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A Mim o fizestes

por Teresa Power, em 03.09.15

No domingo, fui visitar a minha avó a Aveiro. Ela está muito velhinha e cada vez mais próximo do céu, e por isso fui sozinha, para que o barulho dos mais novos não a incomodasse. Pelas quatro horas da tarde, decidi regressar. Entrei no carro, que estacionara em plena avenida principal, e ia dar início à minha viagem de regresso a casa, quando percebi que o carro não estava a responder normalmente. Parei o motor, saí do carro e confirmei a minha suspeita: tinha um furo. E agora? Eu não faço a menor ideia de como se troca um pneu, e o Niall estava a trinta quilómetros de distância.

Bem, no centro da cidade não devia ser difícil encontrar quem me ajudasse... A verdade é que as pessoas iam passando no passeio, algumas olhavam para o carro com os quatro piscas e certamente viam o pneu em baixo, mas ninguém parava. A minha mãe, que entretanto me fazia companhia junto do carro, ainda pediu a um transeunte que nos ajudasse, mas ele desistiu depois de procurar, em vão, retirar o pneu sobresselente de debaixo do carro. Telefonei ao Niall.

- Não faças nada, porque é mesmo complicado trocar um pneu no monovolume - Disse-me. - Eu vou  pôr-me a caminho. Espera por mim, que em meia hora estou aí.

Foi nessa altura que o arrumador de carros, que por ali andava no seu trabalho diário, percebeu o que se estava a passar.

- A senhora precisa de ajuda? - Perguntou, com simpatia.

- Não, obrigada, o meu marido já aí vem para me trocar o pneu - Respondi. Mas ele não aceitou um "não" por resposta, e num instante estava deitado debaixo do carro, procurando perceber como se desapertava o pneu sobresselente.

- Não chame o seu marido - Disse-me - Eu faço isto sem problemas!

- Mas olhe que é muito complicado! - Insisti - Estes carros modernos têm muitos segredos na troca dos pneus. O meu marido já aí vem.

- Diga-lhe que escusa de vir, porque quando chegar eu já fiz o trabalho - Insistiu ele também. Eu aceitei então, telefonei ao Niall e fiquei a observar. O arrumador trabalhou arduamente durante meia hora, porque de facto não é fácil trocar um pneu na carrinha, e foi conversando, com muita elegância e simpatia. Por fim, o trabalho ficou pronto, e ele fez menção de seguir o seu caminho.

- Espere - Disse-lhe. - O senhor foi muito gentil e perdeu imenso tempo aqui comigo. Queria agradecer-lhe... - E estendi-lhe uma mão com dinheiro.

- Ah, isso é muito, minha senhora! - Respondeu, sem pegar no dinheiro. Insisti, e ele aceitou, com um sorriso rasgado - Que Deus a ajude! Boa viagem!

Despedimo-nos em paz e com grande alegria. Na avenida, continuavam a passar rapazes novos e pais de família, alguns com pressa, outros vagarosamente. Mas o privilégio do Bom Samaritano não foi conquistado senão por um pobre arrumador...

 

"Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes. (...) Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer." (Mt 25, 31-46)

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Banhos velhinhos

por Teresa Power, em 09.07.15

O dia fora longo e feliz. Depois de uma alegre manhã na praia, tínhamos almoçado em casa das duas avós - a vovó Mimé e a bisavó, que embora não nos reconheça, gosta de ver os meninos a brincar à sua volta. Por fim, tínhamos ainda tido bastante tempo para saltar no jardim.

Hora do banho. O António está sentado na banheira, e eu esfrego-o vigorosamente, deixando a água que se acumula no fundo bastante suja. Verão é também tempo de muita sujidade, penso eu.

Interrompendo os meus pensamentos, o António faz-me uma pergunta:

- Mamã, quando fores velhinha sou eu que te dou banho?

- Banho? A mim?

- Sim. A vovó mamã - é assim que os nossos filhos tratam a bisavó, talvez por escutarem a avó tratá-la por mãe - não toma banho sozinha, pois não? Um dia, eu vou dar-te banho com tu me dás agora a mim!

Sorrio, e continuo a esfregar o meu filho. Espero sinceramente não vir a precisar da ajuda do António, mas se Deus achar de outra forma, espero que o António, e todos os meus outros filhos, sejam capazes disso e de muito mais! E olhem que não estou a pensar no meu bem estar pessoal na terceira idade: estou a pensar na sua capacidade de amar, porque como dizia a Madre Teresa, amar é dar até doer...

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"A glória de uma pessoa vem da honra de seu pai, e é uma desonra para os filhos a mãe desprezada. Filho, ampara teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto vive. Ainda que perca a razão, sê tolerante e não o desprezes, tu, que estás em teu pleno vigor. Pois a compaixão para com teu pai não será esquecida e, em lugar dos pecados, terás os méritos aumentados. Quem abandona seu pai é como blasfemador, e é maldito do Senhor quem irrita sua mãe." (Ecl. 3, 11-16)

 

 

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Hospital de campanha

por Teresa Power, em 14.05.15

Num dos cruzamentos da estrada nacional, que todos os dias percorro, esteve durante toda a semana passada esta bela tenda branca:

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Há quatro décadas que os peregrinos de Fátima encontram aqui uma sombra fresca, água abundante e os primeiros socorros necessários, especialmente todo o cuidado dos pés e das pernas. Os bombeiros de Anadia e outras pessoas de boa vontade disponibilizam-se todos os anos para este trabalho tão bonito e necessário de serviço aos peregrinos, e a tenda branca levanta-se na estrada como símbolo concreto e real do amor cristão. Na verdade, ao ver os peregrinos descalços, com os pés dentro de bacias de água, e os voluntários ajoelhados a seu lado, tratando as bolhas dos seus pés, não pude senão lembrar-me das palavras de Jesus:

 

"Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros."

(Jo 13, 14)

 

Pensei também na parábola do Bom Samaritano:

 

"Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele." (Lc 10, 33-34)

 

Foram estas imagens do verdadeiro amor cristão que inspiraram naturalmente o Papa Francisco e oferecer-nos uma imagem da Igreja - uma imagem nova, mas antiga, tão antiga quanto o Evangelho:

 «Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é necessário começar de baixo».(Entrevista à Revista Brotéria, Setembro 2013)

“Essa é a missão da Igreja, que cura e cuida. Algumas vezes, eu falei da Igreja como um hospital de campanha. É verdade: quantas feridas há, quantas feridas! Quanta gente que tem necessidade de que suas feridas sejam curadas! Essa é a missão da Igreja: curar as feridas do coração, abrir portas, libertar e dizer que Deus é bom, que perdoa tudo, que é Pai, é terno e nos espera sempre”. (Homilia de 5-2-15)

 

A tenda branca à beira da estrada, os peregrinos a caminho de Fátima...

A Igreja à beira da estrada da vida, e cada um de nós, peregrino a caminho da verdadeira Pátria...

Não tenhamos receio de nos aproximar da Igreja, de descalçar os sapatos e de deixar que nos cuidem das feridas. Não hesitemos em estender a mão para receber o alimento, beber da Água da Vida, recuperar as nossas forças! Os sacramentos que Jesus nos deixou são os remédios mais eficazes para quem peregrina pelas estradas da vida.

Depois, assim curados e alimentados, sejamos também nós capazes de nos ajoelhar diante do irmão e de lhe lavar os pés...

 

 

 

 

 

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A maior honra

por Teresa Power, em 14.03.15

- Bom dia, meninas! Acordar!

Como todas as manhãs, entro no quarto das meninas e abro as janelas. A Lúcia está ainda a dormir, bem agarrada aos seus dois ou três peluches. A cama da Sara está vazia.

- Sara! Onde está a Sara?

Uma gargalhada vinda da cama da Clarinha, lá em cima. Duas cabeças a espreitar sob o edredão:

- Sara, que fazes tu na cama da tua irmã? Clarinha, o que aconteceu?

A Clarinha espreguiça-se, dá mais um beijinho à Sara e explica:

- A Sara chorou durante a noite. Antes que tu ouvisses, decidi puxá-la para a minha cama. Eu sei que andas muito cansada, e não queria que ela te acordasse!

 

Hoje a Clarinha faz catorze anos. Olho para ela e vejo uma adolescente bonita, inteligente e equilibrada. Tem alguns defeitos e muitas qualidades. A maior, sem qualquer dúvida, é a sua disponibilidade constante para servir. Esteja a estudar, a ouvir música, a dançar, a fazer ginástica ou, como ontem, a dormir, a Clarinha está sempre disponível para ajudar quem mais precisa. Fá-lo por temperamento (e nesse caso, esta qualidade é claramente herdada do pai), mas fá-lo também por virtude, emprestando à sua maneira de ser o esforço que o Evangelho nos pede.

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Li há tempos o livro "Como ser feliz com 1, 2, 3... filhos", escrito por uma mãe espanhola que tem, imaginem, dezoito filhos, Rosa Roca, num apartamento em Barcelona. Impressionou-me um pormenor: todos os períodos, esta mãe vai à escola, conversar com os professores ou diretores de turma de cada filho. Escreve ela:

"As notas não são a primeira coisa de que falamos, mas sim o comportamento, quer na sala de aula, quer com os colegas. Se se preocupa com os outros, ou se só pensa nele. Se é generoso e partilha os apontamentos, se ajuda o amigo que vai mais atrasado em alguma disciplina... E no final do encontro falamos sobre as notas, sobre se ele se esforçou ou não, sobre o professor de inglês, que parece não engraçar com ele, e sobre a matemática, pois parece que ele não percebe as frações..."

 

É curioso como, ao longo da minha vida de professora, poucos pais me têm questionado sobre a disponibilidade dos filhos para ajudar os colegas. Apercebo-me de que a capacidade de serviço não é um dos valores mais apreciados pela maioria das famílias, sejam ou não famílias cristãs. Precisamos de reler os Evangelhos e de perceber o que é mais importante para Jesus. S. João, o seu amigo mais próximo, narra-nos o que Jesus fez durante a sua última páscoa. O texto começa com um crescendo magnífico:

 

"Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo Lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa..."

 

Será que é agora que Jesus vai manifestar o seu poder divino, auto-proclamando-se Rei de Israel?

 

"...tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura." (Jo 13, 3-5)

 

Que desilusão! Tanto suspense para isto! Ou então... Ou então - e essa é a única hipótese que nos resta - servir é a maior honra que nos é oferecida aqui na Terra.

 

Parabéns, Clarinha, pelos teus catorze anos de vida ao serviço dos outros!

 

 

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Vovó Mamã

por Teresa Power, em 21.11.14

Numa destas tardes de domingo fomos a Aveiro visitar a minha avó, a quem os meus filhos chamam carinhosamente "Vovó Mamã", talvez por ela ser a mamã da sua vovó. A minha avó, mulher forte, generosa, atenta aos outros, a quem eu devo tanto desde menina e até bem depois de casar, está ainda na sua casa, mas já não pode estar sozinha, visto não conseguir deslocar-se e sofrer de uma grave demência. Assim, a minha mãe passa quase todo o seu tempo com ela, tendo ainda a ajuda de funcionárias dedicadas e trabalhadoras.

A Palavra de Deus é muito clara:

 

"Filho, ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida; mesmo se ele vier a perder a razão, sê indulgente, não o desprezes, tu que estás na plenitude das tuas forças. A caridade que exerceres com o teu pai não será esquecida, e ser-te-á considerada, em reparação de teus pecados." (Sir 3, 12-14)

 

Que palavra tão bonita! Deus está disposto a esquecer os nossos pecados por um acto de amor para com os nossos pais, algo que devia ser tão natural em nós...

Cuidar do pai e da mãe idosos aprende-se em família. Eu estou acostumada a ver a minha mãe cuidando incansavelmente da minha avó. E embora a minha avó nunca deixe de dizer "obrigada" e "por favor", já não reconhece a filha. Não é fácil acompanhar os seus delírios, ajudá-la a fazer a sua higiene quando ela quase não se mexe, partilhar o seu sofrimento todos os dias. Mas a minha mãe fá-lo de todo o coração. Terei eu, um dia, esta capacidade de entrega e esquecimento de mim mesma?

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Recordo aqui um texto de Santa Teresinha, que sempre me comoveu, em que ela relata a forma como cuidava de uma irmã muito idosa do convento:

"Custava-me muito oferecer-me para acompanhar a Irmã S. Pedro ao refeitório, porque sabia que não era fácil contentar a pobrezinha, que sofria tanto e que não gostava de mudar de acompanhante. Contudo, eu não queria deixar de aproveitar uma tão bela ocasião para praticar a caridade. Todas as tardes, quando via a Irmã S. Pedro sacudir a ampulheta, sabia que isso queria dizer: "Vamos!" É incrível como me custava sair, mas fazia-o imediatamente. Depois começava todo um cerimonial. Era preciso retirar e levar o banco de um modo especial, e sobretudo, não se apressar; a seguir, iniciava-se o passeio. Se ela dava um passo em falso, logo lhe parecia que eu a segurava mal; se procurava andar ainda mais devagarinho - "Logo vi que era nova demais para me acompanhar!" Quando chegávamos ao refeitório, era preciso arregaçar-lhe as mangas de um modo também especial...

Uma noite de inverno, em que cumpria, como de costume, o meu pequeno ofício, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Então imaginei um salão bem iluminado, todo resplandecente de dourados, de donzelas elegantemente vestidas. A seguir, o meu olhar pousou na pobre doente que amparava; em vez de uma melodia, ouvia de vez em quando os seus gemidos queixosos; em vez de dourados, via os tijolos do nosso claustro austero, mal iluminado. Não consigo exprimir o que se passou na minha alma, o que sei é que o Senhor a iluminou com os reflexos da verdade, que ultrapassavam de tal maneira o brilho tenebroso das festas da terra, que não podia acreditar na minha felicidade! Ah, para gozar mil anos de festas mundanas, não teria dado os dez minutos gastos no cumprimento do meu humilde ofício de caridade!" (História de Uma Alma, Manuscrito C)

 

Que o Senhor nos ensine, como a Santa Teresinha, a escolher o mais importante, e a perceber que a felicidade do Céu vale bem um pequeno ou um grande esforço de caridade na Terra. Ámen!

 

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A Visitação da Fada Madrinha

por Teresa Power, em 15.11.14

- Que dia é hoje, mamã?

- Sábado. Hoje não há escola.

- E há catequese?

- Sim, há, António. Para os manos, claro!

- Que bom! A Isabel vem cá a casa e faz um bolo!

 

A Isabel já foi convidada várias vezes pelo nosso pároco para dar catequese. Ela conhece o catecismo e, sobretudo, tem uma grande fé. Mas a Isabel tem recusado, porque aos sábados, na hora da catequese, está muito ocupada: está na casa dos Power a cuidar dos mais pequeninos e a fazer bolo de chocolate! Eu explico:

Lembram-se da forma como comecei a dar catequese, aqui em Mogofores? A falta de catequistas, na altura, era tão grave, que o Niall se viu também na obrigação de colaborar. Afinal, havia um grupo sem catequista! Mas se os dois íamos dar catequese à mesma hora, quem iria cuidar do nosso bebé, o David? A avó adoraria fazer esse serviço, claro, mas vive a trinta quilómetros de distância e tem a seu cargo a sua mãe e minha avó, que sofre de demência e não pode ficar sozinha. Teríamos de levar o David connosco, naturalmente...

Foi então que um pequeno milagre aconteceu: a Isabel, mãe de três meninas, duas das quais iriam ser nossas catequisandas, ofereceu-se para ficar com o David durante essa hora.

- Tens a certeza de que não te importas? - Perguntei várias vezes, antes de aceitar ser catequista. A resposta foi invariável:

- Claro que não me importo! Tu e o Niall dão catequese às minhas filhas, e eu cuido do vosso bebé.

O acordo estava feito. Mas acontece que ao David, se sucedeu a Lúcia, e à Lúcia o António, e ao António a Sara... A Isabel tinha aceite vir à nossa casa sábado à tarde durante uma hora e pouco para cuidar de um bebé, mas não pensara na altura vir a cuidar de mais três! A cada um que nascia, eu perguntava de novo:

- Tens a certeza de que queres continuar a vir aqui sábados à tarde?

E a resposta foi sempre a mesma:

- Claro que sim!

 

Neste ponto, os meus caros leitores podem pensar que a Isabel se senta confortavelmente no sofá, durante a hora da catequese, e folheia uma revista... Nada disso! Eu acho que nessa hora, a Isabel corre e trabalha mais do que eu o dia inteiro, porque quando chego a casa, tenho a louça arrumada, a roupa passada, a roupa estendida, a sala aspirada, os botões pregados nas batas ou nas camisas e, por fim, um bolo a sair do forno para o lanche. Todos os sábados eu fico maravilhada diante de tanta capacidade de trabalho e de serviço. Nunca pedi à Isabel para fazer mais nada senão cuidar dos meus filhos, o que ela faz com esmero. Mas a Isabel arranja sempre tempo para me prestar mil outros serviços!

O Niall e eu já tentámos todas as estratégias para evitar que a Isabel trabalhasse em nossa casa. Um dia em que não conseguimos de todo lavar a louça do almoço (a catequese é logo depois de almoço), cobrimos a banca com um pano grande e colocámos em cima um papel a dizer: "PROIBIDO MEXER. PERIGO DE MORTE". De nada adiantou... Outro dia, atirámos com a desarrumação toda para dentro do escritório e colámos na porta um letreiro a dizer: "SE ENTRAR POR ESTA PORTA ESTARÁ POR SUA CONTA E RISCO. NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS PELOS DANOS." Quando regressámos, o escritório estava imaculadamente arrumado. Ainda hoje não entendo como ela conseguiu!

Os pequeninos, claro, adoram a companhia e o bolo de chocolate, que a mãe nunca tem tempo de fazer, mas que a Isabel faz com tanto amor e tanta rapidez!

Quando a Lúcia nasceu, não hesitámos em convidar a Isabel e o marido para padrinhos, o que eles aceitaram com muita alegria. O estatuto de madrinha da Lúcia, aliado à capacidade milagrosa que a Isabel tem de transformar o caos da nossa casa em ordem, mereceu-lhe entre nós o título de "Fada madrinha"

Embora eu tenha muitas e lindas fotografias da Isabel com os meus filhos, achei que ela não iria gostar de as ver publicadas aqui. Assim, pedi à Lúcia que a desenhasse, para vocês a ficarem a conhecer. A Lúcia desenhou pois a Isabel e assinou o seu nome por cima. Acho que agora já a irão reconhecer quando se cruzarem com ela, não é verdade?

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É por tudo isto que a Isabel não dá catequese. Ela está onde Deus lhe pediu para estar, servindo sem que ninguém o saiba, dando sem pedir em troca, fazendo muito mais do que lhe foi pedido. A Isabel vive na perfeição a "quinta pedrinha" das Famílias de Caná, a "Visitação"... Nela se cumprem as palavras de Jesus:

 

"Quem de entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja o vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão." (Mt 20, 26-28)

 

Eu não tenho com que lhe agradecer, para além da minha amizade, da minha oração diária, quando a incluo no grupo dos nossos benfeitores, e da bênção diária que peço ao Senhor para ela e a sua família. Mas Deus tem! Deus nunca Se deixa vencer em generosidade. Um dia, no céu, Deus receberá a Isabel na sua alegria, pegar-lhe-á ao colo e dir-lhe-á, cheio de gratidão: "Agora é a Minha vez..."

 

 

 

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Visitação e matemática

por Teresa Power, em 13.11.14

Um fim de tarde bastante agitado de segunda-feira. O António queixava-se de uma unha que já não tinha, e que lhe deixava o dedo a descoberto; a Sara esqueceu-se de ir ao bacio quando sentiu necessidade (e não foi uma necessidade qualquer...); a Lúcia não se recordava se tinha de fazer um desenho sobre "agonia", "alergia", "alegria" ou outra coisa qualquer terminado em -ia, e tinha lágrimas nos olhos enquanto todos nos afadigávamos a procurar descobrir (como o tema geral era a paz, concluímos por fim, sabiamente, que seria "harmonia"); e de repente, fechada no seu quarto, a Clarinha rompeu em pranto. Chorava tão alto, que a Sara me veio avisar, puxando-me pela mão para me conduzir à irmã.

- Que se passa, Clarinha? - Perguntei, já em pânico, enquanto da cozinha me chegava um cheiro a queimado.

- Não consigo fazer nem um único exercício de matemática, dos que saem amanhã na mini-ficha! - E continuava a soluçar em alta voz.

- Clarinha, claro que consegues, tu sabias tudo no domingo, segundo disseste!

- MAS AGORA NÃO ME LEMBRO DE NAAAAAADA!

 

Corri à cozinha para desligar o fogão, e ouvi na rua uma buzinadela. Era a Carla, mãe de uma bela Família de Caná, a chamar a Clarinha para lhe dar boleia até à ginástica. A Clarinha soluçou do quarto:

- Diz à Carla que se vá embora, porque hoje eu não posso ir. NÃO POSSO IR! NÃO SEI NADA DE MATEMÁTICA!

Sem refilar, entreguei o recado direitinho. E agora vou reproduzir aqui a conversa que a Carla e eu podíamos ter tido. Podíamos, porque não tivemos. Podia ter sido assim:

- Carla, a Clarinha hoje não vai, está para ali a chorar por causa da matemática.

- Ok, queres que dê o recado à professora?

- Se fizeres o favor! Obrigada! Até amanhã!

- Bom trabalho para a Clarinha!

 

Este diálogo nunca existiu. Em vez dele, aconteceu isto:

- Carla, a Clarinha hoje não vai, está para ali a chorar por causa da matemática.

- Chorar por causa da matemática? Matemática é comigo! Deixa-me estacionar melhor. Posso entrar? Onde está ela?

- Está no quarto...

- Clarinha, filha, o que se passa?

Soluços e mais soluços - Esqueci-me de tudo!

- Mostra-me lá o que estás a dar. Ah, já vi, estas potências... E o que é que tu esqueceste?

Bem, agora não vos posso contar mais pormenores, porque de matemática do oitavo ano não entendo nada (para ser honesta, desde que Nuno Crato está no governo deixei também de perceber a matemática a partir do terceiro ano, mas isso é outra história).

A conversa prolongou-se durante uns bons quinze minutos, quinze minutos que atrasaram a aula da filhota da Carla, naturalmente; mas que secaram as lágrimas da Clarinha e abriram um sorriso na sua cara molhada.

- Ah, já me lembro! Acho que já me lembro de tudo... Pois é, é isso mesmo!

A Carla regressou ao carro, a Clarinha continuou a trabalhar na matemática, agora muito calmamente, e eu respirei de alívio, enquanto terminava o jantar. Mentalmente, pedi ao Senhor uma bênção dupla ou tripla para a Carla, que nos tinha visitado como Maria visitou Isabel, trazendo-nos a paz, a alegria e o amor de Jesus...

 

"Maria dirigiu-se a toda a pressa a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel." (Lc 1, 39-40)

Clarinha a estudar.JPG

Aqui há algum tempo, várias Famílias de Caná disseram-me que tinham alguma dificuldade em viver a quinta "pedrinha" do nosso compromisso, a Visitação. Afinal, como a Carla  nos mostrou, pode ser tão simples! Quinze minutos... E as Aldeias de Caná a nascer...

Que o Senhor nos ensine a servi-l'O onde Ele está: no irmão que precisa de nós! Ámen.

 

 

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TEC (Trabalhos em Casa)

por Teresa Power, em 20.06.14

Chegaram as férias grandes. Com elas, longos dias em Nada, longas manhãs na praia, muito tempo livre. Com elas, o tempo de família por excelência. E com elas também, terminam os TPC e aumentam os TEC - Trabalhos em Casa - sem desculpas de que "amanhã tenho teste"...

São várias as tarefas que precisamos de repartir entre todos. Uma delas é, sem dúvida, tomar conta da Sara, que como sabem, gosta do perigo e da aventura. Eu sei que tomar conta da Sara é a minha tarefa, mas cá em casa adoptámos uma estratégia que todos aceitam sem protestar: quando a mãe está necessitada de uma hora de descanso,  o Francisco toma conta da Sara durante meia hora e a Clarinha durante outra meia. Tomar conta não implica deixar de fazer tudo o resto que lhes apetece fazer, significa apenas estar atentos para que a Sara não se atire do muro abaixo ou não coma a comida dos cães. Enfim, pode-se tomar conta da Sara enquanto se joga à bola, se pratica ginástica ou se resolve o cubo mágico, mas não se pode enquanto se escreve um post no escritório ou se faz o jantar na cozinha! O Francisco e a Clarinha costumam levar as suas meias horas muito a sério, contando pelo relógio, e quando termina o tempo vão imediatamente chamar-me, que uma hora de "descanso" deve ser mais do que suficiente para mim. E é!

 

Passar a ferro é outra actividade que os mais velhos partilham às meias horas. No outro dia, o Francisco veio ter comigo, depois da sua meia hora bem marcada no seu relógio:

- Quinze t-shirts, mãe. Acreditas que acabo de passar quinze t-shirts? As da Sara são mínimas, as do António também, mas ainda assim...

Não vos posso mostrar uma fotografia actual do Francisco a passar a ferro, porque ele não me autoriza, dizendo que este blogue, como o nome indica, é também dele. Mas posso-vos mostrar a foto da sua primeira experiência com o ferro, há três anos atrás:

 

E agora a Clarinha, na semana passada:

 

 

Quando é preciso algum trabalho que exija força muscular ou capacidade de perceber um manual de instruções, chamamos o Francisco. Esta semana, porque as férias estão aí e os piqueniques também, foi preciso colocar o tejadilho:

 

Aos dez anos, o Francisco aprendeu a usar o berbequim:

Agora é completamente autónomo em todo o tipo de trabalhos manuais em casa! A Clarinha também aprendeu, mas como o Francisco se oferece sempre para estas coisas, ela cede-lhe a vez... A Clarinha prefere costurar:

 

Que dizem da linda bolsa que ela fez para o meu terço?

 

Este ano, o grande desafio para os dois mais velhos será aprender a cozinhar a sério, e não apenas a fazer arroz, a cozer massa e a estrelar ovos. No fim do verão conto-vos como foi!

 

Manter limpas as casotas das galinhas, dos cães e dos gatos e alimentar todos estes animais é outra das tarefas dos mais velhos. No início era bastante divertida, agora é geralmente precedida de um suspiro.

O Niall e o Francisco partilham o mesmo sentido de humor. Outro dia encontrei um bilhetinho do Niall com instruções claras para o Francisco cumprir durante o dia. Colocou-o no espelho da casa-de-banho para o Francisco o ler ao levantar-se, pois o Niall saira de madrugada. À noite encontrei o mesmo bilhetinho na mesinha de cabeceira do Niall, depois de o Francisco o ter "enfeitado" com marcador preto:

 

Também os pequeninos precisam de aprender a trabalhar! Aspirar e limpar o carro é um trabalho em que eles são verdadeiros perfeccionistas:

 

 

A horta, claro, é outra grande tarefa!

 

O David já dobra as meias, procurando os pares no alguidar e colocando em diferentes montinhos as meias dos oito membros da família. Quando tenho tempo, peço ajuda à Sara para levar cada montinho para a respectiva gaveta. Ela adora levar as meias par a par para os quartos, abrir as gavetas de rompante e enfiar as meias nelas, empurrando-as e amassando-as bem para que não escapem! É uma tarefa que leva o seu tempo, mas tem a vantagem de manter a Sara longe de perigos durante uns belos quinze minutos...

 

Tantas tarefas domésticas que é preciso fazer numa casa! Quanto mais cedo as crianças aprenderem a realizá-las, mais naturais elas se lhes tornam. Um dia, quando tiverem a sua família, não ficarão à espera que seja o marido ou a mulher a tomar a iniciativa de cuidar da casa ou dos filhos! Tenho para mim que muitos conflitos conjugais seriam evitados se ambos, marido e mulher, estivessem dispostos a trabalhar em casa e o fizessem com alegria e boa vontade.

Educar para a santidade é sobretudo educar para servir. Quanto mais santos formos, mais servidores nos faremos dos nossos irmãos. Quanto mais importante for o nosso papel, maior deverá ser o nosso serviço. Foi Jesus quem o disse:

 

"Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos." (Mc 10, 43-45)

 

 

 

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  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D