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"Yes, Charles"

por Teresa Power, em 09.09.14

Uma das nossas histórias preferidas é a colecção de livros Little House on the Prairie (Uma Casa na Pradaria), de Laura Ingalls Wilder. Os livros são pouco conhecidos em Portugal, mas a série televisiva é conhecida de toda a gente da minha geração. Embora a série seja bonita, os livros são infinitamente melhores, contando a história verdadeira de uma família de pioneiros americanos, vivendo uma vida cheia de risco e de amor na "fronteira" do território índio, no início do século XX.

Recém-casados, ao serão, o Niall e eu lemos em conjunto - sempre gostámos muito de ler em voz alta - os nove livros, um bocadinho de cada vez. Anos mais tarde, lemos os três ou quatro primeiros livros ao Francisco e à Clarinha. Em breve começaremos a lê-los ao David, e depois à Lúcia e aos manos mais novos. Às vezes rimos à gargalhada, às vezes choramos, mas nunca pousamos os livros sem nos sentirmos diferentes, mais corajosos e mais pacificados. A história da vida de Laura teve uma grande influência na forma como fomos criando as nossas tradições familiares e definindo os nossos ideais.

 

Um dos muitos pontos que nos fez sempre reflectir foi a forma como o pai e a mãe da Laura se relacionavam. As suas quatro filhas nunca assistiram a uma discussão entre eles! O carinho e o amor um pelo outro são evidentes nos mais pequenos detalhes. Charles tinha o espírito aventureiro dos pioneiros, e ao longo da sua vida fez a sua família mudar de casa quatro vezes. Não foram mudanças de casa como as nossas hoje, claro! A primeira foi para território índio, a segunda foi de regresso a "território branco" porque o perigo não os deixava continuar. Em cada uma destas mudanças, a decisão foi sempre imediata, tomada sob grande tensão à última hora. A horta começava a dar os primeiros frutos, o poço tinha acabado de ser aberto, a casa estava pronta, com madeira a cheirar a fresco, as meninas começavam a conhecer a grande pradaria e a habituar-se ao "grande silêncio". Mas os soldados americanos estavam em guerra com os índios. "Vamos embora esta noite", disse Charles. "Hoje? Amanhã íamos começar a colher o trigo... Eu já tinha falado às miúdas nas refeições saborosas que íamos ter... A horta está pronta... Vamos perder um ano inteiro de trabalho... Hoje?" "Sim, Caroline, hoje. Prepara tudo que vamos embora." E a resposta de Caroline era invariavelmente: "Yes, Charles". Não se tratava de uma cedência amuada, mas de uma aceitação plena e alegre da vontade do outro: "Os coelhos vão fazer uma festa quando descobrirem a nossa horta", rematou ela divertida, lançando um último olhar à terra que abandonava.

O "Yes, Charles" de Caroline ficou na nossa história de casal como uma brincadeira e uma forma de rematarmos os nossos conflitos conjugais. Naturalmente que, neste início de século XXI, o "Yes Charles" é também "Yes Caroline". Mas o Niall e eu ainda não encontrámos forma melhor de terminarmos os nossos desentendimentos. Quando a discussão começa a aquecer, o tom de voz a elevar-se, o rosto a corar, eu respiro fundo e digo:

- Yes, Charles!

Ou então é o Niall o primeiro a ceder, e com um piscar de olhos responde-me:

- Yes, Caroline!

 

Lembrei-me de escrever sobre esta história anteontem à hora de jantar, depois de mais um "Yes Charles" dito ainda com os dentes cerrados, mas logo seguido de uma gargalhada. Porque assim que cedemos à vontade um do outro nos nossos pequenos conflitos, a cumplicidade regressa.

S. Paulo traduz este "Yes Charles" num texto lindíssimo, onde submissão, obediência, humildade, serviço e entrega são tudo sinónimos do amor maior, o amor com que Jesus nos amou - e é naturalmente no quadro de um grande amor que este texto deve ser lido:

 

"Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres casadas sejam submissas aos maridos como ao Senhor (...) Maridos, amai as vossas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela..." (Ef 5, 21-33)

 

O amor implica cedência de ambas as partes. Ninguém pode amar e ao mesmo tempo fazer sempre a sua vontade! A teimosia constante ou unilateral gera sempre a discórdia. É preciso "deitar aos coelhos" muitos sonhos e fazê-lo com alegria! A paz conjugal depende de muitos "Yes Charles" e "Yes Caroline" ditos talvez de dentes cerrados, mas transformados de imediato em cumplicidade amorosa...

 

(No retiro também falamos de amor... Inscrevam-se! Na coluna lateral deste blogue têm como o fazer!)

 

 

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publicado às 06:46


6 comentários

De Isa David a 09.09.2014 às 11:35

Uma das minhas principais dificuldades com os textos bíblicos vem nesta transcrição e na palavra "submissa".

De Teresa Power a 09.09.2014 às 11:55

Obrigada pela partilha, Isa! Vou falar um bocadinho mais sobre isso noutro post. S. Paulo é um grande conselheiro matrimonial, embora muito mal entendido :) Bjs Teresa

De Fm a 10.09.2014 às 07:53

Cada casal tem de ter as suas estratégias para gerir as discussões e garantir que as mesmas nao são um ponto de ruptura. Por exemplo, cá em casa sabemos que nao nos podemos deitar chateados/irritados ou sem estarmos bem.

O que me preocupa neste texto é a parte do submissa - é isso que devemos ser? É isso que as suas filhas devem ser com os seus futuros maridos? Basta que eles as amém e está feito? Nao quer que elas sejam tanto (ou mais) do que eles? Ser submisso nao deve ser visto nunca como algo bom - a capacidade de questionar, duvidar, querer entender nao se coadunam com ser submisso. E nós temos de questionar para crescer.

De Teresa Power a 10.09.2014 às 08:18

Na Bíblia, palavras como "submisso", "obedecer", etc não têm o sentido que nós lhe damos na sociedade de hoje! Se a Fm me conhecesse, saberia que eu sou tudo menos "submissa" nesse sentido! O sentido bíblico é muito mais profundo, como procurei mostrar. Mas claro, há muito para estudar e aprender sobre o tema antes de o transformarmos em "opinião", palavra, essa sim, perigosa quando dita sem conhecimento!

De Teresa Power a 10.09.2014 às 09:11

Apenas mais uma coisa, Fm, para que me possa compreender melhor: a Palavra de Deus deve ser interpretada, isto é, estudada, questionada, virada do avesso, até nela encontrarmos sentido. É o que procuramos fazer neste blog. No momento em que a reduzimos a uma opinião, deixamos de agir como crentes. E essa atitude não pertence a este blog, pois mesmo entre os muitos não-crentes que o lêem, há sempre a vontade de procurar a verdade! Ab e continue connosco! Teresa

De Margarida a 10.09.2014 às 22:41

Há ainda outro aspecto que escapa à maioria das pessoas: é que o que S. Paulo propõe aos maridos nesta leitura é bem mais difícil do que o que diz às mulheres... é um desafio à santidade total (amar como Jesus), que necessariamente implica uma entrega com muitos "yes Caroline".

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