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Árvore caída

por Teresa Power, em 07.04.16

Durante as férias da Páscoa, fomos ao parque da Curia, como já é habitual. O Francisco, a Clarinha e o David fizeram de bicicleta os dois quilómetros que nos separam da Curia, e eu segui no carro com os três mais novos.

O parque estava lindo, cheio de luz e de sombras, de caminhos enlameados onde se refletiam os raios de sol, que teimavam em espreitar pelas altas copas das árvores.

- Vamos explorar, mãe! Até já! - Disseram quase todos ao mesmo tempo, deixando-me com a Sara pela mão. Mas a Sara também quis explorar, claro, e obrigou-me a correr pelos carreiros atrás dos meus filhos.

- Mãe, vem cá ver! Encontrámos uma coisa maravilhosa!

- Maravilhosa! A melhor brincadeira do mundo!

- Nem imaginas! Dá para fazer coisas fantásticas!

- Já subimos e descemos e já andámos de baloiço ali e tudo!

Fiquei cheia de curiosidade. O que seria? Cheguei a uma clareira, e vi... Bem, vejam vocês comigo:

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 Julgo que terá sido uma das recentes tempestades a lançar por terra estas árvores grandiosas e belas, que fazem do parque da Curia um lugar tão especial...

Árvores caídas. Árvores arrancadas pela raiz. Árvores que já não se elevam para os céus, mas se misturam com a lama e a terra. Árvores que em vez de raizes, enterram as folhas e as flores. Para nós, adultos, a visão de uma árvore tombada é desoladora.

Mas os meus filhos não vêem as coisas assim...

Para eles, as árvores tombadas transformaram-se em baloiços, labirintos, paredes de escalada, lugar de brincadeira. Foi ali mesmo, ao lado daquelas pobres árvores, que lanchámos e que passámos a maior parte da tarde.

De regresso a casa, dei comigo a sorrir sozinha. É tão giro ver as crianças a tirar proveito de tudo! A árvore já não nos dá oxigénio? Sempre nos pode servir de baloiço. A árvore já não abriga os passarinhos? Mas agora abriga as centopeias... Razão tem o Senhor ao dizer que precisamos de um coração de criança para sermos verdadeiramente felizes!

Fiquei a pensar na quantidade de coisas e acontecimentos da vida que podemos, como as crianças, explorar de forma diferente daquela com que foram planeados ou desejados: o emprego que tenho não me dá a riqueza que eu merecia? Talvez me torne rico em humildade... O namoro não correu bem? Quantas lições me ensinou! Os filhos não aprendem com facilidade? Vão certamente aumentar a minha paciência. Os professores não explicam como deveriam? Se explicassem, nunca me teriam feito procurar as respostas por mim mesmo. Sofri uma injustiça? Que ótima oportunidade para unir o meu coração ao de Jesus! Não encontro ninguém com quem casar, ou não consigo engravidar? Talvez esta "árvore caída" me ofereça uma oportunidade novinha em folha de responder a uma vocação diferente e especialíssima do Senhor! A reunião de trabalho parece interminável? Espero que me poupe pelo menos meia hora de purgatório :)

Através de Isaías, o Senhor assegura-nos que é no deserto que brotam os seus rios divinos, e da terra queimada que surgem os seus lagos:

 

"As águas jorrarão do deserto e a terra queimada mudar-se-á em lago, as fontes brotarão da terra seca." (Is 35, 6-7)

 

Cada vez que recordo as gargalhadas no nosso piquenique na Curia, vem-me ao pensamento uma oração... Rezem-na comigo: "Jesus, dá-me um coração de criança, para que eu saiba sempre brincar em cima de qualquer árvore caída na minha vida! Ámen."

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A Providência Divina

por Teresa Power, em 23.10.15

Catequese. O meu grupo é constituído por adolescentes de catorze anos, atentos e mais ou menos interessados. Juntos, lemos o Evangelho:

 

"Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois valeis muito mais do que os pássaros." (Mt 10, 29-31)

 

- Acreditam mesmo, mesmo nas palavras que acabámos de escutar? - Pergunto, perante o silêncio. Um encolher de ombros, alguns sorrisos.

- Isso é simbólico, Teresa!

- Alguém aqui acredita que Deus sabe quantos cabelos temos na cabeça?

Silêncio.

- Alguém acredita que Deus tem tempo para se preocupar com os passarinhos que caem do céu?

- Eu acho que não...

- Eu também acho que não deve ser bem assim...

A conversa está a ganhar forma. Durante meia hora, conversamos sobre a Providência Divina.

Mais tarde, de regresso a casa, escuto um piar aflitivo vindo do galinheiro. Os pintaínhos nasceram há poucos dias, e fazem as delícias dos mais novos. Que se passará? Corro ao galinheiro, e reparo que um deles, muito pequenino, conseguiu sair pela rede e está a tentar regressar, numa grande algazarra. Carinhosamente, pego-lhe com uma mão e devolvo-o à sua pobre mãe, que cacareja incessantemente.

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Depois recordo-me da conversa com os meus catequisandos. Será que eu acredito verdadeiramente que Deus cuida dos meus pintainhos, das minhas galinhas, dos cabelos da minha cabeça? Será que acredito verdadeiramente que Deus cuida de cada refugiado sírio, de cada criança com fome, de cada mãe abandonada? Segundo a Clarinha aprendeu em Geografia, parece que a cada trinta segundos morre uma criança com malária no mundo. Acredito verdadeiramente que Deus cuida dela?

O que é isto da Providência Divina? Até que ponto eu acredito - sem ver, sem compreender, sem sondar as profundezas, sem encontrar nenhum sentido - num Deus que me deixa livre de fazer o bem e de fazer o mal, num Deus que me ama mas permite que O não ame, num Deus que me acolhe mas permite que O rejeite, num Deus que morreu para que eu vivesse, num Deus que é só Amor?...

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publicado às 06:00

O diospiro de cada dia

por Teresa Power, em 20.10.15

Este outono, pela primeira vez, o nosso jovem diospireiro encheu-se de frutos. Como quase todos adoramos diospiros, tem sido uma verdadeira festa! O António e a Sara, em especial, passam o tempo a correr à horta para colher diospiros. Vêm ter comigo com as mãos cheias e o sumo espesso entre os dedos: "Mamã, olha!" 

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 No sábado fui com eles apanhar diospiros e enchemos uma taça. Depois sentámo-nos no jardim e cortei diospiros para toda a família, até não sobrar nenhum.

- Olha só isto, Niall, uma taça cheia de diospiros terminada!

- Está visto que colhemos todos os dias a dose certa! - Riu-se ele. - Acho que a nossa árvore tem o tamanho ideal: se colhêssemos mais diospiros por dia, eles acabavam por apodrecer, porque os diospiros têm esta característica de apodrecerem muito depressa também!

- É verdade! A nossa árvore dá-nos todos os dias a dose certa... Nem demais, nem de menos!

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Lembrei-me então do maná, essa bela surpresa de Deus no deserto. Naquela madrugada, o povo acordou e viu uma fina camada branca e orvalhada sobre a areia:

 

"Os filhos de Israel disseram uns aos outros: «Que é isto?» Pois não sabiam o que era aquilo. Disse-lhes Moisés: «Isto é o pão que o Senhor vos dá para comer. Foi isto que o Senhor ordenou: ‘Recolhei cada um conforme os que habitem na sua tenda.’»
Assim fizeram os filhos de Israel, e recolheram, uns muito, outros pouco. Não sobejava a quem tinha muito e não faltava a quem tinha pouco. Cada um recolhia conforme o que comia.
Disse-lhes Moisés: «Ninguém guarde até de manhã.» Porém, alguns não escutaram Moisés, e guardaram até de manhã; mas ganhou vermes e cheirava mal. E Moisés irritou-se contra eles. Recolhiam-no todas as manhãs, cada um conforme o que comia. E quando o sol aquecia, derretia-se." (Ex 16, 17-21)

 

O maná não foi apenas o alimento do povo no deserto; foi sobretudo uma lição de confiança e de simplicidade. Em cada madrugada, as famílias aprendiam a confiar um bocadinho mais no Senhor, recolhendo apenas o necessário para cada dia, e aprendiam a vencer invejas, rivalidades, receios, ganância.

Quantos de nós nos preocupamos em recolher, em cada dia, apenas o alimento necessário? Talvez estejamos a trabalhar demais, não por necessidade, mas para enriquecer... E talvez com isso estejamos a roubar tempo a Deus e à família! Por outro lado, talvez nos tenhamos fechado ao dom da vida, com medo de não termos nem dinheiro nem paciência para educar mais um filho... Estaremos a fazer as contas ao imprescindível ou ao supérfluo? Quanto à paciência, é-nos oferecida em cada manhã de acordo com o tamanho da família, tal como o maná! Onde fica a fronteira entre prudência e o receio, entre a confiança e a irresponsabilidade, entre a generosidade e a loucura? Senhor, dai-nos o pão de cada dia, e com ele, a sabedoria do coração... Ámen!

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No cimo da árvore

por Teresa Power, em 24.06.14

Anteontem à noite, no meio da chuva que caía com força, ouvimos uns miados aflitivos em Náturia, no descampado por detrás da nossa casa. Depois de uma boa meia hora a escutar os mesmos sons, o Niall decidiu enfrentar a chuva e procurar o autor de tantos gemidos. Passados alguns minutos, regressou a casa e saiu de novo, desta vez munido de um escadote. Fiquei à espera, curiosa. Quando regressou, trazia isto nos braços:

 

- Que é isto, Niall? Não nos bastava a Pantufa (afinal não é o Pantufa, mas a Pantufa) e a Branquinha?

Ele encolheu os ombros, resignado:

- Não podia deixá-los a chorar no cimo de uma árvore, podia? Quem abandona assim os gatos não tem coração. Mas eu tenho!

Cá em casa, a animação tem sido grande. Quatro gatinhos pequeninos, todos a correr e a saltar por todo o lado, é bastante divertido! Especialmente quando se tem menos de sete anos. A Sara então, fica tão entusiasmada, que não sabe para onde se virar! E eles, claro, depois de experimentarem uma vez a sua mão sapuda, fogem dela a sete pés!

 

 

 

A Pantufa já gosta de se deitar aos pés de Nossa Senhora:

 

A Branquinha, que encontrámos há cerca de duas semanas na horta (provavelmente "oferecida" pelo mesmo vizinho que "ofereceu" a Bella) é muito pequenina, mas muito patriota:

 

O Tiger e o Riscas (ou serão a Tiger e a Riscas?) são do mesmo tamanho da Branquinha, e desconfiamos que sejam irmãos pela forma carinhosa com que se enroscaram uns nos outros, depois do salvamento espectacular do Niall. 

Agora precisamos de arranjar casas para dois ou três destes gatinhos. Se conhecerem alguma aqui perto, digam!

 

Aquela árvore no meio da tempestade e da noite, os gatinhos a miar aflitos lá em cima, o Niall encharcado empoleirado num escadote... Jesus disse no Evangelho:

 

"Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois valeis muito mais do que os pássaros." (Mt 10, 29-31)

 

É tão difícil acreditar nisto! Eu sei que tenho repetido esta ideia neste blogue de tempos a tempos. E continuarei a repetir, pois estou convencida de que esta Palavra é absolutamente fundamental na nossa vida. Acreditaremos nós verdadeiramente nela? Acreditaremos nós que Deus cuidou daqueles gatinhos, ao ponto de chamar o Niall para os ir buscar ao cimo da árvore? Acreditaremos nós que valemos muito, mas muito mais do que um gatinho? E que, por nós, Deus está disposto a subir a qualquer árvore, debaixo de qualquer tempestade, para nos resgatar?

Bem, Deus já o fez... Por nós, Jesus subiu à Arvore da Cruz e, de braços abertos, deu a vida para nos resgatar! Quando acreditaremos verdadeiramente nisto? No dia em que o fizermos, seremos profundamente felizes...

 

 

 

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publicado às 08:44

O colo de Deus

por Teresa Power, em 07.06.14

A "linda" primavera que temos tido tem destas coisas: um dia, o David chegou a casa com dores de cabeça e 39º de febre; no dia seguinte, de manhã, foi a Lúcia quem acordou com dores de cabeça e 39º de febre. Como sempre nestas ocasiões, preparei-me para o próximo doente, pois a minha experiência diz-me que os virus que entram na Família Power percorrem todos os membros da família antes de se despedirem. E assim foi: quando o David e a Lúcia regressaram à escola, adoeceu o António.

 

Mas olhem bem para esta cara... Parece-vos cara de doente?

Se lhe perguntarem como se sente, ele responde:

- Dói-me a cabeça e tenho febre! Vou ficar em casa e vou ficar com a mamã!

Tenho a forte sensação de que o António está feliz por ter adoecido... Ele sentiu alguma inveja do David e da Lúcia, quando soube que eles iam ficar em casa um dia inteiro. Agora é a sua vez de experimentar os mimos exclusivos da mãe, e como não se havia de alegrar por isso?

 

No seu Decálogo, S. João XXIII escreveu assim:

"Só por hoje, acreditarei firmemente que, embora as circunstâncias demonstrem o contrário, a providência de Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo."

E a Ana Santos comentou:

"Talvez como uma "tragédia" para uma criança diminui, quando é confortada pela mãe, também nós nos devíamos mais vezes deixar envolver pelo amor do Pai, e abandonarmo-nos no Seu colo."

 

As dificuldades da vida são a nossa grande oportunidade de experimentar os mimos do Pai!  Disse Jesus, numa das Palavras mais belas do Evangelho:

 

"Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de Coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve." (Mt 11, 28-30)

 

Cumpramos então este doce mandamento do Sagrado Coração de Jesus! Lancemos os nossos fardos sobre a sua Cruz e descansemos no seu Amor. E como a febre do António lhe conquistou o meu colo, também a nossa doença, a nossa pobreza, o nosso fracasso, a nossa agonia nos merecerá o colo de Deus...

(Já fizeram o vosso Sagrado Coração? Enviem as fotos para o meu mail, a fim de as publicar!)

 

 

 

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O ninho

por Teresa Power, em 10.05.14

Finalmente consegui fazer uma foto de um dos "nossos" chapins azuis! Neste post, falei-vos da sua chegada esta primavera e de como não conseguia fotografá-los. Mas ontem esperei pacientemente à porta da cozinha, de máquina fotográfica preparada, e disparei no exacto momento em que a mamã regressava ao ninho com o bico cheio de coisas boas:

 

Cinco segundos mais tarde, o passarinho saiu novamente do ninho, para apanhar mais qualquer coisa para os seus filhotes. E antes que regressasse, já o papá tratara de alimentar os passarinhos bebés. E de novo lá foram os dois, entrando e saindo do ninho com à velocidade da luz, imensas vezes por minuto! Se encostarmos o ouvido ao tronco da árvore, podemos escutar os passarinhos bebés a pipilar insistentemente, sempre esfomeados. Pobres pais, que não têm um momento de descanso no meio desta azáfama toda!

 

Quinta-feira à noite, o jantar estava particularmente saboroso - pelo menos assim disseram eles... O resultado foi que, mal acabava de cortar a carne no prato da Lúcia, já o António estava à espera que lhe cortasse a carne pela segunda vez; e ainda não acabara, quando a Sara começava a choramingar por mais! De pé à volta dos quatro mais novos, o Niall e eu atarefávamo-nos a preparar prato após prato, sem tempo para comer. Foi quando me lembrei dos chapins azuis da nossa oliveira.

- Parecemos um casal de chapins azuis à volta das crias! - Comentei com o Niall, a rir. Ele deu uma gargalhada.

- Quais as crias que fazem mais barulho? As nossas ou as deles?

- As vossas, com toda a certeza - Interveio o Francisco, que gosta pouco do barulho que os irmãos pequenos fazem durante as refeições e não considera a sua conversa ininterrupta "barulho".

Sim, acho que são as nossas...

 

Mais tarde, lembrei-me do salmo 104/103:

 

"Senhor, a Terra está cheia das tuas criaturas!

Todos esperam de Ti que lhes dês comida a seu tempo.

Dás-lhes o alimento, que eles recolhem,

abres a tua mão e saciam-se do que é bom!"

 

Afinal, quem se afadiga à minha volta é mesmo o Senhor... Ele cuida de mim com bem maior solicitude e prontidão do que eu alguma vez conseguirei cuidar dos meus pequeninos! Como a mãe passarinho, Deus não poupa esforços para me fazer feliz e me cumular da sua graça, oferecendo-me o seu alimento divino a cada momento! Por mim, Jesus derramou todo o seu sangue.

Se por uma fracção de segundo, uma só fracção de segundo, Deus deixasse de querer bem ao universo, tudo desabaria nesse exacto instante. Sim, é Deus quem tudo sustém na sua mão e quem cuida do mais pequeno pormenor da nossa vida... Quando acreditaremos nisso? Ah...

 

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publicado às 07:09

O carteiro

por Teresa Power, em 08.05.14

O António acha que o carteiro é a pessoa mais generosa do mundo. De vez em quando, ele toca à campaínha e oferece-lhe um embrulho grande, castanho, cheio de selos. Geralmente vem da Irlanda e traz dentro uma prenda dos avós, que lá longe, se lembram dos seus netos portugueses. Mas o António não percebe muito bem o que se passa. Para ele, o presente é oferecido por quem lho coloca nas mãos, e nada mais.

Hoje de manhã, enquanto o vestia, tivémos esta conversa:

 

- António, vem depressa vestir estes calções e ver se servem. Se servirem, levas hoje para a escolinha.

- São novos?

- Mais ou menos. Para ti, são.

- Quem deu?

- Não sei. Anda, veste-te!

- Foi o carteiro?

- Foi o carteiro o quê?

- Foi o carteiro que me deu os calções?

 

O António fez-me sorrir. Depois fez-me pensar... Quantas vezes me lembro de agradecer os presentes da minha vida ao seu verdadeiro Doador? Geralmente, como o António, fico-me pelos intermediários, os inúmeros "carteiros" que mos entregam... O dia correu bem? Encontrei as chaves do carro depois de revolver os sofás e as gavetas dos brinquedos, e ainda cheguei a tempo à escola? O sol brilhou no exacto dia em que decidimos fazer um piquenique? Consegui resolver aquele assunto complicado, que andava há semanas para resolver? Tomei a decisão correcta? O carro derrapou, mas parou mesmo a tempo de evitar um acidente?

A sorte não existe. O acaso também não. E tudo, tudo o que temos e somos, todos os nossos talentos, todas as oportunidades que recebemos na vida para sermos felizes, todas as nossas conquistas, tudo é dom de Deus. A sua providência acompanha-nos sem que dela tenhamos consciência. É o Senhor, e só Ele, quem envia os embrulhos bonitos que os muitos carteiros da nossa vida nos deixam à porta!

 

A Bíblia é a narrativa da História de um povo à luz deste amor providencial de Deus. Ao longo dos séculos, Israel aprendeu a ler os acontecimentos da sua História a partir da Palavra de Deus, e a ler a Palavra de Deus a partir dos acontecimentos da sua História. Assim, tudo na vida de Israel era atribuído ao Senhor:

 

"Diante de seus pais, Deus fez maravilhas,

na terra do Egipto, nos campos de Soan.

Abriu o mar para os fazer passar,

conteve as águas como um dique.

Conduziu-os, de dia, com uma nuvem,

e de noite, com o seu clarão de fogo.

Fendeu os rochedos do deserto

e deu-lhes a beber águas abundantes.

Fez soprar dos céus o vento leste

e, com o seu poder, fez vir o vento sul..." (Sl 78/77)

 

Quando hoje saborear o meu almoço; quando chegar a hora de abraçar de novo os meus filhos; quando regressar a casa e reparar que ela está intacta, cheia de conforto e rodeada de um belo jardim; quando me deitar numa cama macia, exausta mas feliz, quero lembrar-me a Quem devo tantos dons e agradecer-Lhe, rezando...

 

 

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Chegaram!

por Teresa Power, em 21.04.14

Chegaram! Foi a Lúcia a primeira a reparar. Depois foram os irmãos, e finalmente vieram-me contar: chegaram! pusemo-nos todos a olhar... Olhem também connosco: não notam nada de especial?

 

 

Claro que não, pois eles são muito, muito discretos! Só saem quando estamos distraídos e em silêncio, e fazem-no com uma rapidez tal, que não os consigo capturar com a máquina fotográfica. Resta-me filmar o buraquinho onde vivem, e onde ano após ano vêm construir o seu ninho. Estou a falar de um casal de chapins azuis!

Por enquanto, entretêm-se a construir o ninho; em breve estarão ocupadíssimos a alimentar as suas pequeninas crias, entrando e saindo do buraquinho a cada minuto, à vez, com a rapidez de um relâmpago. E finalmente, a família inteira deixará a sua casinha construída com tanto amor para se aventurar em voos ousados pelos campos em redor. 

Uma das mais belas passagens do evangelho, que merece ser memorizada para que dela nunca nos esqueçamos, diz assim:

 

"Olhai as aves do céu: não semeiam nem colhem, e no entanto, o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós muito mais do que elas, homens de pouca fé?" (Mt 7, 26)

 

Quando contemplo a alegria destes passaritos e a confiança ilimitada que eles demonstram ter no Senhor, fico a pensar na minha falta de fé. Se de facto acreditássemos no amor infinito de Deus, este amor que Deus provou na Cruz e que venceu todas as mortes da humanidade, nada nos perturbaria! E, como os passarinhos da minha oliveira, atravessaríamos esta vida esvoaçando alegremente pelos nossos dias...

 

 

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publicado às 10:28

Anjos atarefados

por Teresa Power, em 26.03.14

Entre as quatro e meia e as oito e meia da tarde, não faço praticamente mais nada do que tomar conta da Sara. Ou melhor: faço milhares de coisas, mas tenho de as fazer enquanto tomo conta da Sara, sem lhe tirar a vista de cima um segundo sequer. Vou mostrar-vos porquê. Ora reparem na sequência:

 

 

 

 

E cenas como esta repetem-se a cada dois segundos. Sofás, mesas, cadeiras, tábua de passar a ferro, guitarras, brinquedos e até os cães funcionam para a Sara como óptimos escadotes, por onde ela trepa até alguém lhe lançar a mão e a fazer descer de novo. Se nos distraímos por um segundo sequer, aí vai ela direitinha ao chão! Já abriu o lábio, já bateu com a cabeça, já deitou sangue do nariz, e já foi apanhada no ar, em pleno voo, pelo Francisco, que se lançou no chão como um guarda-redes a agarrar a bola em frente da baliza - só que a "bola" era, claro, a cabeça da Sara! Enfim, pequenos acidentes sem consequências a manter-nos em alerta máximo. Resta-nos o consolo da experiência, que nos diz que em breve esta fase passará e poderemos respirar com algum alívio!

 

- Será que damos tanto trabalho a Deus como a Sara a nós? - Perguntou-me o Niall uma destas noites, quando descansávamos no sofá depois de todos se deitarem. Dei uma gargalhada:

- Talvez demos ainda mais trabalho a Deus... Passamos a vida a fazer disparates, a tomar as decisões erradas, a falar sem pensar, a agir sem rezar... Tal como a Sara, também nós fazemos birra quando Deus, no seu amor, nos coloca de novo no nosso lugar! E tal como a Sara, a maior parte das vezes nem sequer nos damos conta do perigo que corremos, e do quanto devemos ao amor do nosso Pai! De vez em quando, lá "rachamos o lábio" ou "batemos com a cabeça", mas nada de muito grave... Não admira que Deus confie cada um de nós a um anjo-da-guarda, pois sem ele, dificilmente encontraríamos o caminho para Casa! Quantas vezes o nosso anjo-da-guarda "se atirará ao chão", como um guarda-redes e como o Francisco naquela tarde? Ah, só no céu saberemos...

 

Diz o salmo 91 (90):

 

"Tu que habitas sob a protecção do Altíssimo

e te refugias à sua sombra,

diz ao Senhor: «Tu és o meu refúgio e fortaleza,

o meu protector, em quem confio!»

Pois Ele te livra do laço do caçador

e da peste maligna.

Ele te cobre com as suas plumas,

e debaixo das suas asas te refugias!

Sua fidelidade é um escudo e uma armadura.

Não temerás o pavor da noite,

nem a flecha que voa de dia,

nem a peste que ronda no escuro

nem a epidemia que devasta em pleno dia (...)

Pois aos seus anjos dará ordens a teu respeito

para que te guardem em todos os teus caminhos..."

 

 

 

 

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