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Liberdade de educação?

por Teresa Power, em 03.05.16

Segunda-feira começou o mês de maio, e com ele, o mês de Maria.

- Mãe, temos de levar uma flor para Nossa Senhora! - Lembravam os meninos ao sairmos para a escola.

- Sim, vamos ter oração no pátio!

- É tão bom quando temos oração no pátio!

Chegámos ao colégio pelas oito e vinte da manhã, como costume. A manhã estava quente e, pela primeira vez este ano, os meninos iam vestidos com saias ou calções. No ar cheirava a primavera. No pátio do colégio, as crianças e os jovens estavam já agrupados por turmas, em silêncio, e a diretora do colégio, a Irmã Idalina, falava de Nossa Senhora e da forma digna como esperava que este mês fosse vivido. Aproximei-me para escutar e para rezar uma Avé-Maria em conjunto com toda a escola que escolhi para os meus filhos.

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Entretanto, no edifício da creche e do pré-escolar, a excitação era muita: os meninos preparavam-se para fazer a sua homenagem à Mãe do céu e à mãe da terra, cantando e rezando. A homenagem do Dia da Mãe acontece, já há alguns anos, na primeira segunda-feira de maio, logo às nove da manhã, para não atrasar a vida das mamãs. Eu consegui trocar as duas primeiras aulas da manhã e, assim, ficar disponível para assistir a esta breve homenagem.

Concluída a oração no pátio, os mais velhos subiram para as suas aulas. Eu tinha cerca de vinte minutos livres até à homenagem dos mais novos, às nove horas. Como ocupar o tempo? Da forma que o faço sempre, ali no colégio, quando tenho de esperar por alguma reunião de pais ou algum espetáculo dos alunos: dirigi-me à capela e rezei. Que graça que é ter uma capela na escola! Em silêncio, agradeci à Mãe este dom.

Nove horas. A Sara e o António, com as suas batas vestidas, procuraram-me com o olhar e, logo que me viram, acenaram-me. Depois cantaram canção após canção, intercalando o tema da Mãe do Céu com o da mãe da terra. Não faltou o Avé de Fátima, nem o Quero ser como tu, Maria. Nas faces da maioria das mães - mesmo aquelas que, como eu, há muitos anos escutam as mesmas canções e são homenageadas da mesma forma - corriam grossas lágrimas de emoção.

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Eram dez horas quando, por fim, cheguei à minha escola. Já muitos amigos e colegas me perguntaram, ao longo do tempo: Por que razão não tenho eu os meus filhos comigo no Agrupamento de Escolas de Anadia? Porque não acredito na qualidade do ensino da minha escola? Porque tenho medo das influências dos alunos problemáticos? Por causa da diferença de posicionamento no ranking? Hoje, depois de conhecer ambas as escolas e várias outras pelo país, talvez algumas destas razões tenham o seu peso. Mas a razão principal e, na altura, única que me levou a escolher o Colégio foi esta: o Niall e eu queríamos uma escola católica para os nossos filhos. Esta razão foi suficiente para nos fazer mudar de casa, de Aveiro para Anadia. Em Aveiro há muitas e belas escolas, com ótimos professores e bem posicionadas no ranking (que vale o que vale); mas não há uma única escola católica.

As escolas com contrato de associação são a oportunidade que os pobres e as famílias numerosas de classe média têm de escolher a escola dos seus filhos. Os ricos têm muitos colégios à disposição, claro. As ordens religiosas que se dedicam ao ensino e várias outras instituições laicais têm ótimos colégios em muitas cidades do país para os que podem pagar propinas. Mas não terão os pobres e as famílias numerosas de classe média direito a escolher, de igual modo, a escola dos seus filhos? São estes os valores socialistas de igualdade? "Se queres uma escola diferente da estatal, terás de pagar", ouço dizer frequentemente. Porquê? Onde é que diz na lei que os meus filhos são obrigados a frequentar o ensino laico, estatal, igual para todos? Que mania é esta agora, num mundo cada vez mais plural e diversificado, de obrigar todos os alunos - que não possam pagar - a entrar no mesmo molde e receber o mesmo estilo de educação? Será que igualdade é uniformidade? Subsidiar uma escola já existente, com ótimas instalações suportadas na sua maioria por ordens religiosas autónomas, com corpos docentes estáveis e ótimos resultados escolares parece excessivo ao Estado? Será que fica mais barato ao Estado construir mega-escolas de raiz, empenhando milhões de euros?

Claro que por detrás de tudo isto não estão os fatores económicos nem de sucesso académico, pois as evidências em contrário são muitas: por detrás de tudo isto está o ódio que o mundo tem a Jesus. Já O crucificámos, já Lhe imobilizámos as mãos e os pés com pregos, e Ele continua a incomodar tanta gente...

 

"Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, Me odiou a Mim. Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Se Me perseguiram a Mim, também vos hão de perseguir a vós." (Jo 15, 18-20)

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Se os contratos de associação terminarem, como o governo agora deseja, teremos de retirar os nossos filhos do colégio que escolhemos para eles, há quinze anos atrás. Segunda-feira, naquele pátio, sob aquele sol de primavera, escutando aquela Avé-Maria, percebi que tinha vontade de chorar.

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Já assinaram as petições pela liberdade de escolha?

Façam-no aqui! E aqui!

 

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publicado às 06:00

Tempos Livres VI - Felicidade

por Teresa Power, em 30.01.16

Termino hoje a "saga" da Clarinha, tal como espero e desejo que tenha terminado cá em casa, e termino esta pequena "série" de posts sobre os tempos livres dos Power. Quem chegar ao blogue aqui pela primeira vez, talvez seja conveniente ler esta sequência de seis posts antes deste!

 

Depois de jantar, na sala, fazemos alguns jogos ou lemos histórias todos juntos. São apenas dez minutos do nosso serão, o suficiente para nos divertirmos em família, antes da nossa oração familiar. Numa destas noites, durante um animado jogo em que o monstro maior da casa procurava agarrar os seus pequenos prisioneiros, que fugiam aos gritos e às gargalhadas, a Clarinha fez uma roda e um pino tão entusiásticos, que atirou para o chão a fotografia do Tomás e a imagem de S. Tiago vinda diretamente de Compostela.

- Clarinha, por favor, sabes bem que a nossa sala é pequena para os teus pinos! - Ralhei. Ela desatou a chorar:

- Mãe, eu não aguento ficar sem fazer ginástica! Eu não sou capaz de passar os dias sem me esticar muito bem esticadinha!

Suspirei fundo e abracei-a.

- Clarinha, podes sempre voltar às aulas de ginástica sem estares em competição...

- Sabes bem que não, mãe. Outras poderão, não eu. As professoras iriam pressionar, porque não me querem perder. Eu ajudo a dar nome ao clube... Não. Não posso arriscar. Além disso, as aulas são iguais para todos, estejam ou não em competição, e deixa-me que te diga... são uma seca! Temos de treinar em silêncio completo, se nos distraímos ou rimos, gritam logo connosco. Não quero isso para mim! Só quero descontrair e divertir-me ao fim de um dia de escola...

- Mas se precisas assim tanto de fazer ginástica, temos de encontrar uma alternativa à ginástica rítmica.

Ela acalmou um pouco, perante os olhares espantados dos irmãos mais novos, que com o aparato, se tinham esquecido de fugir do "monstro". Ouvi o David a murmurar baixinho, abanando a cabeça com sabedoria: "Não entendo nada... Chora por fazer, e chora por não fazer..."

De repente, lembrei-me de uma conversa que tivera há alguns dias com uma amiga.

- Clarinha, disseram-me que no velódromo, ao mesmo tempo que há aulas de ginástica rítmica, também há de artística. É verdade?

- Sim, é. Mas iria ser a mesma coisa, mãe. Quando os treinadores vêem do que eu sou capaz, começam a pressionar.

- Contudo, disseram-me que tu já és demasiado crescida para começar competição agora, em artística. Disseram-me que o professor se concentra nos pequeninos, que vão trabalhar para competir, e vai ensinando os mais crescidos de forma descontraída, sem lhes dedicar demasiada atenção. No fundo, o que tu queres...

No dia seguinte, levei a Clarinha à sua primeira aula de artística. O professor disse-me que, a começar nesta altura do ano, só seria possível se a Clarinha soubesse fazer uma roda, um pino, uma cambalhota... Descansei-o. Depois expliquei-lhe que a Clarinha não tem espírito de competição, e que seria melhor não a abordar sequer sobre tal. Foi a sua vez de me descansar.

Quando a aula terminou, a Clarinha vinha radiante, e o seu sorriso iluminava.

- Então, Clarinha, gostaste?

- Adorei! Podemos conversar e rir enquanto treinamos. Já fiz amigas! Adoro ir ter com as meninas e apresentar-me: "Olá, sou a Clara." É tão bom conviver! O professor nem acreditava, quando eu lhe disse que aprendi a roda sem mãos sozinha, pela internet. Ia ensinar-me o flick, mas descobriu que eu já sei fazer dez seguidos. Na próxima aula ensina-me a fazer um mortal! Fiz uma aranha na trave e não tive medo. Não te preocupes: temos uma piscina de esponjas espetacular por baixo, se por acaso cairmos! - Atirou-se para o sofá, esgotada e feliz. E acrescentou: - Eu adoro ginástica, eu preciso de ginástica, mas a ginástica não é a minha vida. Nestas novas aulas tenho espaço para conversar, rir, descontrair enquanto treino, que é o que eu preciso ao fim de um dia de escola e estudo... Tive um sonho, concretizei-o, já é passado.

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Tenho tido oportunidade de escutar a Clarinha a responder a quem lhe pergunta pelas suas razões de desistência. "Foi a professora?" "Ela não exigia o suficiente de ti, que podias dar mais?" "Ela exigia demasiado de ti?" "Ela era fria?" A resposta da Clarinha tem-me surpreendido: "Não, não saí por causa da professora. Saí por minha causa. A professora fez o que tinha de fazer. Eu é que não estava bem." E uma das maiores alegrias da Clarinha nos últimos dias foi um abraço e um sorriso da sua antiga treinadora (a que a acompanhava mais de perto), que no velódromo lhe estendeu os braços: "Clarinha, parabéns, tens imenso jeito para a artística! O importante é estares feliz."

Às vezes, na cama, a Clarinha chora um bocadinho com saudades das bolas, das fitas, dos arcos, das cordas. Também eu recordo, com alguma emoção, a alegria imensa da Clarinha durante o verão, quando, com o pai, fez a sua encomenda, pela Internet, da bola e da fita mais lindas do mundo, o cuidado que pôs na escolha, a festa que fez ao receber a encomenda... Depois, recordo-me da história de Lot e da sua mulher, habitantes de Sodoma, a cidade pecadora que o Senhor queria destruir. Conhecem o episódio? O anjo do Senhor foi enviado a Lot e disse-lhe:

 

"Foge, se quiseres conservar a tua vida. Não olhes para trás nem te detenhas em parte alguma do vale. Foge para o monte, de contrário morrerás." (Gn 19, 17)

 

Há passagens da Bíblia que só conseguimos entender quando vivemos a sua força. Esta é uma delas. De facto, às vezes é preciso partir sem olhar para trás, para não corrermos o risco de sermos transformados, como a mulher de Lot, numa estátua de sal. Ao longo da nossa vida, Deus irá desafiar-nos a abandonarmos tudo aquilo que nos prende ao mundo, incluindo - sim, incluindo - os nossos próprios sonhos. Porque, se não nos detivermos em parte alguma do vale, em breve alcançaremos o único monte que existirá para sempre, o Coração de Deus...

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O toque da campainha

por Teresa Power, em 27.10.15

- Professora, falta muito para tocar?

- Porquê, João, já estás cansado da aula?

Bocejos - Se calhar...

- Pois eu acho que a aula passou bem depressa!

- Isso és tu, Mariana, que gostas de Inglês!

- Tu já não dizes o mesmo quando estamos em Matemática, pois não?

- Não, Matemática passa devagar...

Mas todas as aulas acabam por passar, mais ou menos lentamente, e o toque da campainha acaba sempre por chegar.

Uma das maiores lições da escola é o toque da campainha. Eu sei que há movimentos contrários, defendendo as aulas de duração variável, e até há quem defenda que se deve apenas estudar o que apetece, quando apetece e se apetece.Também reconheço que todos precisamos de um tempo sem "toques de campainha" - e que bem que sabem as férias! Mas eu continuo a achar que há algo de libertador no toque da campainha.

A campainha liberta-me das tarefas cansativas ou indesejadas; mas também me liberta do excessivo apego às tarefas desejadas. Se é bom ser interrompido a meio de algo aborrecido, é ainda melhor ser interrompido a meio de algo agradável... É que esta interrupção é uma forma magnífica de treinar a vontade, e com ela, a minha liberdade interior. Este treino será extremamente útil ao longo de toda a vida, quando precisar de desligar o televisor para cuidar do recém-nascido, ou ligar o despertador para chegar a tempo ao trabalho, ou pousar o jornal para fazer o jantar.

Deverei, então, acolher com a mesma serenidade os diversos tempos do meu dia, bons ou maus, ao ritmo dos sucessivos "toques de campainha"? Bem, há um "tanto faz" negativo, provocado pela desilusão ou pela falta de criatividade, muito comum em alguns alunos pouco motivados para o estudo; mas há um "tanto faz" cristão, aquele que santificou Chiara Luce e todos os santos: "Tu queres, Jesus? Então eu também quero." Santo Inácio de Loyola chamava-lhe "indiferença".

Este "tanto faz" cristão ensina-me a dar o meu melhor tanto na aula de Inglês, como na aula de Matemática, tanto com professores simpáticos, como com professores antipáticos, tanto com turmas calmas como com turmas barulhentas, tanto com alunos queridos como com alunos problemáticos. Fácil? Para mim, neste ano letivo, tem sido extremamente difícil... Mas tem sido também a forma de me libertar de mim mesma, dos meus gostos e desejos, para experimentar a única felicidade, aquela que vem de cumprir a vontade do Senhor, agora.

A sabedoria do "toque da campainha" percorre a mais nobre tradição monástica, desde as suas origens - para saber o que está uma carmelita a fazer a qualquer hora do dia, basta consultar o horário do seu convento -, e vai ainda mais atrás, ao livro do Eclesiastes:

 

"Para tudo há um momento

e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu;

Tempo para nascer e tempo para morrer,

tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,

tempo para destruir e tempo para edificar,

tempo para chorar e tempo para rir..." (Ecl 3, 1-8)

 

Quatro horas da tarde. Está na hora de ir buscar os meus filhos ao colégio. É o "toque da campainha", a lembrar-me de que devo interromper o trabalho, desligar o computador e desligar os problemas da escola, para toda eu me concentrar nos meus filhos. Pelo caminho, ainda terei outro "toque": quinze minutos na capela perto do colégio, em colóquio a sós com o meu Senhor...

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Autocontrolo e a ressurreição de Jesus

por Teresa Power, em 11.04.15

Regresso às aulas. Turma do Vocacional. Antes de entrar na sala, respiro fundo, rezo uma Avé Maria e entrego-me a Jesus: "Nós, Jesus: Tu e eu vamos dar aulas à turma do Vocacional."

Entrada bastante atribulada. Alguém passa uma rasteira e outro cai no chão, mas porque não é bom ficar "por baixo", logo atira com uma mochila sobre as carteiras. A meio do "voo", mais dois ou três ficam magoados e decidem vingar-se. Consigo, a custo, controlar a situação e fazê-los sentar nas cadeiras.

Nas reuniões de avaliação, fui informada que o meu pior aluno foi institucionalizado. Sinto-me muito envergonhada do sentimento de alívio que me invade...

- Têm tido notícias do vosso colega? - Pergunto, quando o barulho acalma um pouco.

- Ele diz que aquilo é um galinheiro.

- O quê?

- Não ligue, professora. Acho que ele anda bem.

- E vocês, que fizeram nas férias? Aprenderam alguma coisa nova nos estágios nas empresas?

- Aprender? A mim só me mandavam limpar o pó!

- Eu aprendi. E até já tenho emprego para as férias, que o dono da oficina disse que eu podia ir ajudar.

- Fantástico!

- Eu também. A costureira disse-me que eu podia ir nas férias grandes trabalhar com ela.

- Isso é que é sorte! Agarra a tua oportunidade, D., que podes não voltar a ter outra!

- Eu também aprendi.

- Aprendeste? - Olho com expetativa para o meu aluno. Do "novo" grupo (sem o aluno que foi institucionalizado), é talvez o que mais dores de cabeça me causa...

- Aprendi a controlar-me.

A maior parte destes alunos está habituada a reagir a provocações da pior maneira. Julgo que é esse o modelo que têm em casa, e é essa a estratégia de sobrevivência que desenvolveram ao longo da sua triste vida. Quebrar o ciclo e aprender o auto-controlo não é tarefa fácil, nem se consegue de um dia para o outro. Percebo que L. está a falar com sinceridade, e dou-lhe os meus parabéns.

- Sabes, L., seres capaz de te controlar é a melhor lição que podes aprender. Quando nos deixamos levar pelos nossos impulsos imediatos, tornamo-nos escravos e perdemos a liberdade. Podes ver isso, por exemplo, no teu colega que deixou a turma. Incapaz de se controlar, precisou que outros o controlassem.

L. está a ouvir, mas faz de conta que a conversa não lhe interessa.

- Sermos capazes de nos controlarmos faz de nós livres. Tu é que escolhes se te deixas provocar ou não. A resposta é tua, não do colega que te provocou. A decisão está nas tuas mãos. No dia em que conseguirmos controlar os nossos impulsos, seremos senhores de nós mesmos. Nesse dia, podes levantar a cabeça, porque venceste a batalha!

 

Não lhe digo mais nada, mas enquanto observo os seus esforços evidentes para se comportar (serão duradouros?) lembro-me de S. Paulo. Numa longa explicação na Carta aos Romanos, ele falou precisamente deste assunto, que eu vi exemplificado na minha sala de aula:

 

"Deparo-me, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável eu sou!" (Rm 7, 21-24)

 

S. Paulo está aqui a falar dos meus alunos, que estão prisioneiros do mal que os rodeia; mas S. Paulo está também a falar de mim, que sei muito bem qual é a Lei de Deus, que cresci com acesso livre a ela, e que mesmo assim, me deixo imprisionar pelo pecado... Quantas vezes, na relação com os outros, me deixo levar pelos meus instintos de cansaço, irritação, impaciência? Os meus alunos têm mais desculpa do que eu.

Já depois da aula terminar, e de eu ter lutado arduamente contra os meus instintos mais primários, que me incitavam a gritar, a ridicularizar, a responder no mesmo tom; já depois de todos os meus alunos sairem da sala, percebo que só há uma forma de vencer este combate. E essa forma está contida naquelas duas palavrinhas: "Nós, Jesus." De facto, é também essa a conclusão de S. Paulo:

 

"Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso! (...) Se com Cristo sofremos, também com Ele seremos glorificados." (Rm 7, 25.8, 17)

 

Jesus, ajuda-me a morrer contigo para o pecado, para contigo ressuscitar para a felicidade. Sei que não o conseguirei sem luta, sem sofrimento, sem cruz; mas também sei que é esse o único caminho que leva à ressurreição, pois ninguém ressuscita sem antes morrer - e morrer para si mesmo! Nós, Jesus... Ámen!

 

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publicado às 06:24

A responsabilidade de expressão e um novo blogue

por Teresa Power, em 19.01.15

No início de dezembro, se não me falha a memória, a Sónia descobriu este blogue. Lembro-me muito bem do dia em que isso aconteceu. Como? - Perguntam vocês, e com razão! Na verdade, eu não tenho qualquer forma de saber quem lê ou deixa de ler o blogue, nem de onde é, nem qualquer outro detalhe. Mas soube que a Sónia descobriu o blogue numa tarde de dezembro, porque nessa tarde ela fez vários comentários a diferentes posts, e enviou-me vários mails a propósito de diferentes tópicos que desenvolvo no blogue. Ao longo de toda a tarde, a Sónia foi lendo - a mim pareceu-me que leu o blogue de ponta a ponta - , foi pensando, foi questionando, e foi partilhando comigo o que lia. À noite, sentada à mesa para jantar com a minha família, contei-lhes:

 - Temos uma nova leitora do blogue e chama-se Sónia.

Eles ficaram curiosos:

- De onde é? Tem filhos? É simpática?

E eu fiquei feliz por poder responder a todas estas questões, pois tinha bastado uma tarde para ficar bem informada! Continuo a não saber como é o seu rosto, mas já vi uma fotografia da sua imagem de Nossa Senhora com o Menino, que entretanto a Sónia comprou para o Natal e para o seu novo Canto de Oração:

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A Sónia decidiu ser Família de Caná. Quando tiver possibilidade, fará connosco um retiro. Mas não ficou à espera da oportunidade para começar a viver as Cinco Pedrinhas do nosso compromisso com o Senhor e a Mãe de Caná! O Senhor chamou-a através desta nossa partilha de vida, e a Sónia respondeu "sim". O seu receio de não ser capaz de viver o compromisso na perfeição dissipou-se naturalmente, ao perceber que a santidade se conquista passo a passo, caindo e levantando-nos de novo, avançando e recuando; porque o importante é manter o olhar fixo no Céu.

Esta semana, descobri que a Sónia tinha um blogue desde 2014, onde partilha a sua caminhada. A partir da sua decisão de se tornar Família de Caná, o seu blogue passou a estar mais cheio de partilha de fé também. Li-o com imenso prazer! A Sónia tem uma escrita simples e profunda, conhece as Escrituras e conhece o seu Autor. Fica a sugestão para uma visita: Momentos e Apontamentos.

 

No avião a caminho das Filipinas, e a propósito do ataque terrorista a Charlie Hebdo, o nosso querido Papa Francisco falou precisamente nos limites da liberdade de expressão, que só é liberdade se for também responsabilidade. A liberdade de expressão, exercida com espírito cristão, tem destas coisas fantásticas: se quisermos, podemos encher a Internet de conteúdo cristão, alargando ao mundo inteiro a partilha do Evangelho vivido em cada dia. Afinal, é esta a responsabilidade a que o apóstolo nos chama, ao exclamar:

 

"Ai de mim se não evangelizar!" (1Cor 9, 16)

 

Possamos nós, cristãos, inundar a internet de blogues católicos! Possamos nós afirmar com palavras, com a vida e com todo o nosso ser: "Eu sou cristão". Ámen!

 

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publicado às 06:18

Eu não sou Charlie

por Teresa Power, em 13.01.15

No domingo, a nossa casa voltou a encher-se: a família Almeida, com os seus três filhotes, veio visitar-nos e passar o dia connosco; ao mesmo tempo,  e por feliz coincidência, uma grande amiga precisou de nos confiar três dos seus nove filhos durante o dia. Assim, a nossa mesa à hora de almoço serviu para duas levas de almoços - uma com nove crianças, a outra - mais tarde - com os adultos e o Francisco e a Clarinha, que ficaram bastante aliviados por fazerem parte do grupo dos "grandes":

 

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O dia, naturalmente, passou-se entre correrias, brincadeiras, gritos de alegria, pequenos amuos, e muita animação, em casa, no jardim e sobretudo em Náturia. Antes da despedida, houve tempo para uma oração de louvor cantada e dançada, e um terço muito animado:

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No final, depois de todos irem embora, sentámo-nos à mesa para um jantar rápido, que o sono já era muito. Foi então que o Niall teve esta conversa caricata com a Lúcia:

- Lúcia, queria dizer-te uma coisa.

- Sim?

- Sim. Da próxima vez que estiveres com os teus amigos a brincar, há uma brincadeira que não podes fazer.

- Ai há?

- Há. Não podes estar sentada no muro a fazer caretas para os carros que passam na rua.

- ...

- Lúcia, nunca mais repetes isso, pois não?

- Não...

- Ainda bem.

 

Gerou-se quase um minuto de silêncio, pontuado por uma troca de olhares e sorrisos dissimulados, enquanto todos procurávamos imaginar a cena a que só o Niall assistira. Depois, a conversa retomou a alegria habitual.

 

À noite, vi nas notícias os milhões que desfilaram pelas ruas de Paris. Alegadamente, protestavam contra o terrorismo e a favor da liberdade de expressão. Contudo, os cartazes que carregavam deixaram-me um travo muito amargo na garganta: "Je suis Charlie". Que significa este slogan afinal? Que nos revemos no mau gosto das caricaturas, no insulto brejeiro e na sátira racista do jornal vitimado? Responder-me-ão, claro, que não importa se concordamos ou não com o jornal em causa, porque o importante é a liberdade de expressão. Liberdade de expressão? Será liberdade de expressão insultar o outro? Será que ser ocidental significa poder sentar-me sobre o muro do meu jardim e fazer caretas para quem passa na rua?

A Bíblia é bastante mais antiga que a nossa carta de direitos humanos, de que tanto nos orgulhamos. Na Bíblia, estão magistralmente compilados dez mandamentos, que visam precisamente a boa harmonia entre os homens e entre os homens e Deus. O oitavo diz assim:

 

"Não levantarás falso testemunho contra o próximo." (Deut 5, 20)

 

Desculpem-me o desabafo, mas depois de ver o triste slogan "Eu sou Charlie" percorrendo toda a comunicação social, incluindo a imprensa cristã, não pude ficar calada. Que hipocrisia! Dizem os jornalistas por esse mundo fora, e neste nosso Portugal, estarem dispostos a morrer pela liberdade de expressão. Não me lembro de ver nenhuma manifestação de milhões de pessoas nos últimos tempos, defendendo a liberdade de expressão dos cristãos nos países onde o terror é a palavra de ordem de cada manhã, e onde se é assassinado sem nunca se ter sequer aberto a boca para ofender seja quem for. O século XX teve mais mártires cristãos do que os outros dezanove séculos juntos, e o século XXI não parece ser muito diferente. Milhões a sair em sua defesa?... Asia Bibi está há cinco anos presa por ter bebido água de um poço que pertencia a muçulmanos. Mãe de cinco filhos, aguarda o enforcamento. Nem ela, nem a família aceitam renegar a fé cristã, que lhe traria a liberdade imediata. Quantas manifestações têm ocupado a nossa imprensa tão livre, as nossas praças tão orgulhosamente liberais, as nossas televisões tão isentas? Quando eu vir algum destes manifestantes parisienses a segurar um estandarte que diga "Eu sou cristão" - não por se identificar com os cristãos, mas por se identificar com a causa da liberdade de expressão dos cristãos perseguidos, claro... - então eu acreditarei na sua sinceridade.

 

E já agora, caros leitores, a liberdade de expressão não é o valor supremo pelo qual nos devemos bater. O valor supremo é o amor. Tudo o resto é relativo, porque tudo o resto está subordinado a este valor absoluto - até a liberdade de expressão... Já Santo Agostinho dizia: "Ama e faz o que quiseres." E o Evangelho não nos dá nenhum outro critério para o julgamento final que não o amor. Leiam Mateus 25...

 

 

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publicado às 06:20

Escravos ou livres?

por Teresa Power, em 24.10.14

Cada um dos meus alunos das turmas de Curso Vocacional tem uma história de fracasso, frequentemente negligência, e às vezes maus tratos para contar. Hoje quero contar-vos um episódio que se passou com o D., um menino de dezasseis anos muito sofridos e muito tristes.

Conheço o D. há três anos. De ano para ano, o D. vai ficando cada vez mais duro e mais insolente. Quando o olho nos olhos, experimento quase sempre um calafrio e tenho vontade de desviar o olhar. Mas não o faço.

Na turma em que está integrado, há um menino, chamemos-lhe T., que, por ter um atraso de desenvolvimento, se está a tornar vítima de gozo. O D., que não tem dificuldades de aprendizagem, não perde uma oportunidade para o humilhar diante de todos.

Num destes dias, lembrei-me de desafiar o D.: poderia ele sentar-se ao lado do T., para lhe explicar os exercícios, enquanto eu continuava a circular pela sala, ajudando os outros? O D. não me olhou com a dureza do costume, nem deu uma gargalhada. Por qualquer motivo que desconheço, o D. levantou-se, sentou-se ao lado do T., e para meu grande espanto, passou o resto da aula a explicar-lhe pormonorizadamente a matéria, cheio de paciência. Eu, claro, mantinha um ouvido bem atento!

 

Lembram-se da estrela escondida na maçã? A minha fé na bondade infinita de Deus diz-me que a todos os seres humanos é oferecida, nalgum momento da sua vida, a oportunidade de escolher o bem em vez do mal, a vida em vez da morte. Ninguém é de tal modo vítima das suas circunstâncias que não tenha a possibilidade de quebrar o ciclo que o mantém escravo de uma história. Assim disse Moisés:

 

"Ponho hoje diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida." (Deut 30, 19-20)

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Conhecem a escrava Bakhita? Ah, leiam a sua história, e ficarão maravilhados! Bakhita foi raptada e tornada escrava com cerca de oito anos de idade, tendo sofrido as mais horríveis torturas na sua vida. Mas Deus nunca a abandonou, como nunca abandona ninguém. E um dia, Bakhita descobriu o seu amor... Bakhita é santa, padroeira de África. Nas suas Memórias, Bakhita recorda a primeira vez que ouviu falar de Deus:

 

"Então, aquelas santas madres, com heróica paciência, instruíram-me e fizeram-me conhecer aquele Deus que, desde criança, sentia no coração sem saber quem fosse. Recordava que, na minha aldeia, em África, vendo o Sol, a Lua e as estrelas, as belezas da natureza, eu dizia para comigo: «Mas quem é o patrão destas coisas tão belas?» E experimentava uma vontade muito grande de o ver, de o conhecer e de lhe prestar homenagem. E agora conheço-O. Obrigada, obrigada, meu Deus!»"

 

Até ao fim da sua vida, Bakhita tratará sempre o Senhor por "Patrão". E repetirá muitas e muitas vezes, com um sorriso luminoso: "Que bom que é o Patrão!" Mas o que mais impressiona em Bakhita é este pensamento constante:

 

"Se encontrasse agora os negreiros que me raptaram e os que me torturaram, ajoelhar-me-ia e beijar-lhes-ia as mãos porque, se isso não tivesse acontecido, não seria agora cristã e religiosa."

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Bakhita escolheu perdoar em vez de odiar; o D. escolheu ajudar em vez de troçar. E eu? A cada momento, tenho diante de mim a vida e a morte, a felicidade e a facilidade, a bênção e a maldição...

Não nos refugiemos em pensamentos do tipo "Fui assim educado", "Não adianta tentar mudar as coisas",  "Já o meu pai era assim"... A cada momento temos a oportunidade de quebrar o ciclo que nos mantém escravos dos nossos defeitos, do nosso passado, do nosso pecado, da nossa história. Como Bakhita, abençoemos o caminho que me trouxe até Deus, mesmo que ele esteja clavejado de espinhos...

 

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publicado às 06:56

O telemóvel e a liberdade dos filhos de Deus

por Teresa Power, em 08.07.14

Cá em casa, só o pai e a mãe possuem telemóvel. O Francisco é o único adolescente de quinze anos que eu conheço que não tem telemóvel, mas também não deseja ter. Para quê? Os amigos conhecem o meu número de telemóvel e de casa, e telefonam quando querem:

- Boa tarde, posso falar com o Power? - Pergunta geralmente uma voz forte masculina (por enquanto...) do outro lado.

- Ó rapaz, Powers há muitos por aqui. Tens de ser mais específico! - Respondo na brincadeira, porque sei bem quem é o "Power" desejado.

 

Ontem, como de costume, o Francisco foi de bicicleta até à quinta onde monta a cavalo, e por lá ficou toda a tarde. Geralmente, costuma regressar entre as seis e as sete, mas ontem eram oito horas e ele ainda não tinha voltado. Confesso que eu já estava com o estômago às voltas, e na minha mente passavam algumas imagens pouco agradáveis, desde acidentes com cavalos, a acidentes com a bicicleta no caminho de regresso. Por fim, não aguentando mais a ansiedade, pedi ao Niall que fosse ver o que se passava. Ele foi de carro e voltou pouco depois, com um sorriso divertido na cara.

- O Frankie está a saltar obstáculos neste momento - Disse-me - Vi-o ao longe, e graças a Deus, ele não me viu. O que iria ele dizer? Portanto, fica descansada que ele há-de regressar.

E regressou!

 

Quando eu tinha a idade do Francisco, e tal como o Francisco, saía de casa para as minhas inúmeras actividades e regressava quando elas terminavam. Antes de sair, escutava os conselhos dos meus pais, e durante as minhas actividades, lembrava-me muitas vezes das suas palavras. No entanto, eu sabia que eles não estavam ali para me salvarem de qualquer situação, sabia que não era possível telefonar se me visse em apuros e sabia também que eles dificilmente iriam saber o que eu estava realmente a fazer com o meu tempo, fossem algumas horas ou alguns dias, como no caso dos campos de férias. Excepção, claro está, para acidentes.

Por outras palavras: eu era livre e, consequentemente, responsável. Livre e responsável para ser santa, e livre e responsável para pecar. A escolha, boa ou má, era minha. Se errasse, talvez a minha única testemunha diante de Deus fosse o meu anjo da guarda! Eu podia então abeirar-me do confessionário, com confiança, pedir perdão a Deus e recomeçar a minha vida com a certeza de que o meu passado estava apagado.

Olhemos agora para os adolescentes de hoje, que geralmente classificamos de livres, independentes e radicais. Que liberdade têm eles realmente? Haverá algum momento do seu dia em que estejam "incontactáveis", verdadeiramente por sua conta e risco? Haverá algum momento em que não se sintam controlados? Onde está a liberdade cristã, se os controlamos à distância através do telemóvel? E a responsabilidade, que só nasce no solo da liberdade? Se errarem, será que podem mesmo recomeçar do zero? E as dezenas de fotos no Facebook e nos telemóveis a guardar (save) para sempre o seu pecado? Que fizémos nós da misericórdia do Bom Pastor?

 

"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido, mas eu não me farei escravo de nada." (1Cor 6, 12)

 

Assim explicou S. Paulo, falando da liberdade e da responsabilidade. Outro dia, fiquei agradavelmente surpreendida quando o Francisco me disse:

- Sabes, mãe, às vezes escuto os meus colegas, e dou-me conta de que tu me dás mais liberdade do que eles têm.

Admirei-me, porque objectivamente falando, não me parece verdade! O Francisco não tem Facebook, não tem telemóvel, nunca foi a uma discoteca, e tem uma série de obrigações a cumprir, das tarefas domésticas ao estudo, da missa à oração familiar. O que é que faz com que ele não as sinta como obrigações, mas antes as viva como responsabilidades naturais?

Mas também é verdade que desde os doze anos o Francisco - para grande espanto dos seus amigos e dos pais dos seus amigos - vai para todo o lado de bicicleta, sozinho, e passa tardes inteiras em casa de amigos ou em cima dos cavalos, sem telemóvel...

 

 

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publicado às 07:13

Livres

por Teresa Power, em 11.04.14

O Francisco tem um único jogo de computador que gosta de jogar. É um jogo que mistura a brincadeira e a engenharia, permitindo-lhe construir mundos imaginários ao pormenor. Ele sabe que pode jogar ao fim-de-semana durante cerca de uma hora. O resto do tempo, o Francisco passa-o ao ar livre, ou a ler, ou a tocar guitarra. Também se senta ao computador, mas a aprender, pois poucas coisas lhe dão mais prazer do que aprender novos truques de ilusionismo, observando os grandes mágicos no YouTube, ou descobrir sobre engenharia, ciência, física e o universo.

 

Há cerca de um ano, um grande amigo convenceu o Francisco a instalar um novo jogo no computador, e durante algumas semanas, o Francisco entregou-se a este novo jogo com entusiasmo. Notei que jogava mais tempo do que o estipulado - naturalmente não o controlo com rigidez, dada a sua idade - e que não tinha tanta disponibilidade para visionar os vídeos sobre ciência que o fascinam. O tempo passou, o Francisco regressou aos seus interesses e tudo voltou à normalidade. Um dia comentei, enquanto ele lanchava:

- Não tens jogado o jogo novo!

- Já o desinstalei há algum tempo - Respondeu-me entre dois goles de leite.

- Porquê? Não gostavas?

- Gostava, mas descobri que era um jogo viciante. E como tu sabes, detesto vícios! Prefiro assim. Sou mais livre sem o jogo! E tenho mais tempo para inventar, construir e descobrir coisas!

 

Um ano mais tarde, o Francisco continua "livre", segundo as suas palavras. Rezo para que assim se mantenha. Ontem espreitei a sua secretária: agora que são férias, os livros estão todos arrumados na gaveta, e sobre a secretária encontrei isto:

 

 

Escreveu S. Paulo aos cristãos da Galácia:

 

"Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão." (Gl 5, 1)

 

Um dos grandes objectivos do jejum e de outras formas de mortificação quaresmal é abrir-nos as cadeias que nos impedem de ser livres. Quem é capaz de fazer jejum do alimento, da televisão, dos jogos de computador, das compras desnecessárias, das conversas fúteis, é capaz de tudo!

Enquanto vivermos ao sabor dos nossos apetites, seremos sempre escravos. Só os seres humanos, de entre todas as criaturas terrestres, são capazes de se elevar acima dos seus instintos através da vontade, da inteligência, e do amor. É preciso um esforço superior de renúncia - como o Francisco fez ao desinstalar aquele jogo - para nos tornarmos senhores de nós mesmos, verdadeiramente humanos - e verdadeiramente divinos! É que nesta mesma carta de S. Paulo está também escrito:

 

"Agora já não és escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus!" (Gl 4, 7)

 

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publicado às 09:04



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