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Os trava-línguas da Bíblia e as histórias do Rei David

por Teresa Power, em 21.01.16

Gostam de trava-línguas? Experimentem este, retirado textualmente do Evangelho que lemos na missa diária há uns dias atrás:

 

"Os discípulos de João guardavam jejum. Vieram perguntar a Jesus: «Por que motivo jejuam os discípulos de João e os teus discípulos não jejuam?» Respondeu-lhes Jesus: «Podem os companheiros do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles?»" (Mc 2, 18-22)

 

Se conseguirem ler todos os "j" como deve ser, e ler "Jesus" com "s" e não com "j" no meio também, estão de parabéns! Cá em casa, bem nos esforçámos por ler direitinho o Evangelho, mas não tivemos êxito. Fomos passando a leitura de uns para os outros, e as gargalhadas já eram tantas, que desistimos.

- Ah, então os judeus jejuam com João, mas não jejuam com Jesus! - Dizia o Francisco, brincalhão, no meio da festa.

- E quando Jesus partir, jejuarão - Acrescentava a Clarinha, também muito divertida.

Sim, cá em casa brincamos com a Bíblia, com todo o respeito que a nossa inocência e a nossa simplicidade nos permitem. Deus tem um grande sentido de humor, e gosta da nossa alegria! Depois de um trava-línguas tão engraçado, nenhum de nós se esquecerá desta passagem...

E os nomes? Já repararam na abundância de nomes que as leituras da missa diária ultimamente nos oferecem? Elcana, Fenena, Abiatar, Eliab, Aminabab... Quando os lemos cá em casa, não evitamos uma gargalhada. E às vezes, para os meninos estarem com atenção, fazemos o jogo: "Quem consegue memorizar os nomes na leitura que vou fazer?"

Bem, e ainda nos podemos divertir com os pormenores de alguns episódios. Há poucos dias lemos como Saul se tornou rei enquanto procurava as suas jumentas, ontem lemos como David venceu Golias com uma fisga, e agora, preparem-se, vêm aí os episódios mais divertidos, de como David poupou Saul à morte (não vos conto como foi, mas digo-vos já que vale a pena descobrir) e como Absalão foi morto. Cá em casa, estes episódios fazem furor!

Enfim, de brincadeira em brincadeira, de jogo em jogo, vamos memorizando a Palavra de Deus. Depois, com todo o respeito, beijamo-la, e colocamo-la de novo no Canto de Oração. E conversamos longamente sobre ela.

Tudo isto para vos dizer: não percam as histórias do Rei David, que todos os dias as leituras da missa nos oferecem, neste início de ano! David foi um grande santo, mas também um grande pecador. Disse o Papa Francisco ontem, na homilia, que David nos ensina esta grande verdade: "Não há santo sem passado, não há pecador sem futuro." David pecou muito, mas arrependeu-se muito também, chorou o seu pecado até ao fim da sua vida, e aceitou como merecidos todos os seus infortúnios. Longe de desbaratar a graça recebida, David lavou o seu pecado na misericórdia de Deus e mudou radicalmente o seu caminho. Profundamente humilde, louvou e amou a Deus como poucos. E talvez com exceção de Moisés, não há no Antigo Testamento personagem mais querido do Senhor.

Possa a nossa "telenovela" diária ser a Palavra do Senhor, no meio de alegria, de brincadeira, de oração, de meditação, de muita e profunda conversa! Nos serões familiares, com os mais novos ao colo, imitemos os passarinhos que levantam voo em bando, uns atrás dos outros, uns protegendo os outros, uns puxando pelos outros... em direção ao Coração de Deus...

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As obras da misericórdia e as estrelinhas do presépio

por Teresa Power, em 07.12.15

Hora de catequese e oração familiares. Nestes dias de advento, este tempo tem vindo a alongar-se alegremente. Em torno do presépio, aquecidos pela lareira, iluminados pelas luzes da Árvore de Jessé, vamos meditando e rezando. A novena da Imaculada Conceição e a Árvore de Jessé têm-nos dado a oportunidade de recordar e recontar várias histórias da Bíblia, no meio de grande animação. Também as leituras da missa do dia, neste tempo de Advento, são particularmente profundas e sugestivas, gerando grandes conversas entre nós. De olhos postos no presépio, vamos falando com o Senhor e deixando que Ele nos fale...

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Mas hoje é preciso fazer uma catequese especial, pois o Ano Santo da Misericórdia está à porta.

- Meninos, sabem quais são as sete obras da misericórdia corporais? Há muitas, claro, mas a Igreja fala em sete, para nos ajudar a concretizar alguns gestos que estão ao alcance de todos.

- E quais são?

- Ora escutem: dar de comer a quem tem fome, e dar de beber...

- ... a quem tem sede!

- Mamã, precisamos de levar pacotes de leite para a escola. É para uma campanha para a Casa do Gaiato!

- Ora aí está uma bela ideia. Outra obra: vestir os nus...

- Isso inclui as horas passadas ao ferro ou a dobrar roupa?

Gargalhadas.

- Acho que sim! Outra: visitar os presos, dar pousada aos peregrinos, enterrar os mortos, visitar os doentes...

- Na minha sala, quando um menino está doente na escola e não pode ir ao recreio, um de nós fica na sala com ele. Eu fico muitas vezes a fazer companhia!

- Que boa obra de misericórdia!

- Visitar a bisavó também conta?

- Conta, claro! E agora escutem: a Igreja também nos fala das obras de misericórdia espirituais. E olhem que bonitas: dar bom conselho...

- Eu costumo dar bons conselhos aos meus amigos.

- Então fazes uma obra de misericórdia, David. E aqui vai outra: corrigir os que erram, ensinar os ignorantes...

- A minha professora passa a vida a corrigir os meus erros! Ela faz muitas obras de misericórdia!

Gargalhadas.

- Pois faz, Lúcia. Ser professor pode ser uma bela obra de misericórdia, e eu sei-o bem! Outra: perdoar a quem nos faz mal...

- Eu perdoo aos manos quando eles destroem as minhas construções!

- E eu desculpei a Sara quando ela me rasgou o desenho.

- Escutem esta: consolar os tristes...

- Isso fazemos nós sempre na escola, junto dos amigos!

- E eu faço em casa convosco quando choram! Há outra obra de misericórdia muito interessante: suportar as fraquezas do próximo com paciência.

- Que significa isso?

- Significa que todos nós somos imperfeitos, e por vezes é difícil viver com a imperfeição dos outros. Especialmente se temos de lidar com essa imperfeição várias vezes por dia! É o que acontece na família. E ser misericordioso é ser capaz de aceitar os defeitos do outro, mesmo quando nos incomodam, com paciência...

- Como nós aceitamos quando gritas connosco?

- Ou como eu aceito quando os manos não me deixam estudar em paz.

- Mas nós também aceitamos que ocupes o quarto todo a fazer ginástica!

- E que não arrumes depois...

- Não ouvir à primeira conta?

- Temos de ser pacientes com os gatos e os cães?

- Se formos mais pacientes uns com os outros, estamos a fazer uma belíssima obra de misericórdia. E sabem qual é a última? Rezar pelos outros.

- Essa nós fazemos todos os dias!

- Ouçam então: ao longo do Advento, vamos fazer todos os dias várias obras de misericórdia, em casa, na escola, em todo o lado. Depois, durante a oração familiar, iremos colocar no presépio uma estrelinha. Quando chegar o Natal, o Canto de Oração será um céu estrelado, digno da noite de Natal.

- Podemos começar já?

- Fizeste uma obra de misericórdia hoje?

- Fiz! Deixei a Sara fazer o puzzle comigo, e ela rasgou uma peça...

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 "«Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede e te servimos, doente ou na prisão e te visitámos, peregrino ou estrangeiro e te acolhemos?» E o Rei responderá: «Sempre que fizestes estas coisas a um dos meus irmãos, a Mim o fizestes.»"

(Mt 25, 37-40)

 

No encontro de Aldeia de Caná de sábado, o Pedro e a Sandra fizeram-nos um belíssimo ensinamento sobre o Ano Santo e as obras de misericórdia. Para as crianças, levaram desenhos para colorir sobre o tema, que foram buscar a este blog. Os desenhos são realmente sugestivos e permitem-nos aprender de cor as obras da misericórdia. Querem usá-los aí em casa? Aqui ficam: obras de misericórdia

Feliz Ano Santo da Misericórdia para todos!

 

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A Lúcia e o paralítico

por Teresa Power, em 17.10.15

A propósito do post de ontem: se ainda não conhecem o vídeo da Lúcia a contar a história do paralítico que Jesus curou, vejam, que vale a pena! Foi no inverno passado, faz quase um ano...

 

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publicado às 06:00

Testemunho

por Teresa Power, em 03.07.15

- Mãe, lembras-te daquele dia em que a vovó Mimé bateu à porta, vocês abriram e ela estava vestida de urso? E todos desataram aos gritos? Era carnaval, não era?

- António, como é que tu sabes, se tu não tinhas nascido? Nessa altura eu era o bebé da família.

- Mas sei, David!

- Como? Sabes que todos gritaram? Sabes mesmo?

- Sei! Sei, porque já ouvi esta história muitas vezes!

Sorri, a conduzir o carro por montes e vales para mais um piquenique em família. Nos bancos traseiros, os mais novos continuaram a conversar sobre as recordações de uns e de outros. Apercebi-me de que era difícil distinguir entre os que tinham vivido as diversas situações e os que as tinham meramente escutado vezes sem conta, em viagens como esta. Ambos recordavam os mais curiosos detalhes e os episódios mais divertidos.

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As histórias de família passam de geração em geração, de pais para filhos, em passeios como este, ou aos serões de inverno, ao redor de uma lareira. E de história em história, nasce a cumplicidade, criam-se laços, edifica-se sobre alicerces antigos. Uns são os que vêem e contam, outros os que escutam e acolhem. As histórias passam, a tradição fica.

S. João inicia assim a sua primeira carta:

 

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e o que as nossas mãos apalparam a respeito da Palavra da vida - porque a vida se manifestou; e nós vimos, testemunhamos e vos anunciamos a vida eterna que estava com o Pai e nos foi manifestada - o que vimos e ouvimos, nós também vos anunciamos, a fim de que também vós vivais em comunhão connosco." (1Jo 1-3)

 

E S. Paulo afirma:

 

"A fé vem pela escuta, e a escuta vem da Palavra de Cristo."

(Rm 10, 17)

 

Nós cremos na Igreja Apostólica, isto é, a Igreja que nasceu do testemunho dos Apóstolos - aqueles que viram e ouviram, tocaram e experimentaram - transmitido de geração em geração pela pregação de uns e a escuta de outros.

Como é na nossa casa? Será que os nossos filhos escutam as histórias de família desta grande Família que é a Igreja? Contaremos nós as histórias da Bíblia e da vida dos santos com o entusiasmo e o ardor das testemunhas oculares? Como o António a contar a história daquele carnaval que não presenciou - falaremos nós dos episódios da vida de Jesus como se os tivéssemos vivido na primeira pessoa? Afinal, foi precisamente para serem vividos por cada um de nós que eles foram escritos...

 

 

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Polícias, pastorinhos e um polvo gigante

por Teresa Power, em 06.05.15

Oração familiar. Leitura do Livro dos Atos dos Apóstolos. O Francisco lê sobre a prisão de Pedro e de João, decretada pelos fariseus.

- Esses polícias são os mesmos que prenderam os pastorinhos de Fátima? - Pergunta a Lúcia com simplicidade.

Entre gargalhadas, explicamos-lhe que não, que viveram algum tempo antes...

No dia seguinte, o António e a Lúcia brincam animadamente com blocos de madeira, enquanto conversam. O António reune várias figurinhas e vai explicando:

- Estes vão à missa, estes não vão...

- Mas somos todos polvo de Deus, António - Explica a Lúcia, com ar superior - Um polvo com muitos braços!

Interrompo a sua conversa, divertida:

- Lúcia, não é polvo, querida, é povo, povo, ou seja, muitas pessoas juntas!

- Ah, eu não sabia...

- Eu sabia! - Interrompe o António, muito seguro do alto dos seus cinco anos.

- Ai sabias, António? - Reage a Lúcia, indignada - A professora Rosário diz que os meninos que sabem tudo podem ir para o décimo segundo ano.

- Não discutam, meninos! Ninguém sabe tudo. A mãe também não sabe tudo. O importante é mesmo querer saber sempre mais, querer conhecer e descobrir sempre mais!

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Estes pequenos episódios da nossa vida de evangelização familiar mostram-me com clareza como é importante evangelizar os nossos, diariamente, em família. Se não lhes contarmos as histórias, se não lhes explicarmos a Palavra, como hão-de conhecê-la para a praticar? As nossas conversas ao serão em torno da Palavra revelam-nos, primeiro, o pouco que sabemos; e depois, despertam em nós a vontade de aprender. Perguntando, respondendo, sugerindo, imaginando, uns com os outros vamos desvendando os mistérios da nossa fé e fazendo caminho com Jesus.

Cá em casa, gostamos de seguir o missal, meditando nas leituras da missa diária. Elas permitem-nos uma sequência na leitura da Bíblia, pois em cada semana, a Igreja medita num Livro Sagrado, um bocadinho cada dia, oferecendo no missal uma pequena explicação introdutória. Para nós, é sem dúvida a melhor forma de ler a Bíblia. Assim, ao longo das semanas do Tempo Pascal meditamos no Livro dos Atos dos Apóstolos e no Evangelho de S. João, e a experiência de aprendizagem tem sido fantástica.

Que cada Família de Caná tenha todos os dias alguns minutos para a Palavra de Deus na sua casa, à semelhança da Mãe, que este mês celebramos de uma forma especial. Maria, na verdade,  alimentava-se diariamente desta Palavra, que reconhecia em cada gesto do seu divino filho:

 

"Quanto a Maria, guardava todas estas coisas, ponderando-as em seu coração." (Lc 2, 19)

 

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publicado às 06:27

Três mil pessoas...

por Teresa Power, em 09.04.15

Terça-feira da oitava da Páscoa. Oração familiar. O Francisco lê a primeira leitura da missa do dia, do Livro dos Atos dos Apóstolos. Durante os cinquenta dias de Páscoa, a Igreja medita diariamente neste livro, lendo-o assim praticamente de ponta a ponta. É uma ótima oportunidade para o ficar a conhecer! Cá em casa, adoramos as aventuras e desventuras dos Apóstolos, cheias de emoção, milagres, suspense, perigos e tudo o que pertence a uma boa história - sobretudo, à história mais bela do mundo - a história do nascimento do cristianismo.

 

"No dia de Pentecostes, disse Pedro aos judeus: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes.» ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu: «Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo.» Naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas." (At 2, 36-41)

 

 - Eles com três mil pessoas, e nós não conseguimos três famílias em Viana para um retiro - Suspirei.

- Tens de compreender que era mais fácil então!

- Mais fácil, Clarinha? Achas? Ora vamos lá pensar... Imagina-te ali, a escutar Pedro, que não conhecias de lado nenhum, a expor uma doutrina nova e diferente de tudo o que já ouviras, a falar da ressurreição de alguém que não fazias ideia quem era, muito menos que estava essa coisa de ressuscitado... Terá sido mesmo mais fácil para eles acreditarem?

- Realmente, agora que falas, já tinha pensado nisso. - Observou o Francisco - Deve ter sido complicado para as pessoas acreditarem... Afinal, Pedro e os Apóstolos não tinham o apoio dos chefes do povo!

- O mesmo com S. Paulo. Como é que ele podia convencer as pessoas de que estava a falar a verdade? De que o cristianismo era para valer? Com que autoridade?

- Tanto Pedro como Paulo falaram com a autoridade do Espírito Santo - Disse o Niall. - Só o Espírito Santo pode abrir os corações e as mentes dos ouvintes, e colocar na boca das testemunhas da fé as palavras certas.

- Por isso, a fé é um dom!

- Sim, temos de pedir ao Senhor o dom da fé. Hoje devia ser mais fácil para nós acreditar... Afinal, temos vinte séculos de histórias da Igreja, histórias da sua presença no mundo, as vidas dos santos ... Só santos canonizados, temos mais de 20 000! Tantas histórias de bondade para nos ajudarem a acreditar em Jesus! E mesmo assim, continuamos a recusar-Lhe o nosso tempo, o espaço da nossa vida.

- Vais cancelar o retiro por falta de famílias?

- Vou. Infelizmente, terá de ser. As famílias que estão inscritas poderão certamente participar no próximo, em Neiva, e não precisam de fazer nova inscrição. Entretanto, rezemos para que o Espírito Santo abra os corações, e para que nos santifique a nós, a fim de podermos ser instrumentos nas mãos de Deus...

 

O retiro de Viana está então cancelado. Mas em maio estaremos em Neiva... Peçamos aos Apóstolos que intercedam por nós, para que todos nos saibamos abrir ao dom do Espírito Santo. Ámen!

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O passarinho

por Teresa Power, em 08.04.15

Durante as férias, quando me dirigia ao jardim para estender um cesto de roupa, um passarinho caiu no chão mesmo diante dos meus pés. Baixei-me para o apanhar. Não ofereceu resistência, tão pequenino era. Chamei os meninos, que correram a ver:

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- Oh, tão pequenino!

- Coitadinho!

- Tem os olhinhos tão abertos! Não está nada aflito!

- Parece estar muito contente na tua mão! Posso fazer uma festinha?

- Claro. Com mais jeitinho, Sara, que esmagas o pobrezinho!

- E agora?

Ficámos um pouco indecisos. Não sabíamos de que ninho tinha ele caído, pois não conseguíamos ver nenhum, e não sabíamos o que fazer. Por fim, lembrámo-nos da casinha para passarinhos que os meninos tinham construído nas férias grandes.

- Vão buscá-la, para o passarinho ficar protegido lá dentro. - Sugeri.

- Eu ponho lá ervinha!

- E eu, um pratinho com água.

- David, vai buscar um bocadinho de ração das galinhas.

- Vou a correr!

A casinha ficou pronta, e colocámos lá dentro o passarinho. Eu não tinha esperança que sobrevivesse, tão fraco ele estava, mas não queria vê-lo nas garras dos gatos, pelo que a casinha era a melhor solução.

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O passarinho sobreviveu mais algumas horas, bem vigiado pelos quatro pequeninos, com uma espreitadela de vez em quando dos dois mais velhos. Ninguém se foi deitar nessa noite sem verificar que o passarinho estava vivo e feliz na sua nova casinha.

Mas na manhã seguinte, confirmou-se a sua morte. Era na verdade muito pequenino! O David e a Lúcia ficaram particularmente tristes.

- A mamã e o papá do passarinho devem estar aflitos - Dizia-me o David.

- Tenho tanta pena dele! Agora que a primavera está a chegar, tinha de morrer!

- Pelo menos não foi brinquedo para gato.

Poucas horas depois, chegaram os primos. E no meio das alegres brincadeiras que inventaram todos juntos, decidiram também fazer um funeral digno de passarinho, em Náturia:

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Cantaram, cavaram um buraco, embrulharam o passarinho em folhas e depositaram-no no seu túmulo. Horas mais tarde, a Lúcia chegou a casa eufórica:

- Mamã, mamã, o passarinho já está no céu! O passarinho já ressuscitou!

- Como sabes?

- Fui ao seu túmulo e ele já lá não está!

- Ah...

 

A história do passarinho acaba aqui. Mas pela minha mente passou uma outra história, a história de Jonas. Sim, aquele que esteve três dias no ventre de uma baleia e que foi vomitado numa praia branca, em Nínive, para pregar o arrependimento a um povo de pecadores... O que nem todos sabem é que, no final do Livro de Jonas, surge um episódio muito pitoresco, não com um passarinho, mas com uma planta que desconheço e se chama rícino. Diz a história que

 

"O Senhor Deus fez crescer um rícino, que se levantou acima de Jonas, para fazer sombra à sua cabeça e o proteger do Sol. Jonas alegrou-se grandemente por aquele rícino. Ao outro dia, porém, ao romper da manhã, enviou Deus um verme que roeu as raízes do rícino, e este secou." (Jn 4, 6-7)

 

Jonas ficou tristíssimo com a morte do rícino. Deus então disse-lhe:

 

"Sentes pena de um rícino que não te custou trabalho algum para o fazeres crescer, que nasceu numa noite, e numa noite pereceu! E não hei-de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?" (Jn 4, 10-11)

 

Jonas, na verdade, estava irritado porque Deus perdoara ao povo de Nínive, povo que, segundo Jonas, não merecia o perdão divino. Somos tão parecidos com Jonas! É tão fácil para nós encontrar quem não mereça o perdão divino! Desde o vizinho do lado ao piloto do avião que se despenhou... No entanto, todos foram criados por Deus e amados antes mesmo de existirem. Como não há de o Senhor compadecer-se dos pecadores?

E os passarinhos caem do céu, e Deus dá-nos um coração compassivo...

Senhor, que eu saiba compadecer-me! Ensina-me a experimentar um bocadinho da tua grande misericórdia para com cada passarinho, cada rícino, mas acima de tudo, cada ser humano, que criaste com tanto amor. Ámen!

 

 

 

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Domingo de Páscoa e as histórias da ressurreição

por Teresa Power, em 06.04.15

Aleluia! Aleluia!

 

"Porque buscais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui; ressuscitou, como havia dito!"

(Lc 24, 5-6)

 

Acordámos cedo, porque a visita pascal não se faz esperar. Logo pela manhã, depois de procurarem ovos pintados e ovos de chocolate escondidos pela casa, os meninos correram para o jardim, atentos ao som dos sinos:

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E eis que eles chegam, primeiro ao longe, depois mais perto... Sim, a visita pascal!

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O senhor padre entrou em nossa casa, trazendo-nos a bênção do Senhor. Com o Francisco a tocar guitarra, cantámos todos juntos cânticos de ressurreição. Que alegria!

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 Perto da hora de almoço, chegaram a avó, os tios e os primos. De repente, a casa ficou cheia!

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 O sol, o calor e a felicidade da reunião familiar prolongaram-se durante toda a tarde. Na nossa bela quinta de Náturia, as crianças entretiveram-se a brincar, explorando, construindo passagens secretas... Que é aquilo que as primas construíram?

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 Vamos ver mais de perto...

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 Uma cabana! Os primos mais pequeninos não perderam a oportunidade de ali brincar:

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 Ena, tanta brincadeira!

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 Ao fim do dia, depois da avó, dos tios e dos primos irem embora, fomos todos juntos à missa, celebrar em família a ressurreição de Jesus. Afinal, apenas metade da família tinha participado na vigília pascal, e não queríamos deixar passar o dia mais belo do ano sem celebrarmos juntos a entrega de Jesus por nosso amor!

Por fim, no nosso canto de oração bem iluminado, cantámos aleluias ao Senhor e rezámos o Terço da Misericórdia, fazendo a novena em família.

- Mamã, contas a história da Páscoa? - Pediu o António, antes de dormir. Hesitei, porque o cansaço - dele e meu - já era grande. Mas depois pensei... Como é que as crianças cristãs hão de aprender as histórias da Páscoa, as verdadeiras histórias da Páscoa, aquelas que os evangelistas recolheram nas últimas páginas dos seus livros, se ninguém lhas contar?

- Claro que conto! David, Lúcia e António, sentem-se no sofá que eu conto a história.

Escutaram muito atentos, enquanto lhes falei do espanto da Madalena na manhã de Páscoa, da confusão de anjos e jardineiros, da surpresa dos discípulos, da corrida a ver quem ganha entre Pedro e João, das dúvidas de Tomé, da paz que Jesus a todos trouxe. Para hoje à noite guardei a história de Emaús, e para os próximos dias, o encontro com Jesus à beira do lago...

Que Jesus ressuscitado nos inunde da sua paz. Aleluia! Aleluia!

 

 

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Brincando com a Árvore de Jessé

por Teresa Power, em 30.12.14

- Mãe, jogas às charadas connosco?

Um dos nossos jogos preferidos em família é o jogo das charadas: cada um, à vez, faz a mímica de um objecto, pessoa ou animal, e todos tentamos adivinhar. Não pensem que é um jogo fácil! Deviam ver a mímica altamente elucidativa do António para representar, imaginem, uma rocha a cair de uma falésia, ou os esforços do David para representar um pedal de bicicleta... As coisas de que eles se vão lembrar! Valha-nos a Lúcia, que geralmente é sempre uma mãe ou uma princesa, e a Sara, que costuma ser a última coisa que os outros foram, o que torna a adivinhação bastante simples.

- OK, jogo convosco, mas hoje fazemos umas charadas diferentes.

- Como?

- Charadas com as histórias da Árvore de Jessé! Vocês olham para os símbolos e representam-nos. Depois, contam a história!

- Boa!

- Que giro!

- Vamos lá então...

Adivinhem lá o que são estes meninos?

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 O David agitou as mãos e os braços. Sim, adivinharam: a Sarça Ardente! E este agora?

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 Claro! A queda de Jericó, ao som da trombeta! Quanto à Lúcia...

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Balançando-se no tapete azul, a Lúcia foi a Arca de Noé sobre as águas do Dilúvio. Não custou a adivinhar!

 

A boa surpresa foi que os meninos conheciam bem todas e cada uma das histórias da Árvore de Jessé, que tinhamos contado ao longo de todo o Advento. É engraçado ouvir uma criança a repetir uma história, pois apercebemo-nos de que ela não memorizou apenas o enredo: memorizou a entoação e os pequenos detalhes que tornaram a história mais interessante. As crianças escutam as histórias como nós somos chamados a escutar a Palavra de Deus: com o coração.

 

Estaremos nós, famílias católicas, a contar suficientes histórias desse livro tão recheado de aventuras que é a Bíblia? Conhecerão os nossos filhos suficientemente a Palavra de Deus? Brincaremos suficientemente à volta desta Palavra de Vida? Trazemo-la para o nosso Tempo de Família? No Deuteronómio, o Senhor deixou um mandamento a todas as gerações de crentes:

 

“Trarás no teu coração todas as palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás muitas vezes a teus filhos e delas falarás quando estiveres sentado em casa ou andando pelos caminhos, quando te deitares ou te levantares. Hás de prendê-las á tua mão para servirem de sinal, e hás de escrevê-las no portão da tua casa.” (Deut 6, 4-7)

 

Aproveitemos as férias para brincar com os nossos filhos, enquanto lhes ensinamos a Palavra de Deus!

 

 

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De olhos vendados

por Teresa Power, em 25.11.14

"Abraão! Abraão! Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar." (Gn 12, 1)

 

O chamamento de Abraão é a primeira narrativa histórica do Livro do Génesis. Para trás, ficam os contos e as parábolas sobre a Criação do mundo. Abraão é o primeiro homem histórico de que temos registo capaz de escutar a voz única e inconfundível do Criador, e de Lhe responder "Sim".

 

- Mas Abraão via Deus? - Queriam saber os mais pequeninos, na sala da Lúcia, na catequese.

- Não, não via, apenas ouvia. Era uma voz paternal, forte, profunda, que Abraão ouvia com os ouvidos do coração...

- Ah! E ele obedeceu a Deus?

- Sim. Abraão obedeceu, seguindo a voz que ouvia, mesmo sem ver. Vou mostrar-vos como foi!

E o catequista da Lúcia chamou uma menina, vendou-lhe os olhos e começou a dar-lhe instruções:

- Para a direita! Agora em frente... Dois passos... Isso. Para a esquerda... Boa! Agora podes sentar-te... Ena, acertaste! Tira a venda: estás sentada na minha cadeira!

A Lúcia regressou a casa eufórica com este jogo tão simples.

- Vês, mãe, já sei como é obedecer a Deus! É como jogar à cabra-cega!

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 Fiquei a pensar nas palavras da Lúcia. Como ela tem razão! A vida assemelha-se tantas vezes a um caminho que percorremos de olhos vendados, totalmente incapazes de vislumbrar o que fica para além da próxima colina ou da curva seguinte... De olhos vendados, sem GPS e sem trilhos marcados, resta-nos apurar os nossos ouvidos interiores e escutar.

 

- Nós temos bem mais sorte do que Abraão - Expliquei eu aos meus catequisandos, mais velhos que a Lúcia.

- E porquê?

- Porque temos mais formas de escutar a voz de Deus...

- Claro! Temos a Bíblia!

- Sim, temos a Bíblia. Milhões e milhões de Palavras de Deus, que podemos escutar sempre que quisermos! Além disso, temos a Igreja, que se esforça por estar atenta ao Senhor, traduzindo a sua Palavra para cada geração. Precisamos de estudar o Catecismo! Se lermos as cartas papais, se lermos as suas catequeses semanais e homilias diárias, por exemplo no site do vaticano, não nos vamos perder no caminho. Naturalmente que, sem a oração pessoal, nenhuma destas palavras, da Bíblia ou do Papa, farão caminho dentro de nós...

 

Oração pessoal, meditação da Bíblia, Catecismo da Igreja Católica: três formas de escutar a voz de Deus! Depois, é preciso abandonar a nossa terra, a nossa zona de conforto, o nosso pecado, os nossos sonhos, os nossos projectos pessoais, e lançarmo-nos à estrada. De olhos vendados, mas de coração atento, saibamos imitar o nosso pai na fé, Abraão, e como ele, montar a nossa tenda no Coração do Senhor...

 

 

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