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Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

por Teresa Power, em 05.04.14

Oração familiar. Depois de deitarmos os três mais novos, partilhamos as leituras da missa do dia com o David, a Clarinha e o Francisco. Nestes dias de quaresma, meditamos no Evangelho de S. João, onde Jesus fala da sua missão aos amigos. E lemos:

 

"As obras que o Pai Me deu para realizar, estas obras que Eu faço, dão testemunho de que o Pai Me enviou. O Pai que Me enviou também dá testemunho de Mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu rosto, nem tendes a sua palavra em vós, pois não credes Naquele que Ele enviou. Sei que não tendes o amor de Deus em vós. Eu vim em nome de meu Pai e não Me recebeis." (Jo 5, 36-38.41-42)

 

- Não percebi nada - disse o David. - Então afinal quem é Deus? É Jesus ou é o Pai?

- É Jesus, é o Pai e ainda é o Espírito Santo - Respondeu a Clarinha.

- Ah, então é por isso que nós dizemos Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo?

- Sim, David.

- Mas nós estamos sempre a dizer que só há um Deus!

- Só, porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo são o mesmo Deus.

- Como é possível? Não entendo.

- Se entendesses Deus, Ele não seria Deus, porque seria mais pequeno que a tua inteligência - Intervi eu então.

- Vou explicar-te um bocadinho - Disse o Francisco - Vou mostrar-te como a Irmã de Religião e Moral me explicou, há uns anos atrás. Mãe, tens aí três velas?

Fui buscar, e aproveitei para trazer também a máquina fotográfica, para que vocês possam acompanhar a explicação. O Francisco deu uma vela ao David, uma à Clarinha e segurou na terceira. Depois acendeu-as e juntou as chamas, criando uma única chama: a Trindade.

 

 

É porque Deus é Trindade que o amor e a vida são o que são. Eu explico:

É porque Deus é Um, mas contém em Si mesmo três pessoas distintas, que o universo inteiro, tal qual o "conhecemos" hoje, pode ter estado contido numa partícula mais pequena do que um átomo, lá atrás, no início do tempo. Assim me contaram o Francisco e a Clarinha, que gostam imenso de Físico-Química e conversam muitas vezes, à mesa, sobre estes assuntos tão interessantes!

 

É porque Deus é Um, mas ao mesmo tempo Três, que o amor de um casal só se realiza plenamente quando esse amor gera um filho - ou, na impossibilidade de o fazer, se desdobra em gestos de amor para fora do casal, como trabalho de voluntariado. Bem, é porque Deus é Trindade, que existe o próprio amor, a relação entre humanos em que só nos realizamos plenamente na entrega aos outros!

 

E já olharam bem para a chama de cada uma das três velas? O fogo não se esgota por se repartir por várias velas, antes permanece todo em cada uma, como se só ela existisse. Cada vela tem o fogo completo, e quando unidas, a chama continua a estar completa! É porque Deus é Um e é Trino que acontece aquele fenómeno estranho na maternidade e na paternidade: amamos um filho ou amamos dez com a mesma intensidade, com a mesma exclusividade! Quando vejo mães com o legítimo receio - que já foi meu - de terem mais filhos por acharem que não vão ter tempo para eles, costumo dizer: um filho ocupa todo o nosso tempo e todo o nosso coração; dez filhos também! A chama continua individida, esteja ela repartida por uma ou por dez velas!

 

Se Deus não fosse Trindade, não havia nem universo, nem amor...

 

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publicado às 07:48

Zaqueu

por Teresa Power, em 04.04.14

Há uns meses, um aluno meu teve um gesto muito feio: aproveitando um momento de distracção, em que me dirigi à porta da sala para falar com um pai de uma aluna, foi discretamente à minha secretária e retirou o teste por corrigir de um colega de turma, do cimo da pilha de testes que lá encontrou, rasgou-o e voltou para o seu lugar. Nem o meu pânico ao julgar ter perdido um teste, nem o pânico do colega que ficou sem ele, foram suficientes para que se acusasse. Uma semana mais tarde, depois de alguma investigação, este meu aluno foi desmascarado e castigado. Como ele nunca me pediu desculpa e o castigo lhe foi atribuído pela directora de turma, nunca falei com ele sobre o assunto. E a frieza instalou-se entre nós.

Os meses foram passando. Este aluno, que já era mau estudante, tornou-se péssimo. Deixou de ter caderno diário e de prestar atenção às aulas e mostrava abertamente que não tinha qualquer interesse na disciplina. Preocupada, procurei soluções, em vão. Mas um dia em que me preparava para me confessar, ocorreu-me o óbvio: apesar de já ter o perdoado há muito tempo, nunca lho dissera! Adiei a minha confissão - não posso ir ter com Deus sem antes fazer as pazes com o irmão, disse Jesus (Mt 6, 14-15; 18, 35; 5, 23-24) - e, no dia seguinte, chamei o menino. Ele sentou-se na cadeira à minha frente e olhou-me com medo. Comecei:

- Tens pensado naquilo que fizeste?

- Desculpe, professora! - Foi a sua resposta imediata, quase ao mesmo tempo que eu formulava a pergunta.

- Já te desculpei há muito tempo - Disse-lhe, o mais carinhosamente que pude. - Que tal se agora começasses a trabalhar e a esforçar-te?

Ele sorriu, um sorriso aberto como eu não via há meses.

- Vou esforçar-me! - Prometeu.

E nesse mesmo dia, a sua atitude mudou. De repente, o meu aluno mostrou-se atento nas aulas, começou a fazer os trabalhos de casa e até apresentou trabalhos que não pedi. Os colegas admiraram-se com tanta mudança, mas eu entendi: o perdão abriu as portas fechadas do seu coração e da sua mente. O perdão ofereceu-lhe uma nova oportunidade para ser bom, para ser feliz.

 

Foi assim com Zaqueu (Lc 19, 1-10). Empoleirado naquela árvore, Zaqueu estava imobilizado pelo seu passado de pecado. De repente, veio Jesus, chamou-o pelo nome e fez-Se convidado para sua casa. Que alegria! O perdão de Jesus ofereceu a Zaqueu uma nova oportunidade para ser bom, para ser feliz. E naquele mesmo dia, a sua vida mudou.

 

Quando perdoamos os outros, abrimos-lhes portas para a felicidade.

Quando nos vamos confessar, nomeando um a um os nossos pecados, Deus abre-nos portas para a felicidade!

Eu perdoara ao meu aluno, mas não lho dissera. Enquanto ele não escutou as palavras de perdão da minha boca, o meu perdão não fez caminho nele.

Confessarmo-nos é darmos a Deus a oportunidade de nos dizer: "Sim, já te perdoei há muito tempo! Sim, já derramei por ti todo o meu sangue! Sim, desde o início do mundo que espero por ti!"

Enquanto não me disponho a escutar as palavras do sacerdote - "Vai em paz, os teus pecados estão perdoados!" - o perdão de Deus não faz caminho em mim...

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publicado às 08:43

Uma casa de graça

por Teresa Power, em 03.04.14

Esta semana recebi uma notícia triste: uma família amiga teve de deixar a casa onde sempre viveu, a casa que construiu ao longo de décadas com amor e suor, porque o banco os expulsou de lá. É difícil imaginar a raiva, a revolta, a tristeza e a saudade. Mas os bancos são implacáveis e não sabem perdoar. Quem não paga tem de sair. Lei é lei.

Penso em quantos milhões de pessoas, neste exacto momento, vivem longe das suas casas, da sua terra e da sua família, porque não podiam pagar, porque a guerra os expulsou, porque precisam de trabalhar, porque precisam de viver.

 

Penso em Abraão. Às vezes, ao lermos a Bíblia, não damos o devido valor ao sentido das palavras. Este homem que olhava para o céu e contemplava as estrelas não teve uma vida encantada! A grande aventura da nossa fé judaico-cristã começou quando um homem já idoso partiu da sua casa, da sua terra e de tudo o que lhe oferecia segurança, em direcção ao desconhecido, guiado por uma voz que só ele ouvia. Que loucura! E que fé...

 

Ao ouvirmos o que aconteceu aos nossos amigos, o Niall e eu conversámos.

- Já pensaste que dentro de alguns anos, vá lá, no máximo cinquenta anos, teremos também de deixar esta nossa casinha?

- Não teremos de andar mais de gatas a apanhar peças de lego debaixo dos sofás!

- Nem teremos de nos ajoelhar na lama do galinheiro para apanhar os ovos que as galinhas insistem em pôr debaixo da casota!

- Nem teremos de pôr a funcionar duas máquinas da louça e duas máquinas da roupa por dia!

- Nem teremos de nos preocupar com a humidade das paredes, o jardim inundado, as fechaduras partidas, a relva estragada!

 

Começámos a rir. É libertador pensar que a nossa casa definitiva não é aqui na terra! É libertador encontrar alguma esperança na tristeza dos nossos amigos e de tantos outros sem casa pelo mundo inteiro. Porque S. Paulo escreveu assim:

 

"Sabemos que, ao se desfazer a tenda que habitamos - a nossa casa terrestre - teremos nos céus uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma casa eterna." (2Cor 5, 1)

 

A nossa "casa" no céu tem uma grande vantagem: ela foi preparada por Deus para cada um de nós, e foi-nos oferecida de graça! Nós nunca teremos "dinheiro" suficiente para a comprar, mas Deus não é um banqueiro implacável, que nos retira os bens se não pagarmos. E porquê? Porque Jesus já pagou a nossa dívida! S. Paulo escreveu longamente sobre a diferença entre lei e graça, entre os "banqueiros implacáveis" e o Deus de amor. Leiam a Carta aos Romanos, essa magnífica obra de arte cristã! A cruz conquistou-nos o céu. A nossa "casa" está paga antes ainda de nela habitarmos! Jesus prometeu aos seus amigos:

 

"Na casa de meu Pai há muitas moradas. Quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, voltarei novamente e levar-vos-ei Comigo." (Jo 14, 2-3)

 

Graças ao sangue de Jesus, todo o nosso sofrimento presente ganha sentido. Há um final feliz para a vida de cada um de nós! Trabalhemos então para embelezar a nossa casinha do céu (já falei dela também aqui), muito mais segura e importante que a nossa casinha da terra...

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publicado às 08:49

Crescer

por Teresa Power, em 02.04.14

1 de abril. Sentados à mesa de jantar, conversamos e rimos alegremente. Os mais pequenos partilham anedotas e inventam mentiras, porque afinal o 1 de abril é o dia das mentiras. De repente, o António desata a chorar.

- Que se passa, António? Estavas tão contente! O que aconteceu agora?

- Todos sabem dizer mentiras menos eeeeeeuu! Eu não sei dizer mentiiiiiiiiras!

E diante de tão grande problema, o António soluça a bom soluçar!

 

A birra que ontem o António fez à mesa de jantar foi uma excepção a uma regra muito, muito recente: é que há quase uma semana que o António não faz birras! Um record digno do Guiness Book, como concordarão todos os que conhecem as birras do António.

Depois de o ajudar a secar as lágrimas e, já agora, a inventar uma pequena mentira para contar aos irmãos, decidi elogiá-lo diante de todos:

- Já viram, filhos? O António porta-se agora sempre tão bem! Por isso tem oferecido tantas flores a Jesus. Que maravilha!

- A mamã ensinou-me - explicou o António, escondendo a cara na minha camisola, cheio de vergonha - e eu aprendi! Já tenho quatro anos...

 

No belíssimo capítulo 13 da sua Primeira Carta aos Coríntios, S. Paulo diz assim:

 

"Quando eu era criança, falava como criança, raciocinava como criança, pensava como criança; mas quando me tornei homem, abandonei as coisas de criança." (1Cor 13, 11)

 

Uma afirmação tão óbvia, e no entanto... Quantas vezes me comporto como uma criança birrenta com a minha família ou até no meu trabalho? Quantas vezes causo problemas em casa com atitudes semelhantes às do António?

Há uns anos, discuti com o Niall à mesa, porque o arroz que ele fizera tinha demasiada água. Ele respondeu-me que o meu era demasiado seco, e eu resmunguei qualquer coisa de volta. E assim continuámos durante um bom bocado. Enquanto discutíamos, os nossos filhos olhavam uns para os outros, perplexos. Por fim, desataram a rir.

- Querem que nós decidamos quem faz melhor o arroz? - Perguntou o Francisco, divertido.

Olhámos um para o outro e apercebemo-nos do ridículo da situação. Decidimos rir também. Ainda hoje, quando nos vêem discutir, o Francisco e a Clarinha aproximam-se sorrateiramente e dizem num tom provocador:

- É por causa do arroz?

 

Crescer é deixar para trás as birras infantis. Os nossos primeiros anos de casados estavam recheados deste tipo de discussões, altamente desgastantes e perfeitamente ridículas.  Hoje rimo-nos a bom rir daquilo que há alguns anos nos enervava tanto. E perguntamo-nos onde encontrávamos nós o tempo e a energia para discutir assim! Crescemos. Como o António. Mas como ele, ainda temos muito para crescer!

Naquela mesma carta, S. Paulo conta-nos o segredo para podermos vencer as nossas birras e crescer até à estatura de filhos de Deus:

 

 "O amor é paciente, o amor é bondoso, o amor não é invejoso, não é orgulhoso, não se envaidece, não é descortês, não é interesseiro, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor. Mas a maior delas é o amor." (1Cor 13, 4-7.13)

 

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publicado às 08:43

Um beijinho

por Teresa Power, em 01.04.14

Todas as manhãs, ao chegarmos ao Centro Social S. José de Cluny, onde deixo a Sara, o António e a Lúcia, somos acolhidos por uma irmã sorridente. Cheia da ternura de Deus, ela abraça um a um os meus filhos, chama-os pelo nome e dá-lhes um beijinho carinhoso. Só depois continuamos caminho até à sala de acolhimento, onde a cena se repete, desta vez com uma auxiliar fantástica, a Célia.

Ontem de manhã, chegámos ao Centro e não estava ninguém na portaria. Admirado, o António exclamou:

- Hoje não há ninguém para dar um beijinho! Que esquisito, não é, mamã?

Ainda mal tinha acabado de falar, quando a irmã apareceu. Tinha sido chamada ao escritório por uns breves instantes. E o António recebeu o seu beijinho!

 

Fiquei a pensar no que significa isto de acolher o outro, e no quão importantes são os nossos gestos de acolhimento. Ser cristão, como já disse aqui e aqui, é ser capaz de acolher como Jesus acolhia. Meu Deus, a fasquia é alta! Porque Jesus tratava a todos pelo nome - as irmãs no Centro também! - e a todos acolhia com amor infinito. Mesmo Judas foi acolhido com amor, quando chegou junto de Jesus para O trair!

 

Como estamos nós, Igreja de Cristo, a praticar o acolhimento? Será que há alguém "para dar um beijinho" à porta das igrejas, no início da missa? Serei eu capaz de acolher, enquanto esposa, enquanto mãe, enquanto filha, enquanto profissional? O papa Francisco não se cansa de pregar a importância do acolhimento. Acima de todas as normas da Igreja, acima de todos os ritos e de todo o conhecimento, está o amor que acolhe e que abre portas. Disse Jesus:

 

"Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia aos sacrifícios" (Mt 9, 13)

 

As irmãs do Centro dão testemunho do amor de Jesus com um simples beijinho carinhoso. Jesus prometeu:

 

"Em verdade vos digo: quem der de beber um copo de água fresca a um destes mais pequeninos, por ser meu discípulo, não ficará sem a sua recompensa." (Mt 10, 42)

 

Enquanto não percebermos isto, não percebemos nada do que é ser cristão...

 

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publicado às 08:46

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