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Tempos Livres VI - Felicidade

por Teresa Power, em 30.01.16

Termino hoje a "saga" da Clarinha, tal como espero e desejo que tenha terminado cá em casa, e termino esta pequena "série" de posts sobre os tempos livres dos Power. Quem chegar ao blogue aqui pela primeira vez, talvez seja conveniente ler esta sequência de seis posts antes deste!

 

Depois de jantar, na sala, fazemos alguns jogos ou lemos histórias todos juntos. São apenas dez minutos do nosso serão, o suficiente para nos divertirmos em família, antes da nossa oração familiar. Numa destas noites, durante um animado jogo em que o monstro maior da casa procurava agarrar os seus pequenos prisioneiros, que fugiam aos gritos e às gargalhadas, a Clarinha fez uma roda e um pino tão entusiásticos, que atirou para o chão a fotografia do Tomás e a imagem de S. Tiago vinda diretamente de Compostela.

- Clarinha, por favor, sabes bem que a nossa sala é pequena para os teus pinos! - Ralhei. Ela desatou a chorar:

- Mãe, eu não aguento ficar sem fazer ginástica! Eu não sou capaz de passar os dias sem me esticar muito bem esticadinha!

Suspirei fundo e abracei-a.

- Clarinha, podes sempre voltar às aulas de ginástica sem estares em competição...

- Sabes bem que não, mãe. Outras poderão, não eu. As professoras iriam pressionar, porque não me querem perder. Eu ajudo a dar nome ao clube... Não. Não posso arriscar. Além disso, as aulas são iguais para todos, estejam ou não em competição, e deixa-me que te diga... são uma seca! Temos de treinar em silêncio completo, se nos distraímos ou rimos, gritam logo connosco. Não quero isso para mim! Só quero descontrair e divertir-me ao fim de um dia de escola...

- Mas se precisas assim tanto de fazer ginástica, temos de encontrar uma alternativa à ginástica rítmica.

Ela acalmou um pouco, perante os olhares espantados dos irmãos mais novos, que com o aparato, se tinham esquecido de fugir do "monstro". Ouvi o David a murmurar baixinho, abanando a cabeça com sabedoria: "Não entendo nada... Chora por fazer, e chora por não fazer..."

De repente, lembrei-me de uma conversa que tivera há alguns dias com uma amiga.

- Clarinha, disseram-me que no velódromo, ao mesmo tempo que há aulas de ginástica rítmica, também há de artística. É verdade?

- Sim, é. Mas iria ser a mesma coisa, mãe. Quando os treinadores vêem do que eu sou capaz, começam a pressionar.

- Contudo, disseram-me que tu já és demasiado crescida para começar competição agora, em artística. Disseram-me que o professor se concentra nos pequeninos, que vão trabalhar para competir, e vai ensinando os mais crescidos de forma descontraída, sem lhes dedicar demasiada atenção. No fundo, o que tu queres...

No dia seguinte, levei a Clarinha à sua primeira aula de artística. O professor disse-me que, a começar nesta altura do ano, só seria possível se a Clarinha soubesse fazer uma roda, um pino, uma cambalhota... Descansei-o. Depois expliquei-lhe que a Clarinha não tem espírito de competição, e que seria melhor não a abordar sequer sobre tal. Foi a sua vez de me descansar.

Quando a aula terminou, a Clarinha vinha radiante, e o seu sorriso iluminava.

- Então, Clarinha, gostaste?

- Adorei! Podemos conversar e rir enquanto treinamos. Já fiz amigas! Adoro ir ter com as meninas e apresentar-me: "Olá, sou a Clara." É tão bom conviver! O professor nem acreditava, quando eu lhe disse que aprendi a roda sem mãos sozinha, pela internet. Ia ensinar-me o flick, mas descobriu que eu já sei fazer dez seguidos. Na próxima aula ensina-me a fazer um mortal! Fiz uma aranha na trave e não tive medo. Não te preocupes: temos uma piscina de esponjas espetacular por baixo, se por acaso cairmos! - Atirou-se para o sofá, esgotada e feliz. E acrescentou: - Eu adoro ginástica, eu preciso de ginástica, mas a ginástica não é a minha vida. Nestas novas aulas tenho espaço para conversar, rir, descontrair enquanto treino, que é o que eu preciso ao fim de um dia de escola e estudo... Tive um sonho, concretizei-o, já é passado.

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Tenho tido oportunidade de escutar a Clarinha a responder a quem lhe pergunta pelas suas razões de desistência. "Foi a professora?" "Ela não exigia o suficiente de ti, que podias dar mais?" "Ela exigia demasiado de ti?" "Ela era fria?" A resposta da Clarinha tem-me surpreendido: "Não, não saí por causa da professora. Saí por minha causa. A professora fez o que tinha de fazer. Eu é que não estava bem." E uma das maiores alegrias da Clarinha nos últimos dias foi um abraço e um sorriso da sua antiga treinadora (a que a acompanhava mais de perto), que no velódromo lhe estendeu os braços: "Clarinha, parabéns, tens imenso jeito para a artística! O importante é estares feliz."

Às vezes, na cama, a Clarinha chora um bocadinho com saudades das bolas, das fitas, dos arcos, das cordas. Também eu recordo, com alguma emoção, a alegria imensa da Clarinha durante o verão, quando, com o pai, fez a sua encomenda, pela Internet, da bola e da fita mais lindas do mundo, o cuidado que pôs na escolha, a festa que fez ao receber a encomenda... Depois, recordo-me da história de Lot e da sua mulher, habitantes de Sodoma, a cidade pecadora que o Senhor queria destruir. Conhecem o episódio? O anjo do Senhor foi enviado a Lot e disse-lhe:

 

"Foge, se quiseres conservar a tua vida. Não olhes para trás nem te detenhas em parte alguma do vale. Foge para o monte, de contrário morrerás." (Gn 19, 17)

 

Há passagens da Bíblia que só conseguimos entender quando vivemos a sua força. Esta é uma delas. De facto, às vezes é preciso partir sem olhar para trás, para não corrermos o risco de sermos transformados, como a mulher de Lot, numa estátua de sal. Ao longo da nossa vida, Deus irá desafiar-nos a abandonarmos tudo aquilo que nos prende ao mundo, incluindo - sim, incluindo - os nossos próprios sonhos. Porque, se não nos detivermos em parte alguma do vale, em breve alcançaremos o único monte que existirá para sempre, o Coração de Deus...

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publicado às 06:00


14 comentários

De Bruxa Mimi a 30.01.2016 às 08:19

Também eu fiquei feliz com o final desta história! Ah, e quanto às bolas, arcos e fitas, talvez o vosso quintal tenha mais espaço... (ai a horta!) ;-)

De Teresa Power a 30.01.2016 às 18:38

Pois, a Clarinha queixa-se de que Náturia tem demasiados espinhos, e quando a bola lá cair (o gradeamento do jardim é baixo), era uma vez uma bola, como acontece com as inúmeras bolas de futebol que o Niall traz para os mais pequeninos jogarem... fitas, arcos e bolas misturados com galinhas e couves não dá :) Ab

De Olívia a 30.01.2016 às 10:21

Que bom que a Clarinha continua a praticar a sua ginástica, agora sem pressões e com um sorriso!

De Catarina Silva a 30.01.2016 às 15:13

Teresa,

Quando escreve: "De facto, às vezes é preciso partir sem olhar para trás, para não corrermos o risco de sermos transformados, como a mulher de Lot , numa estátua de sal. Ao longo da nossa vida, Deus irá desafiar-nos a abandonarmos tudo aquilo que nos prende ao mundo, incluindo - sim, incluindo - os nossos próprios sonhos.", diz por palavras aquilo que senti aquando da minha separação. Foi preciso deixar tudo. Tudo o que não importava, incluindo os meus sonhos (porque ninguém sonha em separar-se) e partir sem olhar para trás, para não correr o risco de ser transformada numa estátua de sal.
Teresa, não publique este comentário, se assim o entender. Não quero que alguém o leia e pense que já não vale a pena lutar pelo seu casamento e queira desistir. Vale sempre a pena lutar. Sempre. Não pudemos é deixar que essa luta nos transforme de tal maneira que nos afaste do coração de Deus. Esse sim, o único motivo de luta!
Felizmente a Clarinha percebeu que a competição não era uma "luta" que a aproximasse de Deus. E percebeu tão bem!
Obrigada pelo tempo que disponibilizou para nos presentear com esta maravilhosa sequência de posts ! Fez com que não me sentisse tão diferente. Bjs

De Teresa Power a 30.01.2016 às 16:24

Tal como eu escrevi, querida Catarina, há passagens das Escrituras que só as entende quem as viveu... Que o Senhor a abençoe sempre e à sua linda família! Bjs

De Catarina Silva a 30.01.2016 às 17:44

Tão mas tão verdade!!! Obrigada!

De Manuela a 30.01.2016 às 18:06

Obrigada pela fantástica sequência de posts! Mesmo sem essa intenção, foram uma "escola de pais" :-)
É sempre bom ouvirmos exemplos de vida assim, de forma simples e sincera!
Parabéns à Clarinha, em particular, pela maturidade que revela nas suas opções.
E, por favor Teresa, não perca o hábito dos posts diários... faz-nos falta esta evangelização diária!!!

De Teresa Power a 30.01.2016 às 18:35

Obrigada, Manuela, pela simpatia e sinceridade. Eu tenho muito para escrever, mas se soubesse a quantidade de solicitações que temos tido! Por exemplo, hoje já estivemos a dar testemunho em Coimbra, na quarta-feira estive a falar para sacerdotes em formação permanente, e isto tudo sem deixar de jogar às cartas e contar histórias em família, preparar aulas e corrigir testes... Bem, os testes estiveram pacientemente à espera do final desta sequência de posts :) Ab!

De Patsy a 30.01.2016 às 18:13

E os mais pequeninos? Ainda não frequentam actividades? Já demonstraram vontade em fazer alguma coisa? Isto sou eu sub-repticiamente a tentar convence-la a escrever mais ;-)

De Teresa Power a 30.01.2016 às 18:32

Ena, Patsy, é bom saber que continua desse lado :) Há muito tempo que não comentava! Valeu! Ah, se tivesse quem corrigisse sete turmas de testes por mim, até escrevia muito, muito mais... Ab!

De Patsy a 31.01.2016 às 15:10

A Patsy vem ca quase todos os dias a hora de almoco. ;-)

Um abraco
Patsy

De Joana a 31.01.2016 às 09:01

Um bonito final de "saga". Fico muito feliz pela Clarinha. :) Beijinho

De D. a 31.01.2016 às 11:49

Ainda bem que a Clarinha encontrou finalmente a opção certa para ela! :)

De Rafael a 31.01.2016 às 14:12

Muito bela história. Interessante ver como tudo começou com expectativa, passando pelo sofrimento, até concluir com uma verdadeira alegria. Agora Deus também me desafia a abandonar um sonho. E é doloroso. E ainda olho muito para trás, com saudades. Mas saber que a Clara, no final, conseguiu encontrar uma alternativa na qual é feliz, me dá esperança também. Neste momento creio que Deus há de providenciar o que será necessário para mim.
Obrigado por dividir toda essa “saga”.

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