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O relógio adiantado e a felicidade conjugal

por Teresa Power, em 16.07.15

Cá em casa, estar de férias significa, entre muitas outras coisas, acordar cedo, às vezes mais cedo - e com muito mais vontade - do que em tempo de aulas. Quando vivíamos ao pé da praia, antes do Tomás morrer, costumávamos estar na areia pelas oito e meia. Nessa altura, havia quem brincasse connosco, dizendo que tínhamos as chaves da praia... Agora temos quarenta minutos de viagem diária a separar-nos do mar, mas mesmo assim, gostamos de chegar à praia entre as nove e as nove e meia, para contemplar as gaivotas que  ainda saltitam na areia e a praia que se estende, solitária, à nossa frente. Ao meio-dia, quando a praia começa verdadeiramente a encher-se de gente, nós já estamos de regresso a casa, com a sensação de ter brincado, rido, saltado e nadado por um dia inteiro!

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 Mas não foi sempre assim. Quando nos casámos, o Niall e eu tivemos naturalmente de orquestrar hábitos e gostos, temperamentos e sonhos. E não foi tarefa fácil! Às diferenças naturais que existiam entre nós, havia ainda a juntar a diferença cultural - o Niall é irlandês - que era significativa. O nosso primeiro ano de casados foi talvez o mais difícil...

Como portuguesa, criada no interior e habituada ao calor, eu achava que a praia só era boa com muito sol. Como irlandês, habituado ao mau tempo e a baixas temperaturas, o Niall gostava de caminhar na areia contra o vento e de nadar à chuva. Ao fim-de-semana ou durante as férias, eu ficava na cama até depois das nove horas, enquanto o Niall se levantava de madrugada. Para mim, antes das nove horas, em férias, não valia a pena estar acordado, porque aqui no litoral está sempre fresco, pelo que a praia não seria uma experiência agradável. O Niall sentia-se frustrado. Para ele, o melhor do dia estava perdido.

Uma manhã de sábado, acordei com o seu chamar entusiasmado:

- Teresa, Teresa, levanta-te depressa, já passa das nove e tu prometeste que íamos passear à beira-mar!

Abri os olhos, estremunhada. Estava ainda cheia de sono. Seria possível ser tão tarde? Olhei para o meu relógio de pulso: nove e um quarto. Olhei para o relógio de parede: nove e um quarto. E quando cheguei à cozinha, olhei para o relógio no micro-ondas: nove e um quarto (nessa altura, nós não tínhamos ainda telemóvel). Tomei o pequeno-almoço à pressa, vesti-me e saímos para o prometido passeio. Cá fora, na rua, o vento fresco e o silêncio da manhã souberam-me deliciosamente bem. Quanta beleza! Entrámos no carro, e naturalmente olhei para o relógio: marcava sete da manhã.

- Niall, que se passa? O relógio do carro... Sete da manhã? Mas... O meu relógio...?

O Niall sorriu, triunfante, enquanto conduzia a caminho da praia.

- Enganei-te bem, não foi?

Não contive uma gargalhada:

- Tu deste-te ao trabalho de mudar todos os relógios lá de casa? Nem te esqueceste do micro-ondas...

- Sim, mudei os relógios todos. Não tinha outra forma de te convencer a vires fazer este passeio comigo. Vais ver que valeu a pena!

E valeu. Valeu tanto a pena, que nunca mais preferi a cama a um passeio pela madrugada...

 

Quem, como eu, já fez quarenta anos, recorda-se certamente da primeira telenovela brasileira difundida em Portugal, Gabriela Cravo e Canela, baseada no belíssimo romance de Jorge Amado. A música, cantada por Maria Bethânia, parece contudo ser o refrão de muitos casamentos fracassados: "Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim..."  Quanta gente recusa a mudança na sua vida! E quanta gente acaba por incorporar na sua vida, não as virtudes, mas os defeitos do conjuge, baixando os braços e desistindo do esforço necessário para que a mudança aconteça!

Quando olhamos para trás, quase dezanove anos depois do dia do nosso casamento, e procuramos o segredo que nos permitiu chegar até aqui com tamanha felicidade, encontramos um refrão contrário... No meio de muitos defeitos e muitos erros, o Niall e eu tivemos sempre uma virtude: a vontade de aprender com o outro o melhor que ele tem para dar, e de o incorporar na nossa vida conjunta. Os hábitos que hoje temos resultam deste desafio constante que fomos fazendo um ao outro a todos os níveis, e da forma como aceitámos ser desafiados, recusando o "vou ser sempre assim". Ao longo dos anos, o Niall adquiriu muitos dos meus melhores hábitos e eu adquiri muitos dos dele, e juntos esforçámo-nos por abandonar hábitos destrutivos e adquirir novos hábitos vencedores. Acordar cedo, para nós, é um deles!

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"Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo puxa parte do tecido e o rasgão torna-se maior. Nem se deita vinho novo em odres velhos; de contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e desta maneira, ambas as coisas se conservam." (Mt 9, 16-17)

 

 

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Sacramento e Vida Consagrada

por Teresa Power, em 08.07.15

No Painel da Vida Consagrada onde o Niall e eu demos testemunho no passado dia 19 de junho, o Senhor Bispo D. António Moiteiro foi naturalmente o primeiro a falar. No tom simpático e descontraído a que nos vem habituando, começou assim:

- As Irmãs que me desculpem, e não me levem a mal. As Irmãs fizeram voto de pobreza, obediência e castidade, mas este casal aqui, como muitos outros casais, recebeu um sacramento...

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Ao escutar o senhor bispo, fez-se luz sobre os meus próprios pensamentos àcerca deste tema. Na verdade, falar de pobreza, obediência e castidade no Painel da Vida Consagrada só foi difícil porque o tempo era pouco e o Niall e eu precisávamos economizar palavras e exemplos. Pode um casal viver os mesmos votos que os religiosos? Receber o sacramento do matrimónio implica comprometermo-nos com Jesus na nossa vida de família. E ao comprometermo-nos com Jesus, estamos naturalmente a comprometermo-nos com todas as suas Palavras, todo o seu Evangelho. Assim, o sacramento pressupõe os Conselhos Evangélicos de Pobreza, Obediência e Castidade, bem como os de Unidade, Caridade e todos os outros contidos na Palavra de Jesus.

Pode um casal viver uma vida de total consagração ao Senhor? Claro! Precisa de votos especiais para isso? Não, porque tudo está contido no sacramento, vivido com radicalidade e prontidão evangélicas. A Palavra de Jesus dirige-se claramente a todos, e tem até detalhes particulares para os que têm uma família:

 

"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim. E quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem procura a sua vida, há de perdê-la; e quem perde a sua vida por amor de Mim, há de encontrá-la." (Mt 10, 37-39)

 

As Famílias de Caná que vivem o seu compromisso com seriedade são famílias consagradas a Jesus e a Maria, e que renovam diariamente a sua consagração através da oração do Rosário e da repetição constante da pequena invocação: "Nós, Jesus".

Quando terminámos o nosso testemunho, naquele belo encontro de consagrados, o senhor bispo pediu-me que, em cinco minutos, explicasse às Irmãs o que são as Famílias de Caná. No final, uma Irmã expressou-se assim:

- Teresa, este movimento não é apenas para chegar aos confins de Portugal. É para chegar aos confins do mundo!

Que o Senhor a escute!

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Uma canção e uma vocação

por Teresa Power, em 04.05.15

No domingo dia 26 à noite, ao chegarmos do grupo de oração, encontrámos o Niall sentado diante do televisor, muito feliz. Ele costuma ficar em casa a cuidar dos mais pequeninos, enquanto o Francisco, a Clarinha e eu vamos rezar.

- Venham ver! Está a dar um programa de celebração dos 60 anos do Festival da Eurovisão!

- Do quê? - Perguntaram eles. 

O Niall e eu trocámos um olhar cúmplice. Somos do tempo em que a televisão congregava as famílias em torno de um único programa, e em que o país inteiro parava para assistir em direto ao Festival da Eurovisão da Canção.

- Lembras-te do Johnny Logan? - Perguntou-me o Niall. - Ganhou por duas vezes. Era irlandês!

- Claro que me lembro! "Hold me now!" Cantámos esta música até à exaustão, no recreio da escola! E pensar que um dia havia de casar com um irlandês! Lembras-te da música do Carlos Paião: "Hei, Playback"? Nós adorámos aquela música, Portugal inteiro a cantava, mas ficou em último lugar. Foi cá um choque coletivo!

- Lembro-me, claro. Nós na Irlanda rimos à gargalhada da vossa música! Achámos muito divertida, mas um pouco tonta.

- Ora!

De repente, calámo-nos, de olhos fixos no televisor. Em palco entrava Nicole, trinta e três anos mais velha que a jovenzinha de dezoito anos, daquele longínquo serão de 1982. Visivelmente emocionada, cantou "A Little Peace", a segunda canção mais bem sucedida de todos os anos do Festival da Eurovisão. Enquanto o Niall e eu cantarolávamos a canção, acompanhando Nicole, o Francisco e a Clarinha olhavam espantados para nós.

- Quem não se lembra de "A Little Peace"? A Europa inteira cantava esta canção. - Explicou o Niall.

- E eu até a tocava na guitarra... Estou aqui a pensar, Niall, que naquela noite de 1982, tu e eu estávamos à mesma hora a escutar a mesma canção. É um bocadinho romântico, não te parece?

Rimo-nos todos. Mas a verdade nua e crua é mesmo essa...

 

Dizia o nosso pároco aos jovens crismados, no final da Eucaristia:

- Há três formas de encarar a vida: uma sucessão de acasos; o destino, onde tudo está pre-definido; ou então - e esta é a única forma digna de um cristão - como um chamamento, isto é, uma vocação.

Gosto de dizer aos meus filhos que o marido ou mulher que Deus sonhou para cada um deles - se os chamar ao matrimónio - já deve andar por aí a correr, a brincar, a ir à escola, a rezar... Na verdade, o acaso não existe, e ninguém tem o destino marcado, porque Deus nos fez livres.

Podemos enganar-nos? Claro! E se nos enganarmos, não estamos condenados à infelicidade. Pensemos no GPS que temos no carro: ele vai-nos indicando o caminho, mas se decidirmos ir por outra estrada, imediatamente refaz os seus cálculos e sugere nova rota que nos conduz ao mesmo destino. Também a voz de Deus dentro de nós nos vai conduzindo pelos caminhos que vamos escolhendo, para nos fazer chegar ao Céu. Nunca baixemos os braços perante um engano evidente no caminho: a Deus, nada é impossível!

Todos os dias rezamos em família para que os nossos filhos sejam capazes de reconhecer a voz do Senhor, quando Ele os chamar a um caminho específico, a uma vocação concreta. Rezamos para que tenham a audácia de responder "sim", por difícil que pareça, como difícil nos pareceu a nós construir uma família a partir da Irlanda e de Portugal. Disse Jesus:

 

"Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair. Depois de tirar todas as que são suas, vai à frente delas, e as ovelhas seguem-no, porque reconhecem a sua voz." (Jo 10, 2-4)

 

 

E agora... Para os que foram jovens quando nós fomos - se quiserem recordar A Little Peace, aqui fica:

 

 

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Família a Caminho e o matrimónio, porta aberta ao Senhor

por Teresa Power, em 04.12.14

Há uns tempos, falei-vos da fresta na porta, que o Senhor aproveita para Se esgueirar para dentro da nossa vida.

Olhando para trás, vejo hoje com clareza que uma das frestas mais importantes na minha porta foi o meu matrimónio com o Niall. Juntos, descobrimos o Senhor de uma forma que não teria sido possível em qualquer outra circunstância. Através do matrimónio, tornámo-nos um para o outro canal da graça divina. Deus tem falado ao Niall através de mim, e tem-me falado a mim através do Niall. Pela graça do sacramento, muitas feridas têm sido curadas, muitas graças derramadas. Quantas histórias teríamos para contar!

Alguém me perguntava outro dia, por mail: "Que diferença podem alguns papéis fazer na nossa vida, se nós nos amamos?" Os papéis não podem fazer diferença alguma; mas a graça de Deus pode. S. Paulo explica assim o poder do sacramento do matrimónio:

 

"Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério; digo-o em relação a Cristo e à Igreja." (Ef 5, 31-32)

 

Cristo surge nos Evangelhos como o Esposo, o Amado do Cântico dos Cânticos, aquele que é ardentemente esperado e anunciado pelos profetas ao longo de toda a História de Israel:

 

"Poderão jejuar os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado; então, nesses dias, hão-de jejuar." (Lc 5, 34-35)

 

A Igreja surge no Apocalipse como a Esposa, aquela que acolhe o Esposo divino e a Ele se entrega sem retorno:

 

"Vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo." (Ap 21, 2)

 

Pelo sacramento do matrimónio, o amor entre um homem e uma mulher torna-se espelho deste amor entre Cristo e a Igreja, entre o Esposo divino e a alma humana. O Papa Francisco explicou assim este sacramento na sua catequese de quarta-feira, dia 2 de Abril de 1914:

 

"O matrimónio é uma consagração: o homem e a mulher são consagrados no seu amor. Com efeito, por força do sacramento, os esposos são investidos de uma verdadeira missão, para que possam tornar visível, a partir das realidades simples e comuns, o amor com que Cristo ama a sua Igreja, continuando a dar a vida por ela na fidelidade e no serviço."

 

Cada família, selada pelo sacramento do matrimónio, é única e tem uma missão única. Hoje quero falar-vos de uma família em especial: a família Duarte Sousa. A Cláudia descobriu este blogue em Maio deste ano, e dois dias depois, inscreveu-se no retiro Famílias de Caná que iria decorrer no dia 24 desse mês. "Atirou-se de cabeça", como ela nos contou no retiro. Hoje, a sua família é uma belíssima Família de Caná, com muitas histórias para contar. E sim, eles decidiram contar essas histórias num blogue: Família a Caminho.

Li o blogue de ponta a ponta há alguns dias, quando a Cláudia o partilhou comigo. Fiquei muito tocada com a forma como Deus Se esgueirou para dentro da vida da Cláudia, era ela já uma jovem adulta... Depois de uma infância infeliz, a Cláudia descobriu o amor de Jesus e fez a sua primeira comunhão aos vinte anos! O seu matrimónio com o Cristóvão, tal como o meu com o Niall, foi para ela uma porta aberta a Deus. E até hoje, essa porta continua escancarada, deixando Deus entrar a jorros de luz.

Deixo-vos com duas fotos do retiro de 24 de Maio, onde aparecem duas das filhotas da Cláudia e do Cristóvão (a Alice era uma bebé muito, muito pequenina), bem moreninhas e simpáticas:

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 Leiam, que vão gostar!

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Cansados, mas santos!

por Teresa Power, em 26.11.14

- Niall, acabei de ler uma história fascinante de um casal de santos.

- É do novo livro?

- Sim, do livro que os nossos amigos nos enviaram por correio: Esposos e Santos. Posso contar-te?

- Agora? Não pode ser depois de eu lavar a louça?

- Não. Depois de lavares a louça tens de ir limpar a garagem, que os gatos portaram-se mal, e arrumar os brinquedos do jardim, que esta noite vai chover. E eu tenho de ir passar a ferro e fazer um teste para o nono ano.

- Bem, então conta lá!

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Giovanni Gheddo e Rosetta Franzi, que se casaram em 1928, viveram uma vida comum, de esposos e pais, em Itália. Rosetta morreu de parto com 32 anos, deixando três filhos pequeninos, e Giovanni morreu durante a Segunda Guerra Mundial, num acto de heroísmo caridoso, ao oferecer-se para tomar o lugar de um colega condenado.

Em tão pouco tempo de vida em conjunto - seis anos -, como puderam Giovanni e Rosetta alcançar a santidade, que lhes é reconhecida por todos quantos com eles conviveram?

Ambos pertenciam à Acção Católica e ambos trabalharam activamente na sua paróquia e na sua aldeia. O seu curto namoro foi vivido num clima de pureza e simplicidade invulgares. Depois de casarem, iam todos os dias juntos à primeira missa da manhã; e ao serão, rezavam o terço com os filhos e faziam a sua leitura espiritual. Os pobres e infelizes tinham lugar privilegiado nas suas atenções, e são muitas as histórias que as pessoas da aldeia contam sobre isso!

 

- Niall, o que eu te queria dizer sobre este casal é... Bem, era uma nota de esperança para ti!

- Não te estou a entender.

- Bem, vou ler-te um bocadinho do texto, escrito pelo seu filho sacerdote:

 

"Giovanni, desenhador técnico, durante o dia trabalhava muito, visitando as quintas e as aldeias vizinhas de bicicleta, mas de manhã acordava-nos às cinco e meia para nos levar à primeira missa na paróquia, que era às seis. E às sete, começava o seu trabalho nas quintas. Nós, os dois mais velhos, ajudavamos à missa, e o Mário ficava com o pai no coro, atrás do altar. Uma recordação maravilhosa daquelas missas de madrugada é que eu fora incumbido pelo pai, se ele não aparecesse, de ir ao coro chamá-lo para a comunhão, pois às vezes, ele adormecia! Vinha imediatamente e, depois da missa, ia a sacristia, pedir desculpa ao sacerdote."

 

O Niall riu-se, e eu pisquei-lhe o olho.

- Vês, Teresa, não sou só eu que adormeço a rezar! - Disse-me, divertido.

Na verdade, de vez em quando o Niall adormece enquanto rezamos o terço em família, pois tal como Giovanni, também trabalha muitas horas e viaja muito. O cansaço, por vezes, é mais forte... A partir de agora, ele já sabe quem invocar quando todos o atacarmos por se deixar adormecer!

 

Com demasiada frequência, acusamos as circunstâncias da vida moderna de não nos permitirem uma oração familiar digna do nosso nome de cristãos. O trabalho, as viagens, os horários, as actividades dos filhos, o cansaço e o direito legítimo ao descanso, tudo nos parece desculpa suficiente para não procurarmos, criativamente, formas de nos aproximarmos de Deus em família. É por isso que nos faz bem conhecer os exemplos de santidade do passado mais recente, em que o amor maior tudo tornava possível! E mesmo que passemos pelo sono durante a oração, vencidos pelo cansaço, saibamos que

 

"aos seus amigos, Deus dá o pão até durante o sono..." (Sl 127/126)

 

 

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Planeamento familiar III (em jeito de conclusão)

por Teresa Power, em 04.11.14

Quando Jesus terminou o seu discurso sobre o Pão da Vida, a grande maioria dos seus ouvintes afastou-se, dizendo:

 

"Estas palavras são duras! Quem as pode escutar?" (Jo 6, 60)

 

Que fez então Jesus? Chamou-os de volta, pedindo desculpa por ter sido demasiado exigente? Refez o seu discurso? Como, se Ele bem sabia que as suas palavras abriam caminhos de felicidade?...

 

"Voltando-se para os doze, Jesus perguntou-lhes:  «Também vós quereis ir embora?» Pedro, tomando a palavra, respondeu: «A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna!»" (Jo 6, 67-68)

 

Se alguma coisa eu gostaria de ensinar aos meus filhos, é esta: só Jesus tem palavras de vida eterna; e se quisermos ser plenamente felizes, não podemos ter medo delas por nos parecerem demasiado duras. Pelo contrário: ao decidirmos praticá-las, descobriremos toda a doçura escondida nos seus ensinamentos, e experimentaremos uma felicidade nova, pura, transbordante, profunda e eterna!

 

Os posts anteriores (aqui e aqui) permitiram-vos compreender como foi complicado, para nós, há dezoito anos atrás, aceder a esta informação preciosa sobre planeamento familiar. Era nosso direito, como noivos católicos, sermos bem informados sobre esta matéria. Como diz o Papa Francisco, "preparar noivos para o matrimónio apenas em dois encontros ou conferências é pecar por omissão." (Encontro do Papa Francisco com o Movimento de Schoenstatt, 25 de outubro). E é nosso dever agora, como família feliz, testemunhar estas verdades junto de outras famílias.

Um grande obrigada a todos os que partilharam connosco, via e-mail ou comentários, a sua experiência sobre esta temática, tão semelhante à nossa! Rezemos para que um dos frutos do sínodo dos bispos seja uma maior clareza de ensinamentos e um maior acompanhamento dos noivos, sempre num clima de misericórdia e de exigência próprios do Evangelho! E como muitos dos vossos testemunhos confirmaram, com Deus estamos sempre, sempre a tempo de recomeçar! Ele não nos cobrará nada, antes nos estenderá a mão para podermos abrir caminho.

 

Eu não posso voltar atrás no tempo e refazer a nossa história, que teve tantos tropeções enquanto procurávamos descobrir sozinhos o caminho de santidade e felicidade conjugal também em relação ao planeamento familiar. Mas posso educar os meus filhos, para que a sua história seja diferente, caso eles assim o desejem.

Eis então o que lhes procuramos dizer, a propósito e a despropósito, com palavras e com sinais, usando a Escritura e usando o noticiário, testemunhando e apresentando testemunhos:

 

O nosso corpo é apenas o exterior da nossa alma. Não podemos tocar no corpo de alguém sem tocar também na sua alma; não podemos entregar o corpo a alguém sem lhe entregar também a alma; e não podemos mentir com o nosso corpo sem mentir também com a nossa alma. Por tudo isto, a Igreja ensina que o acto sexual só faz sentido quando duas pessoas se entregam uma à outra, completamente e para sempre, sem retorno.

 

A sexualidade é invenção de Deus, e a Ele pertence. Ela foi feita para que nos tornemos imagem e semelhança de Deus em amor, em entrega, em generosidade, em alegria, em vida, em doação profunda. A contracepção é uma mentira introduzida neste imenso dom de Deus, pois faz-nos acreditar que estamos a entregar-nos totalmente a alguém, quando ao mesmo tempo estamos a recusar-lhe o que de mais divino possuímos: a nossa fecundidade.

 

Sabemos que a fecundidade pertence em exclusivo a Deus, porque na verdade não somos donos dela! Mas se, por qualquer motivo, não podermos ter filhos biológicos, Deus tem tantas outras formas de nos tornar fecundos! É importante conhecer o testemunho de famílias felizes, em caminhada de fé e de amor, que vivem a sua fecundidade através da adopção. Quero que os meus filhos conheçam estes testemunhos de perto antes de casarem, para não terem medo deste caminho belíssimo de amor, se Deus o desejar para eles.

 

Para planearmos responsavelmente a nossa família, precisamos de conhecer os ritmos e os sinais do corpo feminino. Não é necessário esperar pelo casamento para o fazer! Quanto mais cedo nos conhecermos, mais simples será depois. Como mãe, tenciono ensinar às minhas filhas os segredos do seu corpo o mais cedo possível, para que os seus primeiros anos de casadas sejam mais tranquilos do que foram os meus neste tópico.

 

Mas para planearmos responsavelmente a nossa família, também precisamos de uma boa dose de loucura. Quando, no encontro internacional com o movimento de Schoenstatt, perguntaram ao Papa Francisco como fazia para se manter alegre, ele respondeu: "Sou inconsciente, rezo e tenho a audácia de me abandonar à confiança e bondade de Deus." Se não formos um bocadinho inconscientes (a mim costumam chamar de irresponsável), se não rezarmos e se não nos entregarmos nas mãos amorosas do Senhor, dificilmente teremos uma família numerosa!

Os métodos naturais facilitam esta loucura, pois permitem que muitas decisões sejam tomadas "a quente", sob o fogo da paixão: "Que tal se fosse agora?" "Porque não?" E acreditem-me, não há melhor razão para ter um filho.

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 Ficam alguns links, para quem quiser explorar:

 - O site oficial do Método Billings (em inglês)

- Um vídeo vencedor sobre Planeamento Familiar Natural

 

E relembro que a Associação Família e Sociedade tem um curso de planeamento familiar natural agendado para os próximos dois sábados.

Divirtam-se, e partam à aventura!

 

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Planeamento familiar II

por Teresa Power, em 01.11.14

Hoje é dia de festa: Dia de Todos os Santos, conhecidos e desconhecidos, casados, consagrados, sacerdotes, solteiros, jovens, crianças, idosos… Cá em casa não há "Halloween" (que está cada vez mais associado a cultos satânicos), mas em vez disso, há certamente quem se disfarce do seu santo padroeiro! Depois mostro-vos - claro, noutro post

 

“São poucos os que se salvam?” Perguntaram um dia os discípulos a Jesus. No Apocalipse, encontramos a resposta:

 

"Depois disto, apareceu na visão uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão..." (Ap 7, 9)

 

Todos somos chamados à santidade. A Palavra de Deus é antiga:

 

“Sede santos, como Eu, o Senhor, sou santo.” (Lv 19, 2)

 

O Niall e eu escolhemos fazer este caminho de santidade através um do outro, pelo sacramento do matrimónio. Da nossa procura da perfeição faz parte esta atribulada história sobre o planeamento familiar. Aqui fica pois o próximo capítulo desta nossa “novela", na sequência deste post:

 

Eu sei que é costume o casamento acontecer na terra da noiva. Mas nós decidimos antes casar em Fátima, na terra da nossa Mãe comum, Maria. Portanto, na véspera do casamento, tanto eu como o Niall andávamos a passear por Fátima – ele com a sua família, eu com a minha, evitando encontrarmo-nos, para não estragar a surpresa do dia seguinte.

E foi assim que, separadamente e sem combinarmos, ambos nos fomos confessar (apesar de o termos feito há muito pouco tempo em Aveiro), para que o nosso “traje nupcial” fosse realmente uma "túnica branca" diante do "Cordeiro". Em Fátima é tão fácil aceder ao sacramento da reconciliação!

De novo – separadamente e sem combinarmos – ambos fizemos a mesma pergunta ao sacerdote que nos confessou: como podíamos planear a nossa família? E finalmente, sob o olhar maternal de Maria, que sempre nos valeu, a tão procurada resposta chegou:

- O que tu queres saber está na Humanae Vitae, a encíclica do Papa Paulo VI. Podes comprá-la na livraria ali ao lado. E aproveita para comprar também um livro sobre o Método Billings.

- Sobre o quê? - Eu era mesmo ignorante...

- Sobre o Método Billings. O Método da Ovulação, descoberto pelo casal Billings. B-I-L-L-I-N-G-S.

 

Este sacerdote (terá sido o mesmo para os dois?) estava pois em sintonia com o que, agora, o papa Francisco diz à Igreja: "A única forma de ajudar nesta crise da família é ser claro nas ideias e nos valores." (Homilia do encontro internacional com o movimento de Schoenstatt, 25 de outubro)

Ao sair do confessionário, dirigi-me imediatamente à livraria Verdade e Vida, onde encontrei os dois livros. E nesse mesmo dia, na minha ânsia de obter respostas, li grande parte de ambos! Li pelo menos o suficiente para deitar fora a tal caixinha do medicamento que me fora prescrito; e para deixar de me afligir com o tema.

 

Durante o dia do nosso casamento, consegui trocar algumas palavras a sós com o Niall (sabem como é difícil falar a sós nesse dia!), e ainda nos rimos com as coincidências da nossa aventura da véspera. Só eu comprara os livros, pois na altura o Niall não conseguia ler bem português.

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Os esposos Billings, médicos australianos e católicos, já tinham nove filhos quando a encíclica Humanae Vitae (Paulo VI, 1968) foi publicada, e não tinham qualquer intenção de canalizar a sua inteligência para contestar os ensinamentos papais; mas há algum tempo que a vinham canalizando para auxiliar a Igreja nesta grande e nobre tarefa de acompanhar os casais no seu planeamento familiar. A obediência, como eu disse neste post, é fonte de imensa criatividade! Eles acreditavam que Deus dotara a mulher de sinais evidentes e simples da sua fertilidade. Restava saber: que sinais?

Anos de estudo deram origem ao Método Billings, com uma eficácia (reconhecida pela OMS) igual ou superior à da pílula, e sem qualquer tipo de contra-indicação. Os dois cientistas receberam vários doutoramentos honoris causa e correram o mundo divulgando o seu método junto de todo o tipo de populações, das mais cultas às mais analfabetas, inclusive na China, sempre ao serviço da Igreja e da vida.

                (O casal Billings com S. João Paulo II)

 

Os métodos de planeamento familiar natural, com destaque para o Método da Ovulação, ou Método Billings, são portanto saudáveis e ecológicos, o que não deixa de ser importante numa sociedade cada vez mais preocupada com as questões do ambiente. Mas acima de tudo, estes métodos são compatíveis com a visão de matrimónio que nos é proposta por Jesus no Evangelho.

 

Dentro do livro sobre o Método Billings, vinha um folheto informativo sobre uma das associações que, em Portugal, promove o planeamento familiar natural: o MDV (Movimento de Defesa da Vida). Durante o nosso primeiro ano de casados, estando eu já grávida pela primeira vez (uma gravidez que terminou num aborto espontâneo), tivemos a oportunidade de fazer este curso, realmente fascinante. Finalmente, alguém me ajudava a contemplar e a entender a beleza do ciclo feminino e da sexualidade humana!

Só muito mais tarde conheci a "Teologia do Corpo", as catequeses de S. João Paulo II que, ao longo de quatro anos de pontificado, aprofundaram o tema do matrimónio. Uma maravilha! Vale a pena comprar livros ou ver vídeos sobre o tema.

 

Na sequência do post de ontem, vários leitores deste blogue tiveram a gentileza de me informar que nos sábados dia 8 e dia 15 deste mês de novembro vai decorrer em Lisboa novo curso de planeamento familiar natural, promovido pela Associação Família e Sociedade. Este curso tem a grande vantagem de proporcionar aos casais acompanhamento médico na sua aprendizagem do método proposto. A ficha de inscrição vem no site. Nem  esta associação, nem o MDV têm qualquer orientação confessional, pelo que todos, sem excepção, estão convidados a fazer estes cursos. Aliás, segundo me informaram, a grande procura não vem de casais católicos, mas de casais... ecologistas!

 

Foi fácil aprender o planeamento familiar natural? Não. Desengane-se quem achar que o pode conseguir sem capacidade de renúncia, sem grandes doses de paciência e sem um imenso amor!

Valeu a pena aprender o planeamento familiar natural? Sim, absoluta e infinitamente. A liberdade de amar com todo o meu ser e de me sentir amada e respeitada nos momentos de fecundidade e de infecundidade cíclica, a descoberta do poder do desejo e do poder da renúncia são inestimáveis. Nada se lhes compara!

Resulta, o planeamento familiar natural? Connosco, resultou a cem por cento! Aliás, neste momento conheço tão bem o meu corpo, que seria quase impossível engravidar sem querer... Temos o número de filhos que decidimos ter, decisão essa que nunca é definitiva, mas a cada ciclo retomada em clima de oração. Uma das diferenças em relação à pílula é que não decidimos hoje que queremos engravidar daqui a alguns meses, mas decidimos hoje que queremos engravidar... hoje! A contracepção nunca nos permitiria ter tomado algumas das decisões que tomámos, num momento de paixão, e que resultaram em "surpresas" maravilhosas

 

Este post já vai longo… Deixo-vos ainda dois links: este para o testemunho de um casal cristão durante o recente sínodo dos bispos; e este para o testemunho de casais muito jovens no jornal i. O primeiro fez-me sorrir, porque me revi nos seus argumentos; o segundo deixou-me cheia de santa inveja: quem me dera ter tido esta clareza de pensamento no dia do meu casamento! Boas leituras…

 

Que a Festa de Todos os Santos seja para as famílias cristãs um verdadeiro desafio à santidade, donde emana a fonte da felicidade. Repetindo as palavras do Papa Francisco no sábado passado, "os únicos que renovaram a Igreja foram os santos." Ámen!

 

 

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Planeamento familiar I

por Teresa Power, em 31.10.14

Aproximava-se a data do nosso casamento, há dezoito anos atrás. No meio de muitas trapalhadas com os papéis, o Niall e eu procurávamos ter algum tempo e algum espaço para nos prepararmos espiritualmente.

A primeira desilusão chegou quando o nosso pároco nos disse que, ali, não havia cursos de preparação para o matrimónio. Eu estava desejosa de encontrar outros casais de noivos e sobretudo, estava desejosa de escutar o testemunho de casais mais velhos e experientes, que nos pudessem falar de Deus e de amor. Na altura, ainda não tinha computador, e a Internet era uma ilustre desconhecida…


Sem curso de preparação, decidimos então procurar, sozinhos, algumas respostas para perguntas que se impunham. Como iríamos planear a nossa família? De que métodos podíamos dispor? Desde o início do nosso namoro que falávamos dos filhos, da educação que queríamos dar-lhes, da família numerosa e alegre que gostaríamos de ter. No entanto, todas as vozes à nossa volta nos lembravam que dois ou três filhos era mais do que suficiente, e que não era conveniente tê-los muito cedo, porque o casal precisa "de um tempo". Enfim, não pensámos muito em nada disto senão já perto do nosso casamento. E foi quando descobrimos que estávamos sós na nossa reflexão.

 

Na minha fé simples, eu só queria obedecer à doutrina da Igreja, mas eu não a conhecia senão muito vagamente. Vasculhei a minha memória à procura de respostas. Eu frequentara grupos de jovens, pertencera a vários movimentos da Igreja, fizera retiros e exercícios espirituais, assistira a palestras dadas por padres jesuítas em Coimbra, enquanto estudava. Enfim, não era ignorante na maior parte dos temas da Igreja. Mas não conseguia lembrar-me de alguma vez alguém me ter falado neste assunto com a abertura de que agora  necessitava. Porquê?


Começámos por perguntar ao médico de família, em separado, como fazer planeamento familiar, caso sentíssemos necessidade dele. A resposta foi a mesma para os dois: uma receita da pílula. Saímos do consultório cabisbaixos. Outra desilusão! Se eu não estava doente; se o meu corpo funcionava na perfeição, para que queria eu um comprimido?


Marquei consulta no ginecologista, um conhecidíssimo médico de Coimbra. Fui à consulta cheia de expectativa e de novo lancei a minha inocente pergunta: como podia eu planear a minha família?

- Quer uma receita de pílula, não é? - Perguntou, sem me deixar acabar de falar. Eu queria responder que não, que queria que ele me falasse do meu corpo, me ensinasse a conhecer a biologia por detrás da sexualidade, me encorajasse a confiar na minha feminilidade, mas não fui capaz de articular palavra. Eu desconhecia, na altura, que em Portugal não há - ou há muito poucos - ginecologistas especializados em planeamento familiar natural e capazes de acompanhar as mulheres nesta escolha nas suas consultas, como há nos E.U.A., por exemplo. Saí do consultório com uma receita na mão, que tratei de aviar na farmácia mais perto.

 

Ao chegar a casa, abri a embalagem e pus-me a ler o folheto informativo. O que li deixou-me muito angustiada: ali estava eu, jovem de vinte e quatro anos, a transbordar saúde, com uma receita de um medicamento na mão. As contra-indicações eram simplesmente assustadoras, e eu não conseguia compreender por que razão todos me falavam em tomar um comprimido, quando eu só queria ser feliz. Guardei a caixinha na gaveta dos medicamentos, junto do paracetamol e do aero-om.


Decidi então perguntar a um sacerdote. Escolhi um sacerdote cheio de fé, que sempre fora para mim sinal do amor de Deus. Fiz-lhe a mesma pergunta que fizera ao médico de família e ao ginecologista.
- O casal deve gerir a sua sexualidade de acordo com a sua consciência - Foi a resposta. Nenhuma referência ao Catecismo da Igreja Católica, nenhuma referência a Paulo VI, a João Paulo II, a pecado ou a virtude. Apenas a alusão à consciência que, convenhamos, aos vinte e quatro anos não é exactamente uma grande aliada (e aos quarenta continua a não ser...)!


Se os dois médicos me tinham desiludido, a resposta deste sacerdote deitou por terra a esperança que me restava. Eu não sabia então que os ensinamentos da Igreja sobre o planeamento familiar eram alvo de grande controvérsia, e que muitos sacerdotes tinham uma espécie de estranha vergonha em propor aos casais aquilo que eles nunca poderiam viver.

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Lembram-se da história do jovem rico? Este jovem era eu, este jovem era o Niall. Cheios de entusiasmo juvenil, nós corremos ao encontro do representante de Jesus e perguntámos, na nossa linguagem atabalhoada e inquieta: "Como nos pede a Igreja que regulemos a nossa fertilidade?" Que foi a nossa maneira de perguntar: "Que devemos fazer para alcançar a vida eterna?"

As respostas que obtivemos foram como se Jesus tivesse desistido de nós, e não nos julgasse dignos de um salto maior. Imaginem que Jesus tinha dito ao jovem rico: "O que tu fazes, já chega." Ou, em linguagem estudantil: "O que tu fazes já dá para passar no exame."

Nós não queríamos "passar". Nós não queríamos um "suficiente". Nós queríamos ganhar a Taça, nós queríamos subir ao pódio, nós queríamos alcançar a coroa da vitória. Nós não precisávamos que nos indicassem os “mínimos”, nós queríamos que nos abrissem o horizonte até aos “máximos”. Mas ninguém parecia acreditar na nossa capacidade para sermos santos.
E contudo, a Palavra de Jesus não me deixava descansar... Jesus nunca disse: "Sede boas pessoas." Jesus disse:

 

“Sede perfeitos, como o vosso Pai é perfeito.” (Mt 5, 48)

 

O Papa Francisco disse numa homilia no sábado passado: "Não tenham medo da vida de santidade, pois esse é o único caminho para renovar a Igreja." 

 

Até que chegou a véspera do nosso casamento… Sim, a véspera! Amanhã conto-vos mais

 

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Amar como Jesus amou

por Teresa Power, em 10.09.14

- Niall, uma leitora assídua do blogue falou da sua dificuldade com a palavra "submissa" na Carta de S. Paulo, que citei no post de ontem.

- Tu também tens dificuldades com essa palavra!

- Não brinques! Agora a sério...

- Não lhe respondeste que as mulheres estão em vantagem? S. Paulo disse que as mulheres deviam ser submissas, mas acrescentou que os maridos deviam amá-las "como Cristo amou a Igreja." Ser submissa é mais fácil do que amar como Cristo amou a Igreja! S. Paulo exige muito de nós, pobres homens!

- Então e o que é isso de amar como Jesus amou?

- Bem, acho que é o contrário exactamente do "machista". Jesus disse:

 

"Eu não vim para ser servido, mas para servir." (Mt 20, 28)

 

Então - continuou o Niall - se eu quiser amar como Jesus, primeiro tenho de começar por servir! Chegar a casa, depois do trabalho, e sentar-me de pantufas em frente da televisão não é uma atitude de serviço. Para um marido amar como Jesus amou, é preciso arregaçar as mangas e trabalhar lado a lado com a sua mulher!

-E trazer-lhe um chocolate quando vai às compras... Há uns dias que não me trazes nenhum!...

-Claro, um chocolate... Bem, no limite, amar como Jesus amou é dar a vida. Jesus amou até ao fim, e um marido cristão tem de fazer o mesmo.

- Espero não precisar que morras por mim!

- Morro todos os dias... Tenho de morrer para a minha vontade todos os dias, a fim de te fazer feliz, não é? Pequenas coisas diárias que fazem a diferença!

- Sabes que o que estás a dizer vem no Livro de Tobias também? A mãe de Sara disse assim a Tobias, ao entregar-lhe a filha em casamento:

 

"Entrego a minha filha à tua guarda. Nunca a entristeças, durante os dias da tua vida!" (Tb 10, 13)

 

- S. Paulo não diz em lado nenhum que o marido é superior à esposa. S. José não era superior a Maria, e no entanto, era ele o chefe de família! Nossa Senhora obedeceu quando foi preciso levantar-se e levantar o Menino durante a noite para partir a toda a pressa para o exílio. Por sua vez, José deu a sua vida ao aceitar uma mulher grávida por esposa... Era o seu nome e a sua reputação que estavam para sempre destruídas!

-Sim, submissão, ou obediência, é afinal dar a vida... Porque quem obedece precisa de morrer para a sua vontade, precisa de dar a vida! Jesus pregou a obediência com toda a sua vida. Logo no início do evangelho de S. Lucas é-nos dito que

 

"Jesus (aos doze anos) desceu com os pais a Nazaré e era-lhes submisso." (Lc 2, 51)

 

- Extraordinário, o Filho de Deus submeter-Se aos homens!

- E quando chegou a hora da morte, no Jardim das Oliveiras, Jesus manifestou a sua obediência total a Deus:

 

"Pai, se for possível, afasta de Mim este cálice. No entanto, não se faça a Minha vontade, mas a Tua." (Lc 22, 42)

 

 - O que S. Paulo nos diz afinal é que ambos, num casal cristão, precisam de dar a vida um pelo outro. O mundo aceita a ideia de um pai ou uma mãe dar a vida pelo filho - é um instinto natural -; mas S. Paulo diz-nos que o homem deve ser capaz de dar a vida pela mulher! Isto é um ensinamento radical no seu tempo, e continua a ser radical no nosso!

- Mas é a fonte da felicidade. Se todos os casais aderissem de coração ao ensinamento de S. Paulo, não havia necessidade de divórcio!

- Bem, o esforço tem de ser mútuo...

- Claro que sim. S. Paulo está a escrever para cristãos! Ser cristão é uma opção radical de vida; ou somos, ou não somos! E se somos, assumimos a nossa fé até ao fim. Um casal cristão é uma unidade:

 

"E os dois serão uma só carne." (Gen 2, 24)

 

- Amar como Jesus amou... Eis o grande segredo da felicidade...

 

 (Crucifixo que temos sobre a nossa cama de casal)

 

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Telefonemas

por Teresa Power, em 30.08.14

O Niall e eu namorámos por telefone durante dois longos anos, depois de nos conhecermos e antes dele vir definitivamente viver para Portugal. Talvez nem todos os que lêem este blogue tenham noção do que significava namorar por telefone há vinte anos atrás! Na era "pré-telemóvel" e numa situação de "namoro internacional" como a nossa, ambos a viver fora de casa como estudantes universitários, precisávamos de coleccionar muitas moedas e de nos fecharmos naquelas casinhas simpáticas chamadas "cabines telefónicas". Depois falávamos o mais depressa que conseguíamos até a última moeda nos cortar a palavra a meio. Era, no mínimo, um bocadinho stressante...

Hoje, e porque trabalhamos a uma distância de trinta quilómetros um do outro, continuamos a namorar ao telefone, mas temos todas as vantagens da era moderna, com os seus sofisticados meios de comunicação. É, na verdade, raro o dia em que não conversamos à hora do almoço.

Às vezes, na primavera e no outono, quando os dias estão muito azuis, o Niall pede-me que adivinhe de onde está a falar. Então afasta o telemóvel da sua cara, e eu consigo escutar o som cavo do mar e do vento.

- Estás na praia! E deves estar a comer aquelas maravilhosas sandes de bife panado que fizeste esta manhã!

- Adivinhaste! Estou a almoçar na praia, e nem imaginas as conchas que por aqui há!

Ao fim da tarde, quando chega a casa, traz-me uma prova física da sua estadia na praia: uma concha, um búzio, uma pena de gaivota.

Outras vezes, sou eu que lhe faço inveja:

- Estou sentada no nosso jardim, com um gato ao colo, a olhar para as galinhas a esgravatar... Tenho meia hora ainda antes da próxima aula!

Noutros dias, o nosso telefonema é um pedido de perdão:

- Desculpa esta manhã ter-te falado tão mal. Os miúdos não se despachavam e eu estava tão atrasado!

- Desculpa tu. Eu é que estava nervosa. Vamos ser amigos de novo?

- Boa ideia! E tenho uma ideia ainda melhor: fazemos as pazes logo à noite, quando os miúdos estiverem a dormir!

 

E assim, à distância de um telefonema, sem interrupções de crianças, namoramos um pouco à hora de almoço, para nos recordarmos do que é realmente importante na vida. Mesmo que o trabalho esteja a correr mal, os filhos estejam particularmente difíceis, a casa esteja um caos e o mundo esteja ainda pior, eu sei que, à noite, vou poder deitar-me nos braços do Niall e recuperar o dom primeiro do nosso amor, aquele amor que prometemos um ao outro há dezoito anos atrás e que, nesse mesmo abraço conjugal, elevámos à dignidade de sacramento, sinal da presença amorosa de Deus entre nós.

 

"Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne." (Gen 2, 24)

 

 

 

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