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Qual és tu?

por Teresa Power, em 16.01.15

Hora da história. Sentados ao meu lado no sofá, a cabeça aninhada no meu ombro, uma manta quentinha a cobrir-nos a todos, o David, a Lúcia, o António e a Sara escutam atentamente uma das suas histórias preferidas. É uma história sobre animais, muitos animais, animais do pólo norte, da selva, da savana, da floresta. Ainda mal abri o livro e já o António aponta para um elefante:

- Eu sou este!

- E eu sou este! - Avança o David, apontando para um hipopótamo.

- Não, eu é que sou! - Atalha a Lúcia - Ontem foste tu esse, hoje sou eu!

- Sou eu! Sou eu! - Conclui a Sara, que nunca perde a ocasião.

Sorrio para mim própria, enquanto leio a primeira página da história. Depois viro a folha com jeitinho. Ainda não comecei a ler, e já sou presenteada com a mesma lengalenga:

- Eu sou este!

- E eu sou este!

E assim vamos avançando, devagarinho, página a página, até chegarmos à linha final, onde todos os animais alcançam a vitória em conjunto.

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Enquanto deito os quatro meninos, dou comigo a pensar na sua sabedoria ao escutar uma história: sem precisarem de fazer grande esforço, as crianças são perfeitamente capazes de escolher uma personagem e se identificarem com ela, experimentando a sua força, a sua coragem, a sua dor. Assim, quando chegam ao final da história, a vitória dos seus heróis tornou-se a sua própria vitória.

E pensei então... Qual a minha atitude ao ler a Bíblia? Serei eu capaz, como as crianças, de penetrar na história que leio, não como espectador de algo que aconteceu uma vez no passado, mas como personagem de algo que acontece agora na minha vida? Serei eu capaz de me identificar com Abraão, David, Gedeão, Ester, José, Maria, Zaqueu, Madalena, Pedro, João, Paulo? Serei eu capaz de me identificar com as desconfianças dos fariseus, o pecado da adúltera, a surpresa do centurião, a humildade do Bom Ladrão, a alegria de Mateus? Estarei eu sempre no lado dos "bons"? Ou consigo assumir o meu eu "mau", capaz de atirar tantas pedras? Estarei eu atenta, profundamente atenta à voz de Jesus, aos gestos de Jesus, ao andar de Jesus, ao olhar de Jesus, como estavam todos os que com Ele se cruzavam?

Quando eu conseguir ler assim o Evangelho, então estarei verdadeiramente a meditar, como diz o salmo 119/118:

 

"Teu mandamento tornou-me mais sábio que meus inimigos,

pois tenho-o sempre comigo.

Tornei-me mais perspicaz que todos os meus mestres,

pois meditei na tua Lei.

Tenho mais discernimento que os anciãos,

pois observei os teus preceitos."

(Sl 119/118, 98-100)

 

Então, só então, Jesus será para mim verdadeiramente o Salvador, estendendo-me a mão e chamando-me para fora dos meus túmulos. E o meu encontro com Ele mudará a minha vida...

 

 

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publicado às 06:24

O teu Deus é o meu Deus

por Teresa Power, em 14.11.14

O mais belo desafio escolar do primeiro ano é, sem dúvida, aprender a ler. Conseguir destrinçar um emaranhado de traços e pontos, separá-los em letras, reuni-los de novo em sílabas, oferecer-lhes som e, por fim, encontrar-lhes um sentido é verdadeiramente uma conquista, comparável às mais altas conquistas da cavalaria antiga.

Para a Lúcia, aprender a ler não está a ser tarefa fácil. Distinguir entre "t" e "p", entre"l" e "d", recordar os ditongos, juntar as consoantes aos ditongos e ler tudo em conjunto exige muito trabalho! Mas se, por um lado, a dificuldade é grande, por outro, o esforço também o é, e devagarinho a Lúcia vai conseguindo encontrar palavras no meio de tantos sons.

 

Ontem encontrei a Lúcia imóvel diante de um quadro do Tomás.

- O que estás a fazer, Lúcia? - Perguntei.

- Acho que sei ler o que está ali - Respondeu-me, apontando para uma palavra.

- Então lê lá!

- Conheço o "D" e o ditongo "eu". Lê-se "Deu". E depois tem outra letra que não sei qual é...

- Muito bem! A letra que não conheces é um "s". A palavra é... "Deus"!

A Lúcia abriu muito os olhos e a boca, completamente aturdida com a sua descoberta:

- Eu já sei ler "Deus"! - Exclamou.

- Sim, Lúcia, já sabes ler "Deus"!

E sem mais, começou a saltar e a bater palmas, exclamando cada vez mais entusiasticamente:

- Já sei ler "Deus"! Já sei ler "Deus"!

Aproveitando tanto entusiasmo, chamei-a à sala e rabisquei umas palavras no caderno de trabalho. Depois sentei-me com ela e, juntas, começámos a ler:

- Deus-é-meu-Pai!

A Lúcia balbuciou as palavras muito devagar e muitas vezes até finalmente perceber que faziam sentido:

- Deus é meu Pai! Mamã, Deus é meu Pai! Já sei ler isso!

Escrevi nova frase:

- Eu-amo-a-Deus.

De novo, uma grande luta à volta dos traços e dos sons, e por fim, a alegria exuberante da descoberta.

- Agora, Lúcia, vou escrever uma frase da Bíblia.

A Lúcia olhou para mim muito espantada:

- Da Bíblia? Eu já sei ler uma frase da Bíblia?

- Já. Vais ver...

E pegando no carderno escrevi:

 

"O teu Deus é o meu Deus."

 

Quando conseguiu ler a frase, a Lúcia estacou.

- Disseste que é da Bíblia. Posso ver?

- Traz-me a Bíblia então!

 Apressou-se a ir buscar a Bíblia ao Canto de Oração. Abri no Livro de Rute 1, 16. E apontando para as palavras em letra miudinha, ajudei-a a ler:

 

"O teu Deus (será) o meu Deus." (Rt 1, 16)

 

Ao serão, durante a oração familiar, a Lúcia agradeceu:

- Obrigada, Jesus, porque já sei ler o que é mais importante. Já sei ler da Bíblia, e já sei ler "Deus"!

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 Obrigada, Jesus, porque a Lúcia sabe o que é mais importante... Que também eu, ao educar os meus filhos e ao lutar pelo seu sucesso escolar, nunca perca de vista o que é mais importante! Ámen.

 

 

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publicado às 06:49

Soldados de Cristo

por Teresa Power, em 23.10.14

- Mãe, estive a ler a Bíblia.

- A Bíblia, David? A tua Bíblia ilustrada?

- Não, a tua Bíblia. A azul, sabes.

- Ai sim? E que leste tu?

- Estive a ler a Carta aos Romanos. Aquela Carta de S. Paulo!

Troquei um olhar cúmplice com o Niall, que escutava a conversa divertido. Sentado no sofá, o David tinha num dos lados a Bíblia, e no outro, um livro de Asterix, que ele adora ler. Calculei imediatamente o porquê da "Carta aos Romanos"...

- Olha lá, o que é que tu leste nessa carta?

- Não percebi muito bem. Mas era sobre Deus, lá isso era!

- Também me parece que sim - Atalhei. E continuei: - David, porque é que tu gostas dos Romanos?

- Porque são soldados! Pelo menos no Asterix são.

- Sabes que S. Paulo escreveu um texto especial para os soldados?

O David olhou-me com os olhos muito abertos e estendeu-me a Bíblia:

- Lê-me esse texto!

- Ora escuta então:

 

"Revesti-vos da armadura de Deus, para terdes a capacidade de vos manterdes de pé contra as maquinações do diabo. Mantende-vos, portanto, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestido a couraça da justiça e calçado os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz; acima de tudo, tomai o escudo da fé, com o qual tereis a capacidade de apagar todas as setas incendiadas do maligno. Recebei ainda o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." (Ef 6, 10-17)

 

Quando terminei, o David tinha um sorriso largo na cara.

- Ena, pá! Diz lá outra vez como é essa roupa!

Repeti cada detalhe, devagar, fazendo os gestos com ele. Por fim, rimo-nos juntos. S. Paulo tinha cá cada ideia!

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Sabes, David, a vida cristã é e será sempre uma batalha, e só vencerá quem souber lutar. Podia ler-te muitas outras passagens de S. Paulo, em que o Apóstolo nos fala da luta entre a carne e o espírito, entre a vontade do homem e a vontade de Deus... Mas esta chega para entenderes que precisas de te preparar para a batalha, se quiseres ser vencedor!

David, não penses que a obediência a Deus é tarefa fácil, ou tarefa de um dia! Não penses que conseguirás ser santo sem muita luta. Mas de uma coisa podes ter a certeza: Jesus está lá, na frente da batalha, dando a vida para que nós sejamos, n'Ele, vencedores. Assim, não te esqueças de enfrentar as guerras com as palavras mágicas: "Nós, Jesus, Tu e eu..." Ámen!

 

 

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publicado às 07:11

Herdeiros da Bênção

por Teresa Power, em 20.10.14

São oito horas e dez minutos da manhã. Já vamos atrasados para o colégio! A fila de carros será interminável, se não nos despacharmos.

- Não se esqueçam do cartão da Arca do Tesouro! - Grito, já sentada ao volante. O David volta para trás e regressa com um cartão na mão. Ele quase nunca se esquece!

Como já contei, todas as manhãs, no carro, durante a nossa oração, lemos uma pequena passagem da Bíblia, que retiramos ao acaso da nossa Arca do Tesouro, bem recheada de cartõezinhos bíblicos. Há-os à venda em livrarias católicas, e também são muito fáceis de fazer à mão!

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- Queres ler o teu, David? - Peço, já perto do colégio. E o David lê:

 

"Abençoai, pois fostes chamados para serdes herdeiros da bênção." (1Pe 3, 9)

 

- Que boa ideia esta Palavra nos dá! É preciso abençoar o dia inteiro...

- E o que é abençoar?

- É desejar o bem, e pedir para essa pessoa a paz, o amor, a alegria, a graça de Deus.

- E fazemos isso como?

- No nosso coração. Quando nos encontramos com alguém, podemos rezar baixinho: "Senhor, abençoa este meu amigo, e dá-lhe tudo de bom!" Claro, devemos pedir a bênção para todos, amigos e inimigos...

 

Ficamos um bocadinho em silêncio, pensando na Palavra. Depois rezamos um Pai-Nosso, uma Avé-Maria, um Glória. Mais tarde, recordo novamente a Palavra. Deixo passar tantas oportunidades de bênção ao longo do dia... Que posso fazer para não me distrair? Talvez possa tornar a minha oração mais concreta. A partir de hoje, vou pedir a bênção sobre o irmão em ocasiões muito específicas:

Sempre que, ao longo do dia, me ofendem ou magoam...

Sempre que um vizinho me vem oferecer um cesto de fruta, um saco de roupa...

Sempre que um amigo dá boleia à Clarinha para a ginástica ou a qualquer um dos meus filhos para casa...

Sempre que um amigo distante telefona...

Sempre que entro na sala de aula (especialmente em algumas!)

Sempre que, no noticiário, fico a saber do sofrimento de alguém...

Sempre que, no blogue, alguém comenta...

Sempre que, no mail, alguém me pede oração ou partilha a sua vida comigo...

 Sempre que repito o gesto diário de ligar a máquina da roupa (esta vocês não entendem, mas paciência, não posso explicar tudo!)...

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A bênção de Deus nunca é vã. Como herdeiros da bênção, não deixemos de a oferecer a todos, bons e maus, justos e injustos!

Que o Senhor vos abençoe hoje e sempre! Ámen.

 

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publicado às 06:45

Falando de poesia...

por Teresa Power, em 19.10.14

Há duas semanas atrás, lemos todos os dias ao serão um verdadeiro poema, dos bons, dos grandes, dos que fazem borbulhas na pele e suster a respiração. Falo da primeira leitura da missa diária, retirada do Livro de Job. Ora escutem só um dos trechos que lemos:

 

“O Senhor falou a Job do meio da tempestade: «Porventura alguma vez na vida deste ordens à manhã e marcaste à aurora o seu lugar, para que ela agarre as extremidades da terra e dela sacuda os malfeitores? Deste ordens à terra para ela se moldar como a argila debaixo do sinete e tingir-se como um vestido, recusando a luz aos malfeitores e quebrando a força do braço erguido? Acaso desceste às nascentes do mar e andaste pelo fundo do abismo? Foram-te abertas as portas da morte e viste os portões do país das trevas? Abrangeste com o olhar a extensão do mundo? Fala!»” (Job 38, 1.12-21)

Na universidade, há vinte anos atrás, tive uma professora de Estudos Literários que não era crente. No primeiro dia de aulas, contudo, ela recebeu-nos assim:

- Quero dizer-vos desde já que há um livro de leitura obrigatória por todos os que desejam estudar literatura. Sem o conhecimento deste livro, não serão capazes de entender profundamente a literatura ocidental, seja ela qual for. Não entenderão Goethe, Shakespeare, Camões, Júlio Dinis, Saramago. Serão analfabetos literários. Este livro é a Bíblia.

 

Nunca mais esqueci aquelas palavras. Na verdade, a Bíblia marca toda a nossa cultura, toda a nossa arte, toda a nossa herança ocidental. Podemos fazer leis para a proibir, podemos retirar as referências à religião cristã das constituições de todos os países europeus, mas não podemos retirar a influência profunda e marcante da Palavra de Deus na vida de todos nós. E se isto é verdade para os não crentes, quanto mais será verdade para os crentes!

 

Ao escutar a leitura do Livro de Job, imaginei como seria uma escola onde, de vez em quando, a par de tantos outros textos, os textos bíblicos fossem trabalhados… Onde se aprendessem algumas histórias do povo judeu, como se aprendem as histórias dos deuses gregos ou do romantismo alemão… Onde se analisasse a poesia dos salmos como se analisa a dos poemas antigos… Não precisava de ser na escola católica, claro, porque como bem nos explicou a minha professora, a Bíblia é património mundial; mas pelo menos na escola católica…

 

PS - Ontem, no seu blog, a Marisa escreveu um post sobre o seu plano bíblico anual e desafiou-nos a acompanhá-la! Vão até lá e aproveitem o desafio :)

 

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publicado às 06:47

Uma tarefa grandiosa e humilde

por Teresa Power, em 07.10.14

No sábado estive no Porto, no E-vangelizar, um encontro fantástico organizado pelos salesianos para catequistas, feito de workshops onde podemos aprender, treinar e partilhar várias formas de evangelizar. De Mogofores, fomos um bom grupo de catequistas, e o convívio foi óptimo.

As edições salesianas tinham no encontro uma mesa onde vendiam as últimas novidades para catequistas. Entre elas, o terceiro volume do meu livro Os Mistérios da Fé. Finalmente pude pegar no meu livro, folheá-lo e cheirá-lo! É uma sensação estranha, esta de ver o fruto do nosso trabalho à venda. Enfim, se o quiserem adquirir, cliquem na imagem do lado direito e encomendem às edições!

Na viagem de carro, conversávamos animadamente sobre muitas coisas, entre elas, a catequese.

- Que responsabilidade tão grande a nossa - disse um dos catequistas, num tom levemente preocupado. Pai de uma bela Família de Caná, ele vai pela primeira vez ser catequista, tendo a seu cargo um grande grupo de crianças de seis anos. Entre elas, a Lúcia!

- Responsabilidade porquê? - Perguntei.

- Então, vou ser responsável por apresentar Jesus a tantos meninos... Muitos deles nunca antes ouviram falar de Deus! O primeiro encontro é sempre tão marcante... Quero ser fiel. Não quero falhar no essencial... Quero manter o rumo. Quero ser digno desta tarefa grandiosa!

Levar Jesus às crianças é verdadeiramente uma tarefa grandiosa, e nenhum de nós está à altura, claro! Como diz S. Paulo:

 

"Levamos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não nosso." (2Cor 4, 7)

 

Dizia-nos o padre Rui Aberto, no encontro, com muita graça, que há dois tipos de catequistas que se devem evitar: os que acreditam que tudo depende do nosso esforço, e não deixam espaço à novidade de Deus; e os que acreditam que o Espírito Santo faz tudo, de tal forma, que nem precisamos de preparar a catequese! Não, o Espírito Santo não é o espírito da preguiça, mas da graça, e o Papa Francisco alertou-nos na sua exortação que é preciso, sim, preparar as homilias, preparar as evangelizações, preparar as pregações:

 

"Um pregador que não se prepara não é «espiritual»: é desonesto e irresponsável quanto aos dons que recebeu." (A Alegria do Evangelho, nº 145)

 

Escutei as palavras do meu amigo catequista com agrado. Um catequista apaixonado por Jesus, que tira tempo para fazer formação, que tira tempo para ler e meditar na Palavra e nas palavras que nos levam até Deus, e que o faz com humildade, consciente da sua fraqueza e da grandiosidade da tarefa que lhe é proposta, é de certeza um bom catequista. A Lúcia fica bem servida!

Pensei então na nossa responsabilidade enquanto pais... Somos os primeiros evangelizadores dos nossos filhos. Seremos suficientemente fiéis ao Senhor? Estaremos suficientemente preparados? Lemos, estudamos e aprofundamos a nossa fé, ou contentamo-nos com o que aprendemos na nossa própria catequese, quando éramos crianças? Conhecemos a Palavra de Deus? Conhecemos a Palavra da Igreja?

 

Os Mistérios da Fé foram escritos porque também eu ando à procura, porque também eu estou consciente da minha imensa pequenez e da minha imensa responsabilidade enquanto mãe e enquanto catequista. Escavei, escavei, escavei a Palavra de Deus, lendo a propósito e a despropósito, estudando, meditando. Procurei servir os catequistas e sobretudo as famílias, no seu tempo semanal de evangelização (sim, também na família é preciso encontrar um tempo semanal de evangelização formal!). A obra escrita está terminada com este terceiro volume; mas a obra vivida, essa ainda só está a começar...

 

 

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publicado às 06:56

Arca do Tesouro

por Teresa Power, em 16.09.14

O último dia de férias cá em casa, na quarta-feira passada, foi o caos total: era preciso forrar os últimos livros, comprar os últimos cadernos, apagar os livros reciclados, colocar nomes nos livros novos e alterar os nomes dos livros velhos, afiar lápis de cor, procurar borrachas e afiadeiras, passar a ferro as t-shirts do Colégio, provar as t-shirts do Colégio e descobrir que já não servem...

Finalmente, pelas onze e meia da noite, tinha alinhado à porta de casa sacos com fraldas, toalhitas, cobertores e lençóis, a par com mochilas com lápis de cor e cadernos (sem contar com as mochilas dos mais velhos, que no primeiro dia foram apenas sacolas):

 

Depois lembrei-me do que o Papa Francisco sugeriu há alguns dias: seria tão bom, os cristãos terem no bolso um livrinho com os quatro Evangelhos, para poderem encontrar-se com Jesus ao longo do dia! Decidimos assim retomar o abrir matinal da nossa Arca do Tesouro, que temos na entrada de casa:

 

Todos os dias, levaremos connosco um pequeno cartão com uma Palavra da Bíblia. Durante a curta viagem de carro até ao Colégio, partilharemos algumas destas Palavras na nossa oração da manhã. No meio de lanches, mochilas e agasalhos, não nos queremos esquecer daquilo que realmente importa: escutar Jesus para podermos fazer tudo o que Ele nos disser!  Foi esse o conselho que Maria deu aos servos nas Bodas de Caná:

 

"Fazei tudo o que Ele vos disser!" (Jo 2, 5)

 

Ámen.

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publicado às 06:20

Tesouro em vasos de barro

por Teresa Power, em 12.09.14

Ontem de manhã, na Abertura Solene do Colégio Nossa Senhora da Assunção, onde estão os meus filhos, falou-se de James Foley.

 

No ecran gigante no ginásio, a sua imagem surgia como uma luz a brilhar nas trevas, ilustrando o tema cultural deste ano lectivo no Colégio: "Enche-te de Luz!" E na escuridão do ecran vazio, brilhou com simplicidade um extracto da carta que James Foley fez o seu amigo memorizar:

 

«Sei que pensam em mim e rezam por mim e estou agradecido. Sinto a vossa presença, sobretudo quando rezo. Rezo por vós, para que sejam fortes e acreditem. Sinto, de facto, que, quando rezo, vos consigo tocar mesmo nesta escuridão»

 

Já tive muita ocasião para meditar na fé e na humanidade deste grande homem, que perdeu a vida às mãos de terroristas sem coração; já tive muita ocasião para meditar na capacidade de suportar a dor que Deus parece oferecer-nos quando tocamos o limite, e na serenidade e maturidade que parecem envolver os que atravessam o limiar desta curta passagem pela terra. Mas ali, na escuridão do ginásio, enquanto no ecran brilhavam as últimas palavras de James Foley, o meu pensamento foi para o seu amigo de cativeiro. E enquanto a música de fundo dava relevo às palavras ditadas, eu pensava na concentração, no sentido de dever e no sentido de responsabilidade do amigo de Foley. E sobretudo, na sua capacidade de escuta, abstraindo-se dos barulhos terríveis que os cercavam como cães raivosos. Escutando as palavras que lhe eram entregues como um tesouro, aquele amigo vislumbrou de repente um sentido todo novo para a sua vida. Afinal, ele levava agora na sua memória um testamento espiritual único, que precisava de entregar com urgência. As palavras de Foley tinham sido proferidas para iluminarem as trevas dos que lhe sobreviveriam, e havia uma urgência enorme em fazê-las chegar ao seu destino.

Depois lembrei-me de S. Paulo (outra vez!):

 

"Trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não nosso." (2Cor 4, 7)

 

Antes de morrer, Jesus também deixou aos seus amigos um testamento espiritual. Falava de amor. E nele, Jesus dizia:

 

"Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei." (Jo 13, 34)

 

Imagino a concentração, o sentido de dever e o sentido de responsabilidade dos amigos de Jesus... Imagino a atenção com que escutaram, quase que bebendo uma a uma as palavras do mestre, para nunca mais as esquecerem... Também eles levavam na sua memória um testamento espiritual único, que precisavam de entregar com urgência. E a sua missão foi levada tão a sério, que as palavras de Jesus chegaram até nós, de testemunha em testemunha, de amigo em amigo.

As Palavras que Deus confiou ao seu povo foram entregues para serem luz que brilha nas trevas. No mundo árabe, onde James Foley foi cruelmente assassinado, há cristãos que memorizam o Evangelho para poderem meditar nele, pois é perigoso ser apanhado com uma Bíblia. O Papa Francisco sugeriu recentemente aos cristãos ocidentais, que não correm esse perigo, que trouxessem no bolso ou na carteira os Evangelhos, para assim poderem escutar a Palavra de Jesus numa breve pausa durante o dia.

 

Olhei para aquele ginásio cheio de crianças e jovens, professores, funcionários e pais. Teremos nós o mesmo sentido de urgência e responsabilidade, perante este tesouro que trazemos em vasos de barro? Seremos nós capazes, no corropio do dia-a-dia, de encontrar tempo para a escuta do Testamento de Jesus, que nos foi entregue no dia do nosso baptismo? Seremos nós capazes de o memorizar, de o viver e de o transmitir com fidelidade, como o amigo de James Foley fez com a carta que lhe foi confiada? Se assim fizermos, então a luz brilhará nas trevas...

 

 

 (A "nossa" praia fluvial da Redonda, anteontem à luz do entardecer...)

 

 

 

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publicado às 06:50

Plano de voo

por Teresa Power, em 28.07.14

Os meus filhos têm na Irlanda dois avós, dezasseis tios e dezassete primos. Ena, que fartura! Infelizmente, quase nunca se vêem, pois as viagens para famílias numerosas como a nossa ficam muito caras. A última vez que fomos à Irlanda foi há cinco anos atrás. Os avós nunca deixaram de nos visitar, e de vez em quando aparece por cá uma família Power, com dois ou três primos simpáticos. É uma festa!

Há uns meses, os avós telefonaram-nos muito tristes. Tinham chegado à conclusão de que já não conseguiam viajar de avião, e lamentavam ainda nem sequer conhecerem a Sara. O Niall concordou que estava na altura de voltarmos à Irlanda... Enchemo-nos de coragem, e para a semana, lá vamos nós! Preparem-se aí desse lado para postagens do país verde...

 

Estes nossos serões têm sido muito atarefados. O Niall senta-se ao computador, de telefone em punho e calculadora à mão, e tecla sem parar, quer no computador, quer no telefone, quer na calculadora, para marcar tudo o que é preciso marcar antes de partirmos. Eu fico a olhar para ele, muito espantada, pois não faço ideia do que ele está a tratar...

- Como não entendes o que é preciso fazer? - Pergunta-me ele, tentando sorrir no meio da atrapalhação - Temos de marcar comboios, estacionamento dos carros no aeroporto, autocarros, mais comboios na Irlanda, mais autocarros, porque isto não é apanhar o avião e acordar em casa dos meus pais!

Eu aceno com a cabeça e finjo escutar com muita atenção tudo o que ele me diz. Também aceno quando ele me pergunta se acho que lhe fizeram um bom preço por uma viagem de comboio para os oito, ou um bilhete de autocarro. E ele lá continua, calculadora na mão, a fazer contas e mais contas...

 

Mas não pensem que eu não faço nada! Chegou a minha vez de me vingar - agora é ele que fica a olhar para mim:

- Estás tão atarefada porquê? - Pergunta-me, espantado - É abrir as gavetas, pegar em algumas roupas e meter nas malas!

- Algumas roupas? Para oito pessoas? Na Irlanda nunca sabemos se é inverno ou verão (bem, cá também não) e precisamos de camisolas de lã, fatos de banho, impermeáveis, botas e sandálias... E isto para oito pessoas! A Sara costuma mudar de roupa pelo menos duas vezes por dia. Depois ainda há os presentes para levar, e objectos que não podem ficar para trás. Sim, senhor Niall, isto demora!

 

E lá continuamos os dois nos nossos preparativos, cada um com as suas tarefas, mas ambos muito ocupados.

 

Uma família cristã é acima de tudo uma família que sabe de onde vem e para onde vai: vem de Deus, pelo baptismo, e vai para o Céu, a sua verdadeira Casa! Assim, uma família cristã não se pode "deixar andar", rumando ao sabor dos ventos sem grande preparação. A ideia de que "tudo se ajeita" não resulta na vida da fé! Precisamos de pensar muito bem na viagem desta vida, tratando de cada pormenor com atenção e seriedade. A "segurança do voo" das nossas crianças depende de nós, seus pais! Que "bagagem" não podemos esquecer? Que "ligações de trajectos" não podemos deixar ao acaso? Que "contas" é preciso fazer? Jesus foi muito claro:

 

"Quem de vós, ao construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos para ver se tem com que terminá-la? De contrário, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos o verão e começarão a troçar, dizendo: «Este homem começou a construir e não pôde acabar.»" (Lc 14, 28-30)

 

Quantas famílias começam a construir e não conseguem acabar! Sentemo-nos então todos os dias, ou todas as semanas, e façamos os nossos preparativos. O plano de voo, já o temos: está bem delineado nas Escrituras Sagradas! Podemos meditar nele através das três leituras que a Igreja propõe na missa diária. Nós fazemo-lo sempre cá em casa desde que nos casámos, e podemos testemunhar como o Espírito Santo tem guiado o nosso voo, pela Palavra, no meio dos mais terríveis furacões...

 

 

 

 

 

 

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publicado às 06:51

Faz isto e serás feliz!

por Teresa Power, em 15.03.14

Oração familiar, segunda-feira à noite. Depois de deitar os três mais novos, meditamos com os três mais velhos nas leituras da missa do dia.

 

"Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Concluía o Livro do Levítico, 19, 18.

 

- Eu pensava que Jesus é que tinha ensinado esta lei! - Comentou a Clarinha.

- É o que nós rezamos todos os dias no "Escuta Israel", não é mãe? - Descobriu o David.

- Sim, é verdade. A oração dos judeus, a oração que Jesus rezava desde que aprendera a falar, é retirada do Livro do Deuteronómio e diz assim:

 

"Escuta Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor.

Amarás o Senhor com todo o teu coração,

Com toda a tua alma

E com todas as tuas forças" (Deut 6, 4-5)

 

Mas Jesus - continuei eu - que conhecia as Escrituras como ninguém, e que as sabia de cor, acrescentou um pequeno mandamento, perdido num texto repleto de mandamentos, dum outro livro da Bíblia, o Levítico. Esse mandamento é o que acabamos de ouvir!

- Então Jesus juntou os dois mandamentos e fez só um?

- Isso mesmo, David. O grande mandamento dos cristãos é amar a Deus e amar ao próximo, em conjunto, amando Deus no próximo e o próximo em Deus.

- Mas Jesus ainda disse mais uma coisa, não foi, mãe? - Continuou o David.

- Que coisa?

- Jesus disse: "Faz isto e serás feliz!" (Lc 10, 27-28)

- Tens razão, David. Amar a Deus e amar o próximo é o caminho mais curto para a felicidade!

 

Todas os dias rezamos em conjunto a oração do "Escuta Israel", composta assim por Jesus. Se quiserem ver como o fazemos e rezar connosco, podem visualizar o vídeo com que iniciámos este blogue há uns meses atrás, e podem fazê-lo "clicando" aqui.

 

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publicado às 07:21



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