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Magusto, adoração e uma bebé recém-nascida

por Teresa Power, em 09.11.15

Sábado foi um dia de sol radiante. Tudo brilhava: as gotas de orvalho na relva, a roupa finalmente estendida, o chão lavado de fresco. Depois de uma longa semana de mau tempo, os meninos deliciaram-se no jardim e em Náturia, gritando de entusiasmo.

Também a nossa paróquia estava em festa, celebrando S. Martinho: sábado foi dia de magusto. Assim, depois da catequese, reunimo-nos todos no pátio do colégio salesiano para fazer a festa tradicional. Ora vejam a alegria!

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 No entanto, nos nossos corações nem tudo exultava: as Famílias de Caná presentes no magusto não se esqueciam da pequena Lúcia, a bebé recém-nascida da Olívia, que está a fazer uma entrada no mundo tão dolorosa. Depois de um parto muito difícil, a Lúcia sofreu uma paragem cardio-respiratória e teve de ser levada para uma incubadora e para muitas avaliações. Como podíamos nós alegrarmo-nos enquanto a nossa amiga sofria? Fomos conversando entre nós, partilhando as notícias que tínhamos, e depois, um a um, fomos conversar com Quem tudo pode e tudo conhece:

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Tratava-se do primeiro sábado do mês, o que significa, na nossa paróquia, adoração ao Santíssimo durante todo o dia. Vinha mesmo a propósito! Era mesmo com Jesus que eu queria falar. Queria dizer-Lhe o quanto me custa saber que há bebés a sofrer, saber que os nossos amigos sofrem, saber que a pequena Lúcia não pode ir já para sua casa e aproveitar o colinho bom dos seus papás e maninhas. Queria dizer-Lhe que não concordo nada com este sofrimento, porque a Olívia não merece.

"Achas que Eu mereci?"

Jesus olhava-me do ostensório, carinhoso e firme.

"Achas que Eu mereci?"

Jesus-Eucaristia estava diante de mim, exposto como na Cruz, Pão que primeiro foi grão e que o sofrimento amassou. Eu gosto de fazer adoração eucarística em lugares que tenham um crucifixo por perto, pois ajuda-me a concentrar no mistério que tenho diante dos olhos: Jesus só se pode dar a mim na Eucaristia, como alimento e remédio, como vida e amor, porque morreu na Cruz. O Corpo de Jesus, oferecido na Eucaristia, é o mesmo Corpo suspenso da Cruz... Que fez Jesus para merecer a Cruz? Amou, perdoou, curou, salvou de dia e de noite, sem descanso? Imaginei os anjos de Deus na hora da crucifixão, estarrecidos, em choque perante a loucura do amor divino. Porquê, Senhor? Por que Te deixaste matar? Por que permites que haja dor? Depois lembrei-me de S. Paulo:

 

"Cristo, que era de condição divina,

não Se valeu da sua igualdade com Deus,

mas aniquilou-Se a Si mesmo.

Assumindo a condição de servo,

obedeceu até à morte,

e morte de Cruz!"

 

Mas S. Paulo continua:

 

"Por isso Deus O exaltou

e Lhe deu o nome que está acima de todos os nomes,

para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem

no Céu, na Terra e nos infernos,

e toda a lingua proclame que Jesus é o Senhor,

para glória de Deus Pai.

Amen!" (Fl 2, 6-11)

 

Há uma ligação intensa, misteriosa e profunda entre o sofrimento e a alegria, a dor e a glória, como duas faces da mesma moeda. O sofrimento da pequenina Lúcia é certamente muito mais fecundo do que a menor das minhas orações, e a dor da Olívia e do Álvaro é capaz de converter mais corações do que qualquer das minhas palavras. A Cruz tem um poder que nada mais consegue ter sobre a Terra. Mas estas coisas não podem ser explicadas, apenas vividas. 

Saí da oração para brincar um pouco com os meus filhos. Eles estavam felizes, sujos e transpirados, chutando bolas e enfarruscando a cara. O telemóvel vibrou, e eu li um SMS da Olívia: "A Lúcia está a ficar mais forte a cada hora! Obrigada a todos quantos se preocupam e não desistem de rezar. Nós seremos sempre gratos." Ao telefone, horas mais tarde, a Olívia explicou-me que a Lúcia terá ainda um longo caminho a fazer no hospital, para avaliar o seu comportamento neurológico, mas que já deixou a incubadora, embora continue nos cuidados intensivos neo-natais. Há fortes esperanças de que a bebé não fique com sequelas neurológicas. No mail, esperavam-me  duas lindas fotografias:

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A alegria do magusto e a dor da família Batista... Crianças a brincar e crianças nos hospitais a sofrer... Jesus Ressuscitado e Jesus Crucificado... Dizia Santa Teresinha, pouco antes de morrer: "Não sei como será quando eu chegar ao céu. Deus terá de modificar o meu temperamento, pois eu não consigo imaginar uma felicidade que não tenha uma mistura de dor." Enquanto vivermos neste mundo, nunca encontraremos alegria perfeita. Mas de uma forma misteriosa, esta mistura de dor e alegria é a fonte da nossa felicidade...

 

 

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publicado às 06:00



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