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Cabelo bem lavado

por Teresa Power, em 26.08.15

- Hoje é praia ou missa, mamã?

- Hoje é missa, Sara. Tu gostas da missa?

- Gosto. Mas olha, diz ao senhor padre que eu não quero que ele me lave o cabelo!

- ?????

 

Levei alguns segundos a compreender o problema da Sara: durante todos os domingos de agosto, no Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, a missa paroquial inclui a celebração de um ou mais batismos. E o batismo significa, - como é que eu nunca pensara nisto? - lavar a cabeça aos mais novos, claro! A Sara, que detesta lavar o cabelo, deve ter sofrido um pouco nas últimas missas, à espera que o tormento diário da água a escorrer sobre a sua cabeça pudesse também acontecer na igreja, onde julgava estar em segurança. Ai como é difícil ter-se quase três anos!

 

- Sara - continuei eu - Não tenhas medo, porque o senhor padre já lavou o teu cabelo uma vez, e não vai lavar mais nenhuma!

- Ai já?

- Já. Queres ver? - Fui buscar um album de fotografias - Olha, vês? O senhor padre lavou-te o cabelo com esta conchinha da praia, que os manos encontraram enquanto tu estavas na minha barriga e guardaram especialmente para a ocasião!

batismo 2.JPG

- Sabes, Sara, o senhor padre não lava o cabelo com shampô... Não! Não entra nada nos olhos. O senhor padre não está a tentar tirar a terra do jardim ou a areia da praia ou os restos de comida ou os bocados de cola do teu cabelo... Está a lavar o teu coração!

- O coração?

- Sim, o coração...

Enquanto eu explicava à Sara, com palavras muito simples, o sacramento do batismo, fiquei a pensar... Será que os pais que, aproveitando este mês de férias e encontro familiar, levam os seus filhos a ser batizados, experimentam dentro de si a urgência do sacramento? Ou será que simplesmente aproveitam a ocasião do batismo para festejar com a família e os amigos o nascimento do seu filho?

Apercebo-me de que, mesmo entre os católicos mais empenhados, existe uma vaga ideia de que o batismo é um símbolo, um gesto belo, mas incapaz de causar uma alteração profunda na natureza do ser humano. "Todos somos filhos de Deus", ouve-se dizer. Para quê a pressa então? Por que não esperar por uma reunião familiar, por uma situação financeira mais estável ou por umas férias para batizar os nossos filhos?

É verdade que todos os seres humanos são amados por Deus com amor infinito, antes ainda de serem concebidos; e que Deus tem milhares de formas diferentes de oferecer a sua salvação, a cristãos, a budistas, a ateus, pois como diz o Catecismo da Igreja Católica, "Deus não está prisioneiro dos seus sacramentos" (CIC nº1257). Mas também é verdade que o Evangelho diz:

 

"Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus." (Jo 3, 5)

 

Se o batismo não nos traz nada de novo; se não altera em nada a nossa própria natureza humana; se não tem poder para nos abrir o Céu, então não vale a pena perdermos tempo.

Mas se o batismo opera em nós um milagre - um milagre imenso, infinito e impossível de abarcar com a nossa pobre inteligência; se o batismo faz de nós participantes da vida do próprio Deus, realmente filhos no único Filho; se o batismo apaga em nós, definitivamente, a marca herdada do pecado; se o batismo faz jorrar para dentro de nós uma abundância de graça nunca antes vista, completamente absurda e totalmente gratuita - então eu vou ter imensa pressa em batizar os meus filhos. Diz o Catecismo da Igreja Católica: "A Igreja e os pais privariam a criança da graça inestimável de se tornar filho de Deus, se não lhe conferissem o batismo pouco depois do seu nascimento." (CIC nº 1250)

Cá em casa, batizei todos os meus filhos com um, dois ou três meses de vida. Se hoje tivesse outro bebé, batiza-lo-ia na semana seguinte a sair da maternidade...

 

- O senhor padre não vai lavar-me o cabelo!

 

"« Senhor, Tu não vais lavar-me os pés!» Disse-lhe Jesus: «Se não te lavar os pés, não terás parte comigo.» Disse-Lhe então Simão Pedro: «Nesse caso, Senhor, não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!»" (Jo 13, 6-10)

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Planeamento familiar III (em jeito de conclusão)

por Teresa Power, em 04.11.14

Quando Jesus terminou o seu discurso sobre o Pão da Vida, a grande maioria dos seus ouvintes afastou-se, dizendo:

 

"Estas palavras são duras! Quem as pode escutar?" (Jo 6, 60)

 

Que fez então Jesus? Chamou-os de volta, pedindo desculpa por ter sido demasiado exigente? Refez o seu discurso? Como, se Ele bem sabia que as suas palavras abriam caminhos de felicidade?...

 

"Voltando-se para os doze, Jesus perguntou-lhes:  «Também vós quereis ir embora?» Pedro, tomando a palavra, respondeu: «A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna!»" (Jo 6, 67-68)

 

Se alguma coisa eu gostaria de ensinar aos meus filhos, é esta: só Jesus tem palavras de vida eterna; e se quisermos ser plenamente felizes, não podemos ter medo delas por nos parecerem demasiado duras. Pelo contrário: ao decidirmos praticá-las, descobriremos toda a doçura escondida nos seus ensinamentos, e experimentaremos uma felicidade nova, pura, transbordante, profunda e eterna!

 

Os posts anteriores (aqui e aqui) permitiram-vos compreender como foi complicado, para nós, há dezoito anos atrás, aceder a esta informação preciosa sobre planeamento familiar. Era nosso direito, como noivos católicos, sermos bem informados sobre esta matéria. Como diz o Papa Francisco, "preparar noivos para o matrimónio apenas em dois encontros ou conferências é pecar por omissão." (Encontro do Papa Francisco com o Movimento de Schoenstatt, 25 de outubro). E é nosso dever agora, como família feliz, testemunhar estas verdades junto de outras famílias.

Um grande obrigada a todos os que partilharam connosco, via e-mail ou comentários, a sua experiência sobre esta temática, tão semelhante à nossa! Rezemos para que um dos frutos do sínodo dos bispos seja uma maior clareza de ensinamentos e um maior acompanhamento dos noivos, sempre num clima de misericórdia e de exigência próprios do Evangelho! E como muitos dos vossos testemunhos confirmaram, com Deus estamos sempre, sempre a tempo de recomeçar! Ele não nos cobrará nada, antes nos estenderá a mão para podermos abrir caminho.

 

Eu não posso voltar atrás no tempo e refazer a nossa história, que teve tantos tropeções enquanto procurávamos descobrir sozinhos o caminho de santidade e felicidade conjugal também em relação ao planeamento familiar. Mas posso educar os meus filhos, para que a sua história seja diferente, caso eles assim o desejem.

Eis então o que lhes procuramos dizer, a propósito e a despropósito, com palavras e com sinais, usando a Escritura e usando o noticiário, testemunhando e apresentando testemunhos:

 

O nosso corpo é apenas o exterior da nossa alma. Não podemos tocar no corpo de alguém sem tocar também na sua alma; não podemos entregar o corpo a alguém sem lhe entregar também a alma; e não podemos mentir com o nosso corpo sem mentir também com a nossa alma. Por tudo isto, a Igreja ensina que o acto sexual só faz sentido quando duas pessoas se entregam uma à outra, completamente e para sempre, sem retorno.

 

A sexualidade é invenção de Deus, e a Ele pertence. Ela foi feita para que nos tornemos imagem e semelhança de Deus em amor, em entrega, em generosidade, em alegria, em vida, em doação profunda. A contracepção é uma mentira introduzida neste imenso dom de Deus, pois faz-nos acreditar que estamos a entregar-nos totalmente a alguém, quando ao mesmo tempo estamos a recusar-lhe o que de mais divino possuímos: a nossa fecundidade.

 

Sabemos que a fecundidade pertence em exclusivo a Deus, porque na verdade não somos donos dela! Mas se, por qualquer motivo, não podermos ter filhos biológicos, Deus tem tantas outras formas de nos tornar fecundos! É importante conhecer o testemunho de famílias felizes, em caminhada de fé e de amor, que vivem a sua fecundidade através da adopção. Quero que os meus filhos conheçam estes testemunhos de perto antes de casarem, para não terem medo deste caminho belíssimo de amor, se Deus o desejar para eles.

 

Para planearmos responsavelmente a nossa família, precisamos de conhecer os ritmos e os sinais do corpo feminino. Não é necessário esperar pelo casamento para o fazer! Quanto mais cedo nos conhecermos, mais simples será depois. Como mãe, tenciono ensinar às minhas filhas os segredos do seu corpo o mais cedo possível, para que os seus primeiros anos de casadas sejam mais tranquilos do que foram os meus neste tópico.

 

Mas para planearmos responsavelmente a nossa família, também precisamos de uma boa dose de loucura. Quando, no encontro internacional com o movimento de Schoenstatt, perguntaram ao Papa Francisco como fazia para se manter alegre, ele respondeu: "Sou inconsciente, rezo e tenho a audácia de me abandonar à confiança e bondade de Deus." Se não formos um bocadinho inconscientes (a mim costumam chamar de irresponsável), se não rezarmos e se não nos entregarmos nas mãos amorosas do Senhor, dificilmente teremos uma família numerosa!

Os métodos naturais facilitam esta loucura, pois permitem que muitas decisões sejam tomadas "a quente", sob o fogo da paixão: "Que tal se fosse agora?" "Porque não?" E acreditem-me, não há melhor razão para ter um filho.

pintaínhos - Cópia.JPG

 Ficam alguns links, para quem quiser explorar:

 - O site oficial do Método Billings (em inglês)

- Um vídeo vencedor sobre Planeamento Familiar Natural

 

E relembro que a Associação Família e Sociedade tem um curso de planeamento familiar natural agendado para os próximos dois sábados.

Divirtam-se, e partam à aventura!

 

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Planeamento familiar II

por Teresa Power, em 01.11.14

Hoje é dia de festa: Dia de Todos os Santos, conhecidos e desconhecidos, casados, consagrados, sacerdotes, solteiros, jovens, crianças, idosos… Cá em casa não há "Halloween" (que está cada vez mais associado a cultos satânicos), mas em vez disso, há certamente quem se disfarce do seu santo padroeiro! Depois mostro-vos - claro, noutro post

 

“São poucos os que se salvam?” Perguntaram um dia os discípulos a Jesus. No Apocalipse, encontramos a resposta:

 

"Depois disto, apareceu na visão uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão..." (Ap 7, 9)

 

Todos somos chamados à santidade. A Palavra de Deus é antiga:

 

“Sede santos, como Eu, o Senhor, sou santo.” (Lv 19, 2)

 

O Niall e eu escolhemos fazer este caminho de santidade através um do outro, pelo sacramento do matrimónio. Da nossa procura da perfeição faz parte esta atribulada história sobre o planeamento familiar. Aqui fica pois o próximo capítulo desta nossa “novela", na sequência deste post:

 

Eu sei que é costume o casamento acontecer na terra da noiva. Mas nós decidimos antes casar em Fátima, na terra da nossa Mãe comum, Maria. Portanto, na véspera do casamento, tanto eu como o Niall andávamos a passear por Fátima – ele com a sua família, eu com a minha, evitando encontrarmo-nos, para não estragar a surpresa do dia seguinte.

E foi assim que, separadamente e sem combinarmos, ambos nos fomos confessar (apesar de o termos feito há muito pouco tempo em Aveiro), para que o nosso “traje nupcial” fosse realmente uma "túnica branca" diante do "Cordeiro". Em Fátima é tão fácil aceder ao sacramento da reconciliação!

De novo – separadamente e sem combinarmos – ambos fizemos a mesma pergunta ao sacerdote que nos confessou: como podíamos planear a nossa família? E finalmente, sob o olhar maternal de Maria, que sempre nos valeu, a tão procurada resposta chegou:

- O que tu queres saber está na Humanae Vitae, a encíclica do Papa Paulo VI. Podes comprá-la na livraria ali ao lado. E aproveita para comprar também um livro sobre o Método Billings.

- Sobre o quê? - Eu era mesmo ignorante...

- Sobre o Método Billings. O Método da Ovulação, descoberto pelo casal Billings. B-I-L-L-I-N-G-S.

 

Este sacerdote (terá sido o mesmo para os dois?) estava pois em sintonia com o que, agora, o papa Francisco diz à Igreja: "A única forma de ajudar nesta crise da família é ser claro nas ideias e nos valores." (Homilia do encontro internacional com o movimento de Schoenstatt, 25 de outubro)

Ao sair do confessionário, dirigi-me imediatamente à livraria Verdade e Vida, onde encontrei os dois livros. E nesse mesmo dia, na minha ânsia de obter respostas, li grande parte de ambos! Li pelo menos o suficiente para deitar fora a tal caixinha do medicamento que me fora prescrito; e para deixar de me afligir com o tema.

 

Durante o dia do nosso casamento, consegui trocar algumas palavras a sós com o Niall (sabem como é difícil falar a sós nesse dia!), e ainda nos rimos com as coincidências da nossa aventura da véspera. Só eu comprara os livros, pois na altura o Niall não conseguia ler bem português.

casamento Niall e Teresa 1.jpg

Os esposos Billings, médicos australianos e católicos, já tinham nove filhos quando a encíclica Humanae Vitae (Paulo VI, 1968) foi publicada, e não tinham qualquer intenção de canalizar a sua inteligência para contestar os ensinamentos papais; mas há algum tempo que a vinham canalizando para auxiliar a Igreja nesta grande e nobre tarefa de acompanhar os casais no seu planeamento familiar. A obediência, como eu disse neste post, é fonte de imensa criatividade! Eles acreditavam que Deus dotara a mulher de sinais evidentes e simples da sua fertilidade. Restava saber: que sinais?

Anos de estudo deram origem ao Método Billings, com uma eficácia (reconhecida pela OMS) igual ou superior à da pílula, e sem qualquer tipo de contra-indicação. Os dois cientistas receberam vários doutoramentos honoris causa e correram o mundo divulgando o seu método junto de todo o tipo de populações, das mais cultas às mais analfabetas, inclusive na China, sempre ao serviço da Igreja e da vida.

                (O casal Billings com S. João Paulo II)

 

Os métodos de planeamento familiar natural, com destaque para o Método da Ovulação, ou Método Billings, são portanto saudáveis e ecológicos, o que não deixa de ser importante numa sociedade cada vez mais preocupada com as questões do ambiente. Mas acima de tudo, estes métodos são compatíveis com a visão de matrimónio que nos é proposta por Jesus no Evangelho.

 

Dentro do livro sobre o Método Billings, vinha um folheto informativo sobre uma das associações que, em Portugal, promove o planeamento familiar natural: o MDV (Movimento de Defesa da Vida). Durante o nosso primeiro ano de casados, estando eu já grávida pela primeira vez (uma gravidez que terminou num aborto espontâneo), tivemos a oportunidade de fazer este curso, realmente fascinante. Finalmente, alguém me ajudava a contemplar e a entender a beleza do ciclo feminino e da sexualidade humana!

Só muito mais tarde conheci a "Teologia do Corpo", as catequeses de S. João Paulo II que, ao longo de quatro anos de pontificado, aprofundaram o tema do matrimónio. Uma maravilha! Vale a pena comprar livros ou ver vídeos sobre o tema.

 

Na sequência do post de ontem, vários leitores deste blogue tiveram a gentileza de me informar que nos sábados dia 8 e dia 15 deste mês de novembro vai decorrer em Lisboa novo curso de planeamento familiar natural, promovido pela Associação Família e Sociedade. Este curso tem a grande vantagem de proporcionar aos casais acompanhamento médico na sua aprendizagem do método proposto. A ficha de inscrição vem no site. Nem  esta associação, nem o MDV têm qualquer orientação confessional, pelo que todos, sem excepção, estão convidados a fazer estes cursos. Aliás, segundo me informaram, a grande procura não vem de casais católicos, mas de casais... ecologistas!

 

Foi fácil aprender o planeamento familiar natural? Não. Desengane-se quem achar que o pode conseguir sem capacidade de renúncia, sem grandes doses de paciência e sem um imenso amor!

Valeu a pena aprender o planeamento familiar natural? Sim, absoluta e infinitamente. A liberdade de amar com todo o meu ser e de me sentir amada e respeitada nos momentos de fecundidade e de infecundidade cíclica, a descoberta do poder do desejo e do poder da renúncia são inestimáveis. Nada se lhes compara!

Resulta, o planeamento familiar natural? Connosco, resultou a cem por cento! Aliás, neste momento conheço tão bem o meu corpo, que seria quase impossível engravidar sem querer... Temos o número de filhos que decidimos ter, decisão essa que nunca é definitiva, mas a cada ciclo retomada em clima de oração. Uma das diferenças em relação à pílula é que não decidimos hoje que queremos engravidar daqui a alguns meses, mas decidimos hoje que queremos engravidar... hoje! A contracepção nunca nos permitiria ter tomado algumas das decisões que tomámos, num momento de paixão, e que resultaram em "surpresas" maravilhosas

 

Este post já vai longo… Deixo-vos ainda dois links: este para o testemunho de um casal cristão durante o recente sínodo dos bispos; e este para o testemunho de casais muito jovens no jornal i. O primeiro fez-me sorrir, porque me revi nos seus argumentos; o segundo deixou-me cheia de santa inveja: quem me dera ter tido esta clareza de pensamento no dia do meu casamento! Boas leituras…

 

Que a Festa de Todos os Santos seja para as famílias cristãs um verdadeiro desafio à santidade, donde emana a fonte da felicidade. Repetindo as palavras do Papa Francisco no sábado passado, "os únicos que renovaram a Igreja foram os santos." Ámen!

 

 

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Planeamento familiar I

por Teresa Power, em 31.10.14

Aproximava-se a data do nosso casamento, há dezoito anos atrás. No meio de muitas trapalhadas com os papéis, o Niall e eu procurávamos ter algum tempo e algum espaço para nos prepararmos espiritualmente.

A primeira desilusão chegou quando o nosso pároco nos disse que, ali, não havia cursos de preparação para o matrimónio. Eu estava desejosa de encontrar outros casais de noivos e sobretudo, estava desejosa de escutar o testemunho de casais mais velhos e experientes, que nos pudessem falar de Deus e de amor. Na altura, ainda não tinha computador, e a Internet era uma ilustre desconhecida…


Sem curso de preparação, decidimos então procurar, sozinhos, algumas respostas para perguntas que se impunham. Como iríamos planear a nossa família? De que métodos podíamos dispor? Desde o início do nosso namoro que falávamos dos filhos, da educação que queríamos dar-lhes, da família numerosa e alegre que gostaríamos de ter. No entanto, todas as vozes à nossa volta nos lembravam que dois ou três filhos era mais do que suficiente, e que não era conveniente tê-los muito cedo, porque o casal precisa "de um tempo". Enfim, não pensámos muito em nada disto senão já perto do nosso casamento. E foi quando descobrimos que estávamos sós na nossa reflexão.

 

Na minha fé simples, eu só queria obedecer à doutrina da Igreja, mas eu não a conhecia senão muito vagamente. Vasculhei a minha memória à procura de respostas. Eu frequentara grupos de jovens, pertencera a vários movimentos da Igreja, fizera retiros e exercícios espirituais, assistira a palestras dadas por padres jesuítas em Coimbra, enquanto estudava. Enfim, não era ignorante na maior parte dos temas da Igreja. Mas não conseguia lembrar-me de alguma vez alguém me ter falado neste assunto com a abertura de que agora  necessitava. Porquê?


Começámos por perguntar ao médico de família, em separado, como fazer planeamento familiar, caso sentíssemos necessidade dele. A resposta foi a mesma para os dois: uma receita da pílula. Saímos do consultório cabisbaixos. Outra desilusão! Se eu não estava doente; se o meu corpo funcionava na perfeição, para que queria eu um comprimido?


Marquei consulta no ginecologista, um conhecidíssimo médico de Coimbra. Fui à consulta cheia de expectativa e de novo lancei a minha inocente pergunta: como podia eu planear a minha família?

- Quer uma receita de pílula, não é? - Perguntou, sem me deixar acabar de falar. Eu queria responder que não, que queria que ele me falasse do meu corpo, me ensinasse a conhecer a biologia por detrás da sexualidade, me encorajasse a confiar na minha feminilidade, mas não fui capaz de articular palavra. Eu desconhecia, na altura, que em Portugal não há - ou há muito poucos - ginecologistas especializados em planeamento familiar natural e capazes de acompanhar as mulheres nesta escolha nas suas consultas, como há nos E.U.A., por exemplo. Saí do consultório com uma receita na mão, que tratei de aviar na farmácia mais perto.

 

Ao chegar a casa, abri a embalagem e pus-me a ler o folheto informativo. O que li deixou-me muito angustiada: ali estava eu, jovem de vinte e quatro anos, a transbordar saúde, com uma receita de um medicamento na mão. As contra-indicações eram simplesmente assustadoras, e eu não conseguia compreender por que razão todos me falavam em tomar um comprimido, quando eu só queria ser feliz. Guardei a caixinha na gaveta dos medicamentos, junto do paracetamol e do aero-om.


Decidi então perguntar a um sacerdote. Escolhi um sacerdote cheio de fé, que sempre fora para mim sinal do amor de Deus. Fiz-lhe a mesma pergunta que fizera ao médico de família e ao ginecologista.
- O casal deve gerir a sua sexualidade de acordo com a sua consciência - Foi a resposta. Nenhuma referência ao Catecismo da Igreja Católica, nenhuma referência a Paulo VI, a João Paulo II, a pecado ou a virtude. Apenas a alusão à consciência que, convenhamos, aos vinte e quatro anos não é exactamente uma grande aliada (e aos quarenta continua a não ser...)!


Se os dois médicos me tinham desiludido, a resposta deste sacerdote deitou por terra a esperança que me restava. Eu não sabia então que os ensinamentos da Igreja sobre o planeamento familiar eram alvo de grande controvérsia, e que muitos sacerdotes tinham uma espécie de estranha vergonha em propor aos casais aquilo que eles nunca poderiam viver.

1ºbeijo erasmus.jpg

Lembram-se da história do jovem rico? Este jovem era eu, este jovem era o Niall. Cheios de entusiasmo juvenil, nós corremos ao encontro do representante de Jesus e perguntámos, na nossa linguagem atabalhoada e inquieta: "Como nos pede a Igreja que regulemos a nossa fertilidade?" Que foi a nossa maneira de perguntar: "Que devemos fazer para alcançar a vida eterna?"

As respostas que obtivemos foram como se Jesus tivesse desistido de nós, e não nos julgasse dignos de um salto maior. Imaginem que Jesus tinha dito ao jovem rico: "O que tu fazes, já chega." Ou, em linguagem estudantil: "O que tu fazes já dá para passar no exame."

Nós não queríamos "passar". Nós não queríamos um "suficiente". Nós queríamos ganhar a Taça, nós queríamos subir ao pódio, nós queríamos alcançar a coroa da vitória. Nós não precisávamos que nos indicassem os “mínimos”, nós queríamos que nos abrissem o horizonte até aos “máximos”. Mas ninguém parecia acreditar na nossa capacidade para sermos santos.
E contudo, a Palavra de Jesus não me deixava descansar... Jesus nunca disse: "Sede boas pessoas." Jesus disse:

 

“Sede perfeitos, como o vosso Pai é perfeito.” (Mt 5, 48)

 

O Papa Francisco disse numa homilia no sábado passado: "Não tenham medo da vida de santidade, pois esse é o único caminho para renovar a Igreja." 

 

Até que chegou a véspera do nosso casamento… Sim, a véspera! Amanhã conto-vos mais

 

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"Onde estão as crianças deste país?"

por Teresa Power, em 08.03.14

O Niall esteve no sábado passado na universidade para, entre outras coisas, receber três dos oitenta estudantes sírios que o governo de Portugal acolheu, num gesto de apoio às vítimas da guerra. Cá em casa, adoramos as inúmeras histórias que o Niall nos conta dos seus contactos diários com estudantes de todas as partes do mundo. Temos tido grandes sessões de cultura geral à hora de jantar, enquanto nos deliciamos com pormenores engraçados, divertidos, sérios, tristes ou simplesmente curiosos, vividos pelo Niall nas suas viagens pela Europa e pela Índia, ou no seu gabinete de Relações Internacionais, na Universidade de Aveiro.

Ontem, o Niall falou-nos dos estudantes sírios. Entrando no seu gabinete, seis dias depois de chegarem a Portugal, os três estudantes vinham cheios de perguntas. E a primeira foi esta:

- Onde estão as crianças?

- Quais crianças? - Quis saber o Niall.

- As crianças de Portugal!

- Como assim?

- As crianças! Não se vêem crianças pelas ruas... Onde estão elas?

- Bem, talvez não haja assim tantas como vocês estavam à espera - respondeu o Niall, sorrindo - Mas não me acusem a mim de falta de contributo para a natalidade deste país!

 

A baixa natalidade em Portugal é também ela sinal dos tempos, não apenas sinal da crise. Há um tabu generalizado em relação ao tema da fertilidade conjugal e ao que a Igreja diz sobre o assunto, pois é certamente um tema incómodo. É mesmo verdade que Deus quer que todos tenhamos muitos filhos? Ao longo de toda a Bíblia, uma família numerosa é sempre uma bênção. Mas Jesus nunca falou do número de filhos que um casal deve ter.

Disse o Papa Francisco, na homilia do dia 21 de fevereiro, que a casuística é sinal de falta de fé. Quem procura regras para tudo, quem pretende uma resposta exacta da Igreja como forma de resolver todos os assuntos, tem a atitude dos fariseus que testavam Jesus com perguntas provocadoras. Jesus sempre ofereceu respostas caso a caso, dialogando individualmente com cada homem e cada mulher com quem Se quis encontrar. E nunca impôs nada a ninguém, optando antes por desafiar os que chamava a chegar mais longe.

 

Jesus nunca falou do número de filhos por casal. Deus não exige que tenhamos um ou dez. Mas Jesus falou de muitas outras coisas, dando-nos pistas de reflexão: falou do abandono confiante nas mãos de Deus, que conhece as nossas necessidades e cuida das mais pequenas flores do campo (Mt 6, 25-34 - um texto para saber de cor!); falou da generosidade da viúva, que deu tudo o que tinha (Lc 21, 1-4); falou da simplicidade e da alegria das crianças, e disse-nos que quem acolher uma criança, é a Ele mesmo que acolhe (Mt 18, 5); falou de radicalidade, de coragem, de audácia; falou das surpresas de Deus, que tem o hábito de mudar os planos dos homens e converter o curso da sua vida, como fez com Abraão, com Moisés e com José; como fez com Sara, com Ana e com Maria; disse-nos que é preciso perder (deixar as nossas "zonas de conforto"...) para ganhar (em felicidade, claro!); disse-nos para não termos medo, e repetiu esta mensagem muitas e muitas vezes, antes e depois da sua ressurreição.

 

Que nos pede Deus então, relativamente ao número de filhos? Pede-nos, como em relação a tudo o resto, para darmos na medida da nossa generosidade e da nossa capacidade conjugal - e não esqueçamos que a viúva pobre, dando uma só moeda, deu mais do que os fariseus ricos, deixando cair muitas moedas; pede-nos para nos abrirmos aos planos de Deus e estarmos disponíveis para reformular os nossos planos, se Ele nos desafiar; pede-nos para não fazermos muitas contas nem nos preocuparmos demasiado, pois o Pai do Céu bem sabe do que precisamos; pede-nos para não termos medo.

A medida do amor de Jesus, conhecêmo-la bem: é a cruz. A nossa? Cada um de nós, e cada casal em uníssono (acima de tudo, a unidade...), deverá responder a este amor com a sua própria medida, uma medida cheia, calcada, a transbordar...

 

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publicado às 07:43



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