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Visitação e matemática

por Teresa Power, em 13.11.14

Um fim de tarde bastante agitado de segunda-feira. O António queixava-se de uma unha que já não tinha, e que lhe deixava o dedo a descoberto; a Sara esqueceu-se de ir ao bacio quando sentiu necessidade (e não foi uma necessidade qualquer...); a Lúcia não se recordava se tinha de fazer um desenho sobre "agonia", "alergia", "alegria" ou outra coisa qualquer terminado em -ia, e tinha lágrimas nos olhos enquanto todos nos afadigávamos a procurar descobrir (como o tema geral era a paz, concluímos por fim, sabiamente, que seria "harmonia"); e de repente, fechada no seu quarto, a Clarinha rompeu em pranto. Chorava tão alto, que a Sara me veio avisar, puxando-me pela mão para me conduzir à irmã.

- Que se passa, Clarinha? - Perguntei, já em pânico, enquanto da cozinha me chegava um cheiro a queimado.

- Não consigo fazer nem um único exercício de matemática, dos que saem amanhã na mini-ficha! - E continuava a soluçar em alta voz.

- Clarinha, claro que consegues, tu sabias tudo no domingo, segundo disseste!

- MAS AGORA NÃO ME LEMBRO DE NAAAAAADA!

 

Corri à cozinha para desligar o fogão, e ouvi na rua uma buzinadela. Era a Carla, mãe de uma bela Família de Caná, a chamar a Clarinha para lhe dar boleia até à ginástica. A Clarinha soluçou do quarto:

- Diz à Carla que se vá embora, porque hoje eu não posso ir. NÃO POSSO IR! NÃO SEI NADA DE MATEMÁTICA!

Sem refilar, entreguei o recado direitinho. E agora vou reproduzir aqui a conversa que a Carla e eu podíamos ter tido. Podíamos, porque não tivemos. Podia ter sido assim:

- Carla, a Clarinha hoje não vai, está para ali a chorar por causa da matemática.

- Ok, queres que dê o recado à professora?

- Se fizeres o favor! Obrigada! Até amanhã!

- Bom trabalho para a Clarinha!

 

Este diálogo nunca existiu. Em vez dele, aconteceu isto:

- Carla, a Clarinha hoje não vai, está para ali a chorar por causa da matemática.

- Chorar por causa da matemática? Matemática é comigo! Deixa-me estacionar melhor. Posso entrar? Onde está ela?

- Está no quarto...

- Clarinha, filha, o que se passa?

Soluços e mais soluços - Esqueci-me de tudo!

- Mostra-me lá o que estás a dar. Ah, já vi, estas potências... E o que é que tu esqueceste?

Bem, agora não vos posso contar mais pormenores, porque de matemática do oitavo ano não entendo nada (para ser honesta, desde que Nuno Crato está no governo deixei também de perceber a matemática a partir do terceiro ano, mas isso é outra história).

A conversa prolongou-se durante uns bons quinze minutos, quinze minutos que atrasaram a aula da filhota da Carla, naturalmente; mas que secaram as lágrimas da Clarinha e abriram um sorriso na sua cara molhada.

- Ah, já me lembro! Acho que já me lembro de tudo... Pois é, é isso mesmo!

A Carla regressou ao carro, a Clarinha continuou a trabalhar na matemática, agora muito calmamente, e eu respirei de alívio, enquanto terminava o jantar. Mentalmente, pedi ao Senhor uma bênção dupla ou tripla para a Carla, que nos tinha visitado como Maria visitou Isabel, trazendo-nos a paz, a alegria e o amor de Jesus...

 

"Maria dirigiu-se a toda a pressa a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel." (Lc 1, 39-40)

Clarinha a estudar.JPG

Aqui há algum tempo, várias Famílias de Caná disseram-me que tinham alguma dificuldade em viver a quinta "pedrinha" do nosso compromisso, a Visitação. Afinal, como a Carla  nos mostrou, pode ser tão simples! Quinze minutos... E as Aldeias de Caná a nascer...

Que o Senhor nos ensine a servi-l'O onde Ele está: no irmão que precisa de nós! Ámen.

 

 

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publicado às 06:40


11 comentários

De Elsa Valverde a 13.11.2014 às 08:38

Sendo a minha área de formação a matemática não podia deixar de comentar. Por vezes a matemática tem destas coisas e basta um simples clic para que depois tudo se perceba. Dei por mim hà 2 anos atrás a explicar contas de dividir do 4° ano às minhas colegas!

De Paula a 13.11.2014 às 09:00

Bom dia!
Matemática não é comigo. Sou mais virada para as línguas e história, mas o importante aqui foi o gesto. Que gesto tão bonito e humano!
Assim se vêm os verdadeiros amigos, nos gestos mais simples e que afinal, são os mais importantes!
:)

De Cláudia Sousa a 13.11.2014 às 14:15

Matemática também, infelizmente não é o meu... Agora sem carro também a visitação se torna um pouco difícil , mas oração posso contribuir... Rezarei pela Clarinha e por vocês Teresa, para que harmonia, calma, a paz do Senhor reine aí em casa nos momentos de aflição. Obrigada por tudo o que me tens ensinado. Que Jesus te acompanhe em todas as tarefas em casa como me tem acompanhado a mim. Beijinhos

De Teresa Power a 13.11.2014 às 14:21

Nós também rezamos sempre por vós, Cláudia! Sempre! Bjs grandes!

De Marisa Milhano a 13.11.2014 às 14:57

Eu sempre tive muita facilidade com a Matemática. Durante anos fui a "explicadora" extra dos meus colegas. Principalmente no secundário, marcávamos várias horas extras para eu os ajudar com exercícios e problemas. Deve ter sido por essa razão que no final do 12ºano o Senhor me ofereceu o 20 no exame de matemática.... porque eu juro-lhe que não sei como o tirei!

Tirando a matemática, a Teresa hoje deu-nos uma valente lição. Eu penso muitas vezes para comigo que é só por falta de tempo que ainda não cumpri a pedrinha da Visitação...

Teresa, será que o meu blog não pode ser considerado, não pedrinha, mas um grão de areia da Visitação?
E as horas no serviço de urgência no hospital local, que faço voluntariamente, fora do âmbito das minhas aulas. Acha que também conta?

Beijinhos

De Teresa Power a 13.11.2014 às 15:02

Oh, Marisa, se o blog não fosse Visitação, eu não perderia nem mais um segundo com o meu... Nós só trabalhamos no blog para levar Jesus aos outros, não é verdade? Quanto ao nosso trabalho, sempre que o fazemos com o espírito de Visitação, levando Jesus aos doentes, aos alunos, aos colegas, estamos a praticar a quinta pedrinha, sim! Deus só nos pede pequenas coisas, mas feitas com um grande amor, como dizia a Madre Teresa! Bjs e força aí com essa Visitação!

De Sofia a 13.11.2014 às 16:35

Que história tão bonita. Fiquei comovida. Acredito que o seu coração de mãe tenha explodido de alegria. É nos pequenos gestos que nos tornamos em seres humanos melhores.
Gosto muito do seu blog.
Sofia

De Teresa Power a 13.11.2014 às 16:39

Sim, Sofia, o meu coração de mãe explodiu de alegria, e sobretudo de gratidão! Exemplos destes fazem-nos desejar sermos também assim para os outros, não é verdade? Que o Senhor nos ajude! E comente sempre, Sofia Bjs

De Carla a 13.11.2014 às 22:20

Teresa, estou sem palavras. Eu não fiz nada, a clarinha fez tudo. Ela sabia matéria, estava só a ter uma branca muito branca. Além disso, eu não podia ir embora a saber que ela estava a chorar, por uma coisa simples. Fico muito feliz que o choro tenha terminado e calma voltado. A matilde não perdeu nada e a clarinha ganhou uma noite tranquila. Também sei que lhe correu bem a ficha e já lhe dei o meu recado para o futuro. Quanto à pedrinha, jamais me passaria pela cabeça ver a situação sobre esse prisma. Mas não me compares com Maria.... nem à sombra da sua sombra eu consigo tocar... Como eu disse há dias no blog da bruxa mimi, tu estás e estarás SEMPRE à frente.... Que Deus vos abençoe. Obrigado pela oração.... bjs Carla

De Teresa Power a 14.11.2014 às 11:57

São estes gestos pequeninos que alegram o coração de Deus, e sim, que nos tornam parecidos com a nossa mãe, Maria! Bjs e obrigada novamente, Carla!

De Judite a 13.11.2014 às 22:58

A Carla nunca ia levar a Matilde sem ajudar a Clar
Inha porque já o resto da noite não ia ser tranquilo. Fez o que sabia.

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