós...

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A contemplação da Cruz

por Teresa Power, em 24.03.16

Estes dias são dias de silêncio, do grande silêncio da contemplação da Cruz. Uma contemplação amorosa, apaixonada, cheia de gratidão.

Permitam-me contudo que partilhe convosco um vídeo-testemunho. Não quero quebrar o vosso silêncio - apenas perturbá-lo um pouco... Meditar na Cruz do Senhor é também meditar na Cruz dos nossos irmãos cristãos perseguidos no mundo inteiro, especialmente na Síria; e meditar na forma como nós, cristãos ocidentais, vivemos ou não a radicalidade do Evangelho.

Este vídeo-testemunho tem a duração de quarenta e cinco minutos. Ora eu nunca tenho quarenta e cinco minutos seguidos para fazer o que quer que seja, pelo que adiei a visionamento deste vídeo até ao serão de ontem, apesar de mo ter sido enviado pela Paula Lopes, de Barcelos, há já algum tempo. Finalmente decidi vê-lo enquanto passava a ferro, depois dos mais novos estarem a dormir. Mais ou menos a meio do vídeo, desliguei o ferro e perdi a noção do que se passava à minha volta...

Aconselho-vos vivamente a encontrar quarenta e cinco minutos, nestes dias de contemplação da Cruz. Vejam até ao fim, pois a irmã Guadalupe não vai falar apenas de quem vive lá longe - longe da vista e infelizmente longe do coração - na Síria, mas de cada um de nós, cristãos, que vivemos de uma forma paradoxal: vivemos com pacatez aquilo que só se pode viver com radicalidade. Porque o Evangelho, como bem diz a irmã, é o mesmo ontem, hoje e amanhã, o mesmo na Síria e o mesmo em Portugal; e o que os nossos irmãos vivem na Síria é uma realidade bem velhinha, profetizada e realizada por Jesus:

 

"Se a Mim Me perseguiram, também vos perseguirão a vós."

(Jo 15, 20)

 

Vejam o vídeo como quem reza, como quem contempla a Cruz do Senhor, essa Cruz que só nos salva se nos ajoelharmos diante dela e nos deixarmos salpicar pelos rios de sangue que dela correm...

Amanhã, Sexta-feira Santa, tem início a Novena da Divina Misericórdia. Façam-na connosco!

 

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Coroa de espinhos

por Teresa Power, em 23.03.16

 - Sabes, mãe, uma coisa que me acontece? Não suporto filmes violentos, e à vista de sangue quase que desmaio. Mas quando é o sangue de Jesus, parece que é diferente... Não me custa contemplar!

- Sim, Clarinha, é natural... O sangue de Jesus é a nossa salvação, não é verdade?

- Comigo também acontece assim! Quando penso no sangue de Jesus sinto-me bem, e não tenho medo.

- Claro, David... Jesus deu a vida por nós, e contemplar a sua entrega na Cruz traz-nos paz, não agitação.

- Na catequese, o João e a Isabel levaram uma coroa de espinhos. Os espinhos são os pecados.

- A coroa estava linda, Lúcia!

- Coitadinho de Jesus! Com uma coroa assim na cabeça!

- E pensar que continuamos a magoar Jesus, todos os dias, com os nossos pecados...

- Achamos que são espinhos pequenos, que não valem nada, mas ai! Os espinhos magoam tanto! Mesmo os pequenos!

- Quando nos picamos num pequeno pico ficamos logo aflitos. O que o nosso pecado faz a Jesus...

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"Foi ferido por causa dos nossos pecados. O castigo que nos salva caiu sobre Ele. Pelas suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

 

 - Já ouviste a canção da Danielle Rose "Crown of Thorns"?

- Tu estás sempre a cantá-la e a tocá-la na guitarra, Clarinha! Acho que já todos ouvimos cá em casa!

- A primeira vez que a escutei fartei-me de chorar...

Deixo-vos com a canção da Danielle Rose, esta maravilhosa cantora católica norte-americana:

 

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Coelhos, ovos e a cruz de Jesus

por Teresa Power, em 18.03.16

- Mãe, tens de me ajudar a desenhar coelhos.

- Sim, Lúcia, ajudo, mas para quê?

Estamos no carro, a caminho de casa, e os meninos atropelam-se para falar e contar as novidades do seu dia de escola.

- Porque o trabalho de casa é fazer um desenho sobre a Páscoa.

- E o que é que a Páscoa tem a ver com os coelhos? Não entendo, Lúcia! - Digo, fingindo-me realmente surpreendida.

- Ora, na Páscoa há coelhinhos que põem ovos de chocolate!

- Que tolice! Tu não sabes que os coelhos são mamíferos? - Pergunta o David, abanando a cabeça em jeito de censura.

- Lúcia, a Páscoa é a maior festa dos cristãos, a festa da morte e da ressurreição de Jesus. Por que não fazes tu um desenho lindo sobre a Cruz de Jesus?

- Tenho vergonha.

- Vergonha? Mas vergonha de quê?

- Vergonha que os meus amigos se riam quando eu apresentar o desenho à turma. Eles vão todos desenhar coelhos...

- Isso é que é tolice! A cruz de Jesus é muito mais bonita - Atalha a Clarinha, divertida com a conversa. - Os teus amigos fazem coelhos e ovos porque se estão a referir à festa da Primavera, não à festa da Páscoa. Como a Páscoa se celebra na Primavera, às vezes as pessoas confundem as duas coisas.

- Ah!

- Lúcia, a vida passa muito depressa, sabes? - O David parece um pequeno padre pregador, e nós escutamo-lo com gosto - O que conta mesmo é a vida eterna. E a vida eterna demora muito, muito! Nunca acaba. Se desenhares coelhos, isso não vai valer nada para a tua vida eterna. E nessa altura nem te vais lembrar de teres passado ou não vergonha! Jesus disse qualquer coisa sobre sermos capazes de falar dele... Como é mesmo a frase, mãe?

- A frase é do Evangelho. Diz assim:

 

"Todo aquele que se declarar por Mim, diante dos homens, também Me declararei por ele diante de meu Pai que está no céu. Mas aquele que Me negar diante dos homens, também o hei de negar diante de meu Pai que está no céu." (Mt 10, 32-33)

 

Chegamos a casa. A Lúcia dá-me um grande abraço e senta-se na mesa da sala, a fazer o seu desenho enquanto eu, a seu lado, escrevo este mesmo post. Terminamos quase ao mesmo tempo.

- Lúcia, não guardes sem antes eu fazer uma digitalização, sim? Vou mostrar o teu desenho no blogue...

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Guardamos as duas o nosso trabalho. Amanhã, a Lúcia dará testemunho da Cruz do Senhor. Agora, se nos permitem, vamos brincar para o jardim!

 

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Ainda a mulher forte... E as palavras que matam

por Teresa Power, em 17.03.16

- Niall, estive a fazer uma pesquisa na net sobre a Meriam Ibrahim. O livro que me ofereceste não conta senão os detalhes que já conhecia dela, e deixou-me bastante intrigada.

- E que descobriste tu? Adivinho que encontraste a resposta que procuravas. Anda, conta lá!

- Adivinhaste bem. Descobri que a Meriam está muito desgostosa com a pressa que todos têm em escrever sobre ela. Diz que não entende como é que jornalistas e produtores de cinema querem escrever e, inclusive, fazer um filme sobre a sua história, quando ela ainda a não contou...

- Não contou?

- Não. Ela diz que 75 por cento da história ainda está escondida no seu coração, e que portanto, quem escreve a história antes dela a contar, está a escrever baseado nos 25 por cento de informação que passou nos meios de comunicação social.

- Imagino... Imagino a dor que sente!

- A traição. Perceber que falam e escrevem do que não sabem para serem os primeiros a ganhar com a história... A jornalista que escreveu o livro que tu me ofereceste soube dar a volta à questão, porque essa jornalista não narra a história de Meriam Ibrahim, mas a sua própria participação em todo o processo de libertação. Mas Meriam insiste que tem o direito a contar a sua própria história.

- Tem toda a razão!

- Ela diz que no Sudão foi condenada à morte com base em falsas informações, sem nunca ter sido ouvida; e agora, nos E.U.A., sente-se de novo como que condenada à morte, ao ver livros e filmes surgirem sobre ela - sem nunca ter sido ouvida! É quase irónico...

Ficamos um bocado em silêncio. Depois o Niall continua:

- Sabes, Teresa, tudo isto faz-me pensar na forma como as pessoas falam umas das outras. Com que facilidade julgamos os outros a partir de informação que ouvimos, que lemos por alto, que outros inventaram e espalharam...

- Sim, é um perigo enorme. Tenho para mim que os pecados de maledicência e murmuração são dos pecados mais graves que podemos cometer. E tenho sempre muito receio de cair neles!

- É fácil cair neles. Quantas vezes, no meio de uma conversa, insinuamos alguma coisa sobre alguém, por meias palavras... O nosso interlocutor, por sua vez, irá contar essa nossa impressão a outra pessoa, e talvez use palavras que não usámos... Ás vezes basta uma troca de olhares, um sorriso malicioso, um acenar com a cabeça, e pecamos gravemente.

- A Palavra de Deus é muito clara. Quantas advertências, na Bíblia, contra a maledicência e a murmuração! S. Tiago dedica um capítulo inteiro da sua carta ao assunto. Nós costumamos pensar que os primeiros cristãos eram comunidades modelo, mas a única comunidade modelo foi a casa de Jesus, Maria e José. As primeiras comunidades tinham os seus problemas, e segundo S. Tiago, a maledicência era um deles.

- Tal como as nossas comunidades paroquiais hoje em dia... Em todos os tempos! É tão fácil falar dos que se expõem um bocadinho mais, dos que têm maior visibilidade... Jesus é muito paciente, mas deve ficar muito triste.

- Escuta o que diz S. Tiago:

 

"Vede como um pequeno fogo pode incendiar uma grande floresta! Assim também a língua é fogo, é um mundo de iniquidade; entre os nossos membros, é ela que contamina todo o corpo e, inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa existência." (Tg 3, 5-6)

 

- Bem, a verdade é que nós próprios já fomos vítimas destas labaredas destruidoras... Uma pessoa acende um pequeno fósforo, e quando damos conta, o incêndio já não é controlável. Era bom se a vida tivesse, como os blogues, uma aplicação para "moderação de comentários"!

- Mas não tem. Não foi assim com Jesus também? Não foi Ele condenado à morte com base em falsos testemunhos? E traído de morte por um dos seus amigos?

- De facto, o discípulo não é maior que o Mestre... Meriam Ibrahim sobreviveu à forca, sobreviverá também a esta guerra de palavras, que tanto a procuram exaltar, como humilhar, tanto inventam para o mal, como para o bem. Vou continuar a esperar que conte a sua história, ela mesma, e nos maravilhe com o seu testemunho. Todos temos a aprender com ela.

- Aguardemos então pelo seu próprio livro!

- Olha, queres ver o vídeo que eu encontrei de uma entrevista com a Meriam? Ela é lindíssima, e as suas palavras são verdadeiramente tocantes. Explica na entrevista que a parte conhecida da sua história são apenas os últimos minutos... Diz que vai dedicar o resto da vida a ajudar cristãos perseguidos, e simplesmente a cumprir a vontade de Deus. Se Ele quiser, voltará ao Sudão. O sofrimento, diz ela, fortaleceu a sua fé em Jesus. Nunca se perguntou: "Porquê eu?" Sabe que a dor é um teste, e que Deus nunca, nunca nos deixa sós. E agora a sua vida é uma verdadeira missão. Vê! Vou mostrar-te...

Vejam vocês também connosco, ou leiam a reportagem aqui! O inglês utilizado é simples e acessível. Reconhecemos uma testemunha de Cristo quando nos cruzamos com ela. Meriam é, sem qualquer dúvida, uma testemunha de Cristo, luminosa e bela...

 

 

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Via Sacra caseira

por Teresa Power, em 23.02.16

Todas as quaresmas rezamos a Via Sacra em família, uma vez por semana. Podemos fazê-lo na igreja, podemos fazê-lo em Fátima (esperemos que sim também este ano) e, claro, podemos fazê-lo em casa. No sábado fizemos a Via Sacra em casa, diante do Canto de Oração. No chão deitámos a cruz de madeira que os jovens construíram no Primeiro Retiro das Famílias de Caná, naquele magnífico dia da Exaltação da Santa Cruz de 2013. Este crucifixo tem pois para nós um significado muito especial...

 

"Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu..." (Deut 8, 2)

 

Assim nos diz o Senhor de cada vez que contemplamos esta tosca cruz. Nela encontramos a obra da salvação de Jesus, que por nós deu a vida; mas também encontramos o chamamento para reunir as primeiras Famílias de Caná e todo o caminho percorrido desde então, caminho de Cruz e de Ressurreição como todos os caminhos do amor. Olhando, pois, para a cruz deitada no chão, nós recordamos as graças que Deus derramou sobre nós, perdoando-nos os pecados, curando-nos as feridas, libertando-nos do poder do mal, fazendo de nós suas testemunhas e enviando-nos em missão pelo país inteiro, congregando as Famílias de Caná. Ena, tantas bênçãos!

 

Assim, no domingo depois do almoço, acendemos as velas, preparámos as meditações (as mesmas que os ofereci no ano passado e que disponibilizo novamente: Via Sacra.pdf ) e espalhámos pelo chão as imagens da Via Sacra que os meninos recortaram, pintaram e colaram em corações de cartolina, também no ano passado. Depois cantámos um cântico e iniciámos o Caminho da Cruz. À vez, cada menino procurava entre os corações a estação correspondente, e colava-a sobre a cruz. No final, foi diante de uma cruz iluminada e cheia de corações que concluímos a nossa oração da tarde. Dentro de nós, um silêncio contemplativo calava os pensamentos mundanos e subia até Deus como incenso...

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publicado às 06:00

Efatá - o surdo-mudo e o bicho-de-conta

por Teresa Power, em 15.09.15

O meu primeiro dia no hospital foi fantástico: pediram-me para estar lá domingo pelas dez da manhã, a fim de, durante todo o dia, me serem feitos os exames necessários à operação, que ocorreria no dia seguinte. Eu passei, portanto, um dia inteiro de completo descanso, longe das inúmeras tarefas domésticas que acompanham os meus dias, longe do rebuliço simpático da minha casa, e sentindo-me perfeitamente saudável e forte, pois o tumor de 3 por 4 cm na mama nunca me causou qualquer incómodo, e nem sequer era palpável.

Assim, depois de fazer todos os exames, pedi licença às enfermeiras para descer até à capela do hospital, onde passei algumas horas em oração profunda e serena. A capela é muito bonita, e sobre o altar estava escrita a Palavra desse domingo: "Abre-te!" Na verdade, o evangelho relatava a cura do surdo-mudo:

 

"E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele.
E, tirando-o à parte, de entre a multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua. E, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse: Efatá; isto é, Abre-te.
E logo se abriram os seus ouvidos, e a prisão da língua se desfez, e falava perfeitamente." (Mc 7, 32-35)

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Sozinha em oração, eu contemplei a cena daquela tarde, há dois mil anos atrás. Imaginei a confusão e a solidão do surdo-mudo, perdido numa multidão que não compreendia, chamado por Alguém que não conhecia... Que pavor, que vertigem se terá apoderado dele, ao sentir o toque de Jesus? O que teria sido dele, se como um bicho-de-conta assustado, se tivesse fechado ao toque que o curou? E depois - ah, depois - o milagre, o renascer, o renovar da alegria, da beleza, da vida...

Nessa noite, deitei-me serena e levemente curiosa sobre o dia seguinte. Segunda-feira, em jejum, fiz novos exames, desta vez bem mais invasivos, e experimentei uma dor de cabeça crescente, que culminou na sala de operações e só terminou quando adormeci, anestesiada, sob as luzes acesas.

"Abre-te", repetia-me Jesus, arrastando-me para longe da multidão pelas mãos dos médicos e dos enfermeiros; "Abre-te", repetia-me Jesus, magoando-me com o seu toque; "Abre-te", repetia-me Jesus, pedindo-me que me abandonasse, que me deixasse adormecer, que não tivesse medo.

"Nós, Jesus!" Repetia eu, deixando-me arrastar, afastar, tocar, magoar. Como o surdo-mudo, também eu me deixei levar pela vertigem do mistério, percebendo vagamente que, se me deixasse conduzir, se não me enrolasse sobre mim mesma como um bicho-de-conta assustado, se abrisse o meu coração, um milagre iria acontecer...

A minha oração de domingo foi feita com grande bem estar e cheia de pensamentos elaborados. A minha oração de segunda-feira foi feita sem beleza nem meditações de que me possa orgulhar... Domingo, ofereci a Jesus palavras sentidas; segunda, ofereci-lhe simplesmente a minha dor.

 

A minha vida de mulher europeia, de classe média, de vida familiar feliz, tem poucas oportunidades de sofrimento verdadeiro, quando comparada com a vida de tanta gente neste mundo que enche os nossos noticiários. Assim - e porque acredito profundamente no poder da Cruz - procuro estar sempre muito atenta, para não deixar escapar nenhuma oportunidade de dizer a Jesus, não com palavras, mas com a vida, que O amo.

Agora, a minha oportunidade, que procurei não desperdiçar, já passou... Foi tão pequenina, afinal! Em vez de sofrimento, tenho os meus dias cheios de mimos: como não posso fazer esforços, todos trabalham a dobrar; a minha mãe passou alguns dias connosco, para ajudar com as crianças e me encher de carinhos; a Clarinha tornou-se uma autêntica dona de casa:

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O Francisco assumiu uma série de tarefas que antes me cabiam, como por exemplo, cortar o cabelo aos irmãos:

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E os vizinhos e amigos não se cansam de nos visitar e encher a casa de bolos, de tal forma, que vou ter de implementar uma semana de dieta intensiva quando tudo isto estiver passado :) Vejam só o lanche que a Cláudia e a sua família nos trouxeram, quando nos vieram ver... E isto foi já depois de dias e dias de tartes de pastel de nata, bolos de chocolate, bolos de maçã, fruta caseira, marmelada biológica, e muito mais!

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 Senhor Jesus, quero dar-te graças pela irmã dor, pelo irmão tumor, pela família, pelos amigos, pelos mimos, pela vida, pela alegria! Não me deixes ser como o bicho-de-conta, que se enrola sobre si mesmo quando lhe tocamos ao de leve, mas permite-me que imite o surdo-mudo do evangelho, capaz de me abrir ao teu toque na minha vida, seja ele agradável ou doloroso, suave ou brusco, mas sempre, sempre um toque de amor salvador...

EFATÁ!

Ámen!

 

 

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publicado às 07:04

Exaltação da Santa Cruz e dois aniversários

por Teresa Power, em 14.09.15

Hoje é dia de festa, e de festa em grande!

Hoje, 14 de setembro, o David faz nove anos. Nove anos! Nove anos que encheram a nossa vida de verdadeira alegria. Era um bebé tão pequenino e tão frágil ao nascer, com os seus dois quilinhos de ternura e de lembranças dolorosas - a maior parte da gravidez tinha sido passada no hospital, acompanhando a doença e morte do irmão - e tornou-se um rapazinho tão alegre, tão tranquilo e tão gentil! PARABÉNS, DAVID!

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Hoje, 14 de setembro, é o aniversário oficial das Famílias de Caná. Celebramos dois anos desde aquele dia tão simples em que desafiámos o nosso pároco e algumas famílias amigas a partilhar connosco a sua vida e a escutar o nosso testemunho de vida católica em família. Foi um retiro ainda muito rudimentar, mas que Deus abençoou, de acordo com o seu já velhinho princípio bíblico de escolher os mais fracos, os mais pobres e os mais novos para realizar os seus planos grandiosos! PARABÉNS, FAMÍLIAS DE CANÁ!

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Hoje, 14 de setembro, é a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Conta a Tradição que Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, mandou fazer escavações em Jerusalém para encontrar a verdadeira Cruz de Jesus. Encontraram as três cruzes numa vala. Como saber qual a de Jesus? Simples: levaram um doente agonizante até ao local e deitaram-no sobre as três cruzes, à vez. Quando deitado sobre uma delas - madeira tosca e pobre, em tudo igual às outras - ele ficou miraculosamente curado...

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Encontrar a verdadeira Cruz de Jesus é tarefa de uma vida inteira! É que não basta escavar: é preciso deitarmo-nos sobre ela - ah, e é tão bom deitarmo-nos sobre ela, numa cama de hospital ou em qualquer outra circunstância da vida! É preciso depositar aí as nossas dores, as nossas doenças, o nosso pecado, a nossa fraqueza, a nossa falta de fé, as nossas dúvidas, os nossos sonhos... Então experimentaremos, como aquele agonizante e como tantos irmãos nossos ao longo da História, o poder salvador da Cruz do Senhor!

 

"Pelas suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

 

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A pregação de Jesus

por Teresa Power, em 27.07.15

Oração familiar. Junto ao Canto de Oração, rezamos o terço.

- Quinto mistério doloroso - Enuncio, à espera que um dos mais pequenos o nomeie. Ser o primeiro a dizer o nome do mistério tornou-se, cá em casa, num jogo que todos querem ganhar.

- Eu digo! Eu digo! - Grita a Lúcia, entusiasmada. E continua: - O quinto mistério é a pregação de Jesus.

- Não é nada, Lúcia! - Reage o David, impaciente - É a crucifixão de Jesus. É quando Jesus morre na cruz!

- Foi o que eu disse! - Responde a Lúcia - Eu disse "pregação", e pregação é pôr pregos, não é?

Todos nos rimos com simpatia. Interrompendo a conversa, respondo à Lúcia:

- Lúcia, o que tu dizes nem está assim tão errado. Afinal, a mais bela pregação de Jesus foi mesmo na cruz... Quando esteve suspenso na cruz, Jesus pregou quase sem palavras. Na cruz, Jesus pregou com a sua vida, com o seu olhar, com o seu suspiro, com o seu coração trespassado de amor... Não há maior pregação do que a da cruz!

 

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O trocadilho inocente da Lúcia fez-me pensar no heroísmo de tanta gente que eu conheço, e que dá testemunho da sua fé, não através de palavras, nem de milagres, nem de visões, nem de uma sucessão de acontecimentos festivos, mas precisamente através da sua cruz - uma cruz aceite com cara alegre e total confiança no Senhor.

Talvez a nossa vida não seja como gostaríamos que fosse, a nossa família não nos compreenda, os nossos filhos sigam por maus caminhos, o nosso emprego seja uma desilusão... Talvez estejamos doentes, desempregados, abandonados, traídos, magoados... Então é o momento de pregar sem palavras, carregando  a cruz com um sorriso aberto e um coração atento, transbordando amor. Na verdade, falar de Jesus quando tudo corre bem é simples; mas manter a alegria e recusar a revolta, a cara feia e os queixumes - isso é pregação! Como a de Jesus, também essa se tornará na mais bela pregação da nossa vida...

 

"Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la, mas quem a perder por Minha causa, há-de salvá-la."

(Mc 8, 34-35)

 

 

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Raiz em terra árida

por Teresa Power, em 03.04.15

Até ao ano passado, a D. Isaura ajudava-nos com a lida da casa duas ou três vezes por semana. Este ano letivo já não tivemos esta grande ajuda, mas a D. Isaura continua a visitar-nos regularmente, cada vez que passa de bicicleta diante da nossa casa. Às vezes, levamo-lhe uma galinha para ela fazer o favor de matar e preparar (que nós não gostamos de fazer esse serviço), e pedimos-lhe conselhos sobre a melhor forma de cuidar da nossa horta, que a D. Isaura é muito mais sábia do que nós nessas matérias. Mas acima de tudo, acarinhamos a sua amizade bondosa.

Assim, no sábado, os meninos gritaram de alegria e os cães saltaram de satisfação, e todos - crianças e cães - correram para o portão: era a D. Isaura!

- Bom dia, meninos! Que lindos, a brincar no jardim!

A Sara saltou-lhe para o colo, e o António deu-lhe a mão. Depois, a D. Isaura deu uma volta ao nosso jardim, onde o Niall trabalhava afincadamente.

- Que bonita que está a horta! - Disse-nos.

O Niall sorriu: - Estaria muito mais bonita se não tivéssemos cães, gatos ou crianças. Estes três grupos de seres vivos destroem tudo o que eu tento construir, e pisam onde eu acabo de plantar. Enfim, D. Isaura, cada um tem o que merece!

A D. Isaura deu uma gargalhada e dirigiu-se ao galinheiro. Tal como eu, também ela adora ver as galinhas a esgravatar e escutar o seu cacarejar contínuo.

- Já repararam que têm um pessegueiro a crescer no galinheiro? - Disse-nos a D. Isaura, depois de breves segundos de inspeção.

- Um pessegueiro? - O Niall não conteve o espanto. - Está a falar desta erva daninha?

- Erva daninha qual quê! Um pessegueiro, sim senhor. A terra dos galinheiros costuma ser muito fértil, pois por um lado, atiramos para lá todo o tipo de restos de alimentos, caroços de fruta, etc., e por outro lado, está bem regada de estrume...

Bem, a D. Isaura estava a falar disto:

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E o galinheiro em questão é este:

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 - Ai, D. Isaura, quantas vezes eu me estafo a comprar e a plantar belas árvores, que depois não consigo que floresçam! E este pessegueiro brotou no meio do estrume. Que ironia! - O Niall estava divertidíssimo com o achado - A D. Isaura tem de ir passando por aqui para me dar estas boas notícias!

Todos nos rimos. Ficou combinado transplantarmos o pessegueiro daqui a algum tempo, quando estiver suficientemente forte para aguentar a mudança. Foi também assim que, no ano passado, colhemos os melhores tomates alguma vez produzidos no nosso quintal! A D. Isaura descobriu a dita erva no galinheiro e o Niall transplantou-a para a horta, onde veio a dar muito fruto. Esperemos que o mesmo aconteça agora.

 

Ao fim do dia, muito depois da nossa simpática visita ter ido embora, fui fotografar o pessegueiro e escutar o cacarejar das minhas queridas galinhas. Enquanto observava a natureza, lembrei-me da descrição que o profeta Isaías faz do Messias Doloroso, do Servo de Deus:

 

"O Servo cresceu diante do Senhor como um rebento,

como raiz em terra árida,

sem figura nem beleza.

Vimo-lo sem aspeto atraente,

desprezado e abandonado pelos homens,

como alguém cheio de dores,

habituado ao sofrimento,

diante do qual se tapa o rosto..."

(Is 53, 2-3)

 

Perdoem-me a expressão: na estrumeira deste mundo, Deus plantou a Árvore da Cruz do seu próprio Filho, para que crescesse sem beleza nem esplendor, mas capaz de dar muito fruto... Quanto amor!

Dentro de cada um de nós há certamente "estrume" suficiente para que o amor cresça e frutifique. O sofrimento de cada dia, as dificuldades, os obstáculos, a nossa insuficiência de tudo, a nossa imensa pobreza, e até o nosso pecado assumido e chorado - tudo pode ser terreno fértil! Precisamos de treinar o nosso olhar, para não confundirmos a Cruz que o Senhor nos oferece com qualquer erva daninha...

 

PS - Hoje vamos começar a rezar a Novena à Divina Misericórdia, como expliquei neste post do ano passado. Alinham?

 

 

 

 

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