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O Jovem Rico e o Barrica

por Teresa Power, em 19.08.15

Hora de oração familiar.

- António! Sara! David! Depressa, vamos rezar!

Passos apressados no corredor.

- Francisco! Clara! Lúcia!

- Já vou!

- Já vou!

- Não é já vou, é vir mesmo! São horas!

Mais passos apressados no corredor.

- Dá-me o Barrica! - Grita de repente a Sara, procurando agarrar o pequeno boneco da mão do António.

- Não dou! É meu! Meu!

- Eu quero o Barrica! EU QUERO O BARRICA!

- É MEU!

Gritos. Mais gritos. Empurrões. A Sara está a chorar.

- Acabou-se! São horas de rezar!

A Sara sai da sala, a soluçar. Perante um ataque tão grande de mau génio, decidimos avançar com a oração, e começamos a cantar e a dançar o nosso louvor. Irritadíssima, reaparece:

- NÃO REZAM SEM A SARA!

Eu sabia que a Sara não perderia este momento por nada deste mundo. A hora de oração costuma ser uma das horas preferidas dos mais pequeninos por causa dos cantos e das danças, e certamente também por causa do carinho e da presença uns dos outros.

Decido então pegar-lhe ao colo, e a Sara acalma com a cabeça no meu ombro. Podemos continuar a oração. Depois de partilharmos em voz alta a nossa ação de graças, sentamo-nos para escutar o Evangelho, que nos conta a inquietante história do Jovem Rico:

 

"Aproximou-se de Jesus um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Cumpre os mandamentos!» Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido todos os mandamentos; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se entristecido, porque possuía muitos bens." (Mt 19, 16-22)

 

- Que precisava o jovem rico de fazer para ser feliz? - Pergunto, perante o silêncio geral.

- Precisava de deixar tudo o que tinha.

- E ele foi capaz de tanto?

- Não, porque tinha muitas, muitas coisas!

- Pois era, o jovem rico tinha muitas coisas. Quando temos muitas coisas, é mais difícil deixá-las para trás!

- Mas ele ficou triste.

- Claro: é preciso coragem para se ser feliz! A coragem de fazer a vontade de Deus, ou seja, de realizar o sonho que Deus sonhou para cada um de nós. Deus só nos pede o que nos faz felizes!

- Mesmo quando custa?

- Custa sempre um bocadinho, mas a recompensa é a felicidade.

Silêncio. Depois, calmamente, o António levanta-se e diz:

- Vou buscar o Barrica para dar à Sara.

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A isto eu chamo: escutar a Palavra e colocá-la em prática...

 

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Jantar ou não jantar, ter razão ou amar

por Teresa Power, em 15.06.15

- Conta mais coisas do teu passeio, António - Pedi, enquanto nos sentávamos à mesa para jantar.

- O comboio anda muito depressa mas não faz "pouca-terra".

- Ai não?

- Não, nem "UUUUU". Não faz nada. Só anda.

- E almoçaste bem?

- Sim. As Irmãs foram ter connosco ao Portugal dos Pequenitos e levaram o almoço. Mas foi só almoço, não foi jantar.

- Claro! - Atalhou o David - Tu nunca jantas nos passeios, nem na escola!

- Ai janto sim.

- Não jantas nada!

- Janto!

- Não jantas, António! Ninguém janta na escola! - Continuou o David.

- EU JANTO!!!!

- A nossa doce e suave família num agradável momento de partilha - Comentou o Francisco ironicamente, entre duas garfadas.

- Mamã, diz ao António que não se janta na escola.

- Deixa lá, David. Que importa isso?

- Importa sim! Porque é mentira! Porque ele tem de aprender!

- EU SEMPRE JANTO NA ESCOLA!

- NÃO JANTAS!

- E os momentos agradáveis não cessam de se repetir cá em casa - Continuou o Francisco - Ai como é agradável um jantar em família!

- António, pára de gritar. E tu, David, pára de arreliar o António. Não importa que o António esteja errado. Isso é o que menos interessa aqui.

- Ai é? E como é que ele vai aprender?

- Ele vai aprender quando for importante aprender. Agora, o importante é ser amigo. Não vês que o António vem cansado do passeio da escola e está cheio de sono? Não o irrites!

- Mas que ele não janta na escola, não janta.

- JANTO!!!

- NÃO JANTAS!

 

Quando finalmente se fez algum silêncio em volta da mesa, fiquei a pensar em como é importante aprender a calar sobre coisas triviais, mesmo quando temos razão; e como é difícil calar sobre coisas triviais, quando temos razão! Calamo-nos mais facilmente sobre coisas realmente graves, e ficamos mudos quando atacam os valores maiores em que acreditamos; mas insistimos e tornamos a insistir em casa, junto da mulher ou do marido, junto dos irmãos ou dos amigos, forçando a nossa opinião sobre coisas triviais. Quantas discussões familiares se evitariam, se em vez de nos especializarmos na arte da argumentação, nos especializássemos na arte do amor... É que amar o próximo é sempre, sempre mais importante do que ter razão.

 

"Começar uma briga é desencadear uma enxurrada: desiste antes que se exaspere a disputa!"(Pro 17, 14)

 

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O jasmim florido

por Teresa Power, em 17.04.15

O nosso jardim tem sofrido muito ao longo dos anos. Coitado dele! Este pedaço de terra à volta da nossa casa é alvo das mais acérrimas lutas entre flores e bolas de futebol, relva a crescer e sopas para bonecas em panelinhas de plástico, couves verdinhas e galinhas que se soltam do galinheiro. No outro dia de manhã, à hora do pequeno-almoço, os nossos filhos assistiram, boquiabertos, a esta discussão entre o Niall e eu:

- Niall, há galinhas à solta no jardim, olha só pela janela!

- O quê???? Depois de eu ter passado o fim-de-semana curvado a plantar a horta? Será possível? É desta que acabamos com o galinheiro.

- Nem penses! Eu adoro escutar o cacarejar das galinhas logo de manhã!

- Mas eu adoro ver uma horta bonita, e olha só para a desgraça da nossa horta! E esta primavera vou ter de vedar parte do jardim para a relva poder recuperar.

- Não vedas não, que os meninos precisam de espaço para jogar à bola.

- E como queres que tenham relva para jogar à bola se eu nunca lhe der uma oportunidade para recuperar?

- Mãe, pai, está na hora de irmos para a escola - Interrompeu a Clarinha, trocando olhares divertidos com o Francisco.

- OK, falamos de galinhas e crianças mais tarde - Concluí.

Pela hora de almoço, como costume, telefonei ao Niall.

- Niall, desculpa esta manhã. Se achas melhor destruir o galinheiro, eu aceito - Disse-lhe. - E se quiseres, vedamos parte do jardim também.

- Oh, não, eu queria mesmo telefonar-te para te pedir desculpa - Respondeu-me ele - Eu sei que tu gostas das tuas galinhas e que as achas fofinhas. No sábado vou arranjar o galinheiro e refazer a horta. E a relva há-de crescer, deixa lá!

- Não, destruímos o galinheiro.

- Não, não é preciso. As tuas galinhas são umas queridas...

- Mas eu aceito!

- Mas eu não aceito!

E lá discutimos nós novamente... Desta vez, para decidir quem era o primeiro no amor!

 

O jardim, as bolas de futebol, as sopas de ervinhas para as bonecas, as galinhas e a horta lá continuam a conviver, e nós vamos gerindo tudo isto com muita paciência e, sobretudo, muito amor.

Ontem de manhã acordei com um perfume delicioso, vindo do jardim. Um perfume tão forte, que atravessava as janelas fechadas. Abri as cortinas e as portadas, e deparei-me com o jasmim todo em flor:

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 Lembrem-me então de um dos meus livros preferidos na Bíblia, o Cântico dos Cânticos. Diz o Amado:

 

"Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha Amada!

Eis que o inverno já passou,

a chuva parou e foi-se embora;

despontam as flores na terra,

chegou o tempo das canções,

e a voz da rola já se ouve na nossa terra;

a figueira faz brotar os seus figos

e as vinhas floridas exalam perfume.

Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha Amada!"

(Ct 2, 10-13)

 

Abracei o Niall. O jasmim florido era a prova de que necessitávamos para acreditar que mesmo os terrenos mais sofridos se podem deixar trabalhar e cobrir de perfume. O mundo, o outro, os meus defeitos e os problemas que se abatem sobre nós ameaçam destruir o pouco que vamos conseguindo construir? O poder de Deus é muito maior! Os jardins da nossa vida e do nosso sucesso teimam em murchar? O importante é que o nosso jardim interior esteja coberto de flores, e o Senhor se agrade passeando nele...

 

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