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A casa paterna

por Teresa Power, em 21.01.15

Sábado, nove e meia da manhã. A família Power estaciona os dois carros em frente do Paço Episcopal: o senhor bispo D. António Moiteiro vai conceder-nos gentilmente uma hora do seu tempo, para conversarmos sobre as Famílias de Caná!

- Ah, veio a família inteira! Quantos são? - Pergunta a senhora que nos abre a porta, com um sorriso simpático, ao ver tantas crianças a subir a escadaria a correr.

- Seis - Esclareço, cumprimentando-a. - Eu sei que o senhor bispo está à minha espera e do meu marido, mas decidimos trazer também as crianças...

E as crianças já entraram na casa episcopal.

- Ena, que giro! - Diz o David, adiantando-se na sala e observando os cadeirões vermelhos.

- David, espera! Temos de esperar aqui - Sussurro.

- Não, o David tem razão, podem entrar e esperar pelo senhor bispo na sala. Talvez os meninos se possam sentar naquele sofá comprido. Cabem todos?

Mas os meninos não querem sentar-se no sofá. Seria uma perda de tempo, quando a toda a volta há coisas tão giras de ver! Entretanto, o senhor bispo entra na sala, cumprimentando-nos. Que alegria, podermos estar com ele nesta manhã! Sentamo-nos, e começamos a nossa conversa. Queremos falar-lhe das Famílias de Caná, da espiritualidade totalmente familiar deste novo movimento, dos milagres e das conversões que o Senhor tem operado, e de como precisamos da sua bênção. Procurando comportar-se adequadamente, mas fazendo algum barulho, as crianças são a perfeita ilustração do que tentamos explicar:

- Na verdade, senhor bispo, não é fácil rezar o terço quando se têm bebés a choramingar e crianças pequenas a brincar por perto - Vou dizendo - Não é fácil estar na missa e ter de mandar calar, ou encontrar tempo para evangelizar em casa...

O senhor bispo acena, concordando, enquanto sorri perante as brincadeiras da Sara e os comentários que os meninos vão fazendo.

- Quero fazer chichi! - Diz de repente o António. A senhora que nos abriu a porta apressa-se a mostrar-lhe a casa de banho, e todos os nossos filhos a seguem para fora da sala.

A conversa torna-se mais calma e fácil, claro está... Que andarão as crianças a fazer? No final da hora, quando entram de rompante novamente na sala, ficamos a saber:

- Já visitámos o teu quarto! - Diz a Lúcia ao senhor bispo.

- E vimos a Princesa!

- Qual princesa? - Pergunto.

- O cão. Deu uma lambidela na cara da Sara!

- O senhor bispo tem um cão?

Ele sorri:

- É o cão da casa...

- E vimos a cozinha. Havia bananas na despensa e um peixe daqueles enormes tipo tubarão!

- É só um bacalhau - Explica-me baixinho o Francisco.

- E vimos o sotão e a cave.

- E vimos o chapéu vermelho especial!

- Olha, e a senhora deu-nos um saco de tangerinas!

- Esta casa é mesmo gira!

- Pois é!

O senhor bispo sorri enquanto nos despedimos.

- Não se esqueçam das tangerinas! - Acrescenta, estendendo-nos o saco que já ficava esquecido na entrada.

Felizes - embora por razões diferentes, segundo me parece - pais e filhos regressamos aos carros. São horas de voltar para casa!

 

Enquanto conduzo de regresso a Mogofores, vou pensando em tudo o que o senhor bispo nos disse, em tudo o que lhe dissemos também, mas sobretudo, na alegria que todos sentimos por termos sido recebidos na casa paterna. Na verdade, correr pelas escadarias do paço episcopal, visitar a cozinha e os quartos, brincar com o cão e provar as tangerinas são gestos infantis de quem se sente em casa!

Os cristãos não são orfãos, pois se no Céu têm um Pai e uma Mãe, na Terra têm pais e mães com fartura: em cada paróquia, temos um pai - em inglês, Father, em português, Padre; em cada diocese, temos um bispo; e finalmente, a servir o mundo inteiro, temos o nosso Papá, ou Papa. Os meus filhos também conhecem muitas Irmãs, a quem se referem sempre com carinho, e a Madre (Mãe) Ana-Maria Javouhey. Jesus não veio fundar um partido nem uma organização, mas uma família...

 

"Quem escuta a Minha Palavra e a põe em prática, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe."

(Lc 8, 21)

terço.JPGQue os nossos sacerdotes e todos os consagrados se descubram, cada vez mais, pais e mães espirituais do seu povo, capazes de nos revelar o rosto familiar do nosso Deus! Ámen.

 

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publicado às 06:24

Festa da Fé

por Teresa Power, em 20.01.15

No sábado e no domingo passados, a nossa paróquia celebrou a sua fé numa grande festa, que envolveu pequenos e grandes.

As festas da catequese são, na nossa paróquia, vividas por toda a paróquia e todos os grupos de catequese em conjunto. Assim também a chamada Profissão de Fé, que nós celebramos com solenidade nestes dias.

No sábado, convidámos S. Sebastião, esse grande mártir cristão, numa procissão simbólica pelas ruas da aldeia, para vir celebrar connosco. Entre cânticos e mistérios do rosário, as crianças da catequese e os seus pais trouxeram o andor da sua capela até ao santuário:

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Depois, no santuário, o grupo de crianças que se prepara para a primeira comunhão - entre os quais o David - fez-nos um belíssimo ensinamento sobre o Papa Francisco. A Carla, a catequista, escreveu o texto, depois de ler muito sobre a vida do nosso querido papa, e o João, o catequista da Lúcia, vestiu-se de branco. Os meninos da primeira comunhão fizeram então uma visita imaginária ao vaticano e estavam carregados de perguntas!

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Entretanto, os grupos de catequese juvenis e de preparação para o crisma fizeram a sua reflexão numa outra capela da nossa aldeia: a capela de S. Mateus, onde se venera Santo Amaro. Também ele foi "convidado" para celebrar connosco a fé cristã! Numa caminhada pontuada com oração e cânticos, os jovens trouxeram o andor de Santo Amaro até ao santuário.

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No domingo, na missa, fizemos então a nossa profissão de fé. Os andores de S. Sebastião e de Santo Amaro recordavam-nos que vale a pena viver e morrer por Jesus:

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Depois, ao rezarmos o nosso credo, professando a nossa fé, todos acendemos as velas baptismais:

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Que significa, no mundo de hoje, professar a nossa fé? Que significa realmente dizer "Eu sou Cristão"?

Para muitas famílias das nossas paróquias, infelizmente, ainda não significa muito. Foram muitas as ausências nesta grande festa, talvez porque estava a chover, ou porque a missa foi antecipada meia hora e é difícil levantar cedo ao domingo depois de uma semana inteira de trabalho duro; ou talvez - e esta doi mais... - porque o nosso - o meu - testemunho de crentes ainda não é suficientemente contagiante.

Que significa realmente dizer "Eu sou Cristão"?

Para muitas famílias por esse mundo fora, significa arriscar a vida, como S. Sebastião; significa arriscar ser preso e viver pobre, ver os seus filhos morrer, perder a casa e os bens. Nunca é demais lembrar os milhares de irmãos nossos perseguidos e assassinados nos dias de hoje!

E para mim? Que significado tem acender a vela do meu baptismo e professar o meu Credo?

Faço-me cada vez com mais frequência esta pergunta. Serei verdadeiramente cristã, nos meus gestos, na minha forma de viver, na educação que dou aos meus filhos? Saberei realmente renunciar a cada dia ao meu conforto, aos meus interesses, à minha vaidade e ao meu amor-próprio, para seguir Aquele que deu a vida por mim?

 

"Vim trazer o fogo à terra, e que ânsias até que ele se ateie!"

(Lc 12, 50)

 

Será a chama da minha vela suficientemente forte, para atear à minha volta este fogo luminoso de amor?...

 

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publicado às 06:23

A responsabilidade de expressão e um novo blogue

por Teresa Power, em 19.01.15

No início de dezembro, se não me falha a memória, a Sónia descobriu este blogue. Lembro-me muito bem do dia em que isso aconteceu. Como? - Perguntam vocês, e com razão! Na verdade, eu não tenho qualquer forma de saber quem lê ou deixa de ler o blogue, nem de onde é, nem qualquer outro detalhe. Mas soube que a Sónia descobriu o blogue numa tarde de dezembro, porque nessa tarde ela fez vários comentários a diferentes posts, e enviou-me vários mails a propósito de diferentes tópicos que desenvolvo no blogue. Ao longo de toda a tarde, a Sónia foi lendo - a mim pareceu-me que leu o blogue de ponta a ponta - , foi pensando, foi questionando, e foi partilhando comigo o que lia. À noite, sentada à mesa para jantar com a minha família, contei-lhes:

 - Temos uma nova leitora do blogue e chama-se Sónia.

Eles ficaram curiosos:

- De onde é? Tem filhos? É simpática?

E eu fiquei feliz por poder responder a todas estas questões, pois tinha bastado uma tarde para ficar bem informada! Continuo a não saber como é o seu rosto, mas já vi uma fotografia da sua imagem de Nossa Senhora com o Menino, que entretanto a Sónia comprou para o Natal e para o seu novo Canto de Oração:

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A Sónia decidiu ser Família de Caná. Quando tiver possibilidade, fará connosco um retiro. Mas não ficou à espera da oportunidade para começar a viver as Cinco Pedrinhas do nosso compromisso com o Senhor e a Mãe de Caná! O Senhor chamou-a através desta nossa partilha de vida, e a Sónia respondeu "sim". O seu receio de não ser capaz de viver o compromisso na perfeição dissipou-se naturalmente, ao perceber que a santidade se conquista passo a passo, caindo e levantando-nos de novo, avançando e recuando; porque o importante é manter o olhar fixo no Céu.

Esta semana, descobri que a Sónia tinha um blogue desde 2014, onde partilha a sua caminhada. A partir da sua decisão de se tornar Família de Caná, o seu blogue passou a estar mais cheio de partilha de fé também. Li-o com imenso prazer! A Sónia tem uma escrita simples e profunda, conhece as Escrituras e conhece o seu Autor. Fica a sugestão para uma visita: Momentos e Apontamentos.

 

No avião a caminho das Filipinas, e a propósito do ataque terrorista a Charlie Hebdo, o nosso querido Papa Francisco falou precisamente nos limites da liberdade de expressão, que só é liberdade se for também responsabilidade. A liberdade de expressão, exercida com espírito cristão, tem destas coisas fantásticas: se quisermos, podemos encher a Internet de conteúdo cristão, alargando ao mundo inteiro a partilha do Evangelho vivido em cada dia. Afinal, é esta a responsabilidade a que o apóstolo nos chama, ao exclamar:

 

"Ai de mim se não evangelizar!" (1Cor 9, 16)

 

Possamos nós, cristãos, inundar a internet de blogues católicos! Possamos nós afirmar com palavras, com a vida e com todo o nosso ser: "Eu sou cristão". Ámen!

 

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publicado às 06:18

Reis muito bons

por Teresa Power, em 18.01.15

O David veio ter comigo para me oferecer um desenho. Trazia-o enrolado e atado com um fio de embrulho e disse-me que era uma prenda. Desenrolei-o com jeitinho e encontrei isto:

 

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Como o papel já está bastante amarrotado e como o David não gosta de colorir, o desenho percebe-se bastante mal aqui na imagem. Fica o texto:

"Os meus pais mandão em mim como reis muito bons."

 

Um sorriso desenhou-se-me nos lábios. Já me tinham chamado muita coisa, mas isto! Ver o Niall e eu vestidos de rei e rainha, com coroas na cabeça, assomando nas ameias do nosso castelo com ar seguro e feliz foi uma surpresa muito divertida. As crianças têm uma imaginação imensa, e o meu filho David consegue imaginar-me como uma rainha muito boa, e ao Niall como um rei muito bom. Mas o curioso é o que este rei e esta rainha fazem: eles "mandão" no pequeno David; e o pequeno David parece muito feliz com isso!

A obediência, como já referi, está em crise, e em crise muito séria. Na escola, quase todos os alunos a quem chamo a atenção têm uma resposta pronta que diz mais ou menos isto: "A professora não manda em mim." E a impressão com que fico é que nem eu, nem ninguém... No entanto, esta autonomia é apenas aparente, pois lá no fundo, estas crianças sofrem de uma enorme insegurança. Há uma idade para obedecer, e há uma idade para mandar. E quando não respeitamos a primeira, a segunda não será certamente uma idade de autoridade, mas de autoritarismo, que é uma das coberturas do medo.

 

Jesus ensinou-nos no Evangelho que, diante de Deus, somos todos, e sempre, filhos pequeninos. A nossa felicidade está portanto, como a do David, em obedecer a este "Rei muito bom" que é o nosso Pai e o nosso Deus. Fazer a sua vontade pode parecer custoso de início, mas com a prática torna-se fonte de alegria intensa! No evangelho, Jesus assegurou-nos que, se queremos ser, como Ele, da família de Deus, não temos outro caminho senão o da obediência simples e alegre:

 

"Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe." (Mc 3, 35)

 

E o salmo da missa de hoje, domingo, diz assim:

 

"Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade." (Sl 39/40)

 

Que a capacidade de obediência dos nossos filhos nos ensine a sermos melhores filhos do melhor dos Pais, do melhor dos Reis, do nosso Deus...

 

 

 

 

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publicado às 06:31

As palavras e as armas

por Teresa Power, em 17.01.15

Hora de aula de Inglês com a turma do Curso Vocacional.

- Professora, trouxe um trabalho sobre a família para mostrar - Diz-me uma menina, aos saltinhos de excitação - Quer ver? Levei quatro horas a fazer! Quatro horas!

Pego na cartolina que me mostra. Vejo um conjunto de fotografias grandes, representando-a a ela em várias idades e os dois irmãos mais novos. A um canto, a fotografia da mãe. Por cima, algumas palavras em inglês: "My mother, my brothers, me". 

- Muito bem! Não tens fotos do teu pai?

- Eu não tenho pai. Quer dizer, se tenho não sei quem ele é.

- Ah! E o teu padrasto, o pai dos teus irmãos?

- Esse está na prisão. Sabe, professora, ele está na prisão por causa de mim.

- ?

- Ele fez-me uma coisa quando eu tinha dez anos. Eu tive de levar uma transfusão de sangue, e ele foi para a prisão. E sabe, o meu pai fez o mesmo à minha mãe, e é por isso que eu nasci.

- Compreendo. Queres apresentar o teu trabalho à turma?

- Tenho vergonha!

Ajudo-a a apresentar o trabalho. No meio do barulho e da confusão geral, alguns escutam.

- Quem quer ser o próximo a fazer um trabalho sobre a família? - Pergunto.

- Nem pense, professora! Eu do meu pai nem quero ouvir falar!

- E porquê?

- A professora chamaria pai a um homem que era capaz de o trancar num quarto durante dois dias seguidos, sem comer nem beber? E eu só com quatro anos? Ele merecia uma bala na cabeça! Se eu o apanhasse hoje diante de mim, depois de tudo o que fez à minha mãe e a nós, mandava-lhe um tiro na cabeça, pode crer!

- Isso não é nada. Havias de ver o meu pai!

Volto-me para ver quem fala agora.

- Que tem o teu pai?

- Não quero falar nisso.

- O meu saiu da casa quando eu tinha dois anos - Explica-me uma menina de sorriso aberto e longos cabelos louros, incapaz de estar quieta. - Nesse dia, contou-me a minha mãe, ele partiu-me um vaso na cabeça e eu fui parar ao hospital.

- Olha, o meu é um banana. - Um rapaz matulão e barulhento junta-se à conversa - Imagina que a namorada dele pos-me fora de casa! Disse que eu fazia muito barulho de manhã, nas férias, e ela queria dormir. 

- E onde vives então agora?

- Vivo em casa da minha avó. A minha mãe abandonou-me há alguns anos, e aquela parva da namorada do meu pai não gosta de mim. Eu também não gosto dela.

 

A conversa salta de aluno para aluno, e todos têm uma espada afiada para exibir. Tenho a cabeça a andar à roda. Uma vez por semana, procuro oferecer à turma alguns minutos de conversa, mas há dias em que se torna difícil suportar os seus desabafos, de tão doridos eles são. Enquanto escuto, sem que me aperceba, dois já começaram à luta, e a Márcia está a chorar porque alguém lhe roubou o estojo. Finalmente, a campaínha toca, e todos correm para o intervalo.

 

Ao arrumar os meus livros e trancar a porta da sala, dou comigo a meditar nas palavras de S. Paulo:

 

"Que tens tu que não tenhas recebido?" (1Cor 4, 7)

 

Na verdade, que diferença há entre mim e eles? Que fiz eu de extraordinário para ter tido a graça de nascer numa família cheia de amor? Que fizeram eles de errado para nascerem frutos de violações e crescerem no meio de todo o tipo de violência? De que me posso gabar ou envaidecer? Que tenho eu que não me tenha sido dado de graça, absolutamente de graça? 

É muito fácil envaidecermo-nos daquilo que somos, da nossa fé, das nossas boas obras. Fazemo-lo o tempo todo, mesmo sem nos darmos conta. Somos muito mais fariseus do que imaginamos! Eu, pelo menos... Mas quando chegarmos ao Céu, iremos ficar tão envergonhados! Então veremos as graças que foram derramadas sobre nós, o seu porquê, e a forma como as desperdiçámos dia a dia. 

O meu aluno mal sabe ler e tem dificuldade em entender o que eu explico. Eu recebi muito mais do que ele... Quem terá mais contas a dar a Deus - ele, se um dia meter uma bala na cabeça do pai, ou eu, que às vezes perco a paciência e me irrito contra o próximo, dizendo o que não devia? A questão tão pertinente da liberdade de expressão de novo à baila... Matar com armas é pecado; mas matar com palavras também. Jesus foi muito claro:

 

"Ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás'.

Eu, porém, digo-vos: todo aquele que chamar louco a seu irmão terá de responder na geena de fogo."

(Mt 5, 21-22)

 

Quantas vezes por dia eu preciso de pedir perdão e de ser perdoada! Que seria de nós sem o perdão uns dos outros e de Deus?

Fm, perdoe-me por favor a falta de paciência e o sarcasmo no outro dia, num comentário que já apaguei...

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publicado às 05:47

Qual és tu?

por Teresa Power, em 16.01.15

Hora da história. Sentados ao meu lado no sofá, a cabeça aninhada no meu ombro, uma manta quentinha a cobrir-nos a todos, o David, a Lúcia, o António e a Sara escutam atentamente uma das suas histórias preferidas. É uma história sobre animais, muitos animais, animais do pólo norte, da selva, da savana, da floresta. Ainda mal abri o livro e já o António aponta para um elefante:

- Eu sou este!

- E eu sou este! - Avança o David, apontando para um hipopótamo.

- Não, eu é que sou! - Atalha a Lúcia - Ontem foste tu esse, hoje sou eu!

- Sou eu! Sou eu! - Conclui a Sara, que nunca perde a ocasião.

Sorrio para mim própria, enquanto leio a primeira página da história. Depois viro a folha com jeitinho. Ainda não comecei a ler, e já sou presenteada com a mesma lengalenga:

- Eu sou este!

- E eu sou este!

E assim vamos avançando, devagarinho, página a página, até chegarmos à linha final, onde todos os animais alcançam a vitória em conjunto.

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Enquanto deito os quatro meninos, dou comigo a pensar na sua sabedoria ao escutar uma história: sem precisarem de fazer grande esforço, as crianças são perfeitamente capazes de escolher uma personagem e se identificarem com ela, experimentando a sua força, a sua coragem, a sua dor. Assim, quando chegam ao final da história, a vitória dos seus heróis tornou-se a sua própria vitória.

E pensei então... Qual a minha atitude ao ler a Bíblia? Serei eu capaz, como as crianças, de penetrar na história que leio, não como espectador de algo que aconteceu uma vez no passado, mas como personagem de algo que acontece agora na minha vida? Serei eu capaz de me identificar com Abraão, David, Gedeão, Ester, José, Maria, Zaqueu, Madalena, Pedro, João, Paulo? Serei eu capaz de me identificar com as desconfianças dos fariseus, o pecado da adúltera, a surpresa do centurião, a humildade do Bom Ladrão, a alegria de Mateus? Estarei eu sempre no lado dos "bons"? Ou consigo assumir o meu eu "mau", capaz de atirar tantas pedras? Estarei eu atenta, profundamente atenta à voz de Jesus, aos gestos de Jesus, ao andar de Jesus, ao olhar de Jesus, como estavam todos os que com Ele se cruzavam?

Quando eu conseguir ler assim o Evangelho, então estarei verdadeiramente a meditar, como diz o salmo 119/118:

 

"Teu mandamento tornou-me mais sábio que meus inimigos,

pois tenho-o sempre comigo.

Tornei-me mais perspicaz que todos os meus mestres,

pois meditei na tua Lei.

Tenho mais discernimento que os anciãos,

pois observei os teus preceitos."

(Sl 119/118, 98-100)

 

Então, só então, Jesus será para mim verdadeiramente o Salvador, estendendo-me a mão e chamando-me para fora dos meus túmulos. E o meu encontro com Ele mudará a minha vida...

 

 

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publicado às 06:24

O frio e os nossos (des)confortos

por Teresa Power, em 15.01.15

Este inverno tem sido luminoso, azul, e gelado. Lembra-me os invernos da minha infância, em Castelo Branco, onde eu precisava de mergulhar as mãos em água quente antes de praticar as lições de piano...

Cá em casa está muito frio. Na sala, o lume arde lentamente na lareira, mas os quartos estão gelados. Contudo, ninguém parece importar-se muito: quando os meninos estão a estudar, acendem um pequeno aquecedor a óleo; quando estão a brincar, nem dão pelo frio, porque brincar como eles brincam aquece o corpo e a alma!

Entre uma casa aquecida como as casas "do estrangeiro", e uma casa fria como a da minha infância e a nossa actual, claro que qualquer um escolheria a primeira. Eu sofro bastante com o frio e adoraria poder passear-me de manga curta entre a cozinha e os quartos! Mas fico contente por não poder escolher, pois sei que a falta deste conforto extra me faz melhor ao espírito.  E porquê? Porque como já disse e repeti várias vezes neste blogue, um bocadinho de desconforto, um bocadinho de dificuldade, ajuda-nos a crescer!

 

- Este ano, pela primeira vez em muitos anos, o frio chegou na altura certa - dizia-nos o senhor Manel, dono da mercearia onde compramos fruta e vegetais - e isso significa que a fruta vai ser boa!

 

Santa Teresinha do Menino Jesus confessou, no final da sua vida de 24 anos, que o maior sofrimento físico da vida conventual fora... o frio. Imaginem a França do final do século XIX, um convento antigo, em pedra, uma única lareira no coro, onde as irmãs se reuniam, e depois o frio gelado das celas pobres e despidas, aonde se chegava atravessando os claustros descobertos... Santa Teresinha tinha uma única coberta remendada para se aquecer durante a noite, e nunca ouvira falar em aquecimento central, naturalmente. Confessou que muitas noites não era capaz de dormir, tal o frio que sentia! Hoje, a maior parte dos conventos estão bem aquecidos, mas nem por isso têm mais habitantes.

 

Claro que não vamos ficar nem deixar os nossos filhos ficar acordados de noite com o frio; mas também não precisamos de os tratar - a eles e a nós - como "coitadinhos", incapazes de sofrer algum tipo de desconforto! Façamos deles homens e mulheres fortes nos pequenos detalhes da vida, capazes de aceitar, com um descontraído encolher de ombros, pequenas contrariedades - como por exemplo, e no meu caso, o frio. Porque se o frio e as pequenas dificuldades da vida chegarem na altura certa, os frutos serão certamente muito bons no verão...

 

"Servo bom e fiel, porque foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei." (Mt 25, 21)

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publicado às 06:32

Tanta pouca

por Teresa Power, em 14.01.15

O António estava a comer com imenso prazer. Entre garfadas, ia conversando com os irmãos e connosco, muito animado.

- Quero mais!

- Se faz favor.

- Quero mais se faz favor!

Coloquei um pouco mais de massa e de carne estufada no seu pequeno prato.

- Mais! - O António manteve o prato estendido.

- Come primeiro essa, depois se ainda tiveres espaço, dou-te mais - Respondi-lhe.

E foi então que a birra começou:

- TANTA POUCA!

- O quê?

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

- António, se quiseres mais eu dou, mas primeiro comes o que tens no prato.

Agora as lágrimas corriam a alta velocidade, e o prato continuava intocado diante do meu filho de quatro anos. Já não havia nada a fazer: era mesmo hora de birra... Os irmãos encolheram os ombros, nós também, e continuámos a tentar conversar por entre os gritos do António, enquanto eu escondia um sorriso diante da sua gramática atabalhoada:

- TAAAAANTA POUUUUUUCA!

Por fim, vendo que ninguém cedia - e porque a carne estava mesmo apetitosa - o António lá limpou as lágrimas e assoou o nariz, e continuou a comer. Afinal o que tinha no prato parece ter sido suficiente, porque não tornou a repetir.

 

Enquanto escutava os gritos do meu pequeno filho, fui pensando em como tantas e tantas vezes, também nós ficamos com o prato estendido diante do Senhor, fazendo birra:

- Tanta Pouca!

Temos diante de nós um prato, que o Senhor preparou com carinho especialmente para nós, mas raramente estamos satisfeitos: temos filhos a mais, ou filhos a menos; temos trabalho a mais, ou trabalho a menos; temos dinheiro a mais, ou dinheiro ao menos; temos chuva a mais, ou frio a mais, ou calor a menos, ou amigos a menos, ou saúde a menos, ou... Porque não estamos nunca satisfeitos?

Recordo aqui a oração constante da jovem Beata Chiara Badano, que nasceu no mesmo ano que eu e morreu aos dezoito anos de idade. Já falei desta oração várias vezes, e hei-de continuar a falar, porque nela está contido o segredo da verdadeira alegria, essa alegria que nada nem ninguém nem circunstância alguma da vida pode roubar:

 

"Tu queres, Jesus? Então eu também quero."

 

Ou como disse Jesus ao longo de toda a sua vida:

 

"Faça-se a Tua vontade, ó Pai, na Terra como no Céu." (Mt 6, 10)

 

Ámen!

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publicado às 06:32

Eu não sou Charlie

por Teresa Power, em 13.01.15

No domingo, a nossa casa voltou a encher-se: a família Almeida, com os seus três filhotes, veio visitar-nos e passar o dia connosco; ao mesmo tempo,  e por feliz coincidência, uma grande amiga precisou de nos confiar três dos seus nove filhos durante o dia. Assim, a nossa mesa à hora de almoço serviu para duas levas de almoços - uma com nove crianças, a outra - mais tarde - com os adultos e o Francisco e a Clarinha, que ficaram bastante aliviados por fazerem parte do grupo dos "grandes":

 

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O dia, naturalmente, passou-se entre correrias, brincadeiras, gritos de alegria, pequenos amuos, e muita animação, em casa, no jardim e sobretudo em Náturia. Antes da despedida, houve tempo para uma oração de louvor cantada e dançada, e um terço muito animado:

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No final, depois de todos irem embora, sentámo-nos à mesa para um jantar rápido, que o sono já era muito. Foi então que o Niall teve esta conversa caricata com a Lúcia:

- Lúcia, queria dizer-te uma coisa.

- Sim?

- Sim. Da próxima vez que estiveres com os teus amigos a brincar, há uma brincadeira que não podes fazer.

- Ai há?

- Há. Não podes estar sentada no muro a fazer caretas para os carros que passam na rua.

- ...

- Lúcia, nunca mais repetes isso, pois não?

- Não...

- Ainda bem.

 

Gerou-se quase um minuto de silêncio, pontuado por uma troca de olhares e sorrisos dissimulados, enquanto todos procurávamos imaginar a cena a que só o Niall assistira. Depois, a conversa retomou a alegria habitual.

 

À noite, vi nas notícias os milhões que desfilaram pelas ruas de Paris. Alegadamente, protestavam contra o terrorismo e a favor da liberdade de expressão. Contudo, os cartazes que carregavam deixaram-me um travo muito amargo na garganta: "Je suis Charlie". Que significa este slogan afinal? Que nos revemos no mau gosto das caricaturas, no insulto brejeiro e na sátira racista do jornal vitimado? Responder-me-ão, claro, que não importa se concordamos ou não com o jornal em causa, porque o importante é a liberdade de expressão. Liberdade de expressão? Será liberdade de expressão insultar o outro? Será que ser ocidental significa poder sentar-me sobre o muro do meu jardim e fazer caretas para quem passa na rua?

A Bíblia é bastante mais antiga que a nossa carta de direitos humanos, de que tanto nos orgulhamos. Na Bíblia, estão magistralmente compilados dez mandamentos, que visam precisamente a boa harmonia entre os homens e entre os homens e Deus. O oitavo diz assim:

 

"Não levantarás falso testemunho contra o próximo." (Deut 5, 20)

 

Desculpem-me o desabafo, mas depois de ver o triste slogan "Eu sou Charlie" percorrendo toda a comunicação social, incluindo a imprensa cristã, não pude ficar calada. Que hipocrisia! Dizem os jornalistas por esse mundo fora, e neste nosso Portugal, estarem dispostos a morrer pela liberdade de expressão. Não me lembro de ver nenhuma manifestação de milhões de pessoas nos últimos tempos, defendendo a liberdade de expressão dos cristãos nos países onde o terror é a palavra de ordem de cada manhã, e onde se é assassinado sem nunca se ter sequer aberto a boca para ofender seja quem for. O século XX teve mais mártires cristãos do que os outros dezanove séculos juntos, e o século XXI não parece ser muito diferente. Milhões a sair em sua defesa?... Asia Bibi está há cinco anos presa por ter bebido água de um poço que pertencia a muçulmanos. Mãe de cinco filhos, aguarda o enforcamento. Nem ela, nem a família aceitam renegar a fé cristã, que lhe traria a liberdade imediata. Quantas manifestações têm ocupado a nossa imprensa tão livre, as nossas praças tão orgulhosamente liberais, as nossas televisões tão isentas? Quando eu vir algum destes manifestantes parisienses a segurar um estandarte que diga "Eu sou cristão" - não por se identificar com os cristãos, mas por se identificar com a causa da liberdade de expressão dos cristãos perseguidos, claro... - então eu acreditarei na sua sinceridade.

 

E já agora, caros leitores, a liberdade de expressão não é o valor supremo pelo qual nos devemos bater. O valor supremo é o amor. Tudo o resto é relativo, porque tudo o resto está subordinado a este valor absoluto - até a liberdade de expressão... Já Santo Agostinho dizia: "Ama e faz o que quiseres." E o Evangelho não nos dá nenhum outro critério para o julgamento final que não o amor. Leiam Mateus 25...

 

 

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publicado às 06:20

Dobrões de ouro

por Teresa Power, em 12.01.15

Hora do jantar. Porque é sábado, os mais novos tiveram direito a três quartos de hora de televisão, com o Jake e os Piratas da Terra do Nunca. A Sara adora balançar-se ao som da música, enquanto o David, a Lúcia e o António vão respondendo e acenando apropriadamente durante todo o programa. É para mim divertido observá-los diante do televisor!

António pirata.JPG

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 - Mãe, por cada boa acção, o Jake recebe dobrões de ouro. Já viste a sorte dele? - Conta-me o David, entre duas garfadas de arroz.

- Mas tu também recebes dobrões de ouro por cada boa acção, David!

- Recebo? - O David abre os olhos de espanto.

- Sim, claro! Os teus dobrões de ouro estão no céu à tua espera.

- Pois é verdade! Até me esquecia. E recebo sempre, sempre?

- Recebes, desde que faças uma boa acção de verdade.

- Como assim?

- Se fizeres uma boa acção para te "armares", para te elogiarem, para que te façam o mesmo, ou por qualquer outra razão, não terás qualquer dobrão de ouro no céu. Mas se fizeres uma boa acção por amor, apenas porque sim, porque deve ser feita, porque Jesus fica contente, então verás quantos dobrões de ouro arranjas!

- E eu também?

- Tu também, António! Todos nós temos no céu um tesouro à nossa espera. Foi Jesus quem o disse!

 

"Não acumuleis tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração." (Mt 6, 19-21)

 

 

- Eu vou ter muitos dobrões de ouro então!

- E eu também!

- E eu!

- E eu!

- E EEEEUUUUU! - Conclui a Sara, que levanta sempre o braço muito entusiasticamente quando percebe que é altura de o fazer.

 

Quem disse que os desenhos animados não são uma boa fonte de evangelização familiar?...

 

 

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publicado às 06:33




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