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Bicicletadas

por Teresa Power, em 17.07.15

Na próxima semana, o Francisco vai de bicicleta a Santiago de Compostela, juntamente com alguns colegas e professores do colégio. Irão em peregrinação e em passeio, e serão com toda a certeza cinco dias memoráveis. Pode ser que ele vos conte depois!

Assim, o Francisco tem aproveitado as férias para se tornar um verdadeiro ciclista, praticando todos os dias um pouco, geralmente na companhia dos seus amigos. Na quarta-feira passada saiu de casa com um amigo pelas oito da manhã:

 

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 Duas horas e trinta quilómetros mais tarde, os dois amigos chegaram à praia, e têm uma selfie a prová-lo:

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 Mais duas horas e trinta quilómetros, e chegaram a casa ao mesmo tempo que nós, vindos também de uma outra praia, mas no conforto do nosso carro! Almoçámos todos juntos, partilhando histórias e gargalhadas. Sessenta quilómetros numa manhã! Acho que estão preparados para a grande aventura...

 

De vez em quando, na nossa vida, somos confrontados com desafios maiores do que nós mesmos, capazes de testar até ao limite a matéria de que somos feitos. Para uns, é uma mudança de país, para outros, uma doença, para outros ainda, a perda de um ente querido, ou uma situação de desemprego, ou uma gravidez indesejada. De vez em quando, na nossa vida, somos desafiados a "partir de bicicleta" rumo ao desconhecido. E porque estas "peregrinações" forçadas não costumam fazer-se anunciar, é preciso estar preparados... Jesus não se referia apenas ao momento da morte, mas a todas as situações de batalha na nossa vida, quando contou aos seus discípulos esta parábola sobre a vigilância:

 

"Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais." (Mt 24, 42-44)

 

Que seria do Francisco para a semana, se não estivesse em boa forma física? Que será de nós, quando a grande prova chegar - porque chegará para todos, alguma vez na vida - se não estivermos em boa forma espiritual? O ideal mesmo é começar a treinar em criança - como o Francisco em relação à bicicleta -, trabalhando o carácter, praticando a virtude, adquirindo bons hábitos. Mas para Deus, nunca é tarde para começar!

Controlar a fúria perante uma situação enervante no trabalho, calar uma resposta à provocação do conjuge, aguentar uma dor de cabeça sem um queixume, não fazer as conversas girar à volta de si mesmo, aceitar uma injustiça na escola ou um professor implicante, desligar o televisor à primeira chamada da mãe, repetir vezes sem conta o "Nós, Jesus", ou "Tu queres, Senhor? Então eu também quero!" Tudo isto são pequenas pedaladas, aparentemente insignificantes. Mas são estes "passeios curtos" que nos vão permitir, de um momento para o outro, arrancar na grande peregrinação da nossa vida!

Ofereçamos aos nossos filhos muitas ocasiões de treino, educando-os com carinho, mas com firmeza. Quanto a nós... Porque não começamos hoje mesmo a treinar?

 

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O relógio adiantado e a felicidade conjugal

por Teresa Power, em 16.07.15

Cá em casa, estar de férias significa, entre muitas outras coisas, acordar cedo, às vezes mais cedo - e com muito mais vontade - do que em tempo de aulas. Quando vivíamos ao pé da praia, antes do Tomás morrer, costumávamos estar na areia pelas oito e meia. Nessa altura, havia quem brincasse connosco, dizendo que tínhamos as chaves da praia... Agora temos quarenta minutos de viagem diária a separar-nos do mar, mas mesmo assim, gostamos de chegar à praia entre as nove e as nove e meia, para contemplar as gaivotas que  ainda saltitam na areia e a praia que se estende, solitária, à nossa frente. Ao meio-dia, quando a praia começa verdadeiramente a encher-se de gente, nós já estamos de regresso a casa, com a sensação de ter brincado, rido, saltado e nadado por um dia inteiro!

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 Mas não foi sempre assim. Quando nos casámos, o Niall e eu tivemos naturalmente de orquestrar hábitos e gostos, temperamentos e sonhos. E não foi tarefa fácil! Às diferenças naturais que existiam entre nós, havia ainda a juntar a diferença cultural - o Niall é irlandês - que era significativa. O nosso primeiro ano de casados foi talvez o mais difícil...

Como portuguesa, criada no interior e habituada ao calor, eu achava que a praia só era boa com muito sol. Como irlandês, habituado ao mau tempo e a baixas temperaturas, o Niall gostava de caminhar na areia contra o vento e de nadar à chuva. Ao fim-de-semana ou durante as férias, eu ficava na cama até depois das nove horas, enquanto o Niall se levantava de madrugada. Para mim, antes das nove horas, em férias, não valia a pena estar acordado, porque aqui no litoral está sempre fresco, pelo que a praia não seria uma experiência agradável. O Niall sentia-se frustrado. Para ele, o melhor do dia estava perdido.

Uma manhã de sábado, acordei com o seu chamar entusiasmado:

- Teresa, Teresa, levanta-te depressa, já passa das nove e tu prometeste que íamos passear à beira-mar!

Abri os olhos, estremunhada. Estava ainda cheia de sono. Seria possível ser tão tarde? Olhei para o meu relógio de pulso: nove e um quarto. Olhei para o relógio de parede: nove e um quarto. E quando cheguei à cozinha, olhei para o relógio no micro-ondas: nove e um quarto (nessa altura, nós não tínhamos ainda telemóvel). Tomei o pequeno-almoço à pressa, vesti-me e saímos para o prometido passeio. Cá fora, na rua, o vento fresco e o silêncio da manhã souberam-me deliciosamente bem. Quanta beleza! Entrámos no carro, e naturalmente olhei para o relógio: marcava sete da manhã.

- Niall, que se passa? O relógio do carro... Sete da manhã? Mas... O meu relógio...?

O Niall sorriu, triunfante, enquanto conduzia a caminho da praia.

- Enganei-te bem, não foi?

Não contive uma gargalhada:

- Tu deste-te ao trabalho de mudar todos os relógios lá de casa? Nem te esqueceste do micro-ondas...

- Sim, mudei os relógios todos. Não tinha outra forma de te convencer a vires fazer este passeio comigo. Vais ver que valeu a pena!

E valeu. Valeu tanto a pena, que nunca mais preferi a cama a um passeio pela madrugada...

 

Quem, como eu, já fez quarenta anos, recorda-se certamente da primeira telenovela brasileira difundida em Portugal, Gabriela Cravo e Canela, baseada no belíssimo romance de Jorge Amado. A música, cantada por Maria Bethânia, parece contudo ser o refrão de muitos casamentos fracassados: "Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim..."  Quanta gente recusa a mudança na sua vida! E quanta gente acaba por incorporar na sua vida, não as virtudes, mas os defeitos do conjuge, baixando os braços e desistindo do esforço necessário para que a mudança aconteça!

Quando olhamos para trás, quase dezanove anos depois do dia do nosso casamento, e procuramos o segredo que nos permitiu chegar até aqui com tamanha felicidade, encontramos um refrão contrário... No meio de muitos defeitos e muitos erros, o Niall e eu tivemos sempre uma virtude: a vontade de aprender com o outro o melhor que ele tem para dar, e de o incorporar na nossa vida conjunta. Os hábitos que hoje temos resultam deste desafio constante que fomos fazendo um ao outro a todos os níveis, e da forma como aceitámos ser desafiados, recusando o "vou ser sempre assim". Ao longo dos anos, o Niall adquiriu muitos dos meus melhores hábitos e eu adquiri muitos dos dele, e juntos esforçámo-nos por abandonar hábitos destrutivos e adquirir novos hábitos vencedores. Acordar cedo, para nós, é um deles!

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"Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo puxa parte do tecido e o rasgão torna-se maior. Nem se deita vinho novo em odres velhos; de contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e desta maneira, ambas as coisas se conservam." (Mt 9, 16-17)

 

 

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A escola das injustiças e o Reino de Deus

por Teresa Power, em 11.06.15

Só quem é professor imagina as angústias que os professores vivem nestes dias de avaliações. Em cada reunião, analisamos os alunos em risco de retenção até à exaustão, fazemos "futurismo", como dizemos na nossa gíria, imaginando o que irá acontecer caso o aluno passe e caso fique retido, recolhemos os bocadinhos de esforço e os restinhos de trabalho demonstrados por alunos mais problemáticos, refletimos, mudamos notas, voltamos atrás, avaliamos o impacto de uma retenção no contexto familiar, contamos pequenas histórias de cada aluno que ajudam a puxar um sorriso, a criar empatia. Um professor nunca é - embora haje quem o pense - indiferente ao destino dos seus alunos, por muito que estes alunos o tenham desafiado e até insultado. As reuniões de avaliação são sempre, para mim, uma grande lição de humanidade.

E no entanto, apesar de todos os esforços, de toda a boa vontade, somos sempre injustos. Porque o João passou, e o José, numa reunião diferente, com um conselho de turma diferente, ficou retido. Porque conseguimos comparar notas, mas não pessoas, histórias de vida, contextos familiares. E esta sensação de termos sido injustos algures durante o caminho insiste em nos acompanhar pela vida.

Nestes dias de avaliações, lembro-me da jovem beata Chiara Badano. Também ela sofreu muito com a escola! Durante a sua adolescência teve inclusive de repetir um ano. Os colegas de Chiara são unânimes a dizer que a Chiara foi vítima de uma enorme injustiça, chumbada num exame para o qual se preparou muito bem, mas avaliada negativamente por uma professora que não gostava dela, num tempo em que as avaliações não eram sujeitas ao controlo dos tempos atuais.

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Terá esta injustiça quebrado a fortaleza de Chiara? Pelo contrário: esta injustiça foi, para a jovem Badano, um trampolim para a santidade. Chiara aproveitou a oportunidade de ter sido injustiçada para crescer no amor fraterno: jamais permitiu que, junto dela, se falasse mal da professora em causa; continuou a cumprimentá-la com o seu sorriso pronto; e ofereceu o o seu sofrimento "a Jesus Abandonado". Chiara entrou na escola, no ano seguinte, de cabeça levantada, tomando lugar na sua nova turma com simplicidade e alegria. A injustiça que sofreu desafiou Chiara a tornar-se santa.

Cá em casa, ouço com alguma frequência os meus filhos a queixar-se de injustiças, quer da parte dos professores, quer dos colegas - porque o trabalho de grupo que não foi bem avaliado, porque o teste que foi demasiado curto ou demasiado extenso, porque o colega fez barulho e não deu para ouvir qual era o trabalho de casa. Que fazer com estas pequenas injustiças (e atenção que não estou a falar de bullying ou de coisas realmente graves)?  Ajudemos os nossos filhos a aproveitar estas oportunidades para crescer em perdão, compreensão, auto-controlo, fraternidade. Não os encorajemos a queixar-se por pequenas coisas - geralmente são mais pequenas do que as imaginamos! Ninguém se torna santo sem sofrer contrariedades. Diz Isaías, profetizando sobre Jesus:

 

"Entreguei as minhas costas aos que me batiam, e as minhas faces aos que me arrancavam a barba; não escondi o rosto aos ultrajes e às cuspidelas. Conservei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei envergonhado." (Is 50, 6-7)

 

Ah, vamos ficar tão surpreendidos quando chegarmos ao céu, e descobrirmos quais os trampolins luminosos que nele nos lançaram...

 

 

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Rosas desfolhadas

por Teresa Power, em 27.05.15

- Mamã, temos de levar uma flor para Nossa Senhora, hoje na missa!

- Não é hoje, David, é no próximo sábado. Hoje será a bênção da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora em Saída, e no próximo sábado, na catequese, todos os meninos levarão uma flor. A procissão é só no outro domingo.

- Mas há uma rosa tão bonita no jardim... Tão bonita mesmo!

Sair para a missa ao domingo de manhã é sempre uma grande corrida contra o tempo, e não pude concluir este breve diálogo com o David. Mas durante a Eucaristia apercebi-me de uma curta troca de palavras entre o David, acólito, e o celebrante, o padre Aníbal, que veio expressamente de Lisboa para a ocasião. O padre Aníbal inclinava-se para o David e sorria-lhe. Já em casa, ao almoço, perguntei:

- David, que te disse o padre Aníbal na missa?

- Disse-me para não ficar triste, que no próximo domingo posso trazer a flor.

Engoli em seco.

- Então tu estavas triste?

- Não. Quer dizer, antes da missa eu disse ao senhor padre que queria ter trazido uma rosa muito bonita, mas não tivemos tempo...

- Queres mostrar-me qual é essa rosa?

- Vem cá!

O David levou-me ao jardim, onde uma única rosa vermelha erguia as suas pétalas, triunfante.

- Tens razão. É mesmo bonita! Olha, fazemos assim: mais logo colhemo-la e levamo-la ao santuário. Pode ser?

Os seus olhos brilharam.

- Sim!

Estava eu a deitar a Sara para a sesta, quando o António apareceu a correr junto de mim.

- Mamã, a Lúcia destruiu uma flor vermelha e escondeu as pétalas! E as pétalas eram para os dois!

Senti o coração aos pulos. Uma flor vermelha?

- António, que flor é que ela destruiu?

- Vem ver - E o António levou-me ao jardim. Procurei com o olhar o vermelho brilhante da rosa do David. Mas no lugar da rosa, havia apenas um caule triste.

- Lúuuuuucia! - Gritei, exasperada. Ela apareceu a correr.

- O que foi, mamã?

- Que fizeste à rosa vermelha? QUANTAS VEZES TE DISSE QUE NÃO SE PODEM ARRANCAR AS FLORES DO JARDIM?

Ela ficou muito calada. A minha brusquidão fez surgir duas grossas lágrimas nos seus olhos esverdeados.

- O David queria levar a rosa a Nossa Senhora, Lúcia. - Expliquei-lhe, sempre muito irritada.

- Eu não sabia... A sério, eu não sabia...

- Mas não podes arrancar flores. As flores não são para destruir, são para colher e colocar em jarras. Destruir, não!

- Eu não sabia...

Ficámos as duas em silêncio. Eu procurava acalmar-me, como convém a uma mãe cristã. Depois, abracei a minha filha e pedi-lhe perdão pelos gritos. Não tinham sido necessários. Aliás, raramente são necessários, e geralmente são detestáveis quando os vemos nos outros. A Lúcia sorriu, feliz, perdoando-me de coração - cá em casa, temos um grande treino nestes gestos de pedir e oferecer o perdão - e continuou a brincar.

Agora faltava contar ao David.

- David, tenho uma coisa a dizer-te... Acho que a tua rosa... Bem, acho que temos de levar outra flor a Nossa Senhora.

- Porquê?

- Porque a Lúcia arrancou todas as pétalas. Ela não fez por mal, estava só a brincar...

O David ficou calado, depois o seu rosto iluminou-se:

- Podemos apanhar as pétalas e levá-las a Nossa Senhora! Deitamo-las no chão junto à sua imagem, como se faz nas procissões!

E foi o que fizemos.

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 Enquanto observava a alegria do David, cobrindo de pétalas o chão em redor da imagem de Nossa Senhora, fiquei a pensar...

Também eu tenho um jardim interior, um jardim criado por Deus, lá nos primórdios da criação da minha vida. É nesse jardim onde, como diz o Livro do Génesis, o Senhor gosta de passear pela brisa da tarde:

 

 "Então ouviram o som dos passos de Deus, que passeava no jardim pela brisa da tarde." (Gn 3, 8)

 

No meu jardim interior há muito poucas rosas vermelhas de que me possa orgulhar. Eu gostava de poder escrever aqui que nunca perco a paciência, que nunca ralho sem razão, que sou sempre justa, que nunca me engano, que nunca me distraio na oração, mas nada disso é verdade. Como me escreveu uma simpática leitora deste blogue: "Às vezes tenho dificuldade em me aturar!" Fico com a sensação de passar anos e anos a construir virtudes, como quem faz crescer rosas com cuidado, para depois, numa fração de segundo, o meu pecado arrancar todas as pétalas e deixar à vista de todos apenas um triste caule. Um grito totalmente desproporcionado, e lá cai mais uma rosa por terra... De que valeram anos de esforço, se o meu jardim está cheio de rosas desfolhadas?

Mas dos braços de Maria, Jesus pareceu sorrir-me. E eu pensei escutar...

"Só há pétalas espalhadas pelo chão onde antes houve rosas. O que a Mim importa é que continues, todos os dias, a cultivar as tuas rosas, esforçando-te por praticar a Minha Palavra. O teu esforço cativa o meu Coração! Se depois, num segundo, o teu pecado arrancar todas as pétalas, não te aflijas. Quando não tiveres rosas para Me oferecer, ajoelha-te na poeira do teu chão e recolhe as tuas pobres pétalas, como o David fez. São-me mais agradáveis as pétalas recolhidas com a humildade de quem se sabe pecador do que as rosas oferecidas com o orgulho de quem se julga irrepreensível..."

Senhor, ensina-me a praticar o bem sem vaidade, recomeçando cada dia; e que o meu pecado nunca seja ocasião de desânimo na minha vida, mas antes fonte de humildade. Senhor, são para Ti todas as minhas pétalas...

 

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Autocontrolo e a ressurreição de Jesus

por Teresa Power, em 11.04.15

Regresso às aulas. Turma do Vocacional. Antes de entrar na sala, respiro fundo, rezo uma Avé Maria e entrego-me a Jesus: "Nós, Jesus: Tu e eu vamos dar aulas à turma do Vocacional."

Entrada bastante atribulada. Alguém passa uma rasteira e outro cai no chão, mas porque não é bom ficar "por baixo", logo atira com uma mochila sobre as carteiras. A meio do "voo", mais dois ou três ficam magoados e decidem vingar-se. Consigo, a custo, controlar a situação e fazê-los sentar nas cadeiras.

Nas reuniões de avaliação, fui informada que o meu pior aluno foi institucionalizado. Sinto-me muito envergonhada do sentimento de alívio que me invade...

- Têm tido notícias do vosso colega? - Pergunto, quando o barulho acalma um pouco.

- Ele diz que aquilo é um galinheiro.

- O quê?

- Não ligue, professora. Acho que ele anda bem.

- E vocês, que fizeram nas férias? Aprenderam alguma coisa nova nos estágios nas empresas?

- Aprender? A mim só me mandavam limpar o pó!

- Eu aprendi. E até já tenho emprego para as férias, que o dono da oficina disse que eu podia ir ajudar.

- Fantástico!

- Eu também. A costureira disse-me que eu podia ir nas férias grandes trabalhar com ela.

- Isso é que é sorte! Agarra a tua oportunidade, D., que podes não voltar a ter outra!

- Eu também aprendi.

- Aprendeste? - Olho com expetativa para o meu aluno. Do "novo" grupo (sem o aluno que foi institucionalizado), é talvez o que mais dores de cabeça me causa...

- Aprendi a controlar-me.

A maior parte destes alunos está habituada a reagir a provocações da pior maneira. Julgo que é esse o modelo que têm em casa, e é essa a estratégia de sobrevivência que desenvolveram ao longo da sua triste vida. Quebrar o ciclo e aprender o auto-controlo não é tarefa fácil, nem se consegue de um dia para o outro. Percebo que L. está a falar com sinceridade, e dou-lhe os meus parabéns.

- Sabes, L., seres capaz de te controlar é a melhor lição que podes aprender. Quando nos deixamos levar pelos nossos impulsos imediatos, tornamo-nos escravos e perdemos a liberdade. Podes ver isso, por exemplo, no teu colega que deixou a turma. Incapaz de se controlar, precisou que outros o controlassem.

L. está a ouvir, mas faz de conta que a conversa não lhe interessa.

- Sermos capazes de nos controlarmos faz de nós livres. Tu é que escolhes se te deixas provocar ou não. A resposta é tua, não do colega que te provocou. A decisão está nas tuas mãos. No dia em que conseguirmos controlar os nossos impulsos, seremos senhores de nós mesmos. Nesse dia, podes levantar a cabeça, porque venceste a batalha!

 

Não lhe digo mais nada, mas enquanto observo os seus esforços evidentes para se comportar (serão duradouros?) lembro-me de S. Paulo. Numa longa explicação na Carta aos Romanos, ele falou precisamente deste assunto, que eu vi exemplificado na minha sala de aula:

 

"Deparo-me, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável eu sou!" (Rm 7, 21-24)

 

S. Paulo está aqui a falar dos meus alunos, que estão prisioneiros do mal que os rodeia; mas S. Paulo está também a falar de mim, que sei muito bem qual é a Lei de Deus, que cresci com acesso livre a ela, e que mesmo assim, me deixo imprisionar pelo pecado... Quantas vezes, na relação com os outros, me deixo levar pelos meus instintos de cansaço, irritação, impaciência? Os meus alunos têm mais desculpa do que eu.

Já depois da aula terminar, e de eu ter lutado arduamente contra os meus instintos mais primários, que me incitavam a gritar, a ridicularizar, a responder no mesmo tom; já depois de todos os meus alunos sairem da sala, percebo que só há uma forma de vencer este combate. E essa forma está contida naquelas duas palavrinhas: "Nós, Jesus." De facto, é também essa a conclusão de S. Paulo:

 

"Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso! (...) Se com Cristo sofremos, também com Ele seremos glorificados." (Rm 7, 25.8, 17)

 

Jesus, ajuda-me a morrer contigo para o pecado, para contigo ressuscitar para a felicidade. Sei que não o conseguirei sem luta, sem sofrimento, sem cruz; mas também sei que é esse o único caminho que leva à ressurreição, pois ninguém ressuscita sem antes morrer - e morrer para si mesmo! Nós, Jesus... Ámen!

 

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Um bocadinho mais

por Teresa Power, em 24.02.15

Como já contei, a Clarinha praticou ginástica artística no Colégio, como desporto escolar, até ao ano passado, altura em que finalmente abriu um clube de ginástica rítmica perto de nós, no Velódromo Nacional de Sangalhos. A Clarinha pôde assim concretizar o seu sonho e iniciar a competição em ginástica rítmica. Desde então, de aula em aula, de competição em competição, a Clarinha tem crescido como atleta e como pessoa. E com ela, todos temos crescido também!

 

Quando entrou para a ginástica rítmica, a Clarinha já fazia a espargata com muita facilidade. No entanto, um ângulo de 180º é pouco na ginástica rítmica. Assim, a professora ensinou a Clarinha a treinar a espargata apoiada num banquinho primeiro, depois em duas cadeiras. O treino é duro, mas eficaz: um bocadinho mais de cada vez, durante cinco ou dez minutos, aguentando alguma dor ou até limpando alguma lágrima fortuita, enquanto se põe a conversa em dia com as amigas, e a espargata vai abrindo...

 

- Eu nunca seria capaz de fazer a espargata - Digo-lhe eu muitas vezes.

- Eras, se treinasses - Responde-me a Clarinha. - Na ginástica estão algumas meninas que não conseguiam fazer espargata alguma, e agora já treinam com um banquinho. Um bocadinho mais de cada vez!

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Um bocadinho mais de cada vez. Não apenas na ginástica, claro... "Um bocadinho mais" tornou-se o nosso lema no treino da santidade. É preciso treinar a generosidade, a oração, a renúncia, a vontade, a gratidão...? Um bocadinho mais de cada vez:

Hoje, fazemos quinze minutos de oração; amanhã, podemos fazer dezoito, e depois de amanhã, já conseguiremos fazer vinte minutos...

Hoje, rezamos um mistério do terço em família; amanhã, podemos rezar dois; em breve rezaremos o terço inteiro...

Hoje, levantamos a mesa sem que nos peçam; amanhã, levantamos a mesa e colocamos a louça na máquina; em poucos dias, somos capazes de arrumar a cozinha sozinhos...

Hoje, mordemos o lábio quando queremos responder a alguém que nos insulta; amanhã, um suspiro será suficiente; em breve seremos capazes de sorrir de volta a quem nos insultar...

Hoje, gerimos com facilidade dois filhos; amanhã seremos capazes de arriscar um terceiro; em breve deixaremos de ter medo de uma família numerosa... 

Doi? Um bocadinho. Como a espargata. Nada que não se aguente...

Jesus deixou-nos este conselho no Evangelho:

 

"Se alguém te tirar a túnica, dá-lhe também a capa; e se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas." (Mt 5, 40-41)

 

No domingo, a Clarinha competiu nas distritais. A sua alegria, às seis da manhã, antes de sair de casa, era imensa! As distritais foram o culminar de um treino longo e intensivo, e a recompensa do seu esforço. Também nós vivemos um tempo de treino intensivo: a quaresma. Um bocadinho mais cada dia, e a Páscoa despontará finalmente, bela e luminosa, na nossa vida...

 

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Semeando flores de amor

por Teresa Power, em 23.02.15

- David, vem brincar comigo!

- Agora não, António, deixa-me ler.

- Vá lá!

- Já te disse que quero ler. Vai-te embora.

- Faz um sacrifício!

- ... Está bem, vou brincar contigo. Ainda não ofereci nenhuma flor a Jesus hoje...

 

- Mamã, vem ver o escritório!

- Acho melhor não ir, Lúcia. Fico mal disposta só de olhar para a desarrumação!

- Mas eu fiz uma surpresa. Queres vir? Anda, dá-me a mão.

- Meu Deus, Lúcia! Arrumaste tudo sozinha?

- Sim, é uma flor para Jesus!

 

- Mamã, hoje já sei qual é a flor que vou dar a Jesus.

- Que bom, António! E qual é?

- Não vou fazer birra ao jantar!

 

Fazer o Canto de Oração quaresmal é divertido. Mas o maior desafio é cobri-lo de flores! A primavera está aí, e não há tempo a perder. Escreveu Santa Teresinha numa carta à sua irmã Leónia:

"Não tenho outro meio de te provar o meu amor, diz a Jesus, a não ser atirar flores, isto é, não deixar escapar nenhum sacrificiozinho, nenhum olhar, nenhuma palavra, aproveitar todas as mais pequenas coisas e fazê-las por amor... Quero sofrer por amor e até mesmo gozar por amor, assim atirarei flores diante do teu trono; não deixarei uma sem desfolhar por Ti."

É este o sentido do nosso sacrifício quaresmal: oferecer a Jesus pequenas flores de amor, pequenos gestos de bondade e de renúncia, de generosidade e de auto-domínio, para que a nossa quaresma, pouco a pouco, nos conduza à primavera pascal...

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 "Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus."

(1Co 10, 31)

 

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Irmãos e companheiros

por Teresa Power, em 18.12.14

Durante este primeiro período, o David sentiu-se sempre um pouco desanimado com a Matemática, e eu também. O professor foi repetindo que o David tinha capacidade para ser aluno de excelência, mas os resultados não correspondiam.

- Deixa lá, David, tu estás a dar o teu melhor! - Consolava-o eu. Como professora, conheço muitos alunos a quem os pais precisam de castigar quando tiram maus resultados. Os meus filhos, porém, castigam-se a si próprios, com mais ou menos lágrimas de tristeza, e por isso, a mim cabe apenas consolar. Antes isso!

- Talvez o David precise de uma ajuda maior da nossa parte - Dizia-me o Niall. Como ele chega sempre a casa depois dos trabalhos de casa estarem arrumados, essa ajuda, subentende-se, seria minha. Mas os meus fins de tarde são muito atribulados, com a Lúcia a aprender a ler, o António e a Sara a querer atenção, o jantar para fazer... Foi então que me lembrei do Francisco, para quem a Matemática é um hobby engraçado:

- Francisco, tenho um desafio a fazer-te: o David não está a conseguir ter bons resultados a Matemática. Precisamos que lhe dês, por semana, pelo menos uma hora de explicação. Que dizes?

O Francisco ficou calado por uns momentos. Depois tentou esquivar-se:

- Não faço a menor ideia do que ele anda a aprender! Além disso, não tenho jeito para professor.

- Eu também não faço a menor ideia do que ele anda a aprender, mas há uma maneira de ficarmos a saber: consultamos o manual. Quanto ao jeito para professor, Francisco, não te preocupes, que ao fim de duas semanas já o adquiriste!

Com um suspiro, o Francisco percebeu que não tinha alternativa. E com a sua natural paixão por desafios, decidiu agarrar este serviço com ambas as mãos. Assim, nas últimas semanas repetiram-se cenas como esta:

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Na última semana de aulas, o David chegou a casa exultante: tinha conseguido mais de 90% a Matemática! Feliz, deu um abraço ao irmão.

Agora, que estão de férias, o Francisco decidiu ensinar o David a jogar xadrez. E não é que o David está a ficar um craque?

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Escreveu S. Paulo aos filipenses:

 

"Não cuideis apenas dos vossos próprios interesses, mas tende sempre em mira os interesses dos outros." (Fil 2, 4)

 

Uma das nossas maiores preocupações enquanto pais é assegurarmo-nos de que os irmãos crescem solidários. Conheço cada vez mais famílias em que cada filho faz a sua vida, independente dos irmãos e sem qualquer tipo de responsabilidade para com eles. Tive há uns anos duas alunas gémeas que tinham inveja das notas uma da outra e nunca se ajudavam! Também conheço famílias em que os pequenos serviços prestados entre irmãos são pagos pelos pais... Que tipo de humanidade estamos nós a educar?

O David melhorou o aproveitamento a Matemática; mas o Francisco melhorou aspectos da sua personalidade bem mais importantes que a Matemática! Ajudando o irmão, venceu-se a si próprio, aprendeu a renunciar a um bocadinho do seu tempo para servir o outro, e descobriu a alegria de dar. Isto sim, é crescer...

 

 

 

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Arregaçando as mangas

por Teresa Power, em 06.12.14

Durante todo o tempo que esteve na Alemanha - bem como, depois, na França - o Niall trabalhou duramente em restaurantes, lavando a louça e preparando as refeições da noite, para poder pagar o seu alojamento. Assim, os nossos encontros ao serão eram raros, e eu ficava sempre cheia de pena por não podermos aproveitar todos os minutos do dia para namorar.

Um belo dia, e apesar de a minha família nunca tal me ter sequer sugerido, decidi que também era capaz de trabalhar. Afinal, iria precisar de juntar algum dinheiro, se queria visitar o Niall na Irlanda, no verão! E foi assim que me dirigi ao mesmo restaurante onde o Niall lavava a louça.

O dono do restaurante foi muito simpático comigo. Apresentou-me o pessoal da casa e depois conduziu-me à sala de jantar. O meu trabalho não seria na cozinha, mas na sala, servindo refeições. Apressado, mostrou-me os armários dos pratos e as gavetas dos talheres, explicando tudo a uma velocidade relâmpago - em alemão; ensinou-me a segurar a bandeja e a fazer o pedido, e deu-me um bloco de notas para eu fazer os registos necessários - em alemão. Depois, lançou-me ao trabalho "como cordeiro no meio dos lobos": acabava de entrar um grupo barulhento de treze pessoas, que se sentaram, a rir, à volta de duas mesas. Era preciso ir servir!

Treze pessoas a fazer os seus pedidos, todos em alemão, a caneta a voar no bloco de notas, a cabeça a andar à roda... Cheguei ao bar para buscar as bebidas, e vi o olhar sério do patrão, que seguira todos os meus movimentos. Sem falar, ajudou-me a colocar tudo num tabuleiro. Depois dirigi-me à mesa, e com o meu melhor sorriso, coloquei o tabuleiro no centro, explicando em alemão:

- Não consigo lembrar-me de quem pediu o quê: façam favor de se servir!

Quando os clientes, bem dispostos, acabaram de se servir, e eu retirei o tabuleiro da mesa, reparei que todos os empregados do restaurante olhavam para mim com ar de caso e um sorriso disfarçado nos lábios. Então o patrão chamou-me, dirigiu-se ao balcão, pagou-me uma hora de trabalho e... despediu-me!

Saí do restaurante, onde o Niall continuou a lavar a louça, e corri à primeira cabine telefónica que encontrei, para telefonar à minha mãe. A chorar, contei-lhe que fora despedida do primeiro emprego da minha vida. Ela deu uma sonora gargalhada, enquanto respirava de alívio: as minhas lágrimas tinham-na feito pensar que algo de grave se passara mesmo!

erasmus.jpg

(Reconhecem-nos, ao Niall e a mim, num dos muitos jantares numa residência com amigos Erasmus?)

 

Esta foi uma das histórias que partilhámos com a equipa de reportagem que nos entrevistou. Ainda hoje me sinto a corar quando penso que fui despedida por não saber servir a uma mesa... O Niall, pelo contrário, ganhou um treino muito jeitoso a lavar quantidades industriais de louça. Hoje, como devem imaginar, este treino dá imenso jeito na nossa casa! É quase sempre o Niall quem arruma a cozinha ao jantar, alternando com o Francisco e a Clarinha alguns dias por semana.

Trabalhar também tornou o Niall mais realista, mais consciente do valor do dinheiro e do preço das coisas, mais sóbrio nos gastos. E trabalhar não impediu o Niall de se divertir ou de arranjar namorada...

 

Já referi aqui a frase do psicólogo italiano Andrea Fiorenza, perito em educação:

"Oxalá o teu filho tenha uma dificuldade por dia para enfrentar. E se a não tem, oferece-lhe tu uma diariamente."

 

A Bíblia diz exactamente o mesmo:

 

"Aquele que ama o seu filho, corrige-o com frequência, para que se alegre com isso mais tarde. (...) Educa o teu filho, esforça-te por formá-lo, para que não te aborreças com a sua vida vergonhosa." (Sir 30, 1.13)

 

Eduquemos portanto homens e mulheres fortes e corajosos, capazes de enfrentar as agruras da vida com a cabeça erguida e as mangas arregaçadas. Eles agradecer-nos-ão mais tarde!

 

 

 

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Coerência cristã

por Teresa Power, em 12.04.14

- É verdade que tu no blogue disseste que eu agora me porto sempre bem?

- É sim, António. Escrevi um post sobre isso!

- Ah, então tenho mesmo que me portar bem!

 

Pois é... Que responsabilidade a dos cristãos! Afirmamos publicamente a nossa fé pelo simples acto de entrarmos numa igreja, de frequentarmos os sacramentos, de baptizarmos os nossos filhos, e depois? Que mensagem transmitimos nós ao mundo? Se eu tenho ritos cristãos, mas obras pagãs, que testemunho dou? Está na hora de ser cristão por dentro e por fora...  Escreveu o papa Francisco no Twitter no dia 7 de abril:

 

"Como nos faz bem deixar que o Senhor sacuda a nossa vida tíbia e superficial!"

 

No evangelho, Jesus disse:

 

"Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte, nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no céu." (Mt 5, 14-16)

 

O António, com os seus quatro anos fresquinhos, já pressente a responsabilidade cristã do testemunho de vida. A pequena visualização deste nosso blogue familiar é para ele a luz que se coloca no candelabro e ilumina quem se aproxima. E para poder assim iluminar os outros, o António deixa que Jesus "sacuda a sua vida", como disse o papa. Então, pelo António, vou continuar a escrever...

 

                                         (António cowboy)

 

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publicado às 08:18



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